[- Flashback -]
O relógio digital sobre a mesa marcava quase o meio da tarde daquele dia no Japão. Kanon passou a mão pelos cabelos, soltando um suspiro exasperado. Desde que chegaram, depois daquele voo absurdamente tenso pra dizer o mínimo, passaram todas as horas afundados nas pesquisas, tentando forçar a mente a focar em qualquer coisa que não fosse a presença avassaladora do desejo pairando no ar como uma tempestade prestes a explodir.
Mas era impossível ignorar.
Do outro lado do imenso aposento, Scully se remexia na poltrona em frente ao laptop, virando páginas de relatórios que já não conseguia ler. O problema era ela.
Ou melhor, o problema era ele. O problema era os dois.
Trancados ali há horas, mergulhados em uma tensão palpável, sufocante, o corpo de Kanon ainda carregava os resquícios do que aconteceu durante voo. A vibração da presença dela ainda impregnada em sua pele.
E o pior: ela também sabia disso.
Scully suspirou baixinho e jogou a caneta na mesa. "Eu desisto."
Kanon ergueu os olhos para ela. "O que?"
Scully passou as mãos pelos cabelos, o olhar azul cortante cravado na tela à sua frente.
"Isso não está funcionando. Eu não consigo me concentrar em nada."
Ele umedeceu os lábios, tentando ignorar a forma como sua mente imediatamente completou o que ela não disse. —Não consigo me concentrar, porque só consigo pensar em você.
Kanon fechou os olhos por um segundo. Ele precisava parar aquilo antes que algo incontrolável acontecesse. Respirou fundo e se levantou, recolhendo os papéis sobre a mesa.
"É melhor descansarmos um pouco. Mais tarde... ou amanhã retomamos isso com a cabeça no lugar."
Scully assentiu devagar.
Ele a observou por um instante, os olhos analisando o rosto dela. As bochechas estavam levemente coradas. A pele parecia quente. Os lábios entreabertos como se estivesse sempre no limite entre o cansaço e algo muito mais profundo.
—Droga.
Kanon desviou o olhar e recolheu o casaco que havia deixado sobre o sofá.
"Você fique à vontade, tente descansar, ok? Eu vou... dar uma volta."
Scully franziu a testa. "Por quê?"
Ele parou.
"Porque é melhor assim."
Mas a resposta saiu muito menos firme do que ele precisava. Se levantou para sair.
E, no instante em que Scully se levantou também, os olhos fixos nele com aquela intensidade absurda, ele soube.
Nada estava melhor assim.
"Kanon," ela chamou.
A voz dela. O jeito que ela o chamou, foi como um tiro. Ele travou, sentindo o sangue ferver. O casaco que já tinha recolhido deslizou de seus dedos.
E, no segundo seguinte, ele já estava sobre ela.
[-Fim do flashback-]
xXx
Fundação Graad
Tokio - Japão
05:21 PM (horário local)
A tarde caia e no enorme quarto estava começando a se formar uma penumbra, o ar ainda carregado com o resquício do que haviam feito. Os lençóis estavam revirados, os corpos ainda quentes, a respiração de Scully finalmente estabilizava... mas a mente dela?
Um caos absoluto.
Os olhos azuis encaravam o belíssimo teto acima deles. No terraço, visível a partir da cama, o céu do Japão se estendia além, um mar de estrelas silenciosas começava a se pronunciar, completamente indiferentes à tempestade que ainda vibrava dentro dela.
Ela respirava devagar, sentindo cada músculo do seu corpo reclamar de exaustão. Nunca... em toda sua vida... ela esteve tão entregue. Era isso que a assustava.
Ela nunca se entregou assim. Nunca dominou nem perdeu o controle dessa forma.
E agora, ali deitada, com a pele ainda formigando, a mente finalmente voltando para o lugar, ela percebeu que não queria tomar distância daquilo. Não queria se arrepender. — Mas deveria.
Ela umedeceu os lábios, virando a cabeça lentamente para o lado.
Kanon estava ali.
De olhos fechados, o corpo relaxado sobre os lençóis desordenados, um braço jogado sobre a testa, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro como uma moldura caótica. Ele parecia completamente saciado. Ainda assim... não havia sono em seu rosto.
Ela sabia que ele estava desperto.
Scully o observou por um momento. O peito subindo e descendo em um ritmo calmo demais para ser de alguém que dormia profundamente. Mas o que realmente o entregou?
O sorriso.
Discreto, maldoso, quase um reflexo inconsciente. Ele sentia o olhar dela sobre ele. E estava esperando.
A agente soltou um suspiro.
"Você não dormiu, né?"
Kanon abriu os olhos devagar, azul líquido iluminado pela penumbra. "E você?"
Scully desviou o olhar de imediato, tentando encontrar uma resposta para essa pergunta. Mas Kanon não estava disposto a deixá-la escapar dessa. Ele virou-se sobre o colchão, apoiando-se em um dos cotovelos para encará-la, os olhos atentos capturando cada nuance do rosto dela.
"Você está... diferente." O tom de voz dele não era zombeteiro. Era análise pura.
Scully travou o maxilar. "Isso é um problema para você?"
A sobrancelha de Kanon arqueou, divertido. "Nah."
O sorriso dele aumentou, e foi aí que ela percebeu o erro de deixar essa brecha. Kanon rolou sobre ela em um movimento fluído, prendendo-a sob seu corpo sem o menor esforço.
Scully soltou um suspiro brusco, as mãos subindo por reflexo para segurar os ombros dele. "O que foi isso?"
Ele abaixou a cabeça, os lábios quase roçando os dela. "Testando uma teoria."
Os olhos dela se estreitaram.
"E que teoria seria essa?"
Kanon sorriu. Um sorriso lento, presunçoso, completamente satisfeito.
"Que seja lá o que tenha acontecido entre nós... não apagou esse fogo dentro de você."
Scully sentiu o impacto daquelas palavras como um golpe direto no estômago.
Porque ele estava certo.
Ela ainda sentia. Ainda queimava. Não o suficiente para perder o controle outra vez... mas o bastante para querer mais. Respirou fundo, recuperando sua compostura, forçando-se a assumir o controle da conversa.
"Se fosse só fogo... eu teria apagado."
Kanon piscou devagar, absorvendo aquilo. E então, inclinou-se ainda mais. Os lábios dele roçaram no canto da boca dela, deslizando até seu ouvido.
"Então... o que foi?"
O corpo dela reagiu antes da mente. Scully fechou os olhos, a respiração se alterando levemente. — Droga.
Ele era viciante.
A agente abriu os olhos e encontrou os dele. E, dessa vez, foi ela quem moveu-se primeiro. Seus dedos deslizaram lentamente pelo peito de Kanon, traçando o contorno dos músculos definidos, sentindo o calor que ainda emanava da pele dele. Um toque que não era hesitante.
Kanon estreitou os olhos, a diversão se mesclando a algo muito mais denso.
"Dana..."
Ela sorriu de leve.
"Testando uma teoria."
Kanon soltou uma risada baixa antes de capturar a boca dela outra vez. E ali, sob as primeiras estrelas da noite do Japão, eles esqueceram de tudo.
Pelo menos... por mais algumas horas.
xXx
Santuário – Casa de Peixes
Atenas – Grécia
02:21 AM
O clima na Casa de Peixes era tenso. Ninguém saiu dali desde a explosão cósmica que derrubou Máscara de Morte e abalou o Santuário inteiro.
Aldebaran cruzava os braços, a expressão fechada. Milo apoiava-se contra uma das colunas, observando o amigo desacordado com a testa franzida. Shura mantinha-se ao lado de Afrodite, que ainda estava visivelmente abalado. Aiolia caminhava de um lado para o outro, inquieto como um leão enjaulado.
Camus estava calado.
Era Camus e Aiolia quem mais tinham para falar, mas os dois ainda não haviam contado a verdade sobre Poseidon. Não agora. Não sem mais informações.
Saori amparava Saga, ainda fraco, mas o cavaleiro se recusava a descansar. A jovem estava séria, muito mais do que o normal. A energia que emanava dela estava diferente—como se Atena estivesse atenta àquilo de forma mais intensa. A Deusa inevitavelmente sabia que algo muito maior estava acontecendo.
"Acha que podemos movê-lo?" A voz de Saori quebrou o silêncio.
Afrodite, que ainda estava ajoelhado ao lado de Máscara, suspirou.
"Não... isso ainda está instável," ele murmurou. "Mas a energia diminuiu um pouco. Seja lá o que tenha acontecido, parece que... passou."
Aldebaran franziu a testa. "Passou?"
Shaka, que esteve em completo silêncio desde que chegou com Mu, finalmente se pronunciou. Sua voz veio calma, mas carregada de algo que ninguém soube nomear de imediato.
"Não passou."
Os cavaleiros voltaram a atenção para ele, alguns franzindo a testa. O tom de Virgem era estranho.
"Explique-se, Shaka." Saori pediu, mantendo a voz firme.
O cavaleiro sentou-se em posição de lótus e cerrou os olhos, postura de quando queria aumentar o espectro de sua visão interior.
"Essa perturbação... essa vibração..." A respiração dele pareceu falhar por uma fração de segundo. "Ela ainda reverbera."
Aiolia voltou sua atenção para o cavaleiro loiro, parando um pouco seu constante movimento.
"Você está dizendo que a Criatura ainda está se manifestando?"
Shaka não respondeu de imediato.
Aldebaran franziu o cenho.
"Ou tem algo mais?"
Shaka ia responder, mas então, aconteceu: O ar ao redor dele pulsou de maneira abrupta.
Uma onda de energia, súbita, invisível, percorreu o espaço e atingiu Shaka como um impacto direto.
Camus foi o primeiro a notar. Os dedos de Shaka tremeram.
Ele sentiu.
E na mesma hora ele soube o que era.
Os olhos dele se arregalaram de repente, seu rosto enrubesceu. Perdeu completamente o controle da própria respiração.
O impacto foi visceral, até... íntimo.
E não era dele.
Shaka inspirou bruscamente, o ar deixando seus pulmões de forma instável. O corpo inteiro reagiu antes da mente, e ele sentiu cada fibra sua vibrar de uma maneira que jamais deveria acontecer.
Por um segundo ninguém percebeu, mas então, ele não conseguiu segurar. Um gemido, curto, baixíssimo, escapou.
E foi o suficiente para toda a Casa de Peixes mergulhar em silêncio.
A respiração de Milo falhou por um instante.
Aiolia parou de andar.
Saga, que estava encostado em uma coluna com muita dificuldade para se manter de pé, ergueu os olhos de súbito.
Camus virou o rosto tão bruscamente que estalou o pescoço.
Afrodite arregalou os olhos.
Shura... simplesmente ficou olhando, sem saber processar.
Saori... bom.
Saori estava olhando para ele com um rubor tão violento no rosto que o universo inteiro parecia ter perdido o sentido.
O que...
— O que DIABOS acabou de acontecer?!
Shaka, o ser humano mais controlado do planeta, estava respirando pesadamente e com uma expressão que NINGUÉM jamais tinha visto antes.
E foi Aldebaran, claro, quem abriu a boca primeiro. "Shaka." A voz dele era calma, mas tinha algo entre preocupação e constrangimento. "Você tá bem?"
Shaka queria evaporar.
Ele não queria acreditar no que acabou de acontecer, mas sabia exatamente o que era. Porque estava acontecendo lá.
Lá no Japão.
E ele sentiu tudo.
xXx
O silêncio que caiu sobre o grupo foi absoluto.
Cada cavaleiro presente no aposento congelou no exato momento em que Shaka de Virgem – o homem mais controlado, disciplinado e asceta da Terra – perdeu completamente a compostura diante de todos.
Mu olhava o amigo, atônito. Talvez um pouco contagiado? Não que ele pudesse reconhecer isso naquele momento.
Aldebaran desviou os olhos, apertando os lábios para segurar o riso que não deveria estar surgindo, mas estava.
Milo e Aiolia estavam um tanto boquiabertos, porque de todos eles isso acontecer justo com Shaka era demais. Ao lado dos dois, Camus simplesmente travou. Não tinha compostura no mundo que desse conta de uma cena daquelas.
Shura olhava da esquerda para a direita, esperando alguém tomar a frente porque ele mesmo não sabia o que fazer com essa informação.
Afrodite, que ainda estava ajoelhado perto de Máscara de Morte, podia até estar ocupado cuidando o amigo, mas não tinha como, logo Shaka? Como assim? —Será que isso aconteceu com Máscara também? Não, com Máscara tinha sido uma coisa mais violenta. Peixes não pôde evitar, riu baixinho.
Saga esfregou o rosto com as duas mãos, porque honestamente, não havia oração na Terra ou no Céu que resolvesse isso agora.
Saori...
O rosto da jovem deusa estava tão vermelho que era difícil até de olhar. O CHOQUE na expressão dela era impossível de esconder, e a tentativa desesperada de manter a postura digna e profissional só piorava tudo.
Mu decidiu tentar resgatar o amigo daquela situação tão... é. Tocou levemente o braço de Shaka. O ar ao redor do cavaleiro de Áries tremulou, como se ele estivesse verificando se aquilo realmente aconteceu ou se ele teve uma alucinação coletiva com os outros. E então, com a voz mais tranquila e calculada que pôde conjurar, ele disse:
"Shaka. Você está bem? Quer nos contar alguma coisa?"
Shaka fechou os olhos com tanta força que os cílios tremeram. Ele tentou encontrar o centro. Ele tentou respirar. Ele tentou não desintegrar sua alma e fugir para outro plano existencial. Porque seu corpo —AINDA ESTAVA TREMENDO, DROGA!.
Aldebaran finalmente perdeu. Ele bufou de leve, tentando conter, mas o som da risada profunda e abafada foi audível.
Foi o bastante para Milo e Aiolia se desgraçarem. Os dois se encararam por um segundo. E então, Milo explodiu primeiro.
"Ah não, de novo isso?" Ele jogou a cabeça para trás, rindo como se estivesse vendo o impossível acontecer. "Primeiro o agente Mulder, agora Virgem... caras, vocês precisam se-"
"Milo!" Camus interrompeu, sabia que dali não ia sair nada que preste.
Aiolia, que já estava no limite, deu um passo para trás, tropeçando no próprio pé e se apoiando numa coluna porque não conseguia mais lidar.
Saga enterrou o rosto nas mãos. Ele era um homem de honra. Ele tentava ser sério. Ele tentava proteger Saori disso. Mas como?! —Vendando os olhos da menina?
Mu tentou de novo "Shaka... você pode, por gentileza, nos explicar..." ele fez um gesto vago com a mão, como se desenhasse no ar a extensão do ABSURDO que acabou de acontecer, "...o que diabos foi isso?"
Shaka nunca desejou tanto explodir em átomos quanto naquele momento. O cavaleiro de Virgem tentou abrir os olhos devagar, tentou manter o tom impassível e tentou parecer superior ao que estava acontecendo, mas respirar ainda era difícil, a essa altura já estava vermelho da cabeça aos pés... e Mu bem ali, vendo tudo.
Aldebaran encostou-se contra a parede, cruzando os braços com um sorriso tão maroto que poderia ser uma divindade da travessura naquele instante.
Milo chacoalhou a cabeça, a expressão entre o choque e a mais pura diversão. "Bom, bom, bom..." Ele estalou a língua. "Alguém, em algum lugar, está passando MUITO bem esta noite."
Afrodite tapou a boca com a mão.
Shura estava tão perplexo que parecia esperar uma explicação divina cair do teto.
Camus fechou os olhos, esfregou a têmpora como se estivesse repassando toda a sua vida para tentar entender como ele chegou nesse momento.
E Aiolia ainda estava rindo, mas dessa vez de puro desconcerto.
Saga, como o bom homem que é e vendo a situação totalmente impropria que se desenrolava, tomou a frente. Ele se virou lentamente para Shaka, lutando contra o impulso de bater a cabeça na parede e apagar essa lembrança para sempre. E então, com o máximo de dignidade e seriedade que conseguiu juntar, perguntou:
"Você sentiu... o quê, exatamente?"
Shaka abriu os olhos novamente. O azul profundo estava diferente, mas seja pela energia mais sedada de Saga, ou por já ter passado o máximo de constrangimento possível naquela madrugada, ele conseguiu respirar fundo e dizer:
"O bastante para saber que isso... não acabou."
Aiolia e Camus se entreolharam. Camus passou a mão pelo rosto, cansado.
"Realmente, tem mais coisas acontecendo." O francês decidiu finalmente que era hora de falar.
TO BE CONTINUED...
