J~L
Era uma manhã difícil para se pensar em trabalho.
Com novembro avançando, o frio ficava cada vez pior, assim como a chuva que não dava sossego, deixando o uniforme de Auror cada vez mais carregado e completo para aguentar tudo aquilo caso tivesse que ir à campo para investigações.
James preparava-se para um dia de muita garoa, sabendo que teria uma reunião da Ordem no fim da tarde e que a casa dos Black estava longe de oferecer algum conforto, quando viu uma luz azul vindo da sala. Pegou a varinha e preparava-se para o que fosse quando o patrono de uma corça adentrou o quarto.
— Podemos nos encontrar? — A voz de Lily preencheu o cômodo.
Ficou encarando o vazio que o patrono deixou ao desaparecer após entregar a mensagem. A última vez que encontrou Lily foi no aniversário de Sirius na Sala Precisa, onde tocaram as mãos sem querer e encontraram o tal espelho de Ojesed.
Após isso, a vida virou de cabeça para baixo.
Uma invasão, uma explosão e metade dos prisioneiros de Azkaban tinham fugido. Peter Pettigrew, os Lestrange e muitos outros Comensais perigosos inclusos. O mundo bruxo virou um caos completo, o QG dos Aurores em polvorosa, o medo instalando-se, o Ministro da Magia raivoso, os dementadores completamente descontrolados.
A vida tinha, literalmente, enlouquecido...levando James consigo. Com tanto trabalho, os dias passavam, cartas com Harry eram trocadas, e mal teve tempo de falar com alguém pessoalmente. Sirius também estava muito ocupado, sem folga; e Remus com as aulas, tentando trazer normalidade para os alunos que estavam, de certa forma, longe daquela bagunça. Se pudesse contar o fato de que se encontrou com um cachorro e um lobisomem como uma saída entre "amigos", então até poderia considerar dizer que teve uma naquele mês.
Então a mensagem sobre a reunião da Ordem chegou no dia anterior, dando um revirar no estômago. Deveriam ter tido aquela reunião antes, mas metade deles não estaria disponível, já que estavam trabalhando em cima da grande fuga.
Mas só por não tê-la visto, não significava que James não teve oportunidade de pensar em Lily, pois teve. Ela viajava em seus pensamentos quase o tempo todo e não só pela sua segurança e tudo o que envolvia Voldemort.
Seu coração disparava a cada vez que seu rosto vinha em sua mente. Seu sorriso, seus olhos, seus cabelos... tudo. Lembrava do jornal estudantil que ela tinha surrupiado no aniversário de Sirius, de como aqueles dois adolescentes eram felizes, apaixonados e prontos para desbravarem o mundo com o amor que tinham.
Não muito depois daquela foto, Lily teria um anel de noivado em seu dedo. Eles saíram de Hogwarts com a certeza de que tudo estava sombrio e perigoso, mas que eles tinham um ao outro e isso bastaria para passarem por qualquer problema.
Fechou os olhos por um momento, invocando o seu patrono.
— Me diga quando e onde. Eu estarei lá.
Enviou a mensagem e voltou para os seus preparativos. Tinha uma reunião com Aurores em duas horas, tendo tempo para rever o que ele e outros do QG encontraram sobre a fuga.
A corça voltou sem muita demora.
— Clio já deve ter chegado com a localização. Estarei te esperando.
Ela queria vê-lo agora?!
Foi até a sala e encontrou a coruja adorável de Lily.
— Olá, Clio. Não se fez presente por pedido da sua dona ou estava esperando para me atacar de surpresa? — A coruja apenas o encarou com aquele ar blasé de sempre. — Talvez os dois, não é?
Pegou o pergaminho que estava depositado em frente de Clio. Ela ameaçou bicá-lo, mas recuou, como se mandasse uma mensagem "olha, se eu quisesse...".
Bufou.
Abriu o pergaminho e deparou-se com uma pergunta:
"Dia que andou de carro pela primeira vez comigo?"
Pegou uma pena, com a nostalgia ao lembrar-se da surpresa que a sua então namorada tinha feito, e respondeu:
"Meu aniversário de 1978"
A mensagem desapareceu, dando lugar a um mapa de Hogsmeade. Trouxe para mais perto, conferindo onde ela pedia para se encontrar.
— Uma caverna?! Por Morgana. Uma caverna, Lily? — Olhou para Clio, ainda chocado. — Ela está bem?
Clio soltou um pio que dava a entender que tudo estava bem. Talvez a tranquilidade da ave lhe desse essa sensação, já que sabia que a coruja podia ser muito protetora da dona.
Talvez fisicamente Lily estava bem, mas perguntava-se se mentalmente também. Caso ela não estivesse confortável em tê-lo em sua casa, poderia vir até aqui...ou a Casa dos Gritos.
Mas uma caverna?!
Uma sensação péssima começou a chegar. Não sobre a possível loucura de Lily, mas o quão ruim seria o que quer que fosse encontrado naquele local.
Teve até arrepio.
Pegou sua varinha e sua capa de viagem, aparatando em Hogsmeade em seguida. Olhou para o mapa em suas mãos e seguiu por uma pequena estrada ao fundo do vilarejo. Andou por quinze minutos com passos largos até ver a entrada da tal caverna. Estava ligeiramente escondida pela vegetação e, ousava dizer, alguma magia que a camuflava com as pedras ao redor.
Olhou para os lados, sem sinal de Lily. Estudou o lugar por um momento, ouvindo o que tinha ao redor, mas só tinha as gotas da chuva e algum animal aqui ou ali.
Não parecia uma armadilha, mas não baixou a guarda.
— Qual o seu chá preferido? — Ouviu um sussurro vindo da entrada da caverna.
— Laranja — respondeu.
— E...?
— De preferência, com uma rodela de laranja em cima. Qual o seu bolo preferido? — jogou de volta.
— Mesclado de baunilha e chocolate.
Assentiu e guardou a varinha.
Lily saiu da caverna passando por uma desilusão na entrada da mesma. Ela devia estar assistindo-o desde que chegou.
— Obrigada por vir.
Achou estranho não estarem entrando e fugindo da garoa, mas preferiu deixá-la guiar o que quer que estivesse acontecendo.
— Há algum problema? O que estamos fazendo aqui?
Quando ela se aproximou, James começou a notar o seu nervosismo. Estava tudo ali, escancarado em seu olhar, em sua boca tensa...
— James, eu te chamei aqui por confiar em você. Isso é importante para nós.
Aquele arrepio de que as coisas ficariam ruins em alguns segundos o atingiu novamente.
— Fico contente em saber que confia e conta comigo. — Deu dois passos para perto dela, lançando um olhar para a entrada da caverna. — Mas estou preocupado. O que há de errado?
— Venha.
Lily foi na frente e passou pela desilusão. James a seguiu e também passou pelo feitiço, pronto para deparar-se com o que fosse.
Menos aquilo.
A varinha caiu de sua manga diretamente para a palma da sua mão, levantando-a imediatamente.
— Maldição!
— James, não. Abaixe a varinha, por favor.
Olhou para ela por um segundo.
— Lily! — chamou sua atenção. — Por Morgana...!
Severus Snape estava parado como uma estátua descontente a alguns metros da entrada da caverna. Suas roupas estavam bem sujas, tinha alguns sinais de comida pelo chão...não parecia estar em posse de uma varinha.
— Por favor, nos escute antes de tudo — pediu ela.
— Desde quando sabe que ele está aqui? — perguntou, ainda sem abaixar a varinha.
— Severus me contatou há três dias apenas, quando chegou aqui após a longa jornada desde Azkaban.
Era claro que Snape não estava de acordo em contar a história para ele, mas Lily deve tê-lo alertado, até discutido, que não faria de outra maneira além de contando a verdade.
— Você está escondendo um fugitivo de Azkaban por três dias, quando o procuramos por semanas? Um Comensal, ainda por cima. Lily, por quê?!
Estava sem acreditar.
— Abaixe a varinha, James, e nos escute.
— Percebe que você virou cúmplice? — James parou de apontar a varinha para Snape, mas apenas para virar-se para Lily e levar as mãos a cabeça, em desespero. — É cúmplice de um fugitivo e chamou um Auror que está trabalhando na fuga de todos eles!
— Parece que temos dois cúmplices, então — resmungou Snape ainda do seu lugar.
James voltou-se para ele, indignado.
— Cala a boca. Você vai voltar para lá nos próximos minutos. — Riu sem humor, olhando de um para o outro. — O que te deu na cabeça de vir atrás dela? Você é um fugitivo e está comprometendo Lily, entrando em contato e a fazendo guardar segredo! Você é tão burro a esse ponto?
— Está tudo bem, James.
— Não está, Lily, não está. Esse pedaço de abóbora podre egoísta está botando você em risco para poder satisfazer as vontades dele. Estar em contato, esconder ou ajudar um fugitivo te faz virar a próxima moradora de onde ele fugiu.
— Basta você não levá-la presa. Ou será que há algo aí dentro que te faria ir contra ela? — Snape voltou a falar.
Teve que morder a língua para não soltar os insultos que estavam a ponto de pularem da sua boca, apenas por tudo ter ficado claro como água no segundo seguinte: Snape foi atrás dela, porque sabia que poderia tentar jogar de coitado para Lily e, precisando fugir ou de algum favor de um Auror, sabia que Lily o chamaria e que James não a prenderia ou a entregaria.
Ou seja: aquele bosta sabia que James não guardava rancor de Lily e não iria contra ela. Uma teia bem confabulada.
— Ela não irá, mas você vai encontrar uma cela pior do que tinha! — grunhiu.
— Ele quer nos dar informações sobre Voldemort.
James encarou Lily, o queixo quase querendo acertar o chão. Olhou para o infeliz mais ao fundo da caverna, depois para ela pela milésima vez em poucos segundos.
— E você acredita nele?
— Sim — respondeu ela, aproximando-se. — Quem sabe da volta dele? Nós, apenas.
— E quem trabalha com ele também! — respondeu, exasperado, apontando com as duas mãos para Severus Snape. — Então é óbvio que esse idiota sabe.
— Escute o que ele tem para dizer, por favor.
Tremia de raiva, mas deixou o casaco esconder suas mãos. Respirava descompassadamente, apenas com a ideia de descobrirem que estavam naquela caverna com um fugitivo de Azkaban e o quanto aquilo poderia virar um drama sem precedentes. Lily seria julgada por cumplicidade; Snape seria jogado de volta para onde nunca deveria ter saído; e James...bom, seria julgado como traidor, cúmplice e desonra por todos os juramentos que fez como Auror e que não estava cumprindo agora.
Passou as mãos nervosamente pelo rosto, depois os cabelos. Infelizmente, a merda toda já estava feita.
— Maldição de Morgana — amaldiçoou entre lábios, querendo arrancar os cabelos. — O que tem para dizer? Seja breve.
Lily encorajou Snape, que parecia tão feliz de estar na presença de James quanto o maroto na dele.
— Pelo o que eu soube, ele está mais perto do que possamos imaginar.
— Onde? — perguntou sem rodeios. Essa informação repetia-se, mas ninguém dizia onde infernos ele estava.
— Eu não tenho a informação.
James começou a rir.
— Muito conveniente, não é? — O Auror olhou para Lily. — Você sabia que podemos ter entrado em uma armadilha neste momento? Voldemort pode estar mesmo perto...talvez atrás de alguma árvore lá fora, pronto para entrar aqui e nos matar! Para depois ir atrás de Harry.
— Ele não ficaria ali fora, esperando por vocês — zombou Snape. James virou-se para ele, com raiva.
— Se eu tiver que ouvir você glorificar a merda do seu Lorde de novo, eu vou para Azkaban por ter te matado no segundo seguinte.
— Acalmem-se — pediu a ruiva, ainda mantendo a calma. — James, eu estaria morta há três dias, se fosse o caso. Como pode ver, eu não estou. Além do mais, eu o trouxe até essa caverna.
— E ele pode avisar e trazer qualquer um até aqui também. Acha que se ele fosse bom, teria escapado? Há prisioneiros que ficaram. Não que sejam excelentes pessoas, mas ficaram por não terem ligações com Voldemort. Apenas quem é fiel a ele fugiu ou conseguiu fugir!
Os olhos de Lily vacilaram por um momento entre os dois homens, antes de suspirar e dizer:
— Eu usei Veritaserum nele.
Snape agora era o mais surpreso dos três, com um olhar de traição em direção à ela.
— Usou Veritaserum em mim?!
— Não fique ofendido. Você ainda é um fugitivo de Azkaban, alguém que esteve do outro lado — apontou ela. — Não pense que, só porque veio até mim para dar informações, eu vou simplesmente estender um tapete vermelho para você
James cruzou os braços e apoiou-se na caverna, assistindo o desenrolar da cena.
— Foi aquele chá que me ofereceu nem dez minutos depois que eu apareci? — rebateu o fugitivo. — Por isso o gosto um pouco estranho para um chá de canela.
— Queria que eu esperasse até você provar o quão merecedor é de ter sido prisioneiro daquele lugar por tantos anos, me amaldiçoando pelas costas? Eu penso que dez minutos foi até bem demorado! Então fique feliz por eu ter feito isso e arrancado a verdade, senão você estaria realmente de volta à Azkaban no segundo seguinte. Sendo escoltado por James Potter e Sirius Black. Um verdadeiro sonho para você, eu imagino.
Queria rir, mas segurou o ímpeto.
Severus Snape não respondeu. Poderia até, mas com quais desculpas? Lily fez o certo tomando providências em relação a própria segurança após ser procurada por um fugitivo e seguidor de Voldemort.
O que Snape poderia reclamar? Além do mais, se estava ali com propósitos nobres, não deveria reclamar.
— Eu acho que é justo — Snape, um pouco amuado, concordou.
— Claro que é justo, é mais do que justo. — Lily olhou para James, depois para Snape, abrindo os braços, inconformada. — O que acham? Que eu sou obtusa de me encontrar com um fugitivo de Azkaban no meio da tarde e sem me certificar da segurança, não sendo a única a correr o risco, mas o meu filho também? Eu pareço ser tão burra assim?
— Eu não disse isso — tentou James, mas Lily continuou.
— Ou que eu não ouviria alguém próximo de Voldemort quando ele diz que tem informações importantes, sem querer certificar que é seguro para mim e para as pessoas à minha volta?
— Não há proximidade com Voldemort, Lily — Snape tentou também, mas Lily não parecia ter terminado.
— Apenas para avisá-lo: eu ainda lembro que você foi o responsável por ouvir a profecia e correr para contar tudo para ele.
— Eu não ouvi tudo. Não sabia que tratava-se do seu filho.
— Nosso filho! — corrigiu o Auror-Investigador, mas mais para si do que para qualquer outro ali.
— Quando eu soube, eu procurei Dumbledore. Eu pedi para que vocês fossem escondidos.
James deu as costas, a raiva formigando o seu corpo. Dumbledore havia compartilhado a sua lembrança daquela conversa e James lembrava quando Snape falava sobre esconder Lily primeiramente. As palavras de Severus Snape pediam, mesmo sem ser tão direto e nomeando as pessoas, que ela fosse salva.
Não se importava pelos outros dois, apenas ela.
Só que Lily nunca teve acesso àquela informação.
— Muito heroico da sua parte tentar salvar Harry, sendo que qualquer outra criança ou família teria um destino horrível caso você não os conhecesse ou tivesse alguma história. Caso fosse os Longbottom, por exemplo!
Por isso. Era por isso que James não precisava contar nada para Lily, pois a raiva latente dela sobre o quão covarde, mesquinho e egoísta Snape tinha sido já existia.
Lily carregava aquele peso imaginário de que se não fosse ela na equação, Snape nunca teria tentado salvar quem fosse o alvo de Voldemort. Se ela soubesse que a vida de James e Harry foram desconsideradas também, aquele peso iria aumentar.
Ela nunca suportaria saber que quase foi a única salva, deixando seu filho e marido morrerem.
— O que conseguiu dele sob Veritaserum? — James resolveu voltar com a conversa.
— De que queria entregar informações do que tinha sobre Voldemort, apesar de ser pouca coisa. Parece que... — Lily respirou fundo. — ...que Pettigrew sabe mais.
Fechou os olhos, trazendo sua expressão de raiva de volta.
— O que sabe? — voltou-se para Snape.
— Além de que não está longe, que sua forma não é como a de antes.
Aquela não era a primeira vez que ouvia sobre isso. Moody também tinha recebido a informação de que Voldemort era um "monstro".
— Qual forma?
— Eu não sei. Aparentemente, esta forma é apenas temporária.
Aquele pedaço da alma de Voldemort então estava em um hospedeiro. Isso quer dizer que qualquer coisa, animal, humano...qualquer um poderia ter Voldemort como hóspede.
Olhou para Snape enquanto empunhava a varinha sem alarde.
— O que aconteceu no sexto ano?
— Do que está falando?
James levantou a varinha vagarosamente, apontando diretamente entre os olhos do homem.
— Eu quero detalhes do ocorrido do sexto ano. Detalhes esse que só nós dois teríamos.
Lily não se pronunciou, talvez no mesmo raciocínio dele. Se qualquer um poderia ser Voldemort, aquele homem em frente a eles não era um candidato descartado.
Viu o desconforto do homem ao mencionar o incidente. Apenas aquilo era um sinal perfeito de que era mesmo Severus Snape na sua frente, mas iria esperá-lo falar.
— O do túnel?
— Exatamente, o do túnel.
— Tem certeza que quer trazer esse assunto à tona, Potter?
Segurou sua mogno com mais firmeza.
— Não há nada daquele dia que Lily não saiba.
— Nem que foi Black quem me enviou para morte certa naquela noite de lua cheia?
Não era o assunto preferido de James, nem de Sirius ou Remus. O que passaram após aquilo foi pesado, balançando a estrutura do grupo por completo. Houve um fio que os segurou e James diria que foi o amor fraterno. Aquele que te dizia o quanto o causador do problema precisava de ajuda quanto a vítima precisou, apesar de Sirius não ter estado frente a frente com um lobisomem em forma humana.
Se desse as costas quando Sirius precisou, seria tão ruim quanto sua ausência naquele túnel para salvar Snape.
— Eu sei o que Sirius fez, Severus. — A ruiva virou-se para James. — Acho que ele provou ser ele, não?
Lily também odiava aquele assunto.
Abaixou a varinha, mas não tinha terminado com as perguntas.
— Como vocês escaparam de Azkaban?
— Eu não sei.
— Você me disse naquele mesmo dia sobre o jogo dos Chudley Cannons contra Caerphilly Catapults, então sabia sobre o que aconteceria.
— Eu soube que algo grande aconteceria e para ficarmos a postos.
— E como o servo obediente que é, assim o fez — ralhou o Auror.
— Eu disse a Dumbledore de que lado estou...
— Não dou mínima para o que disse a Dumbledore e em qual momento. O que vale são as suas ações.
— Tudo o que eu fiz foi para acobertar, para trazer informações, Potter. Você é um Auror, deveria saber melhor sobre isso.
Bufou uma risada.
— Eu acho que você foi e é apenas um covarde egoísta. O fato de você ter sido um Comensal já diz muito sobre você. Tudo do que participou, todo o sangue que foi derramado no passado, ainda escorre pelas suas mãos. — Aproximou-se dele, sentindo o odor forte do que alguns dias em uma caverna podia fazer com um homem fugitivo. — Tentar salvar a minha família não muda isso.
— Sua família não estaria viva caso eu não tivesse evitado esse derramamento de sangue — argumentou o homem.
— E você não estaria vivo caso eu não tivesse evitado o seu derramamento de sangue naquele túnel. A diferença entre nós, Snape, é que eu faria isso por qualquer pessoa. Mas vimos que não podemos dizer o mesmo de você.
O ódio entre os dois era quase como faíscas. James sentia o seu corpo todo quase entrando em descontrole, sem acreditar que tinha que falar sobre caráter com alguém como Severus Snape.
Sentiu a mão de Lily segurar o seu braço e o puxar. Aceitou a sua intervenção, dando as costas para o homem, tentando se acalmar.
— Não sabemos muito, mas sabemos de algo — ela recomeçou a conversa. — Isso pode nos ajudar.
— Há mais — interviu Snape.
— Eu não quero ouvir mais nada. Estamos correndo muitos riscos agora — anunciou James. — Temos que avisar a Ordem, o mais rápido possível. — concluiu, após relaxar os ombros e sentir a tensão partir um pouco.
— Hoje, na reunião — concordou Lily.
James assentiu.
— Exatamente. Vou trazer roupas.
Deu as costas, querendo sair daquela caverna e da frente daquele infeliz.
— Roupas?! — indagou a ruiva.
— Ah, sim. Eu não quero ouvir mais nada agora, mas ele vai falar...e será o responsável de falar, palavra por palavra, para cada bruxo daquela reunião, o que sabe. Vai ser divertido. — Olhou para Snape. — Para nós, pelo menos. Para você, eu não garanto tanto.
Saiu da caverna, finalmente respirando fundo o ar puro da floresta e tentando tirar todos os pensamentos homicidas em relação aquele homem.
~O~
Estava em frente da Casa dos Black, pronto para entrar com um fugitivo de Azkaban vendado ao seu lado. Fugitivo esse que era o seu inimigo por anos, desde Hogwarts.
Sua ex-esposa do outro lado, garantindo que esse mesmo fugitivo, que ainda era irrevogavelmente apaixonado por ela, não fugisse do destino que o aguardava.
A sua vida poderia ficar mais louca?
O frio e a garoa ininterrupta ajudavam a disfarçar aquelas três pessoas cobertas por capas e seus respectivos capuzes. A vizinhança continuava serena, sem muita agitação na rua ou nas janelas, então não havia do que se esconder de qualquer maneira.
James acenou para que atravessassem a rua em direção ao portão. A varinha sempre em punho, os olhos correndo por todos os lugares, inclusive reflexos das janelas.
Estavam dez minutos atrasados, mas era proposital. Não queria ser um dos primeiros a chegar e ter que explicar uma e outra vez, a cada um que aparecesse, a razão de ter tal pessoa com eles.
Era um risco estar fazendo aquilo, ele sabia. Mas se Severus Snape comprometeu Lily ao procurá-la, então iria garantir que ela não fosse penalizada. Ou não a unica.
Se Dumbledore fosse servir de algo, então que fosse para isso. Afinal, não era ele quem confiava em Snape, querendo que ele fosse um espião antes? Pois que arcasse com as consequências também quando este mesmo cara fugiu e contatou alguém da Ordem para dar informações importantes sobre Voldemort.
Aliás, por que ele não foi atrás de Dumbledore diretamente? Por que Lily?
Era óbvio o "porquê Lily", que pergunta.
Assim que fecharam a porta de entrada, um alarme estridente começou a soar. O corredor tornou-se um túnel mal iluminado e cheio de névoa, impossibilitando visualizar qualquer coisa a meio centímetro de distância.
Pegando Snape pelo braço, colocou-o em sua frente, enroscando um braço em seu pescoço e apontando a varinha para a sua cabeça. Sabia que quem estivesse na casa os veria como se nada acontecesse, mas os três recém-chegados continuariam naquela magia anti-intrusos até o dono os liberasse.
— James Fleamont Potter — apresentou-se para o nada em sua frente. — Eu tenho uma pessoa em mãos que é importante para a reunião, assim como Lily J. Evans em minhas costas.
Deixou escapar uma leve exclamação de surpresa ao sentir algo atingir o seu braço. Eles não iriam fazer perguntas para ele, mas tirar seu sangue e testá-lo com as amostras que cada membro da Ordem tinha entregue quando o grupo surgiu. Ouviu o mesmo vindo de Lily. Não teve certeza se também tiraram de Snape, pois ele não reagiu.
Um minuto inteiro se passou até o barulho parar e a névoa dissipar-se. Logo à frente, quase tão colado a eles, estava toda a Ordem com as varinhas apontadas. Era uma cena um pouco amedrontadora de ser alvo, principalmente após ter a magia de proteção tirada de seus olhos tão de repente.
Sirius era o primeiro, com a varinha quase encostada na testa de Snape, que ainda estava vendado e com o capuz.
— Explique! — pediu o maroto dono da casa, olhando para James.
Percebendo que Albus também estava entre eles, James arrancou a venda e tirou o capuz de Snape.
O choque de todos os presentes foi bem sonora por meio de suspiros e engasgos de surpresa.
— Severus! — o próprio Dumbledore murmurou, aproximando-se.
— O que o Ranhoso está fazendo aqui?! Ele é um fugitivo de Azkaban! Onde o achou, James? — Sirius estava furioso.
— Vamos levá-lo! — Frank agitou-se, tentando se aproximar também.
— Esperem!
Lily postou-se entre todos eles e Snape — ainda sendo segurado por James — , levantando a mão, pedindo calma a todos.
— Eu sei que temos uma reunião importante, mas talvez vá alinhar com a presença de Snape — James continuou.
— Não poderia ter nos chamado para outro lugar? Onde o encontrou, como? Estamos atrás desses desgraçados por semanas! — Sirius continuava a tagarelar, olhando com total desprezo para o fugitivo.
— Isso não interessa agora, Padfoot. Ele tem informações que não podemos ignorar. Se pudermos começar isso logo e evitar que eu passe um segundo a mais perto dele, eu agradeceria.
Ninguém parecia feliz, nem o convidado de honra. Uma manta de revolta, ódio, vingança e incompreensão cobria todos os membros da Ordem presentes e James não poderia culpá-los. Muitos deles estavam trabalhando sem parar na captura dos fugitivos, tentando acalmar família e amigos sobre o ocorrido, acalmar a si mesmos também. Afinal, a população não sabia da volta de Voldemort, mas eles sim.
Então sob todos esses olhares carregados de sentimentos, e como da última vez, todos se reuniram na sala. O silêncio era quase doloroso aos ouvidos, a tensão de todos, as mãos postas nas varinhas e prontas para dispararem o que fosse na direção de Severus Snape...
— Essa casa não é o lugar mais puro desse mundo, mas qual a razão de trazer mais essa imundice para cá? — pediu Sirius.
Sentiu que Lily começaria a contar tudo o que sabia, mas James apenas segurou disfarçadamente o seu casaco, impedindo-a. A ruiva olhou para ele, mas o maroto apenas assentiu levemente, como um pedido.
Deu um passo dentro do círculo, onde tinha Snape ao centro. Apenas naquele momento notou a ausência de Moody. Talvez o seu chefe estivesse muito ocupado para estar naquela reunião.
Era uma coisa boa, afinal. Não poderia garantir o bem-estar de Severus Snape caso Moody o visse.
— Acho que dispensa a apresentação do convidado dessa noite, mas ainda farei as honras. Esse é Severus Snape. Em companhia de Comensais e/ou alunos em treinamento desde o tempo de Hogwarts. Após sua formatura, juntou-se com todos eles e ao lado do seu querido Lorde. — James fitou o homem à sua frente, controlando sua raiva. — Após o dia 31 de outubro de 1981, foi pego com os outros e levado à Azkaban.
Nesse momento, houve uma singela troca de olhares entre Snape e Dumbledore. Ele sabia que o diretor, como líder da Wizengamot, quis liberar o antigo aluno sonserino do caminho da prisão por ter informado sobre a profecia e lhe jurado lealdade, mas havia muita gente contra.
James sendo um deles.
— Até fugir há algumas semanas! — apontou Remus.
— Sim, até fugir... — James concordou. Arrumou os óculos e suspirou. — ...e entrar em contato comigo.
Lily remexeu-se ao seu lado, Snape não reagiu. Aquele verme sabia que James não deixaria nada cair nos ombros de Lily, pois não era burro, apesar de ser um tremendo de imbecil egoista.
— Você sabe algo sobre Voldemort — Dumbledore soou calmo, oferecendo toda sua paciência para aquele que não deveria receber nada além de uma cela bem fria como casa.
A tensão ficou ainda pior agora, todos os olhos vidrados em Snape, que parecia muito desconfortável, à espera de uma resposta.
O que o impediu de imediato foi uma coruja que assustou um pouco os ocupantes da sala, adentrando o cômodo e jogando um pergaminho para Lily. Esta olhou rápido para a carta e a dobrou, colocando-a de qualquer jeito no bolso.
— Desculpem — pediu ela, nitidamente sem graça pela interrupção. — Snape, por favor, se puder começar.
— Ele está perto...— começou Snape.
— Isso já sabemos — cortou Sirius, impaciente.
— Não está em sua forma...
— Também já sabemos disso — retrucou novamente o maroto.
— E ele continua com o seu propósito.
Dessa vez, Snape levantou os olhos diretamente para James e Lily, deixando claro o que aquilo significava.
Poderia ficar surpreso, mas James nunca tinha deixado de considerar essa hipótese. Voldemort dificilmente iria pensar "oh, nos desafiamos 4 vezes, portanto a criança é outra". Ele tinha Harry como o seu possível algoz, quase perdendo tudo ao tentar matar o seu filho. Aquilo não ficaria impune.
— Que desperdício de tempo. — Sirius aproximou-se, pegando os braços atados de Severus. — Está na hora de voltar para casa.
— Sirius, espere — pediu Dumbledore, que ainda tinha os olhos bem fixos em seu ex-aluno e atual fugitivo.
— Ele tem algo a mais para dizer. Não tem? — Remus finalizou para o diretor.
Todos voltaram-se para o tal homem sujo, de roupas novas que não combinavam com ele, e o rosto contorcido pelo toque de Sirius.
— Seria esperto da sua parte dizer tudo o que tem, senão essa sua visita vai te custar muito caro — Frank interviu, tão louco para levá-lo de volta para Azkaban quanto 98% do resto da sala.
— Apenas diga tudo — Lily, dessa vez, quem se pronunciou.
O asco ao ver o olhar de Severus Snape para Lily era imensurável. Era adoração, arrependimento...paixão. E mesmo tendo tantos bons sentimentos por ela, aquele homem decidiu lutar contra ela, o que Lily representava.
Era incompreensível e seria assim até o último suspiro de James.
Perguntava-se se todos os presentes (Elifas, Emmeline, e todos os outros) também viam tudo aquilo. Não era informação geral o envolvimento — se é que podia chamar assim — de Snape com Lily e os Marotos.
— Há pessoas aqui fora prontas para ajudá-lo — Snape voltou a falar. — Não seguidores conhecidos, não alguém que seja conhecido de todos vocês. Voldemort não retornou sozinho, foi por ajuda.
— Lucius Malfoy está solto — comentou Alice.
— Lucius Malfoy é irrelevante — retrucou Snape. — Se ele sabe sobre o retorno de Voldemort, foi por murmúrios na Travessa do Tranco. Ele não teria a capacidade de ajudá-lo, não é tão forte em magia.
James detestava admitir, mas dos muitos Comensais que teve o prazer de prender ou de assistir os julgamentos, quase nenhum seria capaz de apontar uma varinha e dizer algo além de Maldições Imperdoáveis. Eles eram apenas peões no grande tabuleiro de xadrez. Snape, por um outro lado, era ótimo em Poções, hábil com vários feitiços e um cérebro que, apesar de não parecer fazer sentido, tinha ótimas ligações de neurônios para muitas coisas.
Severus Snape seria capaz de achar Voldemort e ajudá-lo a encontrar um hospedeiro enquanto procuravam uma maneira da volta ser definitiva, mas ele estava preso em Azkaban neste meio tempo. Lucius Malfoy, como bem apontado, não seria capaz de fazer isso.
Voldemort estava sendo ajudado por alguém muito inteligente, o que significava que era alguém fora de seus radares.
A conversa continuou. Sirius rebatia o que Snape dizia; Frank o ajudava. Alice vinha em reforço para o marido e Sirius, enquanto Dumbledore parecia querer acalmar os Aurores. Os outros presentes, que não eram Aurores, assistiam e davam seus palpites ou faziam suas perguntas, mas pareciam deixar a coisa toda acontecer com quem estava acostumado com aquele tipo de embate.
James não ajudou, mas por ter a sua mente de Auror-Investigador entrando em cena. Todos estavam concentrados na conversa, curiosos, temerosos, mas ele mesmo apenas sentia seus neurônios trabalhando à exaustão, juntando cada pedaço de informação que tinha recebido nos últimos meses:
A magia das trevas nos Balcãs; o sangue de Unicórnio; a fuga de Azkaban; recebendo ajuda de alguém desconhecido dos Aurores e que era Inteligente e não estava preso.
O que tudo aquilo podia dizer para ele?
Era loucura, mas por um milésimo de segundo, pensou em McGuillen. Nada daquilo ligava a ele, além do homem não estar preso, ser desconhecido dos Aurores em relação à contato com Voldemort e ter se conectado com alguém que Voldemort adoraria colocar as mãos. Inteligente? Bom, ele não devia ser burro, mas nunca teve a impressão que o cara fosse um gênio de alguma forma.
Aproximar-se de Lily poderia ser um sinal, mas qual homem não seria encantado por ela? Além do mais, ela não era ingênua. McGuillen teve contato com Harry e nada aconteceu e, caso considerasse que nem para um jogo o homem levou o seu filho, não insistia muito para ficarem em contato.
Tinha pensado em McGuillen simplesmente por querer achar uma desculpa idiota para tirar o cara da jogada, mesmo James não tendo nada com Lily.
— Você me paga! — A incredulidade de Sirius cortou sua linha de pensamento. — Será responsabilidade sua, eu já vou avisando.
— Eu não estava prestando atenção, do que está falando?
— Ranhoso ficar trancado aqui enquanto procuramos pela horcrux e alguma pista de quem está ajudando Voldemort. Fico aliviado por ter um dos principais alvos de tudo isso completamente alheio durante a reunião.
— Eu estava tentando conectar os pontos, Padfoot! A pessoa pode ser muito bem desconhecida por nós em questão de suas atividades extracurriculares com Voldemort, mas talvez não um estranho, um nome que nunca ouvimos falar. Tudo o que ouvimos é que Voldemort está perto. Considerando tudo isso e que ele provavelmente quer voltar e tentar algo contra Harry, a tal pessoa está rondando, está em vista, provavelmente tendo sua presença introduzida de pouco a pouco para não causar estranheza caso aparecesse de repente.
— Ou talvez seja algum desconhecido, alguém que não seja daqui...talvez da Albânia, onde Voldemort parece ter estado.
— Uma opção que não podemos descartar também. Devemos conferir no Ministério a chegada de bruxos na Grã Bretanha nos últimos meses, incluindo aparatação doméstica.
— Alice deve conseguir facilmente essa lista — comentou Sirius, olhando para a Auror mencionada.
— Há uma lista da Ordem. — A voz de Lily surgiu ao lado dos dois homens. — Marlene e eu trabalhamos duro nela, com suspeitos de vários cantos da Europa. Muitos deles não foram presos na época por serem apenas suspeitos, mas talvez seja interessante voltar nela.
— Você a tem? — perguntou James.
Lily mordeu o lábio.
— Não. Ela deve estar no antigo apartamento de Marlene. A minha cópia estava em Godric's Hollow, mas Marlene encarregou-se de tirar de lá tudo relacionando a Ordem quando nos escondemos.
O apartamento de Marlene devia estar intacto desde a sua morte, considerando que a família foi dizimada em 1981 e todos foram encontrados na grande mansão dos Mckinnon.
Sabendo da relação que Lily tinha com Marlene, deveria ser difícil pensar em voltar para o apartamento onde as duas tiveram tantas reuniões sobre missões em conjunto e o lugar que ela sempre ia para visitar a amiga antes de tudo acontecer.
— Eu passo lá e pego — ofereceu-se James.
— Você não saberá onde está e Marlene sempre teve senhas ou acesso difícil para esses documentos. Eu vou.
Iria argumentar, mas a mão de Sirius em seu braço o impediu.
— Com certeza você será a única capaz de desvendar qualquer coisa que Marlene tenha colocado como senha. Mas nesse caso, Prongs irá com você.
— Não é necessário.
— Qualquer lugar relacionado a um membro da Ordem é considerado perigoso, Lily, mesmo este membro não estando mais conosco. Ninguém arriscará o pescoço por aí sozinho, sendo um Auror ou não.
O tom de Sirius dava um ponto final na conversa, o que James agradeceu silenciosamente.
Lily assentiu, não querendo discutir mais. A atenção da ruiva foi pega por Alice, que aproximou-se com alguma pergunta, enquanto Sirius puxou James para o lado.
— Eu sei que você está querendo protegê-la de tudo, como sempre fez, mas Lily não é mais uma garota que está sem a família, entrando no desconhecido mundo bruxo fora de Hogwarts e com um maluco à solta. Ao invés de impedi-la de passar pelo que quer que seja, esteja lá com ela!
— Eu sempre estive lá com ela, Padfoot!
Os olhos de Sirius amoleceram, sabendo que era verdade. A partir do momento que Lily deixou um lugar para James, ele o tomou e esteve lá por ela. Inúmeras vezes, todas as vezes.
— Pois esteja lá com ela novamente.
— Sirius, você esquece que...
— Cala a boca e vai!
Foi empurrado em direção às duas mulheres. Alice percebeu o movimento do maroto e escondeu um pequeno sorriso, dizendo algo para Lily e se afastando.
Aquilo lhe dava uma impressão de estar de volta à Hogwarts tão grande, que quase arrumou a gravata do uniforme e passou as mãos pelo cabelo. Estava a ponto de abrir a boca, quando outra boca foi mais rápida:
— Apenas me dê alguns minutos para conversarmos. Por favor.
Severus Snape pegou o lugar de Alice tão rápido quanto o vento, ignorando a aproximação de James.
— Severus, eu aprecio o que você fez, mesmo que tudo isso seja muito complicado. Mas acabamos por aqui — respondeu Lily.
— Dumbledore disse que pode haver uma maneira de corrigir as coisas.
— Nada disso apaga o que aconteceu. — Lily parecia ter mais a dizer, mas uma nova coruja adentrou a sala, passando por todos eles, e entregando um novo pergaminho para ela. — Eu preciso me ocupar com isso. Se me der licença...
— O seu namorado pode esperar alguns minutos? Eu posso não ter mais uma oportunidade.
Em um rompante, Lily abaixou as duas mãos ao lado do corpo, nervosa.
— Vocês, homens, estão testando a minha paciência!
Devagar, James começou a dar passos para trás, não querendo fazer parte daquilo. Ok, parece que os caras tinham irritado a mulher um pouco. Severus com a sua insistência; as cartas durante a reunião; ele mesmo e Sirius, provavelmente, alguns segundos antes.
Melhor não insistir.
Tinha informações o suficiente para trabalhar agora e poderia conferir a lista de Lily e Marlene assim que a tiver.
Virou-se e estava pronto para partir sem falar com ninguém e passar horas e mais horas sobre pergaminhos e mapas, já que a reunião daquele dia não sairia do assunto "Fugitivo Snape", até:
— Por que você não disse a verdade? Que Severus me procurou?
Apesar das perguntas parecerem um pouco como confronto, o tom de Lily não estava nem um pouco perto disso.
— Para você não correr risco — respondeu ele, abaixando a voz para ninguém por perto ouvir.
— Fazendo isso, você se colocou em risco — apontou ela.
— E ainda assim, você corre um risco maior do que eu. Eu sou do Departamento de Execução das Leis da Magia, trabalhando pela força de Ordem e Segurança. Caso um fugitivo de Azkaban venha até mim com informações, pode ser visto como colaboração com a lei. Ele indo até um bruxo, uma pessoa comum, pode ser visto como colaboração com o fugitivo, cumplicidade. Poderiam te levar para interrogatórios, querendo a resposta da decisão de Severus Snape em procurar você após a fuga, dando a entender que você o ajudaria.
— E eu não o ajudei. Eu fiz tudo pensando em nós. Em Harry!
— Eu sei disso, Lily. Mas eu não vou deixar qualquer outra pessoa pensar o contrário.
Lily aproximou-se ainda mais.
— Você se colocando como interceptor da mensagem também é perigoso. Eles poderiam ver isso com outros olhos também.
— Eu tenho um histórico de inimizade enorme com ele. Em caso de interrogatório ou até mesmo julgamento, isso viria à tona. Já você... a história é um pouco mais doce entre vocês dois.
— Nós éramos amigos anos atrás, mas isso também mudou no caminho.
— Talvez ele ser apaixonado por você poderia surgir e isso, talvez, não pesaria para o bom lado da balança. — James tentou segurar a careta ao dizer aquilo.
— Pesaria quando eu dissesse que nunca fui apaixonada por ele. — James entortou os lábios, não confiando muito que isso fosse ajudar caso ela fosse interrogada. — Mas sim pelo maior inimigo dele. Para você, isso soaria como uma colaboração com o fugitivo ou com o homem que quer prendê-lo?
Segurou o sorriso, porque seria a coisa mais estranha sorrir no meio daquela conversa. Ganhar de Severus Snape era sempre doce, uma vitória quase tão boa quanto um jogo de Quadribol. Quase, porque ele não daria tanta importância para aquela cara. Mas quando o assunto era Lily, saber que Snape estava fora do páreo era sempre bom.
— Eles poderiam ver como uma mudança de ideia, quem sabe — respondeu marotamente.
— Mudança de ideia?!
— Não éramos vistos juntos há oito anos e ele foge para te encontrar...o inimigo do seu ex-marido e tudo mais.
Lily levantou uma sobrancelha, parecendo também esquecer do tom mais sério da conversa anterior.
— Engraçado, não foi isso que saiu no jornal há algumas semanas. Eu pensei que falavam que nós dois estávamos muito próximos naquele jogo dos Bats que assistimos no estádio e não que eu estava me jogando nos braços de um fugitivo-de-Azkaban-inimigo-do-meu-ex-marido.
Anos passariam e Lily continuaria com o poder de fazê-lo perder as palavras. Em Hogwarts, ao se aproximarem, tinha que aprender a lidar com aquela divertida, sarcástica às vezes, e até boba Lily Evans. Ela brincava com as palavras, te fazendo pensar muitas vezes para qual lado interpretar. Já houve ocasiões tão surpreendentes que até Sirius respondia "Nem eu teria pensado nisso, Evans!".
Com o passar do tempo, ele começou a entender as nuances de suas brincadeiras, o que trouxe momentos de longas provocações — seja para o lado de flerte quanto para qualquer outra coisa.
A frase anterior dela, aliás, estava em uma provocação, era óbvio. James sabia que Lily esperava uma provocação de volta...
— Sim, eu lembro. Aquele jornal, inclusive, onde dizia que você ia embora com um jogador incógnito. Neste contexto, nada parece ser favorável para a minha pessoa ser um álibi para você, apenas o tal jogador.
— Se lutar contra o pior bruxo das trevas ao seu lado não é bom para um bom álibi, uma saída correndo do estádio ao lado de alguém desiludido é que não será — respondeu ela, despreocupada.
O sorriso finalmente veio. Um pouco tímido, um pouco brincalhão, mas veio.
— O que posso dizer em minha defesa? Eu cresci querendo ser bom...fico feliz em ter atingido o objetivo.
— Eu tenho a impressão de que você sempre atingiu os seus objetivos.
— Sempre muito bom atingir os objetivos, de fato.
— E sempre ajudou os outros a atingirem os seus também.
Aquela conversa já não era sobre objetivos, não é? Ou ele estava com a mente suja de repente?
— Deve-se ao fato de eu ser bom. — O maroto deu de ombros, uma falsa expressão de quem não queria se gabar estampada no rosto.
— Deve ser realmente fascinante ser bom em atingir e ajudar os outros a atingirem os seus objetivos... mas se todos atingem o objetivo, a pessoa ao seu lado também é boa.
— Longe de mim dizer que carreguei qualquer pessoa nas costas neste caminho. Não podemos negar que...
Uma discussão acalorada do outro lado da sala cortou completamente a conversa.
Como ele pôde ter esquecido de onde estava e o que estava fazendo? Por Merlin, era a casa dos Black, em uma reunião da Ordem, com um fugitivo de Azkaban contando sobre a volta de Voldemort!
Aquele era o feitiço Lily o acertando, fazendo-o tão concentrado nela, tão alheio ao resto. E mesmo tantos anos depois, não mudava e tinha a impressão de que nunca mudaria.
— Não, eu não vou ficar de babá de ninguém e não vou ficar enfurnado nessa casa maldita. Ela é usada apenas para reunião da Ordem, não para moradia! — Sirius parecia possesso. — James trouxe essa tralha aqui quando deveríamos nos reunir para discutirmos aquilo e não para designar Sirius para limpar a bunda de fugitivo de Azkaban.
— Dumbledore não sugeriu para você limpar a bunda de ninguém — retrucou Remus, mas virando-se para o diretor. — Mas também não vejo como justo designar Sirius para essa tarefa, mesmo esse lugar pertencendo a ele. Se não formos entregar Severus Snape nesse momento, ele é responsabilidade de todos.
— Aliás, eu ainda não entendi o motivo de não entregarmos um fugitivo para onde ele fugiu — reclamou Frank. — Porém, alguém deve interrogá-lo para saber dos outros, de Voldemort, e eu estou me voluntariando. Com um enorme prazer.
Apenas naquele momento James percebeu que tinham lançado um abbafiato em Snape, que não podia ouvir a conversa.
— Sirius, eu entendo o seu aborrecimento. Foi uma sugestão inocente, considerando o Auror responsável que é — começou Dumbledore. — Podemos pensar em algo melhor até resolvermos o que fazer.
— Já está resolvido o que será feito. — Sirius apontou para Snape. — Ele vai voltar para Azkaban. Ele foi um Comensal, foi preso como um, fugiu como um e vai voltar para lá como um. Ou teremos que procurar maneiras de apagar o passado dele, a maldita tatuagem no braço que ele tem?
— Tudo será feito no momento certo. — Dumbledore conservava a sua calma, apesar da falta dela em Sirius. — De qualquer maneira, eu acho que você tem um elfo em casa, não? Ele é confiável, eu imagino.
— Onde está o seu casaco?
A pergunta de Lily o fez virar-se para ela, encarando-a, saindo de telespectador daquela conversa tensa, mas que ele sabia que Dumbledore iria dobrar a todos no final.
— Meu casaco?!
— Sim. Se estiver livre, podemos ir agora até o apartamento de Marlene.
James olhou ao redor, vendo que Snape estava encurralado, e bem desconfortável, com Frank e Alice sobre ele, prontos para levá-lo para algum lugar e começar um interrogatório. Dumbledore estava ao lado, parecendo dar apoio e não necessariamente para os Aurores.
Sirius tinha os braços cruzados com força, encarando o inimigo de Hogwarts, tão contente quanto quando seu cabelo acordava indomável. Remus não estava muito longe.
Em resumo: todos da Ordem resolveram ir para cima do fugitivo de Azkaban. Boa sorte para ele, pois aquilo não duraria meros minutos.
— Você não está ocupada? — rebateu ele, lembrando-se das cartas que ela tinha recebido e a impaciência dela com os "homens".
— Não, além de essa lista ser mais importante. — Lily dirigiu-se até o corredor de entrada, sendo seguida por ele. Ela pegou o próprio casaco, vestindo-o. — Vamos!
O casaco de James voou até ele, fazendo-o acordar para a vida e vesti-lo. Olhou para trás e viu que ninguém os via.
O seu trabalho estava feito: Severus Snape era problema deles agora, não sendo um possível enorme problema para Lily mais. Que Dumbledore se virasse com isso agora, mas ele precisava trabalhar.
Eles precisavam. No apartamento de Marlene.
Que dia mais maluco era aquele!
J~L
O antigo apartamento de Marlene ficava no fundo de uma pequena e intrincada ruela entre dois prédios residenciais no centro de Londres. Com aquela garoa, o frio e a noite adentrando, era o cenário perfeito para encontrarem algo que não queriam ou caírem em uma armadilha. Ou até ver o fatídico fleche verde vindo em sua direção.
Lily parecia calma ao seu lado, apesar de ter sua varinha em mão, assim como ele.
— Talvez devêssemos conferir se há algo ao redor antes de entrarmos — disse ele.
— Não precisa. Marlene tem um sistema que avisa caso algum feitiço, poção ou algo mágico tenha sido feito aqui perto — explicou a ruiva, direcionando-se até uma pequena caixa vermelha pendurada no portão que dava acesso à ruela. — Isso é uma espécie de caixa de correio, mas ela não avisa se tem carta...
Impressionado, James assentiu. Havia tantas novas maneiras e jeitos que Aurores lidam com invasões hoje em dia, que muitas maneiras e jeitos antigos pareciam ser esquecidos.
Não perguntou se havia algo na tal caixa de correio, pois Lily apenas adentrou pelos portões com sua confiança, dando a entender que tudo estava ok. Rapidamente ele deu passos largos e pegou a dianteira, nunca a deixando na linha de frente.
Ao fim de uma ligeira caminhada pela ruela escura e úmida, encontrava-se uma porta de madeira antiga que, claramente, não era aberta por muitos anos. As duas janelas de cada lado da porta tinham as cortinas fechadas; os potes de flores estavam vazios e tristes.
Apesar de parecerem tristes, os vasos pareciam os protagonistas, pois Lily pegou sua varinha, murmurou algo e apontou para um deles. Pequenas flores começaram a surgir, ao mesmo tempo que um "click" na porta foi ouvido.
— O que aconteceria se eu viesse aqui e tentasse abrir essa porta? — perguntou o Auror-Investigador, abismado com o tanto de magia que rodeava o lugar.
— Lembra que o dormitório da Monitora-Chefe de Hogwarts tinha uma magia que impedia garotos de entrar? — Sim, ele lembrava e muito bem. Nunca caiu na magia que, provavelmente o empurraria para longe e talvez quebrasse seu nariz, mas foi uma verdadeira chatice não poder ter acesso à Lily quando ela estava lá dentro. — Podemos dizer que seria algo parecido, mas um pouco mais doloroso.
Sabia que Marlene era alguém com quem não deveria se meter, sempre soube. Era uma das mulheres mais fortes e guerreiras que tinha conhecido, tão segura de si, de sua magia. Quando pensava sobre sua morte, era quase inacreditável.
Lembrava quando Sirius o chamou pelo espelho para lhe dar a notícia. Tinha ficado tão abalado por si, mas também por Lily. Teria que dar a notícia para a sua esposa, que cuidava de Harry no primeiro andar da casa e que tentava ficar sempre tão positiva sobre o fim da guerra, que sua grande amiga e companheira de tantas missões na Ordem tinha sido levada dela.
Suspirou com a imagem do sorriso de Lily se esvaindo ao vê-lo parado na porta do quarto. Nada tinha sido proferido, mas ela sabia que algum deles tinha ido.
/-/
" — Padfoot, Moony, Wormtail? — ela balbuciou, quase atropelando um nome no outro. Ele negou com a cabeça. Lily engasgou. — Marlene?
James não se moveu, ele não conseguia. Logo, ela tinha entendido.
Sua esposa deu um beijo em Harry, colocou-o no berço e saiu tempestuosamente do quarto"
/-/
— Eu vou na frente. Não queremos machucar o Auror-Investigador.
Aquela brincadeira leve da ruiva o tirou daquela lembrança horrível, trazendo-o de volta para o sorriso dela.
— Primeiro as damas e qualquer outro que saiba sobre as armadilhas de Marlene. — James acenou para que ela entrasse.
Estranhamente, mofo e odor desagradável não lhe acertou em cheio assim que a porta foi aberta e tiveram um primeiro olhar na pequena entrada do lugar. Onze anos se passaram e o lugar ainda cheirava como Marlene: era uma mistura de incenso, algo como camomila e canela, e frutas. Era difícil explicar, mas se ele estava tendo uma viagem nostálgica sobre a antiga moradora do lugar, não podia imaginar Lily.
— Ela está tão presente aqui — a ruiva sussurrou.
— Parece que quiseram tirar Marlene deste mundo, mas ela achou uma maneira de ficar — concordou ele.
Sem hesitar, Lily entrou. James apressou-se, fechando a porta atrás de si, sem antes conferir se não tinham sido seguidos ou se eram vigiados.
— Siga os meus passos e você ficará bem — anunciou ela. James rapidamente voltou para o exato caminho que ela fazia. — Não toque em nada, não deixe nada te tocar.
— A coisa é tão séria assim?!
— Sim, muito. Esqueceu que ela tinha irmãos? Marlene tinha que se defender das brincadeiras e das intromissões, então nunca perdeu o costume mesmo morando sozinha. Ainda mais sendo perseguida...
Desviando de uma mesa de suporte ao lado do sofá colorido, e tão fora de moda hoje em dia, Lily seguiu em direção às escadas, tendo James seguindo cada passo que ela dava. Subindo, a ruiva evitou o quinto e oitavo degrau, além de chegar ao topo e bater os pés duas vezes. James a imitou, o que causou um riso nela.
— Eu estava apenas conferindo se a madeira ainda estava solta. Marlene sempre reclamava disso e na última vez que a visitei, ela disse que iria lançar logo esse feitiço e parar de reclamar. — Olhando para a tal madeira no fim da escada, Lily sorriu. — E realmente consertou.
— Você sabe cada coisa desse lugar, como se fosse a sua própria casa.
— Ela dizia "Se quer trabalhar comigo, tem que saber que a cada esquina, há uma surpresa". Então eu achei melhor sempre memorizar tudo o que podia.
Eles eram um casal que sempre dividiram suas mágoas, tristezas e alegrias. Fofocas? Em Hogwarts, James mal podia esperar para explanar para a namorada e ouvir dela tudo o que viu durante o dia. Eles ficariam horas deitados na cama, conversando sobre tudo. Após Hogwarts, a mesma coisa.
Mas ele ficava contente em ver que Lily, durante os loucos anos de Ordem, também teve momentos bons com outras pessoas. Ela também tinha uma vida fora do papel de esposa, mãe e amiga dos marotos. E muitas das coisas boas foram nesse apartamento cheio de armadilhas no fim de uma ruela.
— Deve estar no pequeno escritório — Lily voltou a dizer, apontando para uma porta entreaberta no fim do corredor. — Acha arriscado acendermos as varinhas?
— Seria melhor evitarmos. Não queremos chamar atenção para esse lugar que parece abandonado por tantos anos.
— Certo, vou tentar o meu melhor. Mas fique pronto para as consequências.
James levantou uma sobrancelha quando entraram no escritório.
— Consequências?!
— Você é um maroto, sabe que qualquer coisa pode acontecer agora.
— Eu poderia, caso soubesse com o que eu estou lidando. Consequência de estarmos no escuro? — tentou ele.
Lily virou-se para encará-lo. Apesar da falta de luz, ainda a via bem. E seu sorriso.
— Consequências de se estar no escuro — ela repetiu, um tom de voz tão maroto que poderia competir com Sirius. — Imagine quantos perigos.
Deixou a boca cair por um momento.
— Há tantos perigos assim? Algum em específico com o qual eu devo me preocupar?
— Com medo, Potter?
— Quero apenas estar preparado — retrucou.
— Desde quando você precisou estar preparado?
Trancou o olhar no dela. Seu coração estava acelerado e longe de ser por estar em um lugar que esteve fechado por tantos anos e podendo ser alvo de inimigos.
A resposta estava na ponta da língua, mas ele cometeu o único erro que poderia ser cometido: ao deixar o corpo cair em cima de uma perna, sua mão bateu em um amontoado de pergaminhos que estava muito próximo da ponta da mesa.
Ouviram um "creck" bem alto e James sentiu o chão tremer por um momento.
— Não se mexa — pediu Lily. — Nem um milímetro. Não respire.
— Eu não posso garantir o último — disse entredentes.
— Você tocou exatamente no que precisávamos, mas tem uma sequência. Há alguns objetos a serem tocados antes dos pergaminhos.
O chão fez um alto "creck" novamente e o maroto sentiu que tinha cedido um centímetro.
— Se você fizer a sequência agora, acha que vai adiantar algo?
— Eu não sei, mas posso tentar.
Poderia ser taxado de negativo, mas sendo alguém que já criara armadilhas antes e caído em outras, tinha a certeza de que um buraco se abriria sob seus pés e ele conheceria um cômodo do andar debaixo de uma maneira um pouco diferente do normal, independente da tal sequência de objetos a serem tocados.
— E se você errar a sequência de objetos?
— Eu não vou errar.
Lily foi até o outro canto do escritório, tocando a varinha em um abajur.
— Bom, no máximo eu apenas cairei onde? No banheiro? Na cozinha?
— Você acha que Marlene faria uma coisa tão fácil e leve assim? — A ruiva voltou até a mesa e tocou um tinteiro. — Eu tenho certeza de que você não quer cair seja lá onde for.
Com certeza não cairia simplesmente no cômodo abaixo, teria algo a mais caso a antiga Marlene quisesse proteger seus documentos. Fechou os olhos, sentindo aquela justiça ou karma chegando a passos lentos, relembrando-o de como era bom ser a pessoa responsável por criar uma armadilha, mas horrível ser a vítima.
O chão tremeu um pouco, começando a ceder com o seu peso.
— Não quero te apressar, sabe, mas eu acho que estou com os segundos contados.
— Estou terminando — respondeu ela, apressando-se nos objetos. - Mas não quero errar a sequência por estar com pressa.
— Por Morgana, Marlene! Quantas horas você levava para poder mexer nesses pergaminhos todos os dias? — reclamou o maroto, baixinho, olhando para suas botas que pareciam prestes a sumir em algum feitiço.
— E o último...
Lily estava indo até uma estante perto dele, mas o "creck" sob seus pés foi muito alto e, no segundo seguinte, James se viu perder o chão, literalmente. Como último recurso, em um ato de desespero, Lily tentou segurá-lo, mas apenas acabou caindo junto.
A queda estava sendo maior do que deveria ser, dando tempo de James pegar sua varinha com uma mão, segurar Lily com a outra e puxá-la, colocando-a acima de si. Lançou um feitiço em sua capa, utilizando-a como fez com a queda de Harry no jogo de Quadribol há algumas semanas.
A capa os envolveu completamente, fazendo-os desacelerar naquela infinita queda. Longos segundos de queda livre depois, James sentiu seu corpo pousar delicadamente em algum lugar, talvez na própria casa de Morgana de tão longe que pareciam ter ido, com Lily em cima dele. Deslizando por eles, a capa se abriu e revelou que estavam no escuro total. Ele ficou em silêncio, tentando ouvir algo ao redor, mas tudo estava na mais completa calma. Tirando o seu coração, que parecia pronto para sair de seu peito por conta do susto...e de perceber que Lily ainda estava em cima dele.
Agora sua atenção voltou totalmente para ela, que tinha a respiração um pouco descompensada.
— Está tudo bem — disse, usando um tom baixo para não assustá-la. Não houve resposta. — Lily? — Sem pensar, James subiu a mão até encontrar o rosto dela. — Você está bem?
— Estou — foi a resposta fraca.
Ela não era fã de alturas, apesar de pedir inúmeras vezes por passeios de vassoura. Aquilo sempre a tirava dos pensamentos negativos do que ocorria fora dos muros de Hogwarts, ou mesmo da pressão dos afazeres como Monitora-Chefe ou dos estudos.
"Apenas quero ter uma outra razão para ter os seus braços em volta de mim", dizia ela às vezes, obrigando-o a conjurar sua vassoura em tempo recorde e levar a sua namorada para o ar, ficando com os braços firmes em volta dela.
Mas ela não era fã de alturas no resto do tempo.
— Estamos em terra firme novamente — tentou tranquilizá-la.
— Estamos.
Iria comentar o quão monossilábica ela estava, mas outra coisa chamou sua atenção e aquilo varreu para longe todo e qualquer pensamento sobre a falta de sílabas nas frases de Lily: o fato de sentir sua respiração tão perto de seu rosto. De sua boca, para ser mais específico.
Deveria ter reparado o quão perto estavam, já que ele ainda tinha uma das mãos segurando o rosto dela, mas apenas agora, depois de garantir de que ambos estavam bem, conseguiu pensar nisso.
Ficou congelado no lugar. Estava exigindo toda a sua força interior para não mexer sua mão, não deixar os dedos deslizarem pelo rosto dela, acariciar cada canto que tinha contato. E talvez por estar usando todas as forças para ficar imóvel, não tinha mais nenhuma para segurar a própria língua:
— Eu não te deixaria cair — soltou, ainda no mesmo tom de voz.
— Eu sei que nunca cairia com você — respondeu ela, tão imóvel quanto ele.
— Apesar de você ter caído junto comigo agora.
— Não. Eu não quis te deixar cair sozinho, é diferente.
Tentou engolir aquela loucura que estava tomando-o.
Mesmo se pudesse se mexer, ele não o faria. Os corpos estavam tão bem encaixados, os rostos tão bem posicionados para caso ele decidisse tentar uma loucura naquele dia tão louco que já era...
— Argh! Não foram vocês que se beijaram pela primeira vez de um jeito um pouco parecido? — Os dois deram um pulo de susto. James apontou a varinha para a escuridão em sua frente, segurando Lily do outro lado. — Não teve algo sobre cair na floresta ou algo assim?
— Marlene? — Lily indagou, sua varinha também acesa e apontando para todos os lados, tentando achar a dona da voz. — Marlene?!
Agora que Lily tinha falado, sim. Era a voz de Marlene. Mas como?
— Ah, Lily. Você não se lembrou da sequência dos objetos, querida? Você era a única pessoa que eu podia ter certeza que não me decepcionaria.
Não tinha Marlene. Não a pessoa Marlene, pelo menos. O lugar era encantado com a sua persona, um pouco parecido com a magia usada no Mapa do Maroto.
Ao seu lado, ouviu o riso de Lily. Um riso saudosista, ele diria.
— Você sabe, acabei trazendo alguém junto e deixei que ele escapasse do meu agarro por um segundo.
— E aqui vocês caíram. — A voz de Marlene soava tediosa, como se fosse claro que qualquer outra pessoa cometeria algum erro. — Honestamente, James, eu esperava um pouco mais de você.
— Honestamente, eu também — respondeu ele.
As duas varinhas acesas continuavam a não clarear nada ao redor. Era impossível saber onde estavam. Pelo tanto que caíram, parecia que estavam a meio caminho para o centro da terra.
— Eu sei que morri, já que essa magia aqui foi acionada. Eu fico feliz que vocês ainda estejam inteiros e bem, mas a pergunta é: o que estão fazendo aqui?
— Você tem uma lista de suspeitos que montamos alguns anos atrás e ela vai ser de bom uso — começou Lily. — Sei que ela ficava na pilha de pergaminhos com acesso pela sequência de objetos.
— Então vocês não vieram para escapar da rotina e transarem na minha casa? — Ouviu Lily engasgar levemente. Queria rir, mas achou melhor segurar o ímpeto. — Eu bem lembro que vocês gostavam de escapadas.
— Ahm, não. Estamos aqui pela lista — a ruiva continuou.
— Que tédio. Era o mínimo que a minha casa vazia poderia fazer por vocês. A vontade, pelo menos, estava ali. O que me alivia saber que mesmo depois de tantos anos juntos, vocês ainda têm uma grande vontade pelo outro.
Uma risada rouca, tão típica da antiga colega da Ordem, preencheu o lugar, impedindo James de ouvir qualquer coisa de Lilly e ela dele, já que o maroto teve a impressão que sugou o ar como se tivesse sido pego no flagra de alguma maneira.
— Como podemos sair daqui? — Foi a pergunta de Lily, claramente tentando fugir do assunto.
— Já querem sair? Eu pensei que gostariam de bater um papo comigo depois de tanto tempo. Quer dizer, eu imagino que eu tenha morrido há alguns anos já. Eu não saberia dizer. Aliás, para que precisam da lista?
— Você não sabe de muita coisa, mas podemos resumir e dizer que Voldemort está de volta — intrometeu-se James.
— Oooh! — Um silêncio seguiu-se logo após o choque da persona de Marlene. — "Volta", então quer dizer que o paramos em algum momento?
— Sim, mas ele tinha mais cartas nas mangas do que pensávamos — explicou James. — Horcruxes.
— Horcruxes? No plural? Esse animal é mais esperto e repugnante do que pensávamos.
— Nada com o que não podemos lidar, claro. — James olhou confiante para Lily, querendo que ela acreditasse naquilo tanto quanto ele. — Harry está seguro em Hogwarts. Você iria adorá-lo. Sirius já fez um bom estrago, então eu tenho certeza que você teria uma boa porcentagem para estragar também.
— Ah, James, querido. Se Black conseguisse metade das minhas conquistas, talvez eu acreditaria. — A rouca risada voltou. — O principal é que ele tem todos vocês para o estragarem.
Era verdade que Sirius e Marlene tinham uma boa disputa. Por um lado, o padrinho de Harry trazia toda a leveza, irresponsabilidade e malandragem. Marlene já era do time dos espertalhões e que não costumava se vangloriar, deixando com que as vítimas ou espectadores falassem sobre o seu feito sem tê-la por perto.
— Você faz uma imensa falta — Lily voltou a falar, a voz um pouco quebrada pela emoção. — Alice e eu sempre deixamos o seu lugar reservado quando nos encontramos. Apesar de ser apenas uma magia agora, eu quero que você saiba que é mais lembrada do que poderia imaginar.
James abaixou a cabeça, solidário pela dor que Lily sentia. Perder um amigo, como ela havia perdido, devia ser dilacerante e algo que ele não gostaria de imaginar. Perdeu Peter, aquele garoto bobão e até então inocente. Aquele garoto foi perdido e James sentia por isso, mas a traição fazia com que a dor dessa perda fosse menor do que se Peter tivesse sido morto como ocorreu com Marlene. Neste caso, restou desprezo por cima de qualquer dor pelos anos que puderam se chamar de irmãos.
Não poderia imaginar perder Sirius ou Remus daquela forma. Seria um pedaço da sua alma arrancado sem piedade.
— Eu tenho certeza que se existe algum tipo de fantasma que não possamos ver, o meu está ali com vocês. Sendo magia ou não, eu sei o que sentia e eu posso dizer que não existiu pessoas tão especiais quanto vocês!
Aquilo arrancou um sorriso triste da ruiva, assim como de James. Queria poder abraçar Lily, acalentar aquela perda que continuava não sendo fácil, mas não sabia se seria bem-vindo.
Se bem que, considerando a posição em que caíram ali, em como ficaram tão perto e longe de estarem incomodados, talvez não seria rechaçado.
— Bem...— Lily enxugou uma pequena lágrima, forçando-se a sorrir. — Talvez esteja na hora de nos ajudar a voltar. Ainda precisamos daquela lista e eu estou cansada de ficar desejando coisas por meio de um espelho esquecido em uma sala gelada ou uma magia da minha grande amiga.
Marlene riu com vontade de novo.
— Vou fingir que acredito que queiram sair daqui para a lista ao invés de continuarem o que estavam fazendo ao caírem aqui. — Eles se entreolharam rapidamente, desviando os olhares tão rápido quanto. — De qualquer maneira, eu acho melhor vocês se apressarem para cuidarem desse ferimento.
— Ferimento? — James perguntou. Levou um segundo para perceber que não tinha se machucado. Virou-se para Lily. — Você está machucada?
Virou a luz da varinha em sua direção, procurando por algo...
— Não é nada — disse ela, quando James viu um enorme corte em sua perna. — Eu tinha até esquecido.
— Eu pensei que estava bem!
— Parece que não conhece a esposa que tem, James. Ela poderia estar com o coração pendurado para fora do peito e ainda estaria aqui conversando, planejando se costurar sozinha no quarto, fora das vistas de todos, principalmente das suas.
— Das minhas?
— Claro! Ela odiava te preocupar por nada. Muitas vezes durante a Ordem, ela escondia-se depois de missões para se ajeitar sozinha, nos fazendo prometer não te contar para que não ficasse preocupado. Desculpe, Lily querida, mas isso tem que acabar de uma vez por todas. Eu já não estou aí para tentar te salvar caso uma poção não for o suficiente.
Olhou para Lily, incrédulo, lívido.
— Você se escondia quando estava machucada?! — Estava tentando controlar a sua voz de choque, mas estava difícil. — Por isso que, algumas vezes, suas missões pareciam tão longas?!
— Você já parecia carregar o mundo, James. Você era uma das pessoas mais centradas, sempre cheio de energia e ideias, além de ser quem as pessoas pareciam recorrer na maioria das vezes.
— Você era a minha esposa, Lily! — cortou ele. — Tudo perdia a importância se você estivesse mal ou machucada.
— Por isso! — exclamou a ruiva, apontando para ele. — Nós não poderíamos perder tempo ou chances de missões por conta de algo fácil de ser resolvido.
— Duas vezes você quase virou magia da alma em uma sala como essa, querida — voltou a falar a tal magia de Marlene na sala. — Sorte sua que eu fui teimosa e te segui.
Levou as mãos aos cabelos, sem acreditar no que ouvia. Lembrava-se de algumas missões de Lily onde ela demorou mais do que o normal para voltar. Inclusive, chegou a pensar que algo tinha dado tremendamente errado, fazendo-o ir até um porto na Irlanda do Norte onde ela deveria captar uma nota importante, mas não encontrou nada. Ficou morto de preocupação até vê-la entrar na sede da Ordem como se o mundo não estivesse acabando lá fora e James a ponto de enlouquecer de preocupação, tendo Sirius o impedindo de sair por aí procurando por ela.
— O importante é que não virei. Não poderíamos ser egoístas naquele estágio, o importante era que pudéssemos...!
— Não. Não, não, não — James voltou a cortá-la, quase arrancando os cabelos. Respirou fundo, relaxando os braços. — Marlene, pode nos tirar daqui, por favor? A perna dela está sangrando como uma cachoeira e eu não vou usar feitiço para estancar esse sangue todo em um lugar com tanta magia carregada e desconhecida.
— Como quiserem. Mas é melhor você segurá-la, porque a volta não vai ser leve.
Não hesitou desta vez. Lily poderia reclamar ou afastá-lo depois caso quisesse, mas neste momento ela teria que aceitar.
Foi até ela e prontamente a pegou nos braços, deixando a perna ilesa contra o próprio corpo enquanto a perna machucada ficava livre.
— As saudades continuam imensas, Mars — Lily anunciou ao não reclamar ao ser pega, nem quando segurou no pescoço de James. — Sempre serão!
— Obrigada, querida. Eu estou com vocês! James querido, coloque essas bonitas pernas para jogo e mantê-los em pé na volta.
Não teve tempo de responder, pois logo sentiu que o chão começou a tremer. A impressão era que outro buraco se abriria e continuariam a cair, mas as varinhas se apagaram como velas no vento e eles foram lançados no ar e escuridão total.
Segurou Lily contra si, receoso de deixá-la cair naquela confusão de magia.
/-/
" — Mas e se eu cair? — perguntou ela, enquanto olhava para a sua Nimbus 1500.
— Eu não vou te deixar cair. Nunca. — James esticou ainda mais o braço em direção à ela, que estava na janela da biblioteca de Hogwarts em uma longa noite de estudos. — É uma promessa!
— Como pode me prometer algo assim? Você não pode ter controle sobre tudo — riu ela, mas aceitando a mão dele.
O maroto voou até mais perto da janela, querendo que ela sentisse a segurança para poder ir naquele passeio noturno pela primeira vez e esquecesse dos livros por alguns minutos.
— Eu posso, caso isso signifique que você fique à salvo. — Ele puxou um pouco a mão da ruiva, dando a entender o quanto queria que ela se decidisse pelo "sim". — Você aceita a minha promessa?
O sorriso de Lily era tão aquecedor, tão perfeito, que James poderia voar mesmo sem uma vassoura apenas se pudesse ter aquele sorriso todos os dias ao seu lado.
— Me leve para o mais alto que puder, Capitão!
Lily aceitou o assento na Nimbus e naquela noite, James voou o mais alto que podia nos terrenos de Hogwarts. Não para impressioná-la, não para brincar com ela, mas para mostrar que não haveria altura ou condições que o fariam quebrar aquela promessa. Nunca"
/-/
Não quebrou aquela promessa no sétimo ano, nem em qualquer outra vez. Não seria hoje que ele a quebraria, então a segurou forte enquanto concentrava-se no que poderia ser o pouso que Marlene havia comentado.
Lily, aquela mulher forte e que — aparentemente — escondia seus machucados, que lutou quatro vezes contra Voldemort e botou Comensais para correr inúmeras vezes — e os marotos também, tinha que confessar — agarrou em seu pescoço e escondeu seu rosto ali. Eles pareciam subir muito rápido, mas sempre no absoluto escuro, com muita magia os cercando, vento e zumbidos. Não tinha muito do que ela se esconder, mas talvez o medo da altura a amedrontou o bastante para não querer espiar.
Suas pernas falharam por um segundo quando sentiu finalmente o chão, mas estar avisado de que o impacto viria ajudou a encontrar o balanço.
Estavam de volta ao escritório de Marlene, mas não existia mais aquele enorme buraco pelo qual caíram, o que o deu certeza de que tudo aquilo foi feitiço de ilusão. Não caíram por tantos e tantos metros e nem tiveram que subir tudo...talvez nem tenham saído do lugar.
A única coisa que fazia tudo aquilo cair por terra, era a perna de Lily que ainda estava machucada.
Falando nela, a ruiva já tinha levantado o rosto de seu pescoço, apesar de ainda segurá-lo como se voassem em direção à Lua.
— Em terra firme de novo — anunciou James. Os braços dela não mexeram nem um centímetro. — Tudo ok? — Lily apenas assentiu, olhando ao redor, provavelmente querendo se convencer de que não sairiam voando novamente. — Então me guie nessa casa até onde podemos achar algo para cuidar de você, mas sem nos matar no caminho, por favor.
Desviando de alguns pisos de madeira específicos no meio do caminho os quais Lily o alertou, eles chegaram a salvo no banheiro do outro lado do corredor.
— Não há nada para temer neste cômodo. Marlene queria que os hóspedes pudessem ter um momento tranquilo quando tivessem seus afazeres por aqui.
Aquilo era um alívio. Foi até a banheira e sentou Lily ali, com a perna machucada apoiada na borda da mesma, enquanto a boa perna ficava para dentro. Foi até um armário e começou a procurar por poções e mais poções por ali, sem muito cuidado, tendo os frascos batendo um no outro. Tentou não demonstrar tudo o que estava sentindo, toda aquela mistura de sentimentos: indignação; um pouco de traição, mas também uma certa felicidade pelos últimos minutos (seja o que aconteceu quando estavam deitados, ou tendo Lily em seus braços, com os dela bem presos em seu pescoço); saudades de Marlene...
Era muita coisa para sentir em um curto tempo.
— Você está bravo.
Ela não estava perguntando. James pensou fingir não ter escutado, mas quando estava conferindo a quinta poção que parecia ter apodrecido e não parecia achar nada ali para ajudar com a perna sangrenta de Lily, parou de procurar e apoiou-se na pia, respirando uma, duas, três vezes.
— Não vamos achar nada aqui para te ajudar. Vou te levar para o St. Mungus.
— Tenho algo em casa que fará o necessário.
Balançou a cabeça, uma, duas, três...até quase dez vezes.
— Eu não acredito no que estou ouvindo, nem no que ouvi. — Virou-se para ela, que não tinha saído do lugar, mas parecia ter conjurado algo para estancar o machucado. — Quantas vezes você nos curou em Hogwarts depois das luas? Você invadia a enfermaria à noite para aplicar uma poção de sua autoria em Remus para que ele se curasse mais rápido. Você ia até o dormitório do sétimo ano para ajudar Sirius e Peter...a mim. E o que você fez durante os anos mais tensos e perigosos das nossas vidas? Se escondeu! Pelo o que fiquei sabendo, algumas vezes foram ruins o suficiente para que Marlene se preocupasse com a sua vida. Enquanto isso, eu estava na sede da Ordem ou em casa, preocupado com você. Então você chegava como se nada tivesse acontecido, me acalmando e dizendo para não me preocupar.
—Está fazendo algo maior do que é, James. Eu apenas me curava logo depois das missões, em um lugar reservado, sem precisar chegar onde quer que fosse em um mau estado. Muitos faziam isso. Você já fez.
— Eu quase te perdi nessas vezes, Lily!
— Apenas duas vezes — Lily o corrigiu.
— Você não é um gato que tem sete vidas! — ralhou ele. — Uma vez já era o bastante para você não voltar, para te perder. — Apontou para o nada, querendo apontar para o passado. — Por que não confiar em mim para te ajudar?
— Sempre confiei em você. De olhos fechados, sempre.
— Então por que a minha esposa não vinha até mim quando estava quase morrendo? — James segurava-se para não botar aquela sensação horrível de ter sido deixado de lado em um momento tão importante, sair como estava em sua cabeça.
Pois sua cabeça gritava só de imaginar tudo aquilo.
Não considerava-se um cara rancoroso. Poucas vezes na vida levou alguma rinha ou problema do passado para o presente e o futuro — isso não inclui Severus Snape ou até Comensais da Morte ou Voldemort, claro —, pois sempre viveu sob o pensamento de que o que passou, passou. Achava mais fácil lidar com a leveza de um perdão do que com o peso de um rancor.
Não tinha o que perdoar Lily sobre aquilo, mas ter aquela informação naquele momento soava como um problema do presente, como se ontem mesmo ela estivesse se escondendo em um canto escuro, tentando arrancar uma maldição de sua alma...enquanto ele estava sentado em sua mesa do escritório, lendo malditos relatórios e tomando um chá.
Aquilo era inconcebível, inaceitável. E apesar de não estarem mais casados, ele fez votos: cuidaria dela dia e noite, anos após anos, até que a morte os separasse.
E sim, eles passaram anos afastados, quase não tendo notícias um do outro, mas não poderia dizer a velocidade com o qual correria até ela caso soubesse que precisava dele.
— Eu expliquei, James. Eu te via correndo para todos os lados para tentar estar disponível para todos. Ninguém ousaria dizer, mas eu ouso: você carregou a Ordem nas costas, muito mais do que muitos dos que deveriam. Você sempre foi um líder, um Capitão que todos querem seguir. As pessoas te ouvem, diria até "obedecem". Coordenou toda a caça às horcruxes, mesmo tendo Inomináveis com larga experiência com objetos das trevas nessa tarefa.
— Eles não importavam, não importam. Você sim! Se a minha esposa está com uma maldição que a impedia de respirar, eu quero estar lá e ajudar. Se tem um feitiço que está drenando sua vida, eu quero estar lá e ajudar. Se está apenas sentada na borda de uma banheira com um simples corte na perna, eu quero estar lá e ajudar.
Sua respiração estava descompassada. Percebeu que não disse "ex-esposa" no fim da frase, mas honestamente? Não ligava. Ela era tão importante antes quanto agora.
— Se um deles estivesse na beira da morte... — Lily tentou, mas James levantou a mão rapidamente.
— Você! Você, você em primeiro lugar. Eu fiquei triste ao perder os gêmeos Prewett, Fenwick, Marlene...perder você seria mais do que triste, mais do que devastador! — Abaixou-se em sua frente, ainda sentada na banheira. — Como você pôde pensar que eu iria querer salvar qualquer outra pessoa?
— Eu não acho que você escolheria salvar outra pessoa, mas eu sabia que estava bem. — Lily sorriu, tentando acalmá-lo. — Eu tenho certeza que você entende isso, caso parar para pensar. Você nunca veio até mim depois das luas.
— Por saber que você estaria ali nos primeiros raios da manhã. Eu deitava, caía no sono até com o cansaço, mas pensando que você passaria por aquela porta e eu teria todo o seu cuidado. Não por imaginar que era o seu trabalho, mas porque eu sabia que éramos importantes para você. — Suspirou, ainda tentando se acalmar. — Não era para ser diferente com você. Eu estaria em qualquer lugar que precisasse de mim.
Lily abriu a boca, ajeitando-se, querendo olhá-lo melhor.
— Não pense que eu duvidava da minha importância para você por não ter te procurado. Nunca foi por isso, mas sim para te poupar.
— Eu só quero que a minha esposa venha até mim quando ela está precisando de mim. — A frase apenas saiu, baixa, quase um murmúrio.
Estava a ponto de corrigir para "ex-esposa", mas Lily não lhe deu tempo:
— Você esteve em momentos muito mais importantes do que pode imaginar. — Ela levantou o seu queixo, fazendo-o olhá-la. — Você esteve ao meu lado quando perdi meus pais no sexto ano, quando ainda nem éramos próximos. Esteve em cada etapa da minha vida depois de tudo o que aconteceu. Eu sinto que nada poderia acontecer comigo caso você estivesse ao meu lado.
Começava a entender a própria fúria: era o simples medo de perder Lily, algo que não sentia há muitos anos, e que tomava cada pedaço de si. De perdê-la do pior jeito que poderia existir, um jeito que ele não estava inclinado a presenciar, aliás. Pensar que isso quase aconteceu duas vezes e ele não estava lá, lutando, ajudando, deixava-o fraco e impotente.
Para alguém que lutava pelos seus sem pensar, de olhos fechados, ter tirado de si a oportunidade de fazê-lo era como o pior castigo do mundo.
Perder Lily, ou Harry, ou Sirius e Remus, sem lutar...James preferia ir antes do que ter que conviver com isso.
— James, hey! — A ruiva colocou uma mão em seu ombro e o apertou. — Aqui estamos, eu não estou me escondendo e tenho uma ou duas poções dentro da minha bolsa que podem ajudar, mas ela está no escritório e eu sei que há uma proteção contra feitiços convocatórios do que tem lá dentro.
Finalmente algo que ele poderia fazer por ela.
— Vou pegá-la.
— Cuidado com o caminho! — avisou a ruiva, quando ele já saia do banheiro.
Ele tomou cuidado. Levou seu tempo, preferindo ter certeza por onde ia, do que desaparecer por um buraco negro de novo. A bolsa de Lily estava caída não muito longe de onde o tal buraco tinha aparecido e engolido-os.
Quando voltou para o banheiro, encontrou-a com algo na mão, prestando total atenção. Aproximando-se, viu que era o seu broche de Auror, que deveria ter caído de seu casaco durante a confusão.
Os pensamentos de Lily estavam tão longe, que a presença de James ainda não tinha sido notada. Depois de quase um minuto onde ela estava profundamente compenetrada naquele pequeno objeto, o maroto resolveu limpar a garganta, chamando seu olhar em sua direção.
— O seu broche acabou ficando enroscado no meu cardigan — explicou ela, dando um sorriso xoxo.
— Eu o uso quando posso ser chamado a qualquer momento. Com essa coisa da fuga, estamos ocupados.
Ela soltou um riso pelo nariz, voltando os olhos para o objeto.
— Eu lembro.
Aquelas duas palavras simples foram ditas com mais pesar do que normalmente seriam e James sabia a razão: aquele broche era algo que ela o via colocando sempre que saia de casa correndo, atrás das horcruxes. Um simples objeto que não significava nada, mas que trazia tantas lembranças ruins. Tinha uma recordação de uma discussão de ambos, já nos últimos momentos do casamento, onde ele se via colocando o broche enquanto Lily o assistia com os olhos cheios de lágrimas.
Na primeira vez que o usou, foram as mãos de Lily, tão cheia de orgulho, prendendo em seu uniforme. Na última vez que a viu, aquele broche foi visto através das lágrimas de desalento.
Abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa que tirasse aquela expressão dela, mas travou. O que poderia dizer e que cabia no momento? Sentia que poderia explicar que aquilo tudo estava no passado, mas não parecia ser o momento para tal. A impressão era de que entrar naquele assunto naquele exato minuto traria mais mal do que bem.
No total silêncio, Lily depositou o broche na beirada da banheira, alguns palmos longe dela, querendo ignorar a existência de tal coisa. Sem perder tempo e não querendo alongar mais aquilo, James ofereceu a bolsa para a dona.
— O corte não está tão ruim — Lily comentou enquanto tirava dois frascos da bolsa. — Não vou demorar.
James olhou para o relógio instintivamente, sem realmente se importar com a hora.
— Não tenho lugar algum para estar.
Ela não respondeu, apenas concentrando-se em seu machucado. James, encostado na pia, observava de braços cruzados, lutando contra o impulso de arrancar aqueles frascos das mãos dela e tratar cada centímetro do machucado pessoalmente. Uma sensação de que tinha que compensar por todos os outros que não pôde curar estava tomando conta de si.
— Temos que contar para Harry — ela quebrou o silêncio. Vendo a expressão de confusão do maroto, ela continuou. — Sobre a horcrux, Voldemort.
Terminando com o primeiro frasco, ela partiu para o segundo. James apertou mais os braços contra o próprio peito, o desejo de pular na cena e apenas cuidar dela estava ficando cada vez mais urgente.
Falar sobre Harry e toda aquela merda ajudaria sua mente a sair daquilo.
— Eu acho que tem razão — concordou ele. Harry precisava saber o que estava acontecendo. Viver no escuro sobre a sua própria vida era inaceitável, por mais complicado que pudesse ser. — Mas talvez... talvez pudéssemos apenas filtrar as coisas. A informação de que Voldemort está de volta não pode ser deixada de lado, então ele precisa saber disso.
— Ele também sabe das histórias das horcruxes, então eu acho que ele deve saber que ainda há uma — continuou a ruiva.
— Podemos dizer que há perigo como havia antes, mas não quero que ele se veja como um alvo com pernas. — James fechou os olhos ao ver uma rápida careta de Lily quando a mesma pressionou o machucado. Apertou mais uma vez os braços para travá-los. — Eu quero que Harry jogue Quadribol, corra pelos corredores para chegar a tempo para as aulas, coma doces em seu quarto com os amigos e jogue Snap Explosivos na Sala Comunal. Que se empanturre com as comidas do castelo, descubra as passagens secretas e aproveite cada segundo daquele lugar.
— Ele irá fazer tudo isso. Já está fazendo, na verdade. — A ruiva riu um pouco antes de continuar. — O nosso trabalho é garantir que ele continue. Harry é apenas uma criança, mas deve saber que alguém o colocou em um perigo iminente, não podendo ficar cego pelo o que ocorre aqui fora. Mas faremos de uma maneira que não o deixe mal.
Conferindo o relógio novamente, James começou a caçar algo dentro dos seus bolsos.
— Se sairmos em até vinte minutos e contando com o caminho que faríamos até lá, ele já terá terminado o jantar e o salão comunal estará mais vazio.
Parecia que Lily não estava planejando ir hoje contar algo para Harry, pois ela arregalou um pouco os olhos.
— Você quer ir hoje?
— Lily, eu estava me preparando para um dia longo e complicado, mas sem imaginar que encontraria um fugitivo de Azkaban em uma caverna em Hogsmeade e sem poder levá-lo preso, muito menos uma visita à antiga casa de Marlene e cair em uma de suas armadilhas, além de falar com ela, mesmo não sendo ela. O dia de hoje apenas está me mostrando que é melhor agir antes de sermos pegos de surpresa. De novo.
— Acho que podemos, então.
— A não ser que tenha compromisso, claro. — Afinal, ela tinha um namorado, uma vida fora dessa vida de Ordem e ex-marido.
Terminando com o segundo frasco, Lily levantou-se.
— Estou livre.
Achando o espelho dentro do bolso interior de sua capa, James chamou pelo filho. Quando Sirius tinha avisado-o que entregou o terceiro espelho que ligava aos outros dois, havia prometido a si mesmo que não ficaria chamando o filho toda hora, apenas quando fosse absolutamente necessário ou urgente. Como não sabia se Harry estava sozinho para receber um patrono, era melhor tentar o espelho, na esperança que ele o tivesse naquela hora.
— Pai!
A voz empolgada e o sorriso de Harry eram uma benção naquela loucura.
Sentiu Lily se empertigar ao seu lado, querendo ver o filho também.
— O que acha de ter uma visita em uma hora? Janela oeste do salão comunal. Consegue esvaziar o lugar?
— Fácil! Ainda tenho aquelas...!
— Ah, ótimo! — apressou-se para impedir que Harry dissesse na frente da mãe que embarcou para Hogwarts com alguns artigos não muito amigáveis com a lei e ordem do castelo. — Destranque a janela e logo estaremos aí.
— Você não está vindo sozinho?!
Lily puxou o espelho um pouco para baixo, fazendo-se presente.
— O que você ainda tem e que poderia esvaziar o salão comunal, Harry?
— Oi, mãe. — Harry riu um pouco demais, envergonhado por ter sido pego no flagra, a voz um pouco fora do tom. — Que saudades! Você também está vindo? Que ótimo. Tanta coisa para contar. — O filho riu um pouco mais, até parar completamente. — Está tudo bem? Por que estão vindo juntos? Eu não vi o Tio Moony no jantar, ele está bem? Tio Pads está bem? O que está acontecendo?
— Apenas gostaríamos de conversar sobre algumas coisas que tem acontecido aqui fora, ok? Todos estão bem.
Harry não parecia convencido.
— Oookk. O salão comunal estará vazio quando vocês chegarem. Janela oeste...estarei esperando.
O tom de preocupação no seu filho de 11 anos era uma das últimas coisas que queria ouvir na vida.
Desligou o espelho e colocou-o de volta no bolso, esfregando os olhos.
Por que aquilo tinha que acontecer de novo? Com eles, com Harry. Era para estarem felizes, seguros, com um futuro brilhante.
Olhou para Lily, que o assistia, com os olhos verdes mergulhados nas mesmas questões que as dele, era claro.
— Nós vamos vencer, lembra? A última dança do fim da maior e mais difícil festa e sairemos vencedores, James! Nós apertamos as mãos e tudo.
Aquilo arrancou uma risada dele.
— Eu vejo isso como uma promessa. Então nos guie para fora desta casa cheia de armadilhas para então eu poder te mostrar que mais do que uma promessa está sendo cumprida.
Ela lhe enviou um olhar indagador, mas o maroto apenas apontou para que saíssem dali.
Estava na hora de darem uma pequena volta por Hogwarts.
Quando saíram no gramado do castelo pelo Salgueiro Lutador, James fez uma nota mental de perguntar para Dumbledore ou Hagrid se aquela saída estava sendo monitorada também. Bastaria algum curioso sem temor da Casa dos Gritos começar a fuçar pelo lugar e achar o túnel.
— Essa visão, alguma vez, será banal para alguém? — perguntou Lily ao olhar para o castelo ao fundo, com suas poucas luzes acesas, mas ainda trazendo toda a sensação de conforto e segurança que sempre trouxe.
— Dificilmente. — James lançou um feitiço de conjuração não verbal, levantando o braço logo depois. — Mas, como você mesma sabe, essa ainda não é a melhor vista do castelo.
A boca da ruiva caiu no exato momento em que o silvo da vassoura se fez presente, pousando na mão do maroto dois segundos depois.
— Então era essa a promessa? Hoje você mais do que mostrou que ainda a cumpre — comentou ela, sorrindo com nostalgia.
— Isso é um "não" para um passeio de vassoura? — disse ele, montando na Nimbus 2000 de Harry, a qual tinha convocado. Esperava que o filho não tivesse percebido, ou estaria enlouquecendo em saber que alguém tinha invocado a sua vassoura.
— Nunca! — respondeu ela, empolgada. — Faz tanto tempo...
A última frase foi baixa o suficiente para James saber que era um pensamento que escapuliu e que não era para ele ter ouvido.
McGuillen, jogador profissional de Quadribol, não a levava para passeios de vassoura? O que aquele cara fazia para que Lily estivesse minimamente interessada? Começava a pensar que sim, ela está sob efeito de Imperius.
Um pensamento um pouco sujo surgiu, mas descartou. McGuillen, mesmo se fosse bom de cama, ainda não teria o suficiente para ela, por mais que Lily pudesse ser uma mulher que gostava bastante desse lado da vida.
Ela não era difícil de agradar, nem uma mulher impossível de agradar. Mas tudo o que via ou ouvia relacionados à McGuillen ia contra tudo o que ele viveu e sabia que Lily gostava.
Passeios de vassoura — mesmo com o seu medo de altura —; tempo de qualidade com Harry, levando-o em jogos de Quadribol; sem exibicionismo, não a tratando como um troféu...
Não entendia aquela dinâmica.
— Vamos?
Lily estava esperando para que ele lhe desse espaço, então tratou de acordar e escorregar para trás. Aquela vassoura não era para viagem, nem para carregar duas pessoas, mas teria que fazer o trabalho.
O trabalho esse era levar aqueles dois adultos até a janela oeste da torre da Grifinória, deixando-os espremidos. Seria tranquilo para um casal, não para um ex-casal.
Queria pedir desculpas por estar com o corpo colado no dela, mas assim que Lily se aconchegou na Nimbus, tendo uma perna de cada lado e suas costas (e todo o resto) bem aconchegado contra a frente dele (e todo o resto) sem reclamar, James achou que "desculpas" não eram necessárias.
Respirou fundo, fechando os olhos, repetindo mentalmente o quanto aquela dinâmica não funcionava para um ex-casal ou qualquer um que não fosse um casal.
Que ideia, seu idiota!, pensou.
Quando teve aquela geniosa ideia, apenas pensou sobre o quanto queria levá-la para um passeio de vassoura após um momento tão ruim com a queda no apartamento de Marlene. Queria tirar aquela má experiência da mente de Lily, sem pensar no que aquele passeio de vassoura faria com a sua própria mente.
— Você irá nos conduzir — tentou dizer, a sua voz falhou um pouco quando ela se ajeitou ainda mais. — Até a janela. Do salão comunal. Janela do salão comunal. Oeste.
— Será que eu vou lembrar como fazer?
James balançou a cabeça, precisando se concentrar em não deixá-los cair ao invés de pensar em como ele poderia reagir com tudo aquilo.
Não podia quebrar aquela promessa com ela.
Tinha que colocar sua mente na do Capitão do time da Grifinória e ajudar Lily a conduzi-los até seu destino.
— Vamos lá, Evans. As duas mãos bem presas na Nimbus, afastadas do seu corpo o suficiente para que seus braços estejam bem estendidos, mas maleáveis o bastante para as curvas.
— Capitão Potter está presente, eu vejo — ela brincou. — Ok, Capitão. Eu preciso de mais espaço, então.
James lhe deu mais cinco centímetros, mas não podia mais do que aquilo. Estava no seu limite.
Foi, então, que Lily escorregou para trás, pegando mais espaço.
Maldição de Morgana! Se antes estava espremida contra ele, James não poderia descrever o que ela estava agora. Seu rosto misturava-se com os cabelos rubros, o seu queixo depassando os ombros dela...
Voldemort vestindo roupas de baixo de uma velha senhora; Severus Snape em seu lugar; Sirius tomando poção Polissuco e transformando-se em Lily; tortura de Pelucios; Walburga Black batendo em Sirius; o jovem Remus morrendo de medo de se transformar na frente dos amigos pela primeira vez...
Tentou pensar em todas as coisas ruins que o assombrariam — ou que assombrariam qualquer outra pessoa —, mas a realidade estava mais forte do que sua imaginação.
— Meus braços estão prontos — anunciou Lily, que também deu um impulso para frente e os levantou alguns metros do chão. Ela parecia radiante com o próprio feito. — Ah, era a posição que não estava certa.
Não fale sobre posições, Lily, enquanto eu paro de pensar nelas.
— Lembre-se de não colocar o seu peso, mas sim a pressão no braço da direção em que você quer virar.
— "Não coloque o seu peso, ou o seu corpo vai girar no eixo da vassoura e você vai cair". Eu lembro das instruções, Capitão Potter.
James sorriu ao ver que Lily ainda lembrava da primeira vez que a deixou conduzir.
— Pés em cima dos meus, no apoio de pés. — Lily já o fazia enquanto ele ainda falava. — Está sentindo que tem o controle?
Lily ajeitou os ombros, fazendo com que o rosto de James raspasse de leve contra o seu.
— Estou sentindo. Ahm, controle. Da Nimbus, sim — embaralhou-se ela.
O maroto comprimiu os lábios. Era óbvio que ele não seria o único a estar bem consciente daquela aproximação. Pela falta de reclamação dela, arriscaria dizer que não era algo que ela era contra.
Merda, aquilo só piorava.
— Estamos prontos então, Evans!
Começaram a pegar velocidade para cima. James teve que ajeitar os cabelos de Lily, que insistiam em voar em seu rosto, tendo que segurar e colocá-los para o lado, deixando o pescoço dela livre e a milímetros do seu rosto.
Por um momento, desviou o olhar do caminho que Lily seguia e olhou para baixo. A pele dela tão alva, com algumas sardas. O perfume leve e adocicado que o deixava tonto.
Caso deixasse seu rosto cair apenas um pouco, seus lábios a tocariam.
Aquele desejo que o pegou foi muito intenso. Imaginava beijar aquele ponto bem devagar, subindo até seu ouvido. Ele a abraçaria, uma das mãos subindo até seu pescoço pela frente, segurando-a no lugar para que pudesse beijá-la melhor. A outra mão a seguraria pela cintura, apertando-a ainda mais contra ele, até começar a subir pelo seu corpo...
— Janela oeste? — a pergunta dela o fez desviar de sua pele, uma ducha de água fria em sua imaginação. Como Lily não ouviu uma resposta de imediato, jogou a cabeça contra ele, o que acabou trazendo o seu ouvido contra o lábio dele despropositadamente.
— Janela oeste — sussurrou ele, os lábios ainda colados no ouvido dela.
— O-onde?
Percebeu que perderam velocidade. Isso queria dizer que Lily estava desconcentrada ou não mais conectada com a Nimbus, não tendo mais o controle sobre ela.
— Oeste — repetiu, no mesmo tom, mas colocando as mãos nos braços de Lily, deslizando-as até as mãos dela, controlando a Nimbus. Inevitavelmente, aquilo tornou-se um abraço, mas para ser sincero, não fez aquilo para tirar vantagem.
Afinal, eles já estavam em uma posição bem "confortável", se considerasse os desejos dele, mas ele tinha feito uma promessa anos atrás e eles não cairiam daquela vassoura nem por um segundo, nem um metro.
A Nimbus ganhou velocidade novamente.
— Ah, sim. Oeste, foi o que disse para Harry.
A voz dela estava leve e um pouco rouca, diferente do tom brincalhão usado há alguns segundos.
— Vamos virar para a esquerda agora — sussurrou ele ainda em seu ouvido.
Lily já não controlava a Nimbus, era apenas ele. Tinha a impressão de que a ruiva não estava ciente de que tinha perdido o controle ainda.
Deram uma grande volta, com Hogwarts à sua direita, a torre de Grifinória ficando cada vez mais perto.
Em uma das janelas oeste da torre, viu uma sombra sentada. Aquilo alertou James. Seria a coisa mais estranha para o filho ver os pais assim, quando estavam separados por tantos anos.
— Consegue parar paralelo à janela? — resolveu perguntar, assim fazendo Lily ter o controle da Nimbus novamente, o que o permitiria soltá-la daquele abraço.
— Posso tentar — respondeu ela, parecendo mais concentrada também.
A ruiva começou a diminuir a velocidade enquanto virava, fazendo assim com que a vassoura pudesse se aproximar.
Harry abriu a janela assim que os viu, apresentando um enorme sorriso.
— Mãe, você está conduzindo a Nimbus! — O garoto parecia muito entusiasmado, enquanto se esforçava para não passar de sussurros.
— Você acabou de fazer a noite do seu filho! — brincou James, também sorrindo ao ver a felicidade de Harry.
Com perfeição, Lily parou a vassoura. James apoiou o pé na janela para mantê-los estáveis, enquanto Harry oferecia a mão para que a mãe pudesse descer da vassoura. Os dois se abraçaram, enquanto James entrava pela janela e a fechava.
— O que precisam conversar comigo? Tio Moony disse que não tinha certeza, tio Pads disse que poderia ter uma ideia, mas não iria dizer nada. Eles já sabem que estão aqui, disse que iriam esperar por vocês na Casa dos Gritos depois.
Harry tagarelava. James olhou pelo lugar, conferindo que ninguém estava mesmo presente. Parece que o filho tinha feito um bom trabalho em dispersar todos os alunos dali.
— Sente-se, Campeão. Vamos explicar algumas coisas, mas saiba de antemão que tudo vai ficar ok. Estaremos todos juntos.
O garoto sentou-se perto da lareira, os olhos grandes de curiosidade e receio.
James e Lily se entreolharam, mas o primeiro deu um pequeno sorriso para ela, encorajando a ambos.
Estava na hora de contar para o filho algo que eles nunca pensaram ter que contar.
J~H~L
Harry estava desconfortavelmente em sua poltrona, enquanto James e Lily pareciam tão bem quanto em sua frente.
— Ele está de volta então.
O garoto encarava seus pés, sem deixar muito de sua expressão para os ansiosos pais.
— Estamos trabalhando nisso, Campeão.
— Vai ser diferente dessa vez, querido.
— Ele está de volta e ainda tem uma horcrux — Harry dizia, como se os pais não tivessem dito nada segundos atrás.
— Voldemort está longe de ser poderoso como era — voltou a falar James, tentando conseguir um olhar do filho para enconrajá-lo. — Seus seguidores estão fracos, muitos nem estão mais aqui...outros fugiram. Uma horcrux é diferente de quatro delas, então será mais rápido de encontrar.
Os olhos de Harry finalmente subiram para encararem seus pais.
— Como ele pôde fazer tanto delas? A alma dele, dividida em tudo isso.
Para um adulto já era complexo aceitar aquele fato, mal podia imaginar para uma criança, onde o mundo ainda não tinha apresentado-se tão grotesco ainda. Harry só conheceu o amor, a amizade, e tudo o que vinha de bom de uma família. A maldade, por mais que tenha tentado alcançá-lo quando bebê, não tinha acertado-o.
Sua mente tão pronta para brincadeiras e risadas não tinha experimentado o pior ainda.
— Não pense muito nisso — pediu Lily, segurando as mãos do filho. — Nós apenas queríamos que você estivesse a par do que está acontecendo aqui fora, mas não para que se preocupasse. O importante é que você está aqui, protegido. Dumbledore vai reforçar a segurança e Moony estará sempre por perto.
Virando-se para James, Harry o encarou por alguns segundos, deixando o pai quase preocupado com o que parecia correr pela cabeça do garoto.
— Você vai atrás da horcrux? — perguntou ao pai, finalmente.
— Eu já estou.
— Como antes?
James sentiu seus ombros ficarem tensos.
— O Ministério ainda não está muito envolvido com tudo isso, então estamos...!
Harry balançou a cabeça, obrigando James a parar sua frase no meio.
— Como antes? — repetiu a pergunta, olhando profundamente nos olhos do pai, deixando claro o que ele estava querendo dizer com aquilo.
Engoliu a bola de ar presa na garganta. Viu pelo canto de olho quando Lily baixou a cabeça.
— Eu farei tudo o que puder para manter vocês a salvo — respondeu.
— Como antes, então — afirmou o garoto.
Abriu a boca, sem saber o que responder. As coisas não eram como antes. Lily tinha a própria vida, com o seu namorado batedor, enquanto ele mesmo trabalhava incansavelmente para o QG dos Aurores. O filho estava em Hogwarts...
Não era a mesma coisa. Não tinha para quem retornar quando o trabalho acabava. Seu apartamento estaria vazio, escuro e frio. Comeria sozinho, prepararia tudo para o dia seguinte, dormiria e tudo aconteceria novamente.
— Nós estamos trabalhando juntos! — Lily entrou na conversa, tentando trazer alguma leveza. — Começaremos a procura ativamente em um local muito importante nos próximos dias.
Aquilo pareceu bom o suficiente para chamar a atenção de Harry.
— Sério?
— Esperamos ter alguma resposta, talvez — confirmou James.
Harry assentiu, olhando pela janela, divagando.
— O que eu posso fazer para ajudar? Se vocês acham que pode ser algo da Corvinal, eu posso fazer algo.
— Sabe o que você pode fazer para ajudar? — começou Lily, acariciando o rosto do filho. — Viver. Estudar, se divertir e agir como o garoto maravilhoso que é. Você tem treinos de Quadribol, aulas para ir, lições para fazer.
— Mas eu posso ajudar, tentar falar com algum corvinal.
— Lembre-se que esse assunto não deve sair daqui, Campeão. — James apontou para os três. — Além de Padfoot e Moony, não converse sobre isso com mais ninguém. Acredito que em pouco tempo alguma coisa sobre Voldemort pode aparecer nas notícias, mas é extremamente importante que isso fique entre nós.
A decepção de Harry era clara.
— Sem problemas.
— Isso inclui Neville — alertou Lily. — Se Alice e Frank desejam dizer algo, vai ser escolha deles.
— Ok.
As respostas curtas de Harry continuavam a mostrar o quão infeliz ele estava com tudo aquilo. James diria até que o fato de não poder ajudar era mais absurdo do que a coisa em si.
Barulhos vindo das escadas os alertaram. Harry rapidamente levantou, indo até lá.
— Acho que é a nossa deixa — disse o maroto.
Ouviram Harry dizer que o lugar ainda não estava completamente livre dos animais peçonhentos, mas que não demoraria mais. Alguém pareceu concordar, então o garoto voltou até os pais.
— Você quer conversar mais sobre isso, querido? — perguntou Lily.
— Está tudo bem. — Harry deu de ombros. — Obrigado por me contarem. Eu não vou contar para ninguém.
O filho parecia tranquilo o bastante, mas antes de irem, James e Lily certificaram-se de que Harry poderia contatá-los com qualquer dúvida ou se apenas quisesse conversar.
Pegaram a Nimbus e saíram da torre rapidamente, antes de serem vistos por grifinórios. Desta vez, não houve tempo para imaginação ou notarem a proximidade, já que a conversa com o filho pareceu ter dado uma acalmada nos ânimos.
Sem conversarem, chegaram até o Salgueiro, entrando pelo túnel após James lançar uma pedra no nó da árvore e paralisá-la.
Andaram todo o caminho no mesmo silêncio, mergulhados no pensamento de que agora Harry estava ciente de que as coisas estavam um pouco bagunçadas e que ainda havia algumas coisas a resolver em relação ao problema do passado.
— Aí estão vocês!
Sirius os recebeu na saída do túnel com os braços abertos. Remus estava ao seu lado, com as mãos nos bolsos, parecendo compadecido pelos pais que acabaram de informar o filho de que um louco ainda estava querendo matá-lo.
Não que tenham dito isso, mas no final, era o que era.
— Como está Harry? — perguntou Remus.
— Forte, como sempre. Talvez a vida em Hogwarts vai distraí-lo o suficiente de tudo isso — Lily dizia, tentando ela mesmo parecer forte.
A chateação de James e Lily era nítida. A Casa dos Gritos não era um lugar que trouxesse tanta positividade, mas a impressão era de que a chegada dos dois, após a conversa com Harry, tinha trazido tudo para baixo.
Os dois marotos que os esperavam entreolharam-se rapidamente.
— Vamos achar essa porcaria de horcrux o mais rápido possível, enviar Voldemort para sete palmos abaixo da terra e tudo vai ficar bem! Vamos lá, antes estava difícil e ganhamos...não há nada que nos impedirá dessa vez também. — Sirius abraçou James e Lily pelos ombros. — Falando nisso, vocês saíram da minha tão amada residência sem avisar, mas para que vocês saibam: as rondas em Hogwarts começarão em dois dias. Remus, como o bom monitor que sempre foi e com vasta experiência com lista de rondas, vai preparar tudo e nos enviar.
— Mas antes de tudo, eu gostaria de saber se vocês iriam querer participar de todas elas. Ou da maioria, talvez — perguntou Remus.
— Podem me colocar na maioria — James respondeu, sem titubear. — Mesmo se não me colocarem, eu virei.
Ouviu o suspiro de Lily. Imaginou que aquilo a levava para o passado, mas ele não podia fazer diferente.
— Pode me incluir em tudo o que for possível, Rem. Por favor — respondeu ela.
— Ótimo. Agora que o assunto chato acabou, já que eu não vou dar a bronca do século por terem deixado o Ranhoso na sede da Ordem para que o Monstro tome conta, que tal uma bebida no Cabeça de Javali? — Sirius apertou os dois.
Uma bebida talvez seria ideal para terminar aquele dia.
Que dia.
Sirius quis ser o responsável pela aparatação, então todos se seguraram nele e deixaram a Casa dos Gritos, chegando não muito longe da casa de Lily em Hogsmeade. A garoa chata tinha voltado, então cobriram suas cabeças com suas capas rapidamente, apenas desejando um lugar aquecido.
— Um rum servirá melhor para aquecer — dizia Sirius, enquanto esfregava as mãos.
— Aquela garrafa do Caribe que Aberforth tem seria perfeita para hoje — concordou James. — Caso você não tenha tomado tudo no ano passado.
— Confesso que não lembro.
— Se não tomou, deixou apenas o suficiente para molhar o beiço agora — Remus entrou na conversa.
— Eu não sei do que estão falando, mas me parece uma boa ideia — comentou Lily, empolgada.
Os risos e empolgações dissolveram-se na garoa quando, ao longe, perceberam que havia uma luz abaixo da porta da casa de Lily.
E uma sombra logo abaixo dela.
Por mais que estivessem em um momento de insegurança, com Comensais fugitivos e Voldemort à espreita, aquela sombra não era nada relacionado a eles, mas também com sua própria dose de terror.
Assim que McGuillen os avistou, desencostou-se do batente. Considerando a sua cara de cansaço, o homem esperava pela namorada por um bom tempo.
— Sorte a dele que tem uma cobertura embaixo da porta — James ouviu Sirius cochichar ao seu lado, deixando claro que todo mundo estava pensando o mesmo.
— Ele é um bruxo, poderia se proteger da chuva caso não houvesse — retrucou Remus, também aos cochichos.
James ignorou a discussão entre os amigos para ver que Lily tinha parado, observando o namorado parado na porta de sua casa.
Algo estava errado.
Por mais que pudesse ser um pouco incômodo estar ao lado do ex e ter o atual logo a frente, não era esse tipo de problema que James sentia vindo dela. Havia algo a mais, algo diferente.
Não sabia explicar, mas simplesmente sentia uma outra vibração vindo dela.
— Está tudo bem?
— Sim, claro — respondeu a ruiva, sem pestanejar. Virou-se para eles, um pouco sorridente, um pouco sem graça. — Eu vou ter que deixar esse rum do Caribe para um outro momento, meninos.
— Ah, não. Você vai deixar de sair conosco por conta do seu batedor? — choramingou Sirius, mas não alto para que McGuillen ouvisse. — Chama ele junto, se quiser.
Lançou um olhar de lado para o amigo. Sério aquilo? Sirius tinha essa mania de sempre levar concorrência para as festas, mas as concorrências nunca eram as dele.
Só as minhas mesmo, pensou ao lembrar-se de ter os interessados em Lily marcando presença para eventos que os marotos organizavam, à convite do Sirius.
"É para te fazer trabalhar mais e mais rápido", respondia Sirius na época.
Aquilo só o fazia queimar na vontade e no ciúmes, isso sim.
— Eu tenho certeza que ele iria gostar do convite, mas eu sei que Sam está aqui para algo específico.
Três sobrancelhas direitas levantaram em harmoniosa curiosidade.
Despedindo-se dos três marotos, ainda confusos e curiosos, ela foi em direção do namorado, que foi até o portão para recebê-la. Eles conversaram por alguns segundos, com Lily apontando aqui e ali, talvez explicando o que tem andado feito. O namorado apenas assentiu e apontou para a casa, querendo sair da chuva. A ruiva foi abraçada pelos ombros por ele e levada em direção à porta, enquanto McGuillen esfregava o seu ombro na intenção de esquentá-la.
Mas ela fugiu do gesto, mesmo que delicadamente.
Abrindo a porta, ela pediu para que ele entrasse primeiro. Lily o seguiu, mas olhou para os três homens ainda parados em seus lugares, lançando um sorriso rápido para eles, antes de fechar a porta.
— Vamos beber aquele rum, Prongs. — Sirius o puxou pela capa. — Quer que eu te esquente também?
O maroto começou a passar as mãos pelo seu braço, como McGuillen tinha feito alguns segundos atrás, então James apenas o empurrou.
— O rum vai ser o suficiente, obrigado.
Rindo, Sirius o soltou e partiu na frente com Remus, enquanto James diminuiu o passo e olhou para a porta fechada.
Abaixou o rosto. Bufou. Levantou a cabeça e deu as costas, sabendo que era o que deveria fazer sobre tudo o que aconteceu naquele dia.
Foi apenas uma loucura. Um louco dia.
N/A:
FELIZ ANIVERSÁRIO, PRONGS! S2
Demorei, mas voltei. Eu sempre volto :D
Até o próximo capítulo e fiquem de olho no Instagram para mais notícias!
