Capítulo 3

Quando se sentou em sua poltrona diante da lareira de seus aposentos e assistiu as labaredas queimarem as madeiras de forma lenta e hipnotizante, sua mente estava longe dali, presa em dois olhos esmeraldas apagados que gritaram de ódio quando seu dono puxou seu corpo com força para roubar-lhe um beijo grotesco, apenas e unicamente para mostrar a si o poder que tinha sobre aquele garoto que não podia negar ser tocado.

Seus dedos tamborilaram o copo com whisky que pegara no bar ao canto, seus dentes cerraram e sua mente viajou por campos novos e inexplicáveis de raiva. Não entendia ao certo o motivo de sentir aquilo, não gostava de Harry Potter. Irritava-se com o fato do garoto impertinente, arrogante e completamente prepotente ter perdido essas características principais que o faziam ser quem ele era para se tornar uma sombra, mas parecia que algo mais o incomodava. Era como se a imagem do beijo forçado de Zabini, somado com a forma violenta com que ele tratava o jovem grifinório o queimasse por dentro, causando um comichão em sua barriga, uma sensação de que deveria impedir.

Mas por que impedir? Não tinha nada a ver com a vida deles. E ainda assim se comprometeu a disponibilizar seu precioso tempo livre aprimorando as aptidões, que sabia não existir, de Harry Potter apenas porque deixou-se agir por impulso, o que não era de seu feitio. Controle era tudo em sua vida, no entanto, não o tivera naquele momento e quase pegara Zabini pelo pescoço.

Agora precisava lidar com as consequências de seus impulsos, consequência que chegaria em poucas horas e bateria na porta de seu escritório. Teria uma tarde inteira com Potter ao seu lado. Ainda sem compreender a si mesmo, Snape levantou-se e dirigiu-se ao escritório por uma passagem secreta em sua sala de estar, ali separou alguns livros que julgara importantes e até algumas poções também. A mesa estava pronta, no entanto, ao olhar o relógio percebeu que nem mesmo amanhecera ainda, o sol não despontar no horizonte, os alunos não abriram os olhos sonolentos e nem mesmo a Lula gigante saíra das profundezas do lago Negro para chacoalhar as águas geladas que batiam em sua janela.

Apenas ele estava acordado, ele e as corujas que agora retornavam para o corujão após uma longa noite de caça, mas era ele quem não tinha sono. Snape caminhou de um lado para o outro em seu escritório, começou o preparo de algumas poções que Madame Pomfrey pedira para o estoque da escola, lera um ou dois capítulos de um livro com capa azul marinho onde letras douradas traziam o título "Magia Negra, amiga ou inimiga?", tomou um banho e finalmente foi para o café da manhã. O dia finalmente tinha começado e isso indicava preencher sua cabeça com os alunos irritantes.

Pelo menos a incompetência de algumas crianças fora o suficiente para fazer o tempo passar rapidamente enquanto proferia injúrias a eles e debochava de suas inteligências. Quando menos esperava era o horário do almoço.

Snape não comeu nada a sua frente, seu prato esfriará enquanto apenas bebia alguns goles de seu vinho e olhava a frente sem ver algo em específico.

- Está muito distraído hoje Severus, nem mesmo comeu seu almoço e é justo almondegas ao molho, seu preferido. Aconteceu algo?

- Não aconteceu nada, Minerva. - Respondeu arrumando-se em sua cadeira a carranca aparecendo em seu rosto

- Certeza? Faz muito tempo que não o vejo assim.

- Estou bem, mulher.

A diretora não insistiu no assunto, quando Snape estava azedo poderia ser a pessoa mais intragável de todas, no entanto Minerva sabia que alguma coisa estava mexendo com o homem e foi quando a figura de Harry Potter apareceu na porta do salão principal, quase no final do almoço, que ela desconfiou entender o motivo do mal humor do homem de preto. Os desatentos não perceberiam, os desavisados diriam ser loucura, mas Minerva poderia jurar que vira os olhos de Snape darem uma pequena contraída ao avistarem o jovem Potter. Um detalhe imperceptível para qualquer um, menos a ela. Snape já era um colega estimado e agora se tornara mais que um amigo, era quase um filho. Sabia muito bem reconhecer cada mínimo detalhe daquele homem.

- Com licença. - Pediu Snape largando o guardanapo com que limpou o vinho dos lábios em cima do prato de comida intacto. A diretora apenas acenou com a cabeça e observou o mestre caminhar imponente pelas mesas.

O caminho era curto, mas pareceu uma eternidade, cada passo se tornando mais pesado e barulhento, a capa esvoaçando atrás de si. Enfim chegou diante do jovem que trazia em seus olhos esmeraldas dúvidas, desconfianças e curiosidades. Snape o olhou de cima a baixo, Harry vestia uma calça jeans e uma camiseta simples vinho com um tênis escuro, já adulto e se vestia como um adolescente. No rosto uma sombra da barba por fazer, os cabelos mais curtos e arrumados do que se lembrava de ter visto no jantar. Ao respirar fundo um perfume amadeirado ao mesmo tempo doce chegou ao seu nariz o deixando intrigado, era bom, leve e o fez engolir em seco.

- Olá, professor Snape. - Cumprimentou Harry com as mãos nos bolsos balançando-se em seus calcanhares. - Espero não estar atrasado.

- Ultrapassando todas as expectativas o senhor chegou cedo, senhor Potter, o que pelo que me lembro não é de seu feitio. - Comentou Snape em sua voz sedosa, os olhos acompanhando o leve sorriso que o menino dera.

- Acho que estava ansioso, professor.

- Não leciono mais para o senhor, não precisa me chamar de professor.

- Está bem, Snape. - Harry imediatamente franziu a testa e deu uma risadinha.

- Onde está a graça, senhor Potter? - Questionou Snape cruzando os braços diante do peito.

- Desculpe, é que por anos eu o chamei apenas de Snape como um afrontamento por não gostar de você. Dumbledore até me repreendeu diversas vezes, além do senhor mesmo, mas agora que não preciso mais... agora eu me sinto estranho. Como se faltasse ao respeito com você por não te chamar de professor, pelo menos aqui dentro da escola.

Snape apenas balançou a cabeça e descruzou os braços ainda observando o jovem a sua frente que fugia o olhar a todo momento e baixava a cabeça. Um ato automático devido as ordens de Zabini, seu Alfa. O badalar do relógio indicou ser o final do almoço, as aulas do segundo turno começariam em alguns minutos e em apenas alguns segundos os alunos os engoliriam em sua multidão enquanto caminhassem rapidamente a suas salas comunais para pegar o material.

- Me acompanhe. - Disse seguindo para a escada que levava as masmorras.

Harry era o salvador do mundo bruxo e todos sabiam disso, o menino que sobreviveu duas vezes e matou Voldemort na frente de toda a escola no grande salão, mas isso não o impediu de ser mal-visto aos olhos dos sonserinos, principalmente porque muitos dos alunos da escola eram filhos de comensais que estavam agora presos em Azkaban e outros mortos. Por isso os alunos que passavam por si o olhavam com desprezo e ódio enquanto encaminhavam-se para suas salas comunais. Apenas alguns mais jovens, talvez jovens demais para entender a dimensão que fora a segunda guerra bruxa passavam por ele e ou o ignoravam ou até mesmo tinham um pingo de admiração em seu olhar. Fora apenas quando Snape parou na frente da porta de seu escritório e apontou a varinha para a mesma, recitando o feitiço que a destrancava, que Harry sentiu o real desprezo e ódio dos sonserinos nas risadas e piadas de dois estudantes, possivelmente do sétimo ano, que passavam carregando suas mochilas e destilando seu veneno.

- Parece que o senhor Zabini está dividindo o prato agora. - Disse um dos meninos rindo.

- Que nojo, eu que não comeria algo tão baixo assim. - Riu o outro olhando Harry de cima abaixo franzindo o nariz como se sentisse um fedor horrendo.

Harry baixou a cabeça imediatamente e apesar de parecer que Snape não vira ou ouvira, o professor estava completamente atento a cada letra preferida por seus alunos e igualmente aos atos submissos de Potter, os ombros encolhidos, a cabeça baixa, coluna curvada como um filhote amedrontado.

- Duncan e Lorn. - Disse Snape fazendo os dois sonserinos pararem de caminhar e se virarem para o professor. - Fiquem aí e me esperem. - Então se virou para Harry após abrir a porta. - Entre. - Ordenou, Harry entrou e Snape fechou a porta.

Os jovens sonserinos aguardavam o professor e por ser Snape, o eterno defensor de seus pupilos e diretor da Sonserina, não havia nenhum medo ou receio nos olhos deles. No entanto, Snape se aproximava com os olhos frios e duros, olhos que passavam de um garoto para o outro. Aqueles meninos idiotas não tinham a menor noção de como estavam perto de um destino cruel, não entendiam o quão Snape poderia ser um simples professor como o melhor comensal da morte, mergulhado em Artes das Trevas. Havia dentro do homem um calor que queimava suas entranhas enquanto encarava a prepotência e arrogância dos jovens, lembrar de seus insultos a Potter fazia suas veias arderem e sua mão coçar, ainda que não entendesse o porque. Ah se eles soubessem o que poderia fazer com suas pessoas se desejasse torturá-los, tão pequenos, jovens e fracos que não aguentariam um minuto sequer em suas mãos. A leve lembrança, o menor pensamento o fez querer sorrir torto, mas seus lábios permaneceram cerrados até chegar próximo o suficiente deles para que sua altura e postura os deixassem levemente incomodados. Snape era um predador e eles eram apenas duas presas fracas e vulneráveis. Quando falou, sua voz não passou de um sussurro, mas penetrou os ouvidos dos meninos como trovões.

- Vocês se acham fortes, grandes e talvez até mesmo importantes por seus pais não terem sido capturados pelo Ministério e por isso acham que podem falar o que quiserem.

- Professor Snape, senhor. - Iniciou um dos meninos, a voz trêmula. - Só falamos a verdade, o senhor vai defender o Potter agora?

- Senhor Duncan, cale a boca. - Disse Snape em um sussurro se aproximando mais um passo e ficando perigosamente perto. - A verdade é que seus pais são nada mais do que insignificantes para qualquer um, era para o Lord das Trevas e agora o são para o mundo bruxo, assim como vocês. Simplesmente nada. No entanto, se eu ouvir mais uma falta de respeito da parte dos senhores, garantirei para que o mundo bruxo conheça-os da pior forma possível, por enquanto ficamos com 10 pontos a menos para cada um.

- O senhor vai descontar pontos da sua própria casa em detrimento de um grifinório?

- Está questionando minhas decisões, senhor Lorn? - Questionou Snape com a sobrancelha erguida. - Até mesmo Salazar Sonserina sabia usar de educação e respeito com bruxos de outras casas, ainda mais sendo alguém poderoso. Talvez eu tenha que ensinar bons modos aos dois pessoalmente.

- Não será necessário, professor.

- Que bom, senhor Duncan, odiaria perder meu tempo com os senhores. Saiam da minha frente.

Snape observou os alunos saírem quase correndo pelo corredor e sentiu um prazer imenso na energia de medo que emanava deles. Ainda que estivesse mudado, havia dentro de si alguns vícios antigos muito difíceis de se desapegar. Vendo-se sozinho no corredor, o homem girou sobre os calcanhares e adentrou ao escritório onde Harry encontrava-se sentado em uma carteira diante de sua escrivaninha. Por um momento sua mente o transportou para alguns anos antes, quando Potter era seu aluno e se sentava mais ao fundo tentando passar despercebido por seus olhos que sempre cravavam no menino buscando um motivo, uma pequena razão para infernizar sua vida e agora ali estava ele, quieto como sempre desejara, mas errado de uma forma irritante.

- Por que ficou calado? - Perguntou pegando Harry de surpresa.

- O que?

- Por que deixou que dois estudantes, menores de idade, idiotas e insignificantes falassem daquela forma com o senhor? - Perguntou Snape novamente agora se postando diante do jovem e olhando profundamente dentro de seus olhos.

- Porque... - Começou Harry fugindo os olhos, o rosto avermelhando-se.

A verdade era que não sabia ao certo porque fizera aquilo, em outros tempos teria revidado, a não ser que fosse segurado por Hermione. Mas na hora que ouviu os insultos tudo que conseguiu foi sentir-se menos, pequeno, nada. Harry baixou a cabeça e mexeu os dedos nervosamente sem saber o que responder.

- Olhe para mim. - Ordenou Snape com a voz baixa se aproximando um passo. Harry precisou esticar o pescoço para olhar dentro dos olhos negros e Snape viu ali todo o condicionamento que Zabini fez com ele ao ponto de mesmo distante Harry sentir as amarras de sua submissão. - Ele não está aqui.

- Eu sei, mas... - Respondeu Harry baixinho quase como um sussurro como se sentisse que mais alguém pudesse escutar. - Eu sinto. Nossa ligação.

- Levante-se.

Demorou um pouco para Harry se erguer, o menino encarou Snape que aguardou pacientemente. Sem perder contato visual se levantou e sentiu Snape se aproximar um passo de si.

- Ele não está aqui, senhor Potter. - Repetiu Snape esticando as mãos e as postando nos braços do jovem. - Olhe ao redor.

E foi naquele momento, em que as mãos de Snape tocaram em seus braços com firmeza, mas não brutalidade, o virando gentilmente para que olhasse a sala vazia que Harry entendeu que naquele momento, naquele pequeno escritório não havia Zabini, não havia ordens e nem dor. Snape pôde sentir o alívio nos ombros de Harry que relaxaram aos poucos. Suas mãos ainda estavam postadas nos braços dele enquanto olhava para sua nuca, o cheiro dele chegando mais forte ao seu nariz conforme o garoto se acalmava, cada vez mais doce.

- A ligação de um Alfa com um ômega é forte. - Começou a explicar enquanto soltava seus braços e o via se virar. - Mas há detalhes que interferem nela.

- Que detalhes?

Snape respirou fundo e se afastou indo até sua mesa e encostando-se a mesma encarando Harry que ficou a sua frente encostado a carteira em que antes estivera sentado, os ombros do jovem agora relaxados, os olhos já mais brilhantes e leves.

- Se a ligação for feita de forma natural, conforme o chamado do Ômega ao Alfa, haverá em praticamente todo relacionamento sentimentos afetuosos tão fortes e intensos que torna a ligação profunda como se os dois se tornassem um. Dessa forma o Alfa consegue sentir o que seu Ômega sente e vice e versa. Não de forma completa, mas se uma das partes estiver triste, por exemplo, a outra também se sentirá dessa forma em uma intensidade bem menor e saberá que é devido o parceiro. - Snape explicava de forma bem didática, assim como era quando explicava a uma sala de aula o uso de alguma poção ou como surgiu algum tipo de feitiço. - Já em uma relação nascida de uma dominação essa ligação quase não existe, na maioria das vezes é criada uma sensação de que existe essa ligação devido a forma como o relacionamento segue, pois os parceiros não são destinados um ao outro.

- Destinados?

Snape franziu a testa e olhou de forma fria para o menino.

- Senhor Potter, o que sabe sobre sua própria espécie?

- Não muito. Basicamente o que Hermione me contou depois que... - Nesse momento Harry se calou novamente, parecia a Snape que o jovem queria dizer algo que não sabia ao certo como dizer.

- Entendo então que para melhorar sua aptidão, como prometi ao senhor Zabini, o senhor deva começar estudando um pouco sobre si mesmo. - Disse Snape após alguns segundos olhando o menino e sentindo um incomodo estranho que quase o fizera se aproximar dele. - Vamos separar nosso tempo em duas partes. - Continuou concentrando-se em sua didática para afastar as vontades estranhas que apareciam. - Na primeira hora você estudará, lerá muito e eu estarei aqui para tirar suas dúvidas, na segunda parte vamos treinar feitiços e azarações avançadas que todo auror precisa saber.

- Não acho que poderei me tornar um auror.

- Apenas se concentre em estudar e aprender, deixe para pensar nisso quando a hora chegar.

Harry respirou fundo e voltou a se sentar quando Snape se aproximou com um livro pequeno de capa marrom intitulado simplesmente de Alfa e Ômega. Segundo o professor, era preciso conhecer mais de sua espécie para poder evoluir sua magia e potencialidade, pois a magia agia de forma diferente neles. Por um momento achou que seria tedioso e que possivelmente dormiria em cima do livro e levaria uma chamada grotesca de Snape por isso, mas a cada página que lia, mais se interessava no assunto. Aprendera em algumas horas de leitura, que os Alfas eram dotados de uma magia poderosa e intensa, mas os ômegas carregavam em seu sangue a facilidade de cura e defesa. Assim como entendeu que o destinado que Snape dissera não era como se ao nascer um ômega já fosse pré determinado para uma certa pessoa, mas que as magias de um Alfa e um ômega poderiam combinar de uma forma singular e que isso os atrairia um para o outro e era a magia que fazia com que sentissem atração física e sentimental causando um frenesi conforme passavam mais tempo juntos ao ponto de ser quase insuportável ficarem separados, por isso se uniam fisicamente marcando seus corpos, o ômega com a mordida do Alfa e o Alfa com o sangue do ômega bebido no ato da mordida.

Ao término das horas de estudo, quando Snape indicou que a última hora seria de treino, Harry sentiu-se estranho ao fechar o livro, era como se as palavras lidas junto com o que Snape lhe dissera a cada pergunta que fizera o deixassem com a sensação de ter aberto dentro de si uma caixa que estava vazia, mas que estava sedenta para ser preenchida. Era aquela a sensação que Hermione tinha na escola? A vontade de querer saber mais, de conhecer mais. Era aquilo? Se fosse, deveria pedir desculpas a amiga, pois era algo bom de sentir. Se Snape permitisse, ficaria o restante do dia lendo sobre o que era e o que poderia ser.

- Gostou da leitura? – Perguntou o homem pegando o livro e devolvendo-o a prateleira. – Acho que foi a primeira vez que o vi ler com tanto afinco, a não ser quando lia o livro de poções do Príncipe Mestiço.

- O senhor sempre soube que eu estava com seu livro?

- Desconfiava, mas só confirmei mesmo quando atacou o jovem Malfoy e li rapidamente sua mente vendo vislumbres do livro em suas mãos.

Harry ergueu os lábios em um sorriso leve e travesso se lembrando de seu sexto ano, ainda que o momento em questão não fosse motivo de alegria, na verdade era até hoje uma mancha horrível em seu passado, mas ainda assim seus lábios se ergueram da mesma forma que a sobrancelha de Snape.

- Vamos treinar um pouco de feitiços, o senhor é muito bom em feitiços defensivos e isso se dá muito ao fato de ser um ômega, visto que em nossa linhagem, há centenas de anos, os ômegas lutavam junto ao seus Alfas, eles atacando e vocês defendendo. Porém um auror não pode apenas saber se defender, tem que saber atacar. Comece com feitiços simples como estuporar, depois mudamos para algumas azarações e com o tempo entramos em outros feitiços mais fortes e complexos usados em duelos.

- Eu vou duelar com o senhor?

- Não no momento, quero sentir a potência de sua magia. Vai tentar me estuporar. Quanto mais facilmente eu conseguir me defender quer dizer que precisa treinar e fortalecer sua magia. Agora, me ataque.

Snape afastou as carteiras, abrindo um espaço amplo no meio do seu escritório, o suficiente para que ficassem de frente um para o outro e pudessem trabalhar o uso de feitiços. Harry se posicionou e respirou fundo, sabia estuporar alguém, fizera muito disso quando estava caçando Horcrux e durante a Batalha de Hogwarts. Ele posicionou-se diante de Snape que mantinha uma postura quase descontraída como se não estivesse prestes a ser estuporado, ergueu a varinha e concentrou-se no feitiço.

- Estupore!

O feitiço saiu de sua varinha, mas tão rápido quanto brilhou na ponta dela, apagou-se com um simples mexer de mãos do professor.

- Não precisa gritar, a força da sua magia não vem de sua fala e que eu saiba você já sabe feitiços não verbais. Use-os.

- Eles são mais difíceis.

- Não perguntei se são mais difíceis, mandei usá-los. – Disse Snape de forma rígida. – De novo.

E mais uma vez Harry se posicionou e tentou estuporar Snape, dessa vez usando um feitiço não verbal, mas tão rápido como da primeira vez, Snape o repeliu sem quase se mexer.

- Está pensando demais, senhor Potter.

- Eu preciso pensar para soltar o feitiço. – Disse Harry mostrando um tom raivoso em suas palavras. Snape franziu rapidamente a testa e olhou para o menino mais atentamente.

- Não precisa não. Os feitiços devem ser lançados sem que pense muito neles, deve ser instinto. O que deve pensar é na mira, onde acertar, se é em cima ou embaixo, mais para um lado ou para o outro, mas fazer deve ser de dentro de você, das suas veias e corpo e não da mente. Sinta a necessidade e faça. De novo.

"Estupo..." – Repelido de novo.

- Está pensando demais, apenas faça! – Disse Snape com os dentes cerrados.

"Estupo..."

Repelido mais uma vez, e mais uma e mais uma até que o suor começou a escorrer na testa de Harry e seu rosto trazia uma vermelhidão crescente.

- Pensei que quisesse ser auror, senhor Potter. – Disse Snape se aproximando.

- Eu quero. – Respondeu Harry com a varinha erguida.

- Então deixe de ser incompetente e me acerte.

- Estou tentando.

- Não tente, faça.

- Estupor... – Repelido.

- Ainda a mesma criança incapaz.

- Eu não sou incapaz!

- Então mostre.

- Estupore!

E nesse momento Harry arregalou os olhos, quando viu Snape se defender, mas ainda assim ser jogado para trás sendo obrigado a dar alguns passos e quase bater o corpo em sua escrivaninha. O professor ficou parado por alguns segundos e então se ergueu guardando a varinha na manga do sobretudo e arrumando o cabelo atrás das orelhas. Devagar se aproximou de Harry que permaneceu parado com a varinha estendida. A ponta da varinha bateu no peito de Snape que não parou de se mover até estar diante de Harry, tão perto que podia contar as riscas de suas íris.

- Isso, senhor Potter. – Disse baixinho. – Era isso que eu queria ver.

- O que você queria ver, senhor? – Questionou Harry olhando nos olhos de Snape e vem um calor em seus túneis profundos.

- O velho Potter de volta.

Ver o sangue queimar as bochechas de Harry fez com que Snape tivesse vontade de levar seus dedos até a pele alva e acariciar o local. Provocara o menino de propósito, pois sabia que apenas assim ele agiria como deveria ser, como era de verdade, um grifinório prepotente e arrogante e não uma criatura submissa escondida e torturada por alguém que nem ao menos é tão competente como ele. Harry Potter era mais do que um escravo e precisava fazer com que ele se lembrasse disso.

- Fazia tempo. – Sussurrou Harry baixando a varinha que nem mesmo percebera que ainda estava erguida apontada para o peito do professor. Ele fechou os olhos e respirou fundo. – Foi bom.

Snape não disse nada, apenas continuou ali observando Harry com os olhos fechados e um sorriso no lábio, o perfume que ele emanava fortaleceu-se e inebriou a mente de Snape fazendo-o ter vontades estranhas de se aproximar mais ainda. Era como se o jovem o chamasse. Snape estava ciente de que sendo ele um Alfa e Harry um ômega, essa vontade poderia aparecer, pois poderiam se atrair de alguma forma, mas jamais imaginou que sentiria uma atração forte, as que tivera antes foram tão fracas que nem mesmo foram levadas em consideração, facilmente seguiu sua vida, no entanto Harry causava em si um desejo de ficar mais próximo e isso era novo e perigoso demais. Harry já tinha dono.

Harry, ainda de olhos fechados, inclinou a cabeça para o lado enquanto levava a mão aos cabelos passando os dedos de leve sentindo o suor em sua pele. Ao fazer isso seu pescoço ficou amostra e Snape viu ali a marca dos dentes de Zabini. Deveria ter ignorado, deveria ter se afastado, mas sem conseguir evitar levou os dedos até aquele pedaço de pele e tocou levemente por cima da cicatriz. Harry abriu os olhos e virou-se encarando Snape que não se mexeu mantendo os dedos na marca.

- Como? – Questionou o professor em um sussurro.

A resposta demorou um pouco a vir, Harry sentiu-se estranho olhando para Snape tão próximo. Sentir o dedo dele em sua pele quase trazia um arrepio estranho, era quente, muito diferente de quando Zabini encostava em si.

- Eu estava no Ministério. – Começou Harry em não mais do que um sussurro, os olhos presos nos de Snape, completamente ciente do dedo do professor roçando de leve seu ombro. – Me chamaram para um depoimento pós guerra. Segundo Hermione eu comecei a exalar os feromônios ômegas só após a guerra devido estar muito preocupado com os comensais e com Voldemort e isso ter atrasado o amadurecimento. Naquele dia eu me perdi procurando a sala que deveria ir e acabei esbarrando em Zabini no corredor. Eu não sei ao certo o que o fez agir, se foi meu cheiro ou porque bati meu ombro no dele e o afrontei dizendo que era um frouxo por entregar seus amigos em troca de liberdade. Só sei que ele de repente se jogou em cima de mim tão rápido que não tive tempo de sacar a varinha e então senti a dor no meu ombro quando ele cravou os dentes em mim. Quase imediatamente senti meu corpo de uma forma estranha, quase como se não respondesse mais a mim e sim a ele. – Harry baixou a cabeça e então Snape afastou o dedo de seu ombro e o levou ao queixo do menino erguendo sua cabeça. – Zabini sorriu para mim e disse apenas "Agora você é meu" e agora eu sou dele.

Snape ficou calado, apenas calado olhando Harry, observando-o respirar, o dedo ainda em seu queixo. Havia alguma coisa, algo intenso que parecia puxá-lo pelo umbigo em direção ao menino, mas Snape deu um passo atrás e afastou-se dele indo em direção a um armário no fundo da sala. Harry respirou fundo e fechou os olhos sem entender o que acontecera naquele momento. Snape era Snape, desde quando se sentira tão confortável para ficar tão perto dele e deixa-lo tocar em sua rosto? E porque sentia vontade de voltar a aproximar-se dele?

- Já está no final do nosso tempo. – Disse Snape voltando com um vidrinho pequeno em sua mão que estendeu para o menino. – Use isso nos machucados.

Harry levou a mão ao rosto onde ainda se via os hematomas que Zabini deixara em si antes do encontro da escola. Agradecendo pegou o vidrinho e guardou no bolso de sua calça.

- Nos vemos daqui três dias, senhor Potter. No mesmo horário.

- Está bem.

O grifinório balançou-se nas pontas dos pés duas vezes e depois se virou em direção a porta, mas cada passo parecia mais pesado e quando alcançou a maçaneta parou com os dedos quase a tocando. Snape permaneceu calado apenas o observando.

- As vezes eu me pergunto. – Disse Harry baixinho. – Será que eu tenho meu parceiro Alfa? Se tenho, quem seria?

- Não sei, senhor Potter. – Respondeu Snape vendo-o trocar o peso do corpo entre as pernas. - Mas todos temos um.

- Você é um Alfa, não é, Snape?

- Sim, eu sou.

- Hummm, que pena.

- O que é uma pena, senhor Potter?

- Que o senhor não tenha ido ao Ministério naquele dia.

A porta fechou com um baque seco deixando Snape sentindo um vazio estranho naquele escritório.