Pareceu ter passado horas desde que fora jogada novamente em sua cela. Hinata estava sentada, com as costas escoradas contra a parede. Hora calculando sua situação atual para encontrar uma maneira de fugir. E hora lamentando os últimos acontecimentos. Perguntado-se como estaria seu pai e Naruto. Sua mente fervilhava enquanto buscava maneiras de fugir ou até mesmo de lutar. Conseguiria enfrentar tantos homens? Acreditava que sim. Mas até onde conseguiria lutar? Para onde deveria seguir para retornar a Kiri? Qual direção seguir? Estava perdida, tinha de admitir. Seu silêncio indicava sua concentração. O que seu inimigo estava aprontando? Ela conseguia ouvir a movimentação do lado de fora, mas nada tirava das conversas. Estavam muito distantes.
A ansiedade tomava conta de seu peito, temendo não conseguir agir a tempo. Precisava fugir quanto antes, retornar até seu clã e se unirem novamente para derrotar a possível nova organização comandada por Kazuki. Precisavam descobrir de onde surgiram tantos reforços. Como deixaram isso passar? Havia mais de onde esses vieram? Por que não suspeitaram de nada? O que perderam?
Apesar das dúvidas incessantes, de nada adiantava questionar um caminho já trilhado. A única preocupação que importava era escapar daquele forte e levar as informações para seu clã. Tomaria uma atitude o mais rápido possível para colocar as mãos em Kazuki. Desta vez, se certificando de sua captura.
Era impossível não se remoer de culpa. Acreditava fielmente que todo o fardo estava sobre seus ombros merecidamente, pois ela era a líder, e ela falhou. Caiu na armadilha fajuta do inimigo e agora estava em suas posses. Detida, contida, presa.
A quantidade de homens calculados a assustava. Mas era o esperado de um forte grande como aquele. A suspeita que lhe arrepiava a espinha era que mais estavam por vir, se considerar o forte armamento militar que ela encontrou estocado na saída do acampamento.
Kazuki tinha um plano em andamento e não era difícil imaginar do que se tratava. Homens reunidos, carruagens carregadas de barris de pólvora, armas, arcos e flechas. Cavalos a postos e a agitação que a rodeava.
Toda movimentação e atmosfera a levavam a seguinte conclusão de que Kazuki atacaria a vila de Kiri. Uma vingança por ter perdido o controle da cidade.
As palavras do inimigo também ecoavam em sua mente.
"Preparei uma surpresa adorável para você."
"Não se preocupe, querida. Você assistirá tudinho."
"… eu gosto de grandes espetáculos. Sou um tanto exibido. Gosto que testemunhem."
Ela fazia parte do plano dele. Seja lá o que estava arquitetando, Hinata seria um de seus espectadores. Forçada a participar, a presenciar, a assistir.
A linha de entendimento que começava a se formar a aterrorizava, secando sua garganta e enchendo seu tórax de pura aflição. Juntando todas as informações até agora, era nítido as intenções do líder criminoso. Hinata era seu principal alvo, mas não o único. Algo lhe dizia que Kiri, mais do que ela, estaria em perigo.
O clã Hyuga não estava incluído na estratégia minuciosamente projetada por Kazuki.
"Estarão ocupados demais procurando por você."
Não somente eles, o exército inteiro de Susumu também estariam à sua procura. Assim como Naruto. Isso poderia significar apenas uma coisa e a medida que a compreensão invadia Hinata, seus nervos apenas se agitavam mais.
Não era somente a sua vida que estava em jogo e isso a obrigava a procurar por novas soluções.
Porém, antes que ela pudesse concluir sua linha de raciocínio, tentando prever os passos de seu inimigo, sua cela foi aberta e um guarda caminhou até ela.
Sendo rude e bruscamente puxada do solo, Hinata é encaminhada para uma nova sala. Ainda vendada, ela escutava o burburinho ao redor. Homens se movimentando para carregar a artilharia para fora dos alojamentos, espadas e lanças sendo afiadas. Mais e mais barris sendo carregados.
O frio cortante presente no alto da colina coberta pelo manto de neve lhe sopra o rosto. Ela está deixando o local de sua cela e sendo arrastada para fora. A brisa gélida congela suas bochechas e ela compreende com melhor precisão a localização da fortaleza inimiga. Ele só poderia estar ao sul de Kiri, ainda sim, muito distante, para ter a presença de neve nessa época do ano. Um inverno rigoroso nunca deixava aquela área. Ela conseguia sentir a maciez da neve que cobria o solo sob seus pés e a música que soprava em seus ouvidos partindo das correntes de ventania que arrastavam seus cabelos.
Buscando apurar sua imaginação, a vegetação ao redor ainda florescia. Troncos altos e repletos de folhas a cercavam, seu olfato capturou o cheiro do verde que se recusava a abandonar os galhos. Lutando fortemente contra o clima.
Sua incapacidade de poder enxergar a enchia de frustração. A inquietude ameaçava crescer em seu interior a medida que era arrastada, dando voz a um terrível e horripilante pressentimento de que Hinata estava prestes a ter que enfrentar o maior desafio de sua vida como kunoichi.
O som angustiante e glacial do inverno abandonam seus ouvidos e suas bochechas parecem finalmente aquecer ao adentrar um novo recinto. O silêncio se faz presente quando é trazida para o centro, mas ela pode sentir todos os olhares em sua direção.
Após subir um lance de escadas, ela é finalmente depositada em uma cadeira, onde o mesmo guarda que a guiou se certifica de prendê-la pelos ombros.
"Não, aí não." A voz de Kazuki se faz presente. "A pendure ali."
Novamente, seu corpo é puxado e conduzido até um gancho preso na madeira acima. Seus braços são puxados para o alto e ficam suspensos quando as amarras em seus punhos são conectados a novas presas. A altura é tanta que Hinata tem que ficar na ponta dos pés para não precisar submeter seus braços a suportar o peso de todo seu corpo. Usando o mínimo possível de apoio.
Estava parcialmente pendurada.
A posição submetida contorce e estica todos seus músculos. O tecido rústico da corda ao redor de seus pulsos antes pinicavam, mas agora, com os braços suspensos, se ajustavam ao redor da pele delicada conforme a gravidade a puxava para baixo, machucando e maltratando suas articulações.
"Conseguiu descansar, Hinata-sama?"
O tom sarcástico do líder chega aos seus ouvidos.
"Lamento que meus aposentos não sejam do nível de sua realeza, acredito não estar acostumada com pouco. Uma jovem que nasceu na elite deve ter experimentado tudo do bom e do melhor a vida inteira. Não é mesmo? Está acostumada com sofisticação e conforto."
Hinata opta por não responder.
"Bem diferente de mim. Que nasci na pobreza e vivi nela por muito tempo. Não é um estilo de vida confortável. Vai por mim. Um dos motivos que me fizeram alterar meus rumos e ideais para poder ter o conforto que buscava. Nunca me contentei com o pouco que a vida me dava. Mas é claro, não é o tipo de conversa que uma princesa entenderia." Ele se vira para ela. "É tão fácil pagar de boa moça, quando sua realidade é bem diferente da miséria que a cerca."
"Está tentando me dizer que é um criminoso com consciência de classe? Devo me compadecer com sua triste vida?"
"Não, claro que não. Só é nítido que há coisas que alguém como você nunca vai entender. A pobreza, a miséria, a fome, podem levar um homem a se tornar o pior de sua espécie. A vida pode ser bem cruel com os menos afortunados."
"Então, peço perdão por ter sido embalada em lençóis de seda ao nascer, Kazuki." O sarcasmo dela o diverte.
"Tão afiada quanto uma kunai. Gosto disso."
"Você condena os pobres, os oprime somente por você ter sido um deles?"
"Não os condeno por isso, apenas aprendi cedo que o meu lugar é do outro lado da moeda, no alto. Tirando deles o que tiravam de mim. Para uns terem demais, outros terão de menos. Aprendi como ficar do lado certo."
A líder endurece seu semblante.
"Ambição. É somente a isso que se resume toda sua vida."
"É no que ela se baseia, sim. Quanto mais se tem, mais se quer. A vida sempre será injusta, o que me resta é me certificar de não ficar abaixo dessa linha. Sempre acima."
"Nem que para isso você tire vidas inocentes? Não use seu passado como desculpas para suas atitudes grotescas."
A risada nasalada que lhe sai dos lábios é em tom de deboche.
"Depois que tirei a primeira vida brigando por um pedaço de pão, percebi que não foi tão difícil assim." Seus olhos frios caem sobre a líder. "A melhor defesa é o ataque, certo? Chegue primeiro, ataque primeiro, conquiste primeiro. Você se esquece da trilha de sangue, logo a neve a cobre." Seu olho esquerdo pisca para ela. "O importante é se manter no alto. E por isso você está aqui. Derrubou um império que levei anos para conseguir. Não poderia deixá-la impune por isso, Hinata-sama."
Os passos de Kazuki podem ser ouvidos e logo, seu hálito quente e indesejado alcança as bochechas avermelhadas da líder, que vira o rosto bruscamente ao notar sua aproximação. Seus dedos grosseiros agarram firmemente seu maxilar.
"Você ficará aqui em minha companhia enquanto termino meus preparativos para nosso grande show." A risada dele ecoa, divertido, satisfeito. "Ficará pendurada como um animal encurralado e caçado, empalhado. Uma bela decoração de parede. Vai servir de estímulo para meus homens." A ponta do seu nariz desliza pela bochecha até a curva do pescoço da líder. Um sorriso pode ser sentido contra a carne e Hinata sente os músculos do maxilar doer ao tentar sair do aperto de seus rudes dedos. "Imagino o quanto dessa pele macia aquele líder ANBU deve ter provado, hein?"
Hinata tenciona sob os toques dele à menção de Naruto.
"Aposto que se eu procurar, encontrarei evidências do segredinho de vocês."
Presa e quase completamente suspensa, ela tenta se esquivar de seu aperto, mas sem sucesso.
"Ninguém pode culpá-lo por provar da sua fruta, não é mesmo, rapazes? Quem não gostaria de se deliciar com uma mulher como você." O gancho que dava lugar à mão perdida, desliza pelo vão do quimono de Hinata, adentrando a vestimenta e rasgando o tecido. "Você dará um belo banquete, Hinata-sama. Para todos se esbanjarem." As risadas maliciosas atrás do líder enchem Hinata de nojo. "De gazela empalhada para uma grande e deliciosa leitoa servida na mesa. De pernas abertas e boca cheia, pronta para servir uma equipe inteira."
Dominada pela repulsa das intenções daquele homem, Hinata levanta o joelho usando a pouca força que tem para afastá-lo ao atingi-lo entre as pernas. Mas sua ação é facilmente repelida quando, em um movimento rápido, ele solta seu rosto para agarrar seu joelho, cravando seus dedos em suas juntas tão fortemente, que Hinata sente a perna amolecer. Um grunhido de dor escapa de seus lábios.
"Você nunca desiste de lutar, não é mesmo? Chega a ser fofo. Mesmo estando em clara desvantagem, você está sempre planejando alguma coisa nessa sua cabecinha cabeluda. Kunoichis são mesmo espetaculares."
O gancho agora desliza pelo joelho machucado.
"Mas se você não quiser que a sua sessão de tortura comece aqui e agora, comigo rasgando o seu joelho, o abrindo e deixando você sangrando enquanto pendurada, eu sugiro que seja uma boa garota. Até o show terminar, você tem que estar inteira e consciente. Eu não quero que perca nenhum detalhe, Hinata-sama. Eu preparei tudo especialmente para você. E você será a minha cereja do bolo!"
Hinata ofega, dolorida, sentindo a circulação de sangue em seus braços diminuir e os mesmos adormecerem.
"O que você vai fazer?" Seu sussurro o alcança.
"Vou fazer com que você se arrependa de ter entrado em meu caminho." Ele dá um tapa sem força no rosto dela. "E depois, meus homens e eu descobriremos quem consegue te fazer gritar mais. Nós, ou o seu herói da Folha."
Mais risadas foram ouvidas e assim, ele se afasta para retomar os afazeres. Deixando Hinata pendurada, com os braços doloridos e amortecidos e um joelho pulsando. Somente a ideia daquele homem a tocando apavora cada célula da líder. Hinata estremeceu diante das insinuações, temendo ser usada como brinquedo sexual na mão daqueles seres monstruosos, asquerosos e desumanos.
Em meio ao desespero que ameaçava a dominar novamente, nos próximos quarenta e cinco minutos que se passam, ela tenta descobrir como fugirá das garras daquele horripilante homem e encontrar o caminho de volta para Kiri.
(...)
"Onde a encontraram?"
"Na estação ao leste, esperando o trem. Tentou fugir quando nos avistou."
Hiashi se aproxima para receber o documento da suspeita. Ao ler e verificar sua identidade, seu olhar cai sobre ela antes de se virar e ordenar que o acompanhassem.
Naruto o segue para a sala de interrogatório, com os punhos fechados.
Quando foram deixados a sós na sala, somente ele, Hiashi e a que viria a ser interrogada, o olhar que ela o lançou o fez a reconhecer. Apesar de assustada, ele conseguiu se lembrar de seu rosto.
Hiashi separa alguns papéis na mesa a sua frente e se prepara para o interrogatório.
"Acredito que não preciso perguntar se a senhorita sabe porque está aqui, tendo em vista que tentou fugir ao reconhecer meus homens indo procurá-la em uma estação de trem."
A expressão assustada e olhos arregalados a denunciavam. Estava com as mãos algemadas, mas sua inquietude e nervosismo a consumiam.
Naruto sentia que não seria difícil conseguir a informação que precisavam. Apenas torcia para que ela a obtivesse.
"E-Eu não sei, Hi-Hiashi-san… eu corri porque… porque…
"Porque é cúmplice no sequestro da líder Hyuga." Naruto se adianta, raivoso. "Não adianta tentar negar. Eu me lembro do seu rosto."
"Hi-Hinata-sama? Ela foi… ela foi…?"
"Para com esse cinismo!" Naruto bate na mesa e acaba a assustando. "Nós já sabemos que foi você que adulterou nossas bebidas, noite passada."
Ela se encolhe e Hiashi intervém.
"Naruto, deixa que eu conduzo."
"Mas ela está se fazendo!"
"Ela já está aqui e não tem mais para onde fugir, tenha calma."
"E-Eu não estava fugindo, eu juro!"
"Então por que correu?"
"E-Eu estou devendo algumas dívidas. Pensei que eram cobradores…"
"Você trabalha nesta pousada?"
"Sim, senhor."
"Se trabalha, por que não tem nenhum registrado com o nome de Watanabe Kenya?"
A mulher engole em seco.
"Porque esse não é meu nome. Me chamo Misako! Eles estão tentando me incriminar!"
Hiashi suspira alto, tão impaciente quanto Naruto.
"A verdadeira Misako-san esteve aqui e foi ela quem nos levou até você. A funcionária que você envenenou para que pudesse ocupar o lugar dela na pousada e colocar em prática sua parte do plano. Que era dopar Hinata."
Uma gota de suor escorre pela têmpora da mulher, que, aos poucos, se vê mais encurralada diante dos fatos.
"E-Eu não dopei ninguém. Não envenenei ninguém! C-Como podem pensar algo assim de uma pobre mulher como eu? Eu estava trabalhando, apenas isso! Meu trabalho é servir chá."
Naruto respira fundo para controlar a vontade de socar a parede ao lado da acusada. O cinismo escancarado em sua face o irritava profundamente. A culpa era evidente em seus olhos, mas ela insistia em negar a participação no crime.
Antes que Hiashi possa pedir para que Naruto se acalme, um dos shinobis adentra a sala para sussurrar algo no ouvido dele e entregar-lhe um pacote com ervas.
Hiashi acena antes de dispensá-lo e inspeciona o conteúdo dentro do plástico transparente.
Ele o levanta na mesa.
"A senhorita reconhece estas ervas?"
"Não, senhor."
"Foi encontrado em uma de suas malas. No meio de seus pertences." O olhar dele era severo. "Nossos doutores especialistas analisaram a origem delas antes de me entregarem e pelo que me foi dito, aqui temos uma mistura de ervas tóxicas, como a Uva-de-rato e cereja-de-jerusalém."
Naruto descruza os braços diante da revelação. Reconhecendo o nome das ervas mencionadas.
"Uma destas foi encontrada no veneno que retiramos do corpo do nosso agente ANBU. Que você envenenou noite passada." Hiashi endurece o olhar ao se inclinar sobre a mesa.
"O que tem a dizer sobre isso?" Ela não responde, todavia. Observando o pacote em cima da mesa. Sua expressão de derrota a atinge e seus olhos parecem lacrimejar.
"Acho que está na hora de ser honesta, Kenya-san. Você foi pega fugindo da cidade. Seu rosto foi reconhecido pelos funcionários da pousada que estiveram aqui na noite passada. Encontramos evidências em seus pertences que a relacionam com o ocorrido de horas atrás. A senhorita está detida e não tem para onde ir. Não deixará esta sala enquanto não nos disser o quão está envolvida no sequestro de minha filha."
Os olhos dela passam de Hiashi para Naruto e acabam vacilando. A fúria que emanava dele estava a oprimindo.
Compreendendo que não tinha mais como mentir, ela decide se entregar.
"Hiashi-sama, por favor… eu fui obrigada… fui forçada a participar. Eu não queria fazer mal a ninguém!"
"Mentira!" Naruto volta a bater o punho contra a mesa, fazendo a mulher se sobressaltar novamente. "Você me envenenou. Tentou me matar e dopou a Hinata. Pare com essa ladainha mentirosa e confessa logo para quem você estava trabalhando! A mandado de quem você fez o que fez?"
"Kazuki-san!"
O tom ameaçador de Naruto funcionou de imediato. O nome do mandante da ação escapou pela boca da acusada sem a menor hesitação.
Hiashi e Naruto trocam um olhar na mesma hora, confirmando a teoria de Naruto de que o sujeito realmente não estava morto.
"Kazuki-san? O líder da maior organização criminosa de Kiri?" Hiashi questiona e ela acena.
"Até onde sabemos, ele está morto."
"Não, senhor. Ele está vivo. O plano de sequestrar Hinata-sama foi dele. Ele me contratou para poder cuidar de Hinata-sama e do agente ANBU. Mas fiz tudo forçada, eu juro! Ele é um homem assustador e muito manipulador. Ameaçou minha família se eu não o ajudasse, já que descobriu que sou boa com ervas."
Uma risada nasalada escapou dos lábios de Naruto. Desacreditava que ela teria sido forçada, já que estava se esquivando o interrogatório inteiro. Obviamente estava tentando amenizar sua parcela de culpa em toda a operação.
"Sua família? E pretendia ir embora a deixando para trás. É isso mesmo? Se preocupa tanto que estava até saindo da cidade."
Ela engole em seco, pega em mais uma mentira. A atitude intriga Naruto.
"Para onde estava indo?"
"E-Estava indo justamente visitar minha família. Eles moram fora da cidade…"
"Nome da cidade." Hiashi intervém.
"S-Sendai."
"Sua família mora em Sendai?"
"S-Sim senhor, estava voltando para eles… tive medo de Kazuki ir atrás deles…"
Hiashi desce os olhos para os documentos encontrados nos pertences da culpada e antes de voltar a direcionar-se para ela, seus olhos adotam o ar gélido dominante da maior geleira do mundo.
"Pois bem. Deixe-me alertá-la sobre algo, Watanabe-san." Ele usa seu sobrenome antes de continuar. "Eu conheço a cidade mencionada e tenho contatos lá, como em muitos lugares, afinal, sou um Hyuga, um dos clãs mais influentes e prestigiados do País do Fogo. O seu sobrenome não é muito comum, poucas famílias e clãs o obtém. E com a minha influência, eu posso averiguar com rapidez e eficiência a localização da sua suposta família. Eu irei atrás desta informação. E se ao fizer isso, eu perder a chance de salvar minha filha de Kazuki. Se eu descobrir que sua família não existe, seja aqui em Kiri ou em Sendai, a senhorita pode ter certeza de que não apenas passará o resto de seus dias na prisão, como também me certificarei de que todos os dias compartilhados em uma cela com os demais detentos, você viva um inferno até que deseje ser condenada por enforcamento."
Diante de tantas mentiras contadas até agora, era difícil saber se Kenya realmente temia o criminoso que sequestrou Hinata. Era cedo para dizer se ela era uma mera coadjuvante em seu grupo, ou se fazia parte da organização. Porém, uma coisa se fazia certa no presente momento. O tom cortante e ameaçador de Hiashi Hyuga, sem sombras de dúvidas, conseguiu amedrontá-la e ultrapassar qualquer suposta ameaça que ela tenha recebido de Kazuki.
Somente quem já se deparou com a fúria implacável de um Hyuga poderia acatar uma ameaça como essa sem pensar duas vezes. Não ousando contar com a sorte. Principalmente quando a ameaça em questão vinha do ex-líder mais rígido que o clã já teve.
"A escolha será sua. Me fará perder tempo, Kenya-san? Ou será honesta para que eu possa aliviar seus dias na prisão, uma vez que não terá como escapar dela, já que foi participante ativa de um crime contra meu clã?"
As lágrimas descem pelo rosto dela. Naruto observa seus lábios tremerem. Ao fechar os olhos por uns instantes, ela abaixa a cabeça e lamenta em silêncio ter sido pega. Não saberia dizer quem tornaria seus dias piores, Hiashi ou Kazuki.
Completamente derrotada, ela compreende que jamais poderia contar com a ajuda do líder criminoso. Ela se tornou uma peça descartada no momento em que foi pega. O máximo que poderia fazer no momento era lutar por sua liberdade. Ao menos o que sobrou dela.
"Eles…" Ela funga antes de levantar o rosto, mas sem encarar o homem a sua frente. "Eles a levaram para um forte, ao sul daqui." Ela começa a revelar a informação que mais procuravam, o que causa euforia no peito angustiado de Naruto. "Uma fortaleza que pertence a Kazuki, onde alguns de seus homens trabalhavam e guardavam o local na sua ausência. Fica cerca de 250km de distância. Foi para lá que ele fugiu quando escapou das minas."
Hiashi se levanta imediatamente e chama um de seus homens para repassar a informação.
"O que mais você sabe?" Hiashi se adianta, impaciente. "O que ele pretende com minha filha?"
Kenya, porém, balança a cabeça.
"Eu não sei, Hiashi-san… vingança, eu acho." Seus olhos vermelhos o fitam. "Kazuki é um homem muito ruim. Imperdoável e cruel. Eu só sabia que ele a levaria para lá, mas a segunda parte do plano não me foi revelada porque eu não seria incluída. Eu só sei que ele queria apenas a Hinata-sama. Ela era o único alvo. Mas o que ele pretende, eu não sei dizer. Eu juro."
"Vamos, Naruto." Hiashi reúne a papelada e um shinobi agarra a prisioneira para levá-la até os demais capangas apreendidos de Kazuki.
Ao deixarem a sala, antes dela ser levada para longe, sua última frase aterroriza todo o ser de Naruto.
"Com muita sorte, talvez vocês a encontrem viva." Ela solta, impassível. "Eu nunca vi um homem ser capaz de fazer o que ele faz."
(...)
Quase uma hora após ser amarrada e pendurada, Hinata é surpreendida com um tapa no rosto para dispersá-la de seus pensamentos. A ardência queima sua bochecha esquerda e lhe ferve o sangue. Sem uma base suficiente para se sustentar, as pontas dos dedos de seus pés buscam desesperadamente um apoio no chão, que mal o tocam. Seus braços suspensos mal podem ser sentidos, mesmo quando ela tenta usar a força deles para sustentar seu peso e impedir que seus músculos esfriem.
"Acorda, princesa!" O aperto ao redor de sua cabeça é desfeito quando a venda é removida. Suas pálpebras estavam tão firmemente pressionadas pelo pedaço de trapo, que ao tentar abrir os olhos, dor é tudo que sente. Seus glóbulos oculares estavam sensíveis, tanto que a luz do ambiente a incomoda.
Atordoada, ela pisca os olhos para o bando a sua frente. Hinata nem se dá ao trabalho de ativar seu doujutsu, pois o serviço em que todos se empenharam já estava sendo finalizado. As mesas estavam limpas e todo equipamento restante que usariam na missão já estava sendo carregado para os portões do forte. Na sala, restavam apenas Kazuki e seus homens.
O braço incompleto do criminoso, agora obtinha uma adaga no lugar do gancho. A mesma que ele ainda afiava. Hinata solta um suspiro sôfrego, sentindo dores por todo o corpo. Ela puxa os braços, tentando fazer o sangue voltar a circular.
"Posição desconfortável, né?" Ele zomba, sem a olhar. "Mas não se preocupe, estamos quase de saída. Você terá sua trégua enquanto participa do nosso espetáculo." Seus olhos finalmente se levantam e neles, Hinata encontra o brilho de uma mente perversa, prestes a colocar em prática um ato hediondo. "Agora é o momento em que compartilho com você, como havia prometido, o que faremos a seguir."
Instintivamente, ela tenta se afastar ao vê-lo se aproximar. Kazuki sorri para ela. Apontando a lâmina reluzente em sua direção.
"Sabe para onde vamos, Hinata-sama? Faremos uma visitinha ao povoado de Kiri, pela última vez." Os olhos dela, envolto de olheiras, se arregalam ao ouvi-lo. "Coitados! Você deve estar se perguntando o que essa gente inocente tem a ver com o meu plano. Eles não tem culpa do meu império ter sido destruído. Afinal, a culpada foi você e seu clã intrometido. Que decidiram prestar ajuda àquele senhor feudal bundão e falido."
Seus passos a rodeiam.
"Mas como eu disse, gosto de grandes espetáculos, sabe? E quando decido me vingar de meus inimigos, gosto de fazer em grande estilo. Em grande escala. E por isso, convidarei o povo de Kiri a participar da última etapa da minha vingança." Seu sorriso amarelo ressurge. "Eles são parte do meu show por serem justamente o motivo que a levou a tentar me derrubar. Você é uma líder, está acostumada a colocar o povo acima de tudo. Tem um clã para liderar e proteger. Está na sua índole lutar pelos menos afortunados, pelos fracos e por isso, farei questão de tê-la comigo para presenciar a sua principal função ser um tremendo fracasso."
Hinata o observa atentamente caminhar ao seu redor, buscando entender onde ele deseja chegar.
"O que você quer dizer?"
"Este forte foi tudo que me sobrou. Foi para onde fugi para poder recuperar minhas energias e ainda bem que sempre cuidei muito bem dele. Como um homem de negócios, cobrei alguns favores aqui e ali e consegui aumentar meu armamento significativamente para poder atacar a vila de Kiri até que ela vire cinzas. E você, será a responsável por isso."
Confusão e medo a invadem. Uma sombra pavorosa atravessa sua espinha.
"O povo que tanto você quanto Susumu tentaram proteger vão pagar por essa parceria. Vão pagar por tudo que perdi. Por vocês terem tido a audácia de tentar me derrubar. O povo de Kiri vai conhecer a minha ira e não sobrará uma alma sequer para relatar o que acontecerá naquele lugar hoje." Ele se aproxima. "Você, Hinata-sama, será a responsável pela morte de homens, mulheres e crianças inocentes. E eu quero que você veja, que você presencie e que você sinta em todos os seus ossos o arrependimento por ter acreditado que fez a coisa certa. Você assistirá em primeira mão eu queimando casas e pessoas. Aniquilando cada homem daquela vila. Ficar banhado pelo sangue deles."
A sede de sangue, de vingança, de ruína estampava os olhos maquiavélicos daquele homem. Hinata conseguia sentir a radiação tóxica de um ser humano terrivelmente cruel emanar dele e sufocá-la. Incapacitá-la de sequer responder.
"Eu farei hoje o que deveria ter feito há muito tempo. Acabar com essa porcaria de vila e procurar um lugar melhor para me estabelecer. Percebi que estava me contentando com pouco e graças a você, hoje eu vou evoluir." A adaga vai ao encontro do pescoço dela. "Hoje você vai desejar que eu tivesse te matado antes de presenciar o horror que aquela vila se tornará. Você vai ouvir os gritos, os pedidos de socorro, as casas queimando, as flechas os perfurando, as laminas os decapitando e eu recrutando as mulheres e crianças para um deleite de agonia jamais presenciado antes."
A lâmina fria pressionada contra sua derme. Cada músculo da líder enrijece.
"Depois que todos os homens estiverem esticados no chão, seja em cinzas ou não, meus homens poderão se divertir com as mulheres e suas lindas filhas, antes de jogá-las na imensa fogueira que prepararemos para elas." Da garganta dele escapa uma risada. "E você vai assistir tudo. Vai presenciar tudo, cada ato hediondo que irei cometer contra essas mulheres e crianças e o melhor é que você não vai poder fazer nada, absolutamente nada."
Hinata não sabe até que ponto ela ouviu Kazuki. Seu semblante, antes estampado em puro horror, foi se solidificando em uma apática, inexpressiva, paralisada e neutra. Ela enxergava seu rosto muito próximo ao dela. Seu sorriso amarelo e seu hálito baforento a atingir conforme as palavras mais inescrupulosas que ela já pensou ter ouvido saiam de sua boca imunda, repletas de euforia, desejo, ânimo, satisfação.
"Meus homens nunca foram tão felizes como no dia de hoje! É como ganhar na loteria. Inúmeras mulheres estarão disponíveis para eles se deliciarem, se esbaldarem até enjoar. E você vai assistir tudo. Vai ouvi-las gritando enquanto me divirto, enquanto eu as mato, as esquartejo e as degolo. As queimo vivas! Você vai assistir e ouvir e continuar sem poder fazer nada. Eu quero que você veja porque tudo isso será culpa sua! Você as encaminhou para este fim quando decidiu me enfrentar e eis a sua recompensa. Um deleite de agonia."
Nos confins de seu consciente, um ruído crescente emergia. Seus tímpanos foram estourados? Em que momento? Era como estar submersa na água. As palavras flutuavam acima dela, boiando e as cercando, mas ela não as entendia. O ruído foi aumentando e a mente da líder Hyuga se apagou.
A boca dele se mexia, ele verbalizava. Seu sorriso estampado denunciava o seu entusiasmo em partilhar seu plano maquiavélico, doentio, desumano. Ele virou o rosto para os homens atrás e dezenas de dentes sorriam em diversão. Rindo, igualmente contentes.
Ela não sentiu o pavor que ameaçou invadi-lá quando ouviu sobre o plano. Ela não sentiu a mão de Kazuki invadindo seu quimono para apalpar-lhe a coxa, enquanto sussurrava tudo que ele e seus homens fariam com ela após o massacre. Seu corpo entorpeceu e sua mente foi atingida por um apagão. Um estado crítico de choque que a apossou.
Entre o turbilhão de sentimentos que estavam sujeitos a invadi-lá diante de uma situação sem igual, Hinata apenas se desligou. Impotente.
O estado de transe na qual foi introduzida a cercou de tal maneira que ela não percebeu quando foi levada novamente até sua cela, sendo pendurada, mas desta vez com os braços separados. O bandido que a guiou sussurrou algo em seu ouvido, a língua molhada traçou uma linha pelo rosto dela, que ela ignorou. O som abafado da porta de madeira se fechando se fez presente, mas Hinata não compreendeu.
Novamente com os braços suspensos, detida e amarrada, Hinata ficou em sua cela. Os olhos inexpressivos fitavam o nada adiante, sem um ponto fixo exato. Eram pela primeira vez, exatamente duas pérolas, e nada mais do que isso. Sem visão aprimorada, sem vida, vazios. As mãos jaziam moles sobre os pulsos amarrados e avermelhados, castigados, e seu corpo estava entregue ao chão, com os joelhos dobrados, sem forças.
A crueldade induzida em cada palavra proferida que seu cérebro digeriu, paralisou todas as células que complementavam Hinata. A jogando em um poço sem fim de amargura, desesperança e derrota.
(...)
Toda a ação de resgate requisitava urgência e rapidez. Todavia, mesmo diante do caos instalado pelo sequestro da líder Hyuga, o desespero não era a melhor saída, muito menos a afobação. Horas se passaram desde que a arapuca fora concluída e recorrente ao estado frágil da saúde do agente ANBU, também fora necessário repouso indispensável. O que quase destruiu Naruto, completamente impaciente para ir atrás de Hinata.
Os minutos se arrastaram em câmera lenta, pois nenhuma informação válida chegava até eles. Isso até o momento da descoberta da infiltrada. Que após um interrogatório supressor, revelou-se envolvida em todo esquema. E para o alívio imediato do ninja mais hiperativo que existe, ela obtinha a informação necessária para localizarem Hinata.
O comentário desnecessário da criminosa ainda sondava a mente perturbada de Naruto. Como se não fosse o suficiente seu coração sangrar em arrependimento e culpa, a remota possibilidade de perder Hinata o enviava a lugares obscuros. Ele jamais se perdoaria se chegasse tarde demais.
Seu peito se comprime ao ouvi-la alertá-lo do perigo que Hinata corria. Era do conhecimento de todos a má fama que rodeava o antigo líder Kazuki. Mas confiando nas habilidades da kunoichi, Naruto se recusava a pensar que Hinata não lutaria para escapar.
Igualmente, torcia para que ela não se arriscasse, temendo que suas ações irritem o bandido e o estimule a machucá-la. Mas Naruto conhecia muito bem a líder Hyuga. Compreendia perfeitamente que em sua posição, ela jamais desistiria sem lutar. Seja por ela ou por seus companheiros.
Nunca permitiria que entregassem suas vidas para salvar a dela. Seu espirito altruísta e benevolente fazia de Hinata uma líder altiva e excepcional. Que não se escondia atrás de seus shinobis, mas os liderava em batalha, se certificando de que nenhuma vida fosse perdida. A responsabilidade e compromisso que tinha com seu clã transpassava o autocuidado. Deixando a própria vida em segundo plano.
Coragem e determinação irrefreável corriam nas veias da Hyuga e após se tornar líder, seu compromisso com o próximo aumentou. Pois o próximo, agora, era sua responsabilidade.
Não foi a primeira vez que Naruto a viu se sacrificar por outra vida. O incidente nas minas teria sido fatal se o shinobi da Folha não estivesse por perto para evitar o sacrifício de Hinata. Ele se lembra da pequena discussão que tiveram. O semblante chocado o encarando de volta como se ele tivesse nove caudas no lugar de Kurama. Desacreditada que ele tenha voltado para salvá-la, quando ela havia feito de tudo para savá-lo.
Era inútil, no final das contas. Ela era determinada e ele teimoso. Um sempre se arriscaria para salvar o outro. Mas isso não impedia Naruto de repreender a sede de enfiar-se na frente de uma kunai que Hinata sempre tinha quando um de seus amigos estava em perigo. Ou até mesmo, enfrentar um inimigo quase invencível apenas para dar uma única chance de escapatória para Naruto.
A lembrança o cutuca no fundo de seu âmago e seu peito se contorce em dor ao relembrar a cena, onde o corpo dela fora jogado para longe antes de ser apunhalada com uma barra de ferro magnetizada com chakra do inimigo.
Tudo se resumiu a fúria e vermelho escarlate após o ataque, é tudo de que Naruto se lembra.
Ele sempre evitou reviver essa memória, pois de alguma maneira, ainda se perguntava o que teria a feito colocar-se na frente de seu maior inimigo para protegê-lo, mesmo não tendo grandes chances de sucesso.
Como se ele fosse digno de um sacrifício, ainda mais partindo de Hinata. A alma mais pura que conhecia.
Sabia que se dependesse dela, enfrentaria o pior dos inimigos sozinha, somente para proteger seus preciosos, não tendo que envolver mais ninguém no conflito.
Mas Naruto, sendo seu amigo de longa data e prezando uma grande estima por Hinata, estava ali justamente para privá-la de tal heroísmo. Não havia necessidade para tal. Ele estava ali para protegê-la. Esse era o seu papel. E mesmo tendo falhado noite passada, estava mais do que disposto a consertar seu erro. Não mais estava ali como um agente contratado por seus serviços, mas como amigo leal de Hinata. Um amigo disposto a fazer o que fosse necessário para salvá-la das garras inimigas. Um amigo…
Ele a compensaria por sua falha, todas elas.
Apesar da inquietude que o dominava, Naruto tentava se acalmar. Pois sua mente e espírito contidos seriam necessários para resgatarem Hinata. Todo cuidado era pouco agora que sabiam com quem estavam lidando. E Naruto não poderia atrever-se a cometer um segundo erro que custasse o resgate da Hyuga.
Seus orbes azulados observam a movimentação ao redor. Todos se preparando para partir. Um mapa fora requisitado para ter uma melhor localização do paradeiro de Hinata. A colaboradora do crime apontou e Hiashi espalhou as ordens após anotar as áreas que deveriam ser checadas. Naruto se apressou para resgatar seu equipamento e estar a postos, pronto para partir.
Enquanto aguarda, a máscara da raposa em sua mão o encara de volta. Ponderava se deveria recolocá-la. A lembrança do reencontro com Hinata na floresta de Otaham o invade e seu coração se comprime. Ela havia o reconhecido pela máscara. Uma raposa. Não havia se dado conta do quanto sentia falta daquele timbre de voz sussurrante e melodioso até que ela proferiu seu nome em surpresa. Os olhos, sempre opacos e acinzentados, arregalaram-se para ele ao se revelar. Ela continuava bonita, senão mais do que se lembrava. Seu Juuken havia o acertado em cheio, mas não chegavam a se comparar com a saudades que também o atingiu. Até mesmo Naruto se surpreendeu. O nome dela deslizou para fora dos seus lábios em um sorriso genuíno e toda aura que Hinata emanava o atingiu. Sim, ele sentiu a falta dela. E agora, após os recentes acontecimentos, precisava dela.
"Naruto?"
Seu pescoço se move e Hiashi entra em seu campo de visão.
"Está se sentindo bem?"
"Sim. Estou pronto. Vamos?"
"A equipe já está reunida. Estamos de partida." O shinobi acena e deposita a máscara nos cabelos loiros. "Você vai nos liderar."
Naruto se surpreende.
"Estarei ao seu lado para ajudar com o Byakugan, mas a tropa é sua." Os olhos dele estremecem. Convicção queima em seu peito. "Sei que precisa disso, mas saiba que não foi culpa sua. Nós vamos resgatá-la."
Emocionado, Naruto assente. Hiashi ainda conseguia ver o remorso em seus olhos e estava lhe dando a chance de se redimir. Pela primeira vez, ficou grato em estar na companhia do ex-líder Hyuga.
Naruto estende a palma da mão.
"Obrigado."
O aperto firme sela a cumplicidade que se formou e Naruto sente que pode contar com o pai de Hinata.
"Vamos trazer ela de volta."
Disparando para a saída da pousada, o mapa marcado é guardado nos pertences de Naruto antes de montar o cavalo preparado. A viagem levaria em torno de duas horas. Naruto e a equipe cavalgariam até a metade do caminho e ao se aproximarem, ele assumiria a dianteira com os Hyuga para averiguar o ambiente e se certificar de que Hinata estava segura antes de atacar. Com o coração agitado e desenfreado no peito, seu assobio inicia a jornada. Seu cavalo sai em disparada ao sul, sendo seguido pelos demais.
"Você sabe o que fazer quando chegarmos." Kurama resmunga em concordância, não se esquecendo de sua parte do plano.
"Deixa comigo!"
Trotando à maior velocidade que consegue, o semblante raivoso de Naruto nunca se esvai. A adrenalina já corre por suas veias e seu espirito selvagem grita. No centro de seu peito, um coração ansioso e pesaroso bate, desejando mais do que tudo unir-se à mulher de seus sonhos mais uma vez. A promessa enraíza em seus ossos e Naruto aperta os dedos das rédeas, determinado a cumpri-la para Hinata, nem que isso custe a própria vida.
Ele estava partindo para buscá-la.
Ele a traria de volta.
