Vila de Rodoria
Atenas – Grécia
11:27 AM
A festa já estava a todo vapor quando Saori Kido apareceu ao lado de Saga no púlpito central. As conversas animadas diminuíram conforme os olhos se voltaram para a jovem reencarnação da deusa Atena. O vestido de seda lilás brilhava sob o sol da tarde, realçando sua presença delicada e imponente ao mesmo tempo. Saga, ao seu lado, usava o manto de Grande Mestre e mantinha a postura impecável. Mas, por um instante, quando Saori virou o rosto para ele e capturou seu olhar sem querer, sua expressão vacilou.
Foi coisa de um segundo, mas Shaka viu. Ele sempre via. Não era julgamento, mas preocupação. Ele sabia o que estava acontecendo ali. Sabia o que Saga tentava esconder e o que Saori, por ser tão jovem, não conseguia disfarçar. As emoções da menina eram um livro aberto. E, na opinião de Shaka, sentimentos assim eram perigosos. Para todo mundo.
"É uma visão e tanto, hein?" Mulder murmurou ao lado de Scully.
"Sem dúvida." Ela respondeu, observando como os Cavaleiros se comportavam diante da cena. "Mulder, percebe como isso tudo parece um Arquivo X ao vivo? Um lugar que não deveria existir e, ainda assim, aqui estamos nós."
Mulder soltou um riso baixo.
"Sim. E não tem relatório no mundo que explique isso. Isso não é um culto, nem uma sociedade secreta... É como ver um mito ganhar vida."
Scully assentiu devagar. Tudo ali desafiava qualquer noção de lógica. Quanto mais tempo passavam no Santuário, mais claro ficava que estavam imersos em algo que não se encaixava nas regras do mundo que conheciam.
Enquanto a festa seguia, Scully se viu rodeada pelos Cavaleiros, conversando sobre ciência, política e até mesmo sobre como ela pronunciava algumas palavras em grego. Máscara e Shura começaram a contar histórias sobre festivais passados, arrancando risadas até mesmo dela, que raramente se permitia esse tipo de descontração. Estavam sentados em uma área mais fresca, longe das fogueiras e da agitação maior da festa.
Mulder participava quando dava, mas estava inquieto. O jeito que Scully parecia se encaixar ali de um jeito tão natural o incomodava de um jeito que ele não sabia definir. Ele conhecia a agente séria, focada, meticulosa. Mas ali... ali ela estava relaxada, à vontade, rindo de piadas internas com pessoas que ele mal conhecia. E ele não gostava dessa sensação. Não conseguia desviar os olhos dela.
Estava, principalmente, linda.
xXx
A noite avançava e a festa parecia longe de acabar. Cansados, os agentes decidiram tentar o caminho de volta por conta própria. Seguiram por uma trilha de pedras largas que saía da vila e levava às escadarias dos templos. Caminharam em silêncio por um tempo, até que Mulder resolveu falar:
"Mesmo sendo a deusa desse lugar, ela cora como qualquer adolescente." Sua voz era calma, quase pensativa. "E parece que gosta de alguém."
Scully olhou para ele de lado.
"Como assim?"
"Me parece óbvio." Ele deu de ombros. "E acho até que sei quem é."
Scully soltou um riso leve.
"Você discutindo relacionamentos... que diferente."
"Eu presto mais atenção do que você imagina." Ele rebateu. "Você também está diferente. Mais aberta às possibilidades... parece até que estamos invertendo os papéis, não acha?" Saiu mais ácido do que ele queria.
Ela franziu o cenho.
"O quê?"
"Você aceita tudo que eles dizem sem questionar. Mas comigo é sempre uma guerra."
Scully estreitou os olhos. Tentou se manter paciente, mas já estava cansada.
"Mulder, sério isso? De novo?"
"É sério sim. Você sempre foi cética, Scully. Sempre duvidou, sempre precisou de provas. Mas aqui? Aqui você simplesmente aceita." A frustração dele estava escancarada.
"E eu já te expliquei! O que a gente está vendo aqui são provas diretas, são fatos, Mulder! Não dá pra refutar o que está bem na minha cara!" Ela rebateu, a voz um pouco mais alta.
"Scully, mas o ponto não é esse!" Mulder tinha já os pensamentos confusos, os caminhos daquela discussão estavam o levando a falar mais do que queria. "É a forma com que essas informações estão chegando, é uma facilidade para aceitar como verdade tantas coisas que antes nem mesmo eu pensaria em aceitar, não vê?"
"Meu Deus, mas não era isso que você queria o tempo todo? Não estou eu aqui, praticamente admitindo que tinha sim uma nave e que sim, existem substâncias extraterrestres no meu sangue nesse exato momento?" Scully levantava a voz sem perceber, indignada com a dualidade do parceiro. O que ele queria dela então?
"Mas por que só agora, Scully? Por que-" — Por que com eles e não comigo? — Era a pergunta mais imatura do mundo que quase saiu.
A irritação era evidente no rosto da agente, era uma discussão tão idiota. "Mulder, que tipo de pergunta é essa? Não é óbvio? Não é questão de ser 'só agora', meu Deus, olhe ao redor! Anteontem fomos trazidos para cá como um passe de mágica!"
Mulder respirou fundo. Não era sobre provas. Ele sabia disso. Mas então por que aquilo o incomodava tanto? Os olhos muito azuis da parceira faiscavam de indignação e eram bonitos demais, tiravam toda a sua capacidade de reação. Ao mesmo tempo que queria jogar na cara da parceira o quão injustiçado se sentia por nunca ter ganhado dela a confiança que ela tão rapidamente depositava nos jovens cavaleiros, queria só... não, isso estragaria tudo.
Scully percebeu a mudança no olhar dele. Era um olhar que ela conhecia, mas ao mesmo tempo, nunca tinha visto daquele jeito. Era intenso. Incomodamente intenso.
"Mulder..." Ela começou, hesitante. Algo dentro dela sabia exatamente o que estava acontecendo ali. E não queria saber.
"Scully... eu só queria..." Ele não conseguiu terminar. Dizer qualquer coisa seria abrir uma porta que ele não sabia se conseguiria fechar depois.
Ela sentiu o peso do silêncio entre eles. Quando ele deu um passo à frente, ela não se moveu. Ele levantou a mão devagar e tocou o braço dela, um toque leve, mas que fez o ar entre os dois mudar completamente. Por um momento, parecia que o mundo ao redor tinha desaparecido.
"O caminho não é curto, sabem disso." A voz veio de repente, e os dois se afastaram imediatamente, como se tivessem levado um choque.
Mu e Shura estavam parados ali, parecendo mais relaxados do que o normal. O vinho da festa parecia ter deixado os dois um pouco mais soltos.
"Achamos que vocês tentariam essa caminhada." Shura cruzou os braços. "Mas não queremos ter que buscar vocês desmaiados no meio da escadaria."
Mu apenas observou os dois e sorriu de canto, antes de leva-los para o chalé.
xXx
Na entrada de Áries, Shura esticou os braços e lançou um olhar divertido para Mu.
"Você viu?"
Mu cruzou os braços e sorriu de leve.
"Vi. E acho que chegamos na pior hora possível."
"Pois é... " Shura riu. "Será que essa noite acaba antes deles perceberem o óbvio?"
Mu suspirou, passando a mão pelo rosto.
"Se depender deles, acaba. Perder tempo parece ser um talento."
Shura deu um tapinha no ombro dele.
"Pena. Bom, vou voltar pra festa. Ainda tem muito vinho me esperando.Buenas noches, amigo!"
Mu balançou a cabeça e seguiu para seu templo. Pensou por um momento sobre como algumas pessoas pareciam se complicar demais num assunto que deveria ser tão natural. Talvez fosse um padrão. Talvez fosse só teimosia. Ele não sabia.
Mas, no fim das contas, o que poderia dizer? Talvez ele próprio estivesse perdendo tempo também.
TO BE CONTINUED...
Mais um capitulo restaurado das profundezas =)
