Santuário
Atenas - Grécia
09:09 AM

Sentado no topo de uma enorme pedra, Mulder olhou desanimado para o que seria o caminho de volta ao chalé de Shura. A caminhada até que fez bem mas agora, ter que andar tudo aquilo de novo... bom, ele mesmo se colocou nessa situação.

Pelo menos o objetivo principal foi atingido: estava completamente sozinho. Mais cedo era só isso que queria, sair do chalé, escapar do silêncio carregado daquele lugar.

Queria escapar dela.

Mas a verdade era que ele nunca conseguia. Scully estava ali. Em sua cabeça. Em sua pele. No maldito ar que respirava. Ele passou as mãos pelo rosto, exausto. Foi então que ouviu passos.

Mulder não se virou de imediato. Mas quando a silhueta se aproximou o suficiente, ele soube quem era.

"Se você for continuar assim, Mulder, pelo menos escolhe um lugar onde alguém possa te achar."

A voz de Shura veio carregada com um tom casual, quase despreocupado. Mas Mulder conhecia esse tipo de postura. Ele próprio fazia isso.

O agente bufou, mas não se moveu. "Você veio me buscar?"

"Digamos que eu vim garantir que você não vai rolar escadaria abaixo. Isso seria um jeito trágico de acabar sua investigação."

Mulder riu curto, sem humor. "É. Seria uma ótima manchete. 'Agente do FBI desaparecido é encontrado despedaçado em ruínas gregas.'"

Shura inclinou a cabeça. "Bom, se você tiver a decência de morrer perto de mim, eu garanto que pelo menos ninguém encontre seus pedaços."

Dessa vez, Mulder soltou um riso mais sincero, mesmo que carregado de cansaço.

Shura continuou observando-o.

"Vocês conversaram?"

Mulder desviou o olhar. "Quase nada."

Shura já imaginava algo assim. Estendeu a mão para Mulder. "Vamos. Saori nos chamou. Ela quer uma reunião para nos organizarmos e falar sobre essa coisa toda."

Mulder hesitou por um momento. Não estava com cabeça para nada, mas por outro lado, quanto mais o tempo passava, mais perdia de vista a própria existência nesse mundo.

Pegou a mão que Shura oferecia e deixou que o cavaleiro o levasse de volta.

xXx

Santuário – Casa de Câncer
Atenas – Grécia
09:34 AM

A atmosfera na Casa de Câncer estava estranhamente leve, considerando que o próprio cavaleiro quase serviu de portal interdimensional para uma entidade desconhecida.

Máscara de Morte estava sentado em seu ponto privilegiado do templo – o beiral da grande janela que dava para as escadarias. Mais adentro, Milo, Aldebaran e Aiolia estavam espalhados de um jeito que parecia um encontro casual. O cavaleiro de Câncer se sentia vigiado – uma das piores sensações que conhecia – mas podia compreender bem. Talvez achassem que ele poderia ser possuído a qualquer momento novamente. Embora a essa altura ele duvidasse muito já que a fonte do problema tinha voltado ao Santuário. –Duvido que aqueles dois vão ficar de safadeza por aqui – riu para si mesmo.

Milo, vendo o sorriso no rosto do italiano, soltou sua própria risada.

"Então…" Ele começou, um sorriso controlado no rosto. "Agora que você tá bem… posso finalmente perguntar."

Máscara não se moveu. Mas seus olhos brilharam de leve, como se já soubesse o que estava por vir "Perguntar o quê, Escorpião?"

"Então." O escorpião brincou com as pontas dos cabelos, ainda sorrindo "Fiquei pensando, como foi que você acabou sendo atacado bem na casa de Peixes?"

Aldebaran coçou a barba. "Agora que você falou… verdade."

"É," Milo continuou "E numa hora daquelas..."

Aiolia confirmou. "Era tipo o que… dez da noite?"

"Isso," Milo assentiu, como se estivesse reconstruindo a cena mentalmente.

Máscara não se mexeu.

Aldebaran estreitou os olhos para ele. "Então?"

O cavaleiro de Câncer apenas soltou um suspiro preguiçoso. "Eu só estava passando por lá."

Aiolia riu baixo. "Passando, é... e ia pra onde? Meditar na Ágora?"

Milo sorriu, os olhos brilhando de malicia "É o seguinte, carcamano. Pra chegar na Ágora não precisa entrar na casa de Peixes."

Máscara desviou o olhar para a paisagem. "Péssima coincidência, né?"

Milo arqueou uma sobrancelha. "Coincidência uma ova. Você foi lá pra puxar mais briga não foi?"

Aldebaran deu um gole no café e olhou diretamente para Máscara.

"Caramba, bicho, mas vocês não são fácil, viu. Pra que isso? Coisa mais sem propósito..."

Aiolia apoiou a cabeça na coluna onde estava encostado, imitando um gesto meigo "Foi lá pra fazer as pazes? Tem essa possibilidade também. Pedir desculpas por ser um grosso..."

"Ah eu que sou grosso?" Máscara bufou, já irritado "Aquele metido é que é fino demais, tenho tempo pra frescura não..."

"Aí, ó... grosso." Milo ria ainda mais, mas depois olhou sério "Então, vai falar a verdade ou a gente vai ter que perguntar direto pro Afrodite?"

Foi a primeira vez que Máscara se mexeu de verdade.

Ele virou-se lentamente para os três, os olhos brilhando perigosamente.

"Vocês acham que sabem de tudo, né?"

Milo deu de ombros "Não. Mas eu sei que você é péssimo quando tá incomodado."

Máscara trincou o maxilar.

E então, sem dizer mais nada, ele saiu.

Os três ficaram observando até que ele desaparecesse no corredor.

Aiolia foi o primeiro a quebrar o silêncio.

"Bom. Isso foi interessante."

Aldebaran alongou os braços, algo preguiçoso "Se esses dois não se entenderem logo isso vai dar uma merda..."

Ninguém discordou.

xXx

Santuário – Salão do Grande Mestre
Atenas – Grécia
10:37 AM

Saori Kido era Atena. Aquela era a única verdade que conhecia, desde que veio a este mundo. Possivelmente a única coisa possível de se enxergar nela. Mas mesmo contra as maiores verdades, a natureza humana tende a prevalecer.

E ali estava ela, parada nos arcos que ligavam o enorme salão ao terraço que o circundava. Parada, porque todas as vezes que se via diante daquela pessoa, seu corpo parece que só sabia... parar.

Menos seu coração. Esse acelerava, mesmo que se vissem dez, vinte vezes ao dia. Todos os dias, todas as vezes, sentia o coração acelerar e uma sensação que provavelmente não deveria sentir.

- Não deveria ser assim.

Mas, de novo, a vida tinha que seguir e havia muitas coisas a fazer. Havia muito o que proteger. Ela fechou os dedos ao redor do tecido fino do vestido, respirando fundo antes de dar mais alguns passos. Quando estava perto o suficiente, ela parou ao lado dele.

Por um instante, nenhum dos dois disse nada, mas Saori sabia que ele já tinha notado sua presença. Provavelmente desde antes dela cruzar aquela sala, quando ficou lá, parada.

Foi ele quem quebrou o silêncio primeiro.

"Espero que tenha conseguido descansar um pouco. Os últimos dias foram bem intensos."

A voz de Saga saiu firme, mas... baixa. Como se estivesse escolhendo com cuidado as palavras.

Saori desviou o olhar do horizonte e o fixou no chão de mármore polido.

"Eu queria ter certeza de que você estava bem."

Ela se odiou um pouco por soar tão... pequena. Ela não era pequena. Era Atena. A deusa desse templo. A líder deles. No entanto... ali, ao lado dele, ela sentia que nunca poderia ser só isso.

Saga a olhou de relance, e ela sentiu o peso e a intensidade contida do cavaleiro. - Não pense.

"Não deve se desgastar por minha causa... devo me valer por mim mesmo se quero ser digno dessa vida."

Ela piscou.

- Como?

Endireitou os ombros de imediato, como se a palavra tivesse ferido algo profundo dentro dela.

"O que esperava que eu fizesse?" Sua voz saiu mais firme do que ela pretendia mas os olhos marejaram contra sua vontade, traindo a imagem que precisava manter. "Deixasse você ferido e sozinho?"

Saga apertou os lábios. Não estava olhando mas podia ouvir o tremor das lágrimas na voz dela como se estivesse.

Ela se deu conta do que disse no instante seguinte. -Sozinho - Ele não precisava que ela lembrasse. Ele sabia, lógico. - Droga, Saori.

Ela respirou fundo e desviou o olhar. Saori queria olhar para ele. Queria muito.

Mas não olhou.

Não olhou, porque sabia o que aconteceria se fizesse isso. Sentiria exatamente o que estava tentando ignorar.

Finalmente, ele desviou o olhar para o céu, e sua voz veio mais baixa "Me desculpe."

Saori sentiu a frustração subir, um aperto no peito que ela não sabia nomear e não poderia demonstrar. Então, recuou.

"Os outros devem estar chegando."

Dessa vez, foi ele quem hesitou.

Ela sentiu isso também.

Saga respirou fundo, ajeitou a postura e quebrou o silêncio: "Vamos."

Saori assentiu e virou-se para caminhar de volta à sala de conferências.

xXx

O clima dentro do salão era tenso como não poderia deixar de ser. O peso dos últimos eventos ainda pairava sobre todos, e a sensação de que estavam um passo atrás da verdade tornava o ambiente carregado.

Saori estava sentada à cabeceira da longa mesa de conferência, as mãos delicadas apoiadas sobre a superfície de mármore. A jovem deusa estava serena, mas qualquer um que a conhecesse de verdade sabia que sua mente estava trabalhando rápido para processar tudo o que já sabiam – e tudo o que ainda não sabiam.

Ao lado dela, Saga e Camus estavam em silêncio. Saga parecia recuperado, mas seus olhos demonstravam toda a sua inquietação. Já Camus, sempre meticuloso, mantinha os braços cruzados, observando todos com seu olhar gélido de estrategista.

Ao longo da mesa estavam Mu, Shaka, Aldebaran, Aiolia, Milo e Shura. Máscara de Morte, ainda em recuperação, se recostava na cadeira com uma expressão menos firme do que de costume – mas seus olhos atentos mostravam que não perderia um segundo daquela conversa.

No final da mesa, sentavam-se Kanon, Scully e Mulder, que obviamente mal conseguia esconder o desconforto com a proximidade do general com a parceira.

Saori pigarreou, chamando a atenção de todos.

"Obrigada por terem vindo." Sua voz, calma e precisa, cortou o silêncio com a naturalidade de alguém que nasceu para comandar. "Precisamos alinhar tudo o que sabemos e decidir nossos próximos passos."

Seus olhos pousaram sobre Scully e Kanon.

"Vocês conseguiram mais alguma coisa no Japão? Houve alguma movimentação militar ou qualquer outra anomalia?"

Scully se endireitou na cadeira e lançou um olhar breve para Kanon antes de responder.

"A substância que Mulder me injetou continua no meu organismo. Não houve alteração perceptível no meu corpo, mas ainda não tivemos oportunidade de notar alterações, acredito que precisamos esperar mais algum tempo e repetir os exames." Na verdade era o que deveriam ter feito na última viagem, mas quis o destino que as descobertas fossem de foro mais íntimo.

Mulder observou a expressão da parceira e algo dentro dele se apertou. Para ele era tão obvio que ela não estava dizendo tudo... por outro lado, era bem provável que ela não pudesse mesmo fazer isso, não no meio de tanta gente. Se nem para ele ela contou nada... baixou os olhos, uma tristeza fina pesando no peito. Eram amigos, pelo menos isso, certo?

Kanon cortou o pequeno silencio que se fazia "Bom, como já era esperado, também não houve movimentação militar. Nenhuma ação visível. Aparentemente todas as nações estão ignorando o que aconteceu, como se o que houve no Polo Sul nunca tivesse existido."

Milo riu de leve, cruzando os braços. "Manipulação de dados. Clássico."

Kanon assentiu. "Exato. O que quer que tenha acontecido lá, já foi apagado da narrativa pública." Ele virou-se para Saori. "Mas isso não significa que ninguém esteja de olho."

Saga passou uma mão pelo queixo, pensativo. "Então é certo que as autoridades já sabem que essa criatura está em fuga?"

Kanon trocou um olhar breve com Scully antes de responder. "A essa altura? Sem dúvida."

"A questão é se sabem se tratar de uma Criatura, e não de uma nave como pensávamos originalmente." Scully adicionou e voltou-se brevemente para Mulder, que não sustentou o olhar dela.

Camus notou que o agente não parecia pronto para participar, então assumiu a palavra.

"Bom, enquanto vocês estavam no Japão, conseguimos rastrear mais movimentações anômalas da Criatura. Como já suspeitávamos, ela está fugindo."

Mulder inclinou-se ligeiramente para frente, se esforçando para se recuperar do mau clima e voltar a participar. "A grande questão é -de quem-?"

Camus e Kanon trocaram olhares que não passaram despercebidos por ninguém.

Mu se adiantou: "Saga e eu já tínhamos conseguido localizar pontos de energia ressonante – são rastros da presença dela em diferentes lugares do mundo. Mas o que mais nos chamou atenção..." Ele colocou o dedo sobre um dos mapas. "É que os lugares onde a Criatura esteve... não existe um padrão. Ela vai e volta, some e reaparece muitas vezes onde já esteve. Mas até isso mudou."

Scully franziu a testa. "O que mudou?"

Aiolia fixou o olhar no mapa, bem onde estaria o Santuário caso ali constasse. "Até onde a gente sabe, no momento ela está parada."

Camus foi direto: "Isso significa obviamente que ela pode estar em qualquer lugar."

O salão ficou em silêncio por um momento.

Foi Mulder quem quebrou o gelo. "E vocês tem alguma ideia de onde?"

Shaka respirou fundo. "Ainda não."

Mulder soltou um riso curto, seco. "Ótimo. A gente tem um monstro alienígena fugindo de alguma coisa que a gente não sabe, indo para algum lugar que a gente não conhece." Ele ergueu as mãos. "A investigação tá indo muito bem."

Milo riu do -Monstro alienígena- mas Camus não pareceu achar graça. Foi então que Camus se virou diretamente para Kanon.

"Mas tem uma coisa que sabemos."

Kanon estreitou os olhos. "Camus..."

Camus apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. "Chegou a hora, não podemos mais deixar essa informação de lado."

O salão ficou em silêncio novamente. Mulder olhou para Kanon IMEDIATAMENTE.

"Espera. O que é que você sabe?"

Kanon trincou a mandíbula. - Ah, merda...

TO BE CONTINUED...