As ruas do Seireitei estavam cobertas por uma névoa densa que parecia se infiltrar em cada ruína e sombra, trazendo consigo o peso silencioso da destruição. Shunsui corria por entre escombros, o coração disparado e o olhar fixo na figura de Nanao à frente, cercada por monstros que ele havia conseguido repelir, mas não rápido o suficiente para chegar até ela. Ele praguejou baixinho, irritado com sua própria lentidão, e o pensamento de que ela estava sozinha e vulnerável naquela situação o corroía.
O céu escureceu ainda mais, como se os próprios céus estivessem em sintonia com seu desespero. Ele sentiu uma corrente de energia densa no ar, e de repente um raio rasgou o céu, cortando as nuvens e iluminando o campo de batalha com uma luz prateada. O raio atingiu o solo perto de Nanao, afastando os monstros ao seu redor. Ela ficou envolta por um clarão intenso, e, por um segundo, Shunsui observou-a fechar os olhos, os ombros relaxando como se soltasse um suspiro de alívio. A sensação de vê-la salva o preencheu, mas, junto com o alívio, veio uma onda de irritação. Como ela pôde ter arriscado tanto?
Que bom que aquela garota fez esse kidou.
Um kidou sublime devo dizer. Muitos foram salvos por ele, apesar do susto. Ele seria eternamente grato por ele por salvar sua amada Nanao-chan.
Assim que a luz do raio se dissipou, Shunsui apressou o passo, o olhar fixo na figura de Nanao que se recuperava aos poucos do impacto. A batalha terminou logo. Quando ele se aproximou, viu o rosto dela pálido, mas firme, e não conseguiu evitar o tom levemente irritado que escapou de sua voz.
_Você não deveria ter vindo sozinha - disse ele, com os olhos estreitos enquanto a observava. Era uma crítica sutil, mas o suficiente para mostrar que ele estava incomodado com o risco que ela correra.
Nanao respirou fundo, seus olhos cintilando com uma mistura de cansaço e ressentimento. Essa preocupação duvidosa sobre ela de novo não. Nanao já tinha gente demais duvidando da sua capacidade em campo de batalha. Ela não precisava que seu capitão confirmasse e desse mais pano pra manga pra fofoqueiros sem ter o que fazer infernizarem mais a sua vida. Ela os ignorava, mas eram extremamente irritantes, principalmente quando começava a afetar o relacionamento com os seus subordinados. Ter seu capitão agindo assim só diminuía sua autoridade e confiança. Ela não precisava disso.
Sim, ela gostava que ele se preocupasse com ela em um certo nível. Ela amava como ele sempre a defendia e como sua voz grossa descia uma oitava ou duas quando fazia isso. Não admitiria em voz alta, mas seu núcleo não a deixava em paz a noite quando se lembrava de sua voz em seu ouvido. Ela apreciava silenciosamente suas demonstrações de carinho, até mesmo as mais espalhafatosas. Contudo, seu coração derretia quando ele cuidava dela quando alguém passava dos limites ou quando ela ficava tempo demais no escritório. Quantas vezes acordou com o colocar suave de seu haori florido sobre ela e uma xícara de chá quente ao lado, enquanto o mais velho se dirigia para tirar um cochilo no sofá. Shunsui era um homem simples mas muito atento às suas necessidades. Só que às vezes, muitas vezes, ele a tirava do sério. Como agora.
— Fiz o que achei necessário, Capitão — respondeu ela, o tom de voz levemente ríspido, mas contido. — Eu não poderia simplesmente ignorar o que estava acontecendo. Você sabe que sou capaz de lidar com situações como essa. Não há como eu como uma tenente, ignorar um cenário de guerra no meio do Seireitei.
A reação dela fez com que Shunsui se detivesse por um segundo, notando o leve tremor em sua voz que indicava não apenas cansaço, mas também uma ofensa velada. A desaprovação estava escancarada em seu tom de voz e no levantar de seus óculos. Mas ela ainda estava lhe dando uma chance. Ainda estava sendo educada. Ele suspirou, suavizando o olhar.
— Eu sei que é capaz, Nanao-chan, mas… — ele parou, procurando as palavras certas. — Só não quero que corra perigo. Eu não suportaria perder a mulher que amo.
Seus olhos eram sérios e transmitiam dor. Aquele jeito de falar mais sério estava ali de novo. A "geladeira Eletrolux" não estava brincando em nada. Acalma-se, Nanao, seja calma, seja contida, seja racional. Ela respirou, olhando novamente nos olhos daquele homem.
Quanto tempo mais ela poderia esconder seus sentimentos? Não que o tenha feito muito bem, ela tinha consciência disso. O dever e a responsabilidade estavam mais fortes. Como ela poderia se envolver com seu capitão? Ainda tem o jeito promíscuo e burlesco de seu amado. Ele podia permanecer em uma relação fechada e monogâmica? Ela estaria disposta a entregar seu coração a esse homem, sem medos? Medos eram o que ela mais tinha, infelizmente. O maior deles, era apenas ser mais uma conquista para ele. Nanao o queria para o resto da vida, uma relação duradoura baseada no companheirismo que compartilhavam.
Nisso, e também na atração que sentia por ele. Ele era um homem muito bonito, a tenente não poderia negar. Só que beleza não é o que mais importa. Ela queria confiar nele plenamente. E se todo o tratamento dele fosse apenas… por querer dormir com ela? Mas como ela poderia duvidar quando ele falava daquele jeito? Ela definitivamente estava confusa.
Não era o momento ainda. Definitivamente, não estava pronta. Algum momento estaria?
— Capitão, eu escolhi lutar ao seu lado, e isso inclui assumir riscos quando necessário — disse ela, com um tom de voz que denotava orgulho e certa irritação. — Você deveria confiar em mim o suficiente para entender que eu sei o que estou fazendo. Não sou mais uma criança, e esse tipo de preocupação… — ela hesitou, mas continuou, o olhar fixo nele — é quase um insulto.
As palavras dela o atingiram com força. Ele sabia que Nanao tinha razão; ela era uma shinigami experiente, corajosa e sempre cuidadosa em cada movimento. Mas mesmo assim, o pensamento de que ela poderia ter se machucado mexia profundamente com ele, de um modo que ele não sabia expressar sem soar como um tolo.
— Não é um insulto — disse ele, com um sorriso cansado, tentando aliviar a tensão. — Só não quero perdê-la…
Ela continuou a olhá-lo, sem responder, mas o leve rubor nas bochechas e o brilho teimoso em seus olhos mostravam que, mesmo ofendida, ela entendia sua preocupaçã focando que ele não disse a um minuto atrás que a amava.
Foco.
De repente, a garganta que levava ao mundo,aberto até agora, fechou. As crianças que procuravam passar por ela começaram a se espalhar em direções aleatórias por rukongai e para as florestas em volta, fugindo desesperadamente. Muitas das mais velhas estavam lutando, brevemente. Muitos kidou acima do 100 estavam sendo feitos, a maioria em duplas. Elas tentavam desesperadamente retirar as mais novas.
A guerra com Makkin se desenrolava como um pesadelo sem fim. O campo de batalha estava coberto de fumaça e escombros, com o som de explosões e o grito de almas perdidas ecoando no ar. O garoto com a máscara de lobo corria pelas ruas destruídas, a respiração pesada e os passos apressados. Seus olhos estavam fixos à frente, enquanto ele se movia de forma desesperada, carregando as duas crianças.
Nas costas, uma criança pequena, com os olhos arregalados de medo, segurava-se com força. Nos braços, um bebê de cerca de um ano e meio, balançando desajeitadamente enquanto o garoto corria. O peso das crianças, mais a tensão da batalha, parecia uma carga insuportável, mas ele não parava. O terreno estava repleto de destroços e corpos caídos, mas ele conseguia se esquivar, focado em um único objetivo: salvar as crianças.
Ele não tinha tempo para lutar, não tinha mais força para se defender dos ataques que surgiam de todos os lados. Sua missão era clara, e ele sabia que cada segundo que passava na linha de fogo podia significar a morte para todos eles. Quando um estrondo distante reverberou, ele olhou para o céu, vendo vultos ameaçadores da batalha se estenderem por toda a área. Os estranhos seres que Makkin havia enviado para devastar a região estavam perto, e o garoto não tinha como enfrentá-los. Era melhor seguir o instinto de sobrevivência, e ele estava fazendo exatamente isso.
Cada movimento seu era calculado para evitar o confronto, procurando rotas menos expostas, onde poderia se esconder por alguns instantes antes de seguir em frente. Seu corpo estava exausto, mas o pensamento nas crianças o mantinha em movimento. Ele precisava mantê-las seguras, longe dos horrores da guerra.
Shunsui percebeu que o garoto com máscara de lobo não conseguiu passar, mas a garota Águia, sim. O garoto era rápido e corria para todos os lados sem vacilar. Muitas crianças tinham uma reiatsu forte e esquivavam com maestria. Eles emanavam uma reiatsu diferente de makkin. Aos poucos, o caos estava diminuindo mas não sem baixas. E elas eram muitas.
O campo ja estava mais silencioso. Peso das perdas se fazia presente de uma maneira quase tangível, impregnando o ar com um pesar que ia além da mera tristeza. Entre as sombras do entardecer, os corpos das crianças, enfileirados lado a lado, pareciam pequenos demais, frágeis demais, para as marcas de uma batalha tão cruel. O chão estava marcado por reiatsus fragmentadas, pequenos vestígios da energia espiritual que cada uma delas havia tentado usar para se defender, mas que não fora o suficiente.
Maruya, conhecido por sua habilidade analítica, observava a cena em detalhes, capturando cada mínima variação nas marcas no solo e nos corpos. Ele se abaixou ao lado de um dos pequenos corpos, observando as manchas escuras que se formavam em torno das veias, um sinal claro de envenenamento gradual. A textura da pele das crianças, descolorida e endurecida, indicava que o veneno estava agindo há muito tempo — uma crueldade silenciosa que corroía suas forças aos poucos.
Um pouco afastado de Maruya, Komamura observava tudo em silêncio, com o olhar perdido. Ele mal conseguia respirar, como se a dor da culpa o estivesse sufocando, ainda se recupendo do desmaio. "Como deixei isso acontecer?" ecoava em sua mente. Unohana se aproximou. Ela sentia o peso do remorso de Komamura, mas sabia que aquele não era o momento para lamentos — as respostas que procuravam estavam prestes a ser reveladas, nas últimas palavras de uma criança ainda viva.
Ukitake se ajoelhou ao lado da menina, que respirava com dificuldade. Ele tocou seu rosto com cuidado, a voz gentil, como se estivesse tentando confortá-la. Seus olhos, sempre acolhedores, a observavam com atenção e compaixão, mas havia neles um traço de determinação. Ele sabia que cada palavra dela seria um pedaço essencial para entender o que Makkin havia feito.
— Pode me dizer o que aconteceu? — ele perguntou, tentando manter a calma na voz.
A menina abriu os olhos lentamente, fixando-os nos de Ukitake. Eles estavam vidrados, como se o veneno nublasse suas memórias e sua visão. Com um esforço tremendo, ela murmurou:
— Foi… Makkin. Ele nos encontrou. Ele feriu komamuri-ni-san
Maruya se aproximou, os olhos atentos a cada movimento da menina. Ele analisava a situação, buscando entender o tipo de veneno e como isso afetava as crianças. Seus olhos capturavam cada detalhe: o tremor nas mãos dela, a respiração pesada e irregular, as pupilas dilatadas. Havia ali também uma reiatsu nela que não parecia ser dela. Pequenas feridas estavam se espalhando pelo seu pequeno corpo, como um doença cronica antiga muita acelerada.
— E como ele fez isso? — Maruya perguntou, sua voz calma, mas com uma intensidade velada. Ele precisava saber como Makkin havia conseguido enganá-los por tanto tempo.
A menina virou-se para ele, o rosto marcado pelo esforço. Sua voz era um sussurro fraco, quase inaudível.
— Ele... colocou no ar, na comida, os adultos dizem. As crianças mais velhas tentaram proteger o Komamura- ni... ele queria invadir noorin… as crianças menores… como eu... — ela engasgou, o peito arfando de dor. — A gente não consegue suportar a reiatsu dos adultos… dói… demais. As fortes... são como… facas no corpo.
Ukitake apertou levemente a mão dela, oferecendo uma expressão de compreensão.
— Deve ter sido muito difícil. Você é muito corajosa, sabe disso? — disse ele, tentando confortá-la.
Ela o olhou, uma lágrima escorrendo pelo rosto. Havia ali um brilho, um último fio de esperança ao recordar do que realmente desejava.
— Eu… só quero voltar pra casa... — sua voz ficou mais fraca. — Pra minha mãe... a minha irmãzinha... Ela está me esperando. E... quero... bolo de chocolate da minha mãe…
A pequena criança sabia que não ia sobreviver, a pequena lembrança a confortou. Sua mãe não a veria mas poderia ver sua irmazinha. Seu senpai a havia levado. Se ele tinha conseguido, então havia uma chance.
Leve pra minha mãe… - a pequena levou a amão a orelha, tentando tirar o pequeno brinco que portava para da-lo ao capitão. Ele o retirou por ela.
Ela sorriu suavemente, mas era um sorriso entrecortado de dor e de saudade. Os olhos de Ukitake se umedeceram, mas ele manteve a compostura, mesmo quando ela suspirou uma última vez e seu corpo finalmente relaxou, entregando-se ao descanso eterno.
O campo de batalha se silenciou ainda mais. Maruya ficou de pé ao lado de Ukitake, observando o rosto sereno da menina, agora livre da dor, enquanto Unohana fechava os olhos dela com um gesto respeitoso.
— Ele as fez viver esse inferno para seu próprio experimento — murmurou Isane, mais para si mesmo. — Isso é mais do que crueldade; é algo que transcende a maldade.
Isane cortou o silêncio. Nanao e Shunsui observavam a cena em silêncio. Ukitake ainda não havia soltado a mão da pequena ou o brinco que ela lhe confiara. Mais uma criança havia perecido. Não havia uma criança que tinha sobrevivido, das que eles conseguiram chegar perto. Muitas delas conseguiram fugir, para o Hueco mundo ou para as ruas de Rukongai.
O capitão da sexta estava exausto. Mas havia algo que ele precisava investigar. Saiu da batalha quando percebeu que Renji poderia dar conta da limpeza. Alguém que sabia sobre outras soul societyes poderia ter citado sua esposa levianamente. Poderia? Principalmente destacando o fato de que os expansionistas não nasceriam aqui por culpa dele. Ele deveria descobrir algo, qualquer coisa. Ele não podia ficar parado.
Byakuya atravessou o portão da mansão Kuchiki como um fantasma vagando entre os vivos, cada passo ressoando pelos corredores silenciosos, guardiões silenciosos de uma dor que ele nunca admitira abertamente. O ambiente estava quieto, mas para ele, os corredores estavam impregnados com as memórias de Hisana. A presença dela parecia flutuar no ar, uma lembrança dolorosa e doce que ele não conseguia dissipar, por mais que o orgulho lhe dissesse para seguir em frente.
Parou diante da cerejeira florida no jardim, uma árvore antiga que ele mandara plantar para ela, numa tentativa, talvez, de deixar algo belo em sua vida. As pétalas caíam suavemente, pintando o chão em tons rosados, um tapete delicado que se desfazia ao vento. Ele sempre achara que flores de cerejeira representavam algo efêmero, como a própria existência dela em sua vida: breve, mas inesquecível. No fundo, Byakuya sempre tivera uma ligação com aquela árvore que ele nunca admitira para si mesmo. Olhar para ela agora, no auge da floração, trazia de volta o sentimento avassalador de perda e amor.
Aquela era a mesma arvore que hisana queria ver florescer antes de morrer. Ele nunca poderia cortá-la. Sua esposa amava ficar observando suas flores quando estavam floridas. Muios beijos foram roubados debaixo de seus galhos. Ele gostaria de voltar para aqueles tempos novamente.
Para os outros, Byakuya Kuchiki era imponente, uma muralha inabalável. No entanto, por Hisana, ele era capaz de suavizar essa muralha, ainda que ninguém tivesse testemunhado isso. Ela havia lhe mostrado uma fração da vida além do dever, algo que ele nunca esperava experimentar. Amar Hisana o mudara de uma forma irreversível, quebrando a frieza que ele construíra ao longo dos anos. Mas a dor de sua perda o empurrara ainda mais para dentro de si mesmo, uma fortaleza de orgulho e disciplina onde a lembrança dela era a chama solitária, intocada e, de certa forma, ainda sagrada.
Byakuya caminhou lentamente pela mansão, chamando os empregados mais antigos, aqueles que estiveram ao lado de Hisana nos seus últimos dias. Seus passos ecoavam nos corredores, e seu semblante era tão severo quanto de costume, a postura rígida como um escudo que ele não estava disposto a abaixar. Parado na sala de visitas, ele chamou o primeiro nome. Tanaka, o velho servo leal, entrou com uma expressão de cautela.
Byakuya não se deu ao trabalho de cumprimentá-lo ou amenizar sua postura; sua voz cortou o ar com a mesma frieza que ele usaria em uma ordem.
— Tanaka, eu tenho perguntas sobre minha falecida esposa, Hisana. Haveria algo de relevante que você não tenha compartilhado antes?
Tanaka, que sempre teve medo de trair a confiança de seu senhor, hesitou. Ele sabia que Byakuya não tolerava meias palavras. O Kuchiki inclinou a cabeça levemente, o olhar afiado.
— Responda, Tanaka. Não estamos aqui para suposições ou sentimentos. O que você viu?
Tanaka limpou a garganta e falou baixo, mas com a maior clareza que podia.
— O que me lembro, senhor, é que… a senhora Kuchiki parecia guardar algo que a perturbava. Ela olhava pela janela, para o jardim, como se… estivesse à espera de alguém ou de algo que nunca viria.
Byakuya manteve a expressão dura, mas os olhos traíam um lampejo de tristeza. A memória dela olhando para a cerejeira no jardim lhe veio à mente, mas ele afastou o pensamento e continuou.
— Havia mais alguma coisa, Tanaka? Algo que você considera digno de nota?
— Perdão, senhor — Tanaka arriscou, evitando olhar diretamente para ele — mas a senhora era como um pássaro enjaulado. A gentileza que ela tinha… era profunda, mas sempre havia uma tristeza que nós, humildemente, nunca entendemos.
Byakuya estreitou os olhos, ligeiramente incomodado pela comparação que Tanaka ousara fazer, mas continuou, deixando que o empregado soubesse que devia prosseguir.
— Continue.
— A senhora, senhor… ela parecia sempre pensar em algo distante. E, quando olhava para a cerejeira, havia em seu olhar uma melancolia que… nenhum de nós soube como aliviar. As vezes me parecia que ela tinha medo de algo a espreita, mas não havia como eu saber do que. Seus olhos pareciam apenas dizer silenciosamente.
Byakuya o dispensou com um aceno sutil, uma leve irritação surgindo em sua expressão. Em seguida, chamou outra empregada, Akemi, que sempre fora próxima de Hisana. Ela entrou com respeito, mas com uma dignidade calma e sincera, e Byakuya observou-a com atenção.
— Akemi, explique-me o que você percebeu sobre Hisana — ele ordenou, cada palavra sua impregnada de uma arrogância quase ameaçadora, exigindo a verdade.
Akemi hesitou, mas sabia que devia responder. Não ousava desafiar o Kuchiki, embora a honestidade talvez fosse mais dura do que ele esperava ouvir. Era sobre a Senhora da Casa. Ele não tolerava erros normalmente, era ainda pior quando o assunto era a senhora Hisana.
— Hisana-sama… Ela sempre foi gentil conosco, sempre reservada. Mas, às vezes, senhor, ela passava tardes inteiras observando o horizonte, como se procurasse… — Akemi mordeu o lábio, antes de continuar. — Procurasse por algo ou alguém além do nosso alcance. Acredito que era a saudade e a culpa por sua irmã mais nova.
Byakuya endireitou os ombros, ocultando a vulnerabilidade que ele sentia ao ouvir aquelas palavras. A realidade de que Hisana poderia ter ansiado por algo que ele não pode oferecer em vida lhe trouxe um leve desconforto.
— Você acredita que ela… era feliz? — ele perguntou, de forma contida, mantendo seu tom como se estivesse analisando um relatório frio, mas Akemi percebeu a hesitação oculta na pergunta.
— Eu creio que Hisana-sama o amava, senhor, mas… havia algo em seu passado, algo que parecia pesar nela. Ela nunca o culpou, mas … — Akemi hesitou, escolhendo bem as palavras — havia uma saudade que ela jamais conseguiu abandonar.
Byakuya desviou o olhar para a cerejeira no jardim, visível através das portas deslizantes. Sentiu-se tomado por uma mistura de sentimentos que lutava para esconder, uma raiva de si mesmo por não ter sido capaz de preencher aquele vazio, por não ter sabido como aliviar aquele fardo que, claramente, ela carregara.
— Akemi, me diga, nos últimos dias de Hisana… houve alguma mudança? Alguma atividade, um hobby que ela tenha começado a praticar? Algo que tenha mudado em sua rotina ou comportamento?
Akemi baixou os olhos, refletindo antes de responder, e suas palavras vieram em um tom suave, quase cuidadoso, como se estivesse tirando uma camada de pó de memórias antigas.
— Sim, senhor. A senhora Hisana… começou a escrever mais. Às vezes, sentava-se sozinha, com um punhado de papéis, e escrevia longamente. Não nos dizia o que estava registrando, mas levava os papéis consigo quando saía… especialmente nas vezes em que ia à procura de sua irmã.
Byakuya reprimiu uma reação, mantendo a expressão controlada, mas o coração apertava ao ouvir isso. A ideia de Hisana, sentada sozinha, escrevendo palavras que ele nunca lera e possivelmente jamais leria, tocava-o com uma tristeza profunda. Em sua mente, ele se perguntava o que ela sentia ao escrever aquelas linhas – se eram desejos, arrependimentos ou uma maneira silenciosa de comunicar o que não podia ser dito.
— Ela mencionava algo sobre sua saúde, sobre algum desconforto? – ele perguntou, o tom levemente mais sombrio, mas firme, como um imperador que exigisse respostas.
Akemi hesitou, recordando com cuidado.
— Ela era… discreta, senhor. Não reclamava de dores, mas, vez ou outra, observávamos uma fadiga que parecia aumentar. Ela tentava escondê-la, mas seus passos ficavam mais lentos. E mesmo assim, sempre levava consigo aqueles papéis, como se precisasse escrever… como se aquelas palavras fossem uma âncora para ela.
As palavras de Akemi ecoaram nos ouvidos de Byakuya, e ele desviou o olhar para a cerejeira no jardim, sentindo uma ponta de dor perfurar sua compostura. Era difícil confrontar a realidade de que, nos últimos dias de sua vida, Hisana tivera algo a dizer que ele nunca ouvira. Talvez aquelas palavras fossem um segredo que apenas ela conhecera, palavras que não estavam destinadas a ele, mas a alguém ou a algo que seu coração guardara em silêncio.
Ao despedir Akemi, Byakuya caminhou em direção ao jardim e parou sob a cerejeira, as pétalas rosadas flutuando ao seu redor. Ele estendeu uma mão, deixando uma pétala repousar em sua palma.
Byakuya caminhou em direção aos aposentos onde Hisana vivera seus últimos dias, um canto do clã Kuchiki que ele mantivera quase intacto ao longo dos anos. A poeira repousava como uma camada fina sobre as prateleiras e móveis, e o aroma suave de flores secas ainda parecia persistir no ar. Seus passos ecoaram, lentos, enquanto seu olhar captava cada detalhe, como se buscasse algo invisível.
Ele aproximou-se da mesa onde ela costumava passar as tardes, às vezes com um pincel entre os dedos e a expressão distante, perdida em pensamentos que nunca compartilhara por completo. Em uma gaveta lateral, encontrava-se uma pilha de papéis, amarelados pelo tempo. Byakuya abriu a gaveta com cuidado, e as anotações apareceram diante dele como fragmentos dos últimos dias de sua amada.
Lendo as linhas dispersas, algumas incompletas, ele percebeu uma profundidade que não tivera tempo ou oportunidade de desvendar enquanto ela vivia. Notas sobre o crescimento das cerejeiras, observações sobre pequenas coisas que via em suas buscas pela irmã, pensamentos sobre o clã e sobre ele, como se cada palavra fosse uma tentativa de se conectar mais a ele e ao mundo, mesmo sabendo que seu tempo era curto.
Sua mente foi tomada por uma mistura de sentimentos: havia tristeza e arrependimento, mas também um vislumbre do amor silencioso que Hisana lhe entregara em cada palavra. Ao passar os dedos pelos escritos, Byakuya murmurou, num sussurro destinado ao vento:
— Talvez… você tenha me dado mais do que eu poderia ter dado a você, Hisana.
Essas palavras se perderam no silêncio do quarto, mas para Byakuya, aquele era um reencontro.
