A gripe de Hermione

Harry e Hermione sempre foram melhores amigos, desde o primeiro dia em Hogwarts e especialmente após o resgate dela das garras de um troll montanhês adulto que tentara ataca-la no banheiro eles foram inseparáveis. Agora, depois de três anos que havia terminado a II Guerra Bruxa, eles moravam juntos em um pequeno apartamento na Londres trouxa, perto do Beco Diagonal.

Era um lugar muito aconchegante, decorado com detalhes que misturavam as personalidades de ambos: livros empilhados em todos os cantos, lembranças de Hogwarts, e uma sensação constante de lar que cheirava a chá de camomila recém feito e amaciante de roupas.

Desde o fim da guerra, Harry havia se tornado um amigo ainda mais protetor com Hermione. Ele sabia o quanto ela tinha sofrido ao descobrir que o feitiço da memória que havia usado em seus pais não podia ser revertido e que por conta disso eles nunca mais se lembrariam que tiveram uma filha. Ela estava sozinha no mundo por conta de uma escolha que havia feito e aquela culpa silenciosa e a dor haviam a deixado mais sensível e frágil, algo que partia o coração de Harry.

Ele fazia tudo para cuidar bem dela, pois ele havia se tornado o principal provedor da casa. No entanto, mesmo que fosse bastante perceptível para quem o conhecia e que ele nunca tivesse admitido o verdadeiro motivo por trás de sua devoção em voz alta: ele sabia que também estava profundamente apaixonado por ela. Ele a amava de todo o coração e tudo que ele pensava era em fazê-la feliz e garantir seu completo conforto e bem-estar.

Por outro lado, Hermione se sentia da mesma maneira. Não muito diferente dele ela também escondia o que sentia por medo de perde-lo. E apesar de sua vulnerabilidade, ela também guardava esse segredo a sete chaves em sua alma: ela amava seu melhor amigo de um jeito que a assustava. Ele era sua rocha, seu porto seguro, e mesmo que nunca tivesse dito, cada gesto de carinho que ele lhe dedicava fazia seu coração acelerar dentro do peito.

Era uma tarde fria em Londres quando Harry chegou em casa, carregando uma sacola com suprimentos que havia comprado no Beco Diagonal. Assim que ele abriu a porta, um silêncio incomum o deixou alerta. Normalmente, Hermione estaria sentada no sofá, lendo ou escrevendo, com o urso de pelúcia que ele lhe dera de presente apertado contra o peito. Ele chamava carinhosamente aquele urso de "companheirinho", porque Harry sabia que, desde que o entregara a ela, ele se tornara uma presença constante em seus dias.

- Amor, cheguei! – Harry chamou, mas não ouviu resposta.

Por causa dos hábitos protetores que ele adquiriu desde o final da guerra na última batalha em Hogwarts ele logo largou a sacola que segurava sobre a mesa de jantar e foi direto para o quarto de Hermione. Seu coração estava pesado com medo de algo ruim ter acontecido e no fim ele sempre estava certo quando tinha aquele sentimento; ele a encontrou deitada na cama, pálida, com o rosto febril. A testa estava franzida por causa do desconforto e suas bochechas estavam vermelhas, assim como a ponta do seu nariz. Ela parecia péssima.

- Oi bebê, o que aconteceu? – Ele perguntou suavemente com o tom de voz calmo, mas repleto de preocupação, então, se aproximou, sentando-se ao lado dela na cama acariciando seus cabelos despenteados com as pontas dos dedos e afastando as mechas úmidas de seu rosto.

- Estou me sentindo horrível, Harry. Minha garganta está ardendo, estou com calor e com frio ao mesmo tempo e meu estomago está estranho... – Ela disse abrindo os olhos com dificuldade.

Harry franziu o cenho, sentindo uma pontada de culpa por não ter percebido antes. Ele tocou sua testa e sentiu o calor alarmante da febre. Sem pensar duas vezes, ele ajeitou as cobertas ao redor dela e segurou sua mão, beijando seus dedos com carinho.

- Você não vai se preocupar com nada agora, amor. Eu vou cuidar de você e te mimar um pouquinho, apenas descanse, ok. – Harry disse se abaixando para beijar ternamente a testa dela.

- Harry não é nada, eu vou ficar bem. Você não precisa se preocupar... – Ela tentou protestar com a voz rouca e com um cansaço evidente.

- Ei... é claro que preciso. E eu faria qualquer coisa para te ver bem... Nada de protesto agora. – Ele respondeu, interrompendo-a com um olhar terno.

- Mas... – ela tentou novamente dizer.

- Mi você é a bruxa mais importante da minha vida. Eu não aceito menos do que você completamente bem. – Ele disse batendo de leve o dedo indicador na ponta do nariz avermelhado dela.

Hermione ia responder, mas a sensação no seu estômago se intensificou e ela se sentiu completamente tonta. A náusea veio com tudo. Ela tentou levantar-se para ir direto para o banheiro, mas fraquejou. Harry percebeu imediatamente seu desespero e a amparou, segurando-a firme contra seu próprio corpo. Ele a acompanhou até a porta do banheiro e em um movimento abrupto ela o soltou e correu para vomitar tudo que estava em seu estômago desde o café da manhã, que era a última vez que ela tinha comido alguma coisa.

Ele não perdeu tempo, vendo a situação de sua melhor amiga ajoelhada em frente ao vaso sanitário com o corpo frágil e trêmulo por causa da ânsia de vomito que causava fortes espasmos involuntários, ele correu e segurou seus cabelos com cuidado, murmurando palavras tranquilizadoras.

- Está tudo bem, Mi. Eu estou aqui. Você vai ficar bem. – Ele dizia enquanto acariciava suas costas em movimentos lentos e reconfortantes.

Quando ela terminou com lágrimas nos olhos e o lábio trêmulo ele pegou um copo d'água na torneira da pia e a entregou para que ela lavasse a boca. Depois que ela fez isso parecia exausta demais para se mover, então, ele passou a mão por suas bochechas suavemente e a ajudou a se levantar do chão frio coberto por azulejos e enxaguou cuidadosamente seu rosto com água fria.

- Amor... Você está com uma febre muito alta. Vamos tomar um banho frio. Vai te fazer sentir melhor depois e além de tudo vai me deixar menos preocupado pois sua temperatura vai abaixar. – Ele sugeriu gentilmente.

Ela apenas assentiu, mas ao perceber que ele a ajudaria no banho, um rubor subiu por suas bochechas a deixando mais corado do que já estava por conta da febre. Eles eram íntimos e conheciam um ao outro como a palma da mão, mas ela nunca tinha ficado totalmente nua perto de Harry.

- Harry, eu... você não precisa fazer isso. Eu posso me virar... – ela disse de maneira tímida, olhando para o chão, sem conseguir encará-lo.

- Hermione Granger, eu estou aqui para você. Não há nada que você precise esconder de mim. Confia em mim, tá bom? – Ele sorriu, segurando seu rosto entre as mãos e beijando suavemente a ponta do nariz dela.

Ela mordeu o lábio, hesitante, mas concordou. Com um olhar resignado ela começou a remover a camisa dele que ela estava vestida. A peça estava um pouco molhada de suor e suja de respingos de vomito, ele então a pegou e a jogou no cesto de roupa suja ao lado da pia. Depois que ela estava apenas de calcinha perto dele, Hermione se sentiu ainda mais tímida. Ela cruzou os braços sobre os seios e olhou para o chão, mas Harry apenas continuou o trabalho de despi-la com naturalidade, se abaixando, tirando sua calcinha de renda azul e também a jogando no cesto.

Depois disso, enquanto Harry a ajudava a entrar na banheira que ele já havia ligado e estava parcialmente cheia Hermione sentiu-se vulnerável e começou a tremer levemente, mas ao olhar para seu melhor amigo ela o viu olhando para ela com tanta ternura que imediatamente ela relaxou.

- Você é linda, sabia? Não importa como você se sinta agora, para mim, você é perfeita. – Ele disse com a voz firme e carregada de sinceridade.

- Você é... incrível, Harry, eu não sei o que faria sem você. – Ela murmurou com os olhos marejados. Ela estava sobrecarregada, mas também emocionada com os atos de cuidado e com a gentileza dele.

- Você nunca vai precisar descobrir amor... – Ele respondeu, beijando sua testa com delicadeza.

Harry foi incrivelmente dedicado e cuidadoso, ajudando-a a lavar os cabelos com movimentos suaves, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ele conversava com ela durante todo o processo, contando histórias engraçadas de quando estavam em Hogwarts, falando sobre o dia que teve no trabalho com seus colegas aurores e a fazendo-a sorrir entre os momentos de cansaço.

Depois do banho ele a levantou da banheira como se ela tivesse o peso de uma pena, a enrolou em uma toalha e a ajudou a se secar, entregando-lhe uma de suas camisetas favoritas para vestir, como ele sabia que ela amava, pois se sentia segura cercada pelo cheiro dele. Ela colocou a camisa, que ficava larga nela, mas extremamente confortável e suspirou.

- Ficou perfeita em você meu anjo... – Ele disse com um sorriso, puxando-a para um abraço apertado. Depois ele beijou sua testa demoradamente antes de pegá-la no colo e levá-la de volta para a cama.

- Harry, você faz tudo isso parecer... mais fácil. – Ela sussurrou, encostando a cabeça em seu peito enquanto ele a sentava na cama e se colocava atrás dela de modo que ela ficasse entre suas pernas.

- Porque você merece isso e muito mais, amor. Agora, apenas relaxe. – Ele disse enquanto pegava a escova de cabelo dela que estava sobre o criado mudo ao lado da cama e a ajeitava.

Harry então começou a desembaraçar cuidadosamente os cabelos dela. Era um gesto simples, mas repleto de carinho e cuidado. Cada movimento parecia dizer o que ele não ousava colocar em palavras.

- Sabia que você é a minha pessoa favorita no mundo inteiro? – Ele disse sorrindo enquanto colocava a escova de lado, beijava a bochecha dela e em seguida a abraçava firmemente pela cintura a trazendo para mais perto do seu peito enquanto ela se deixava levar.

- Do mundo inteirinho? – Ela perguntou suspirando de puro contentamento.

- Nada nesse mundo me importa mais do que você, Hermione. Agora, beba isso. Vai ajudar. – Ele disse a entregando um pequeno frasco de poção que ela havia deixado no criado mais cedo. Ela odiava aquele gosto amargo e ele sabia que ela tinha adiado tomar a poção apenas por isso.

No entanto, naquele momento ela não protestou e bebeu a poção com uma careta. Harry deu uma risada baixa e passou o polegar pelo canto de sua boca, limpando uma gota que escorria. O gesto foi tão carinhoso que Hermione sentiu os olhos marejarem.

- Você é mesmo um herói, Harry... – Ela brincou, com um sorriso fraco.

- Eu só quero ser um herói para você amor. - Ele respondeu, segurando sua mão e entrelaçando seus dedos aos dela.

- Harry, eu... – Ela tentou falar, mas a voz falhou.

- Shhh, descansa. Você não precisa dizer nada agora. Eu estou aqui e vou estar quando você acordar, apenas durma um pouquinho... – Ele disse, beijando suavemente sua testa e a apartando um pouco mais em seu abraço.

Aquele momento era tudo para Hermione. Apesar da febre e do mal-estar, ela sabia que estava exatamente onde deveria estar: nos braços de Harry, onde sempre se sentia segura e amada. Mesmo que as palavras nunca tivessem sido ditas, ambos sabiam que o que sentiam um pelo outro era muito mais do que amizade. E aquela noite, enquanto Harry cuidava dela com uma devoção infinita, Hermione prometeu a si mesma que, assim que se sentisse melhor, encontraria coragem para finalmente confessar o que estava em seu coração.