Koenma estava nervoso, mas não sabia dizer se era de receio ou de raiva. Caminhava sozinho até o Centro do Reikai no Mundo dos Humanos, sem armas, aliados e completamente indefeso. Ou pelo menos era assim que ele deveria parecer: um pobre coitado que estava pronto para implorar pela liberdade de seus amigos. Pronto para ser subjugado. Uma humilhação a mais ou a menos não faria diferença, foi o que pensou.
Apesar de tudo, ainda estava confiante. Nunca ficou tão feliz por não ser visto como uma ameaça. Isso facilitaria as coisas para todos e, de certa forma, ele estava ansioso para ver o dia de Ootake desmoronar diante de seus olhos. Literalmente.
Ao chegar nas imediações do edifício foi recepcionado por inúmeros guardas. Koenma rapidamente ergueu as mãos em sinal de rendição, mas continuou avançando em direção à entrada. Os seguranças correram ao seu encontro. Dúzias de armas apontavam para ele, mas ninguém ousou disparar. Ser filho do Rei Enma ainda causava algum impacto, afinal.
Somente quando os guardas se enfileiraram, formando uma barreira que o impossibilitava de continuar, ele então parou, com as mãos ainda suspensas no ar.
— Quero falar com Ootake — pediu.
— Você não pode passar, senhor Koenma — o oficial de maior patente respondeu — Foi afastado do Reikai e não pode entrar aqui até segunda ordem. Não torne isso difícil. Não queremos problemas, senhor.
— Eu posso passar, se o Ootake permitir. Por favor, diga a ele que estou aqui. Não vim causar problemas, só quero conversar. Podem me revistar, se for necessário.
— Quem está com você?
O oficial perguntou olhando para os lados, procurando por qualquer sinal de Yusuke, Kurama ou Hiei. Koenma sabia, é claro, que eles tinham sido avisados de uma possível emboscada.
— Ninguém. Eu estou sozinho, como você pode ver.
O oficial bufou. Pensativo, passou alguns instantes em silêncio sondando a região e depois sinalizou para os demais guardas abaixarem as armas.
Koenma suspirou aliviado e também abaixou as mãos com cuidado. Engoliu em seco ao ver o oficial se afastar, enquanto pegava um dispositivo de escuta para se comunicar com o interior do edifício. O antigo líder do Reikai observou de longe a conversa, mas não conseguia ouvir nada. Não lhe restava outra alternativa a não ser esperar que trouxessem uma resposta.
Em poucos minutos o oficial voltou a se aproximar.
— Disseram que você tem permissão para entrar. Desde que seja revistado, que passe pelo detector de metais e seja algemado, só por garantia de que não fará nada. Você concorda com essas condições?
Koenma quis sorrir, mas resistiu e se manteve sério. Foi como eles tinham previsto: Ootake não perderia a chance de vê-lo implorar. As algemas também já eram esperadas. Por mais que Koenma não tivesse como enfrentar as forças armadas do Reikai, eles não correriam o risco de vê-lo tentar o que quer que fosse.
Primeiro, os guardas o revistaram meticulosamente de forma manual e, satisfeitos por não encontrarem armas visíveis, o deixaram passar pelo detector de metais que também não sinalizou nada de estranho ou preocupante.
Antes de deixá-lo entrar no prédio, por fim, o perito em segurança se aproximou para conjurar as algemas espirituais. Sem dizer nada, ele parou diante de Koenma e materializou duas argolas douradas ao redor dos pulsos do convidado. Koenma as observou, brilhantes e vívidas, drenando a sua energia.
Dali em diante, mesmo sabendo de memória o caminho até a sala que um dia havia sido sua, outros dois guardas decidiram acompanhá-lo até o escritório de Ootake. Ao chegar, Koenma foi recebido com um sorriso arrogante e os seguranças deixaram os dois a sós. Ootake estava sentado em sua cadeira de couro e o olhar vitorioso era notório em seu semblante.
— Não achei que fosse aceitar ser algemado como um criminoso — foi o que ele disse.
— Essas algemas não querem dizer nada, já que você tem algemado qualquer pessoa que cruza o seu caminho.
— Se está se referindo aos dois que mantenho presos aqui, você sabe que é só por precaução. Assim como é com você. Não podia arriscar que viesse aqui para nos atacar. Porém, eu confesso que estou surpreso. Realmente achei que viria aqui com aquele problemático do Yusuke Urameshi. Por que não se senta? — ele sugeriu, indicando a cadeira de visitante que de posicionava em frente à sua, do outro lado da mesa.
Koenma se manteve calmo, embora sua mente estivesse um verdadeiro emaranhado de pensamentos e preocupações.
— Não, obrigado. Não pretendo demorar.
De pé, Koenma virou as costas para Ootake e caminhou lentamente pela sala, observando cada detalhe da decoração. Andou até um vaso de plantas ornamentais no canto esquerdo, tocando delicadamente as suas folhas e examinando os cascalhos que prendiam a raíz.
— Vim apenas pedir para que os solte — ele disse então, direto ao ponto — Você sabe que o que está fazendo é errado. Não é a conduta padrão do Mundo Espiritual. Pelo menos, não quando se trata de humanos.
— E você sabe que o que está pedindo é inútil. Sabe que podemos abrir exceções quando a situação é emergencial.
— Não vai ganhar nada com isso, Ootake. Fiz um acordo com Mukuro, Yomi e Enki, simplesmente os três exércitos mais poderosos do Makai. Eles estão cientes do que está acontecendo e não estão contentes. Tem ideia do desastre que seria se decidissem vir pra cá? Yusuke, Kurama e Hiei são diferentes. Já estão acostumados com humanos. Outros youkais mais fracos vem para esse mundo direto, mas não representam ameaça alguma. Mas você não vai querer se meter com os três. Yomi principalmente, já que ele nunca foi a favor de criminalizar o consumo de carne humana.
— É por isso que reconstruímos a barreira dimensional. Eles não conseguem atravessá-la. A estamos reforçando.
— Sabe que não vai ser o suficiente para detê-los, não sabe? Pode até prender o Kuwabara aqui, mas com a tecnologia que possuem, não dou nem mais três dias para que esses youkais consigam de alguma forma replicar a espada dimensional e destruir novamente essa barreira. Se Kazuma não derrubá-la, o próprio Yomi o fará.
Tentando disfarçar, Koenma continuou caminhando pela sala, seguiu para um móvel, analisando com cuidado a vela aromática que havia ali e uma pequena estatueta de samurai ao seu lado. Ele deslizou os dedos pelo material, observando a ferrugem que se acumulava em pontos específicos.
— Vocês sofrerão retaliações severas se não parar com isso, Ootake. Esses youkais já estão muito envolvidos nessa guerra. Tiveram perdas significativas nos últimos dias. Não vai conseguir convencê-los de que se envolveram nisso à toa. Liberte Kiara ou eles mesmos virão buscá-la.
— Sabe de uma coisa? Não acredito que eles se dariam o trabalho de vir aqui buscá-la. Não a consideram tão importante assim. Você está blefando, Koenma. Mas, não importa o que diga, eu não vou ceder.
Koenma deu uma olhada no relógio na parede, numa sondagem tão rápida que Ootake jamais teria percebido. Se aproximou então dele e apoiou as mãos sobre a mesa, se inclinando em direção ao homem que roubou o seu lugar no Reikai.
— Você realmente acredita que pode superar o meu pai, Ootake? Acha que vai fazer um bom trabalho no comando do Mundo Espiritual?
— Não vejo porque não. Seu pai e eu tínhamos pensamentos muito parecidos. Foi com você que tudo desandou. O seu jeito de pensar que estava destruindo o Reikai. Você fracassou, Koenma.
Koenma olhou diretamente nos olhos de Ootake, mantendo sua expressão calma apesar da fúria que o fervilhava por dentro.
— Você também fracassou. Só não sabe disso ainda.
Koenma então se afastou sem dizer nada e foi até a saída. Escutou um riso debochado vindo de Ootake, mas não olhou para trás. Ao sair da sala, bateu com força a porta e seguiu o caminho em silêncio, acompanhado pelos seguranças que ainda o esperavam para escoltá-lo de volta para fora do prédio. Porém, cerca de dois minutos depois, já na metade do percurso, parou de repente, forçando os guardas a pararem também.
— O que foi? — um deles perguntou.
— Esqueci de dizer uma coisa ao Ootake. Poderiam passar o recado?
Um dos guardas assentiu, embora tivesse estranhado o tom de Koenma.
— Digam a ele que pelo menos durante o meu mandato nenhum prisioneiro escapou da prisão e ninguém nunca conseguiu invadir esse lugar.
Os guardas se entreolharam, confusos.
— O que quer dizer?
— Que daqui a um minuto, ou talvez menos, um atentado vai acontecer contra Ootake. Esse lugar vai explodir. A sala dele vai explodir. Vocês deviam ir até lá, se quiserem ajudá-lo. Mas, se não quiserem morrer, deveriam fugir daqui o quanto antes.
Os dois guardas ficaram em completo estado de choque, sem entender absolutamente nada.
— Do que está falando?! Um atentado?!
— Sim.
Olhando para trás, os seguranças deram as costas a Koenma, imaginando se aquilo era verdade ou mentira. Era como se esperassem ouvir qualquer som que indicasse um problema vindo da direção da sala do comandante, mas, aparentemente, tudo estava normal. Quando foram tirar satisfação com Koenma, já era tarde. O antigo líder do Mundo Espiritual tinha aproveitado a deixa e a distração dos dois para sumir de vista.
Um deles xingou e pegou o dispositivo de comunicação que carregava consigo para avisar o restante do prédio sobre o ocorrido, porém, antes que sequer pudesse acionar o botão de escuta, um estrondo ensurdecedor veio de trás dos dois.
O prédio inteiro tremeu com a explosão. A onda de energia expelida a partir da sala de Ootake invadiu o corredor em que estavam e varreu tudo que viu pela frente. O impacto estrondoso destruiu toda a estrutura leste do edifício, abrindo aberturas nas laterais e na parte superior.
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Ocupado demais com os próprios pensamentos, Ootake demorou muito para notar o que acontecia ao seu redor. Tentava se convencer de que tinha levado a melhor na conversa nada amistosa com Koenma. Afinal, ele quem o tinha humilhado e o deixado sem poder algum. O fez ser tratado como se fosse um bandido! No entanto, por mais que Ootake tentasse se apegar àqueles detalhes, o último olhar que recebeu de Koenma, fixo e penetrante, o deixou um tanto incomodado. Era um olhar muito confiante e tranquilo. Tranquilo demais para alguém que tinha acabado de perder tudo. Ootake pensou que encontraria desespero nos olhos de Koenma, mas se enganou. E o engano o deixou mais perturbado do que gostaria de admitir.
Buscando algo que prendesse a sua atenção e o tranquilizasse em meio a papelada em sua mesa, Ootake rabiscava anotações sem sentido num documento quando uma pequena folha verde-escura simplesmente caiu lenta e suavemente em cima do texto que ele escrevia. Ele levou alguns segundos para processar aquela informação e entender que não tinha sentido algum no fato de uma folha de uma árvore aparecer de repente dentro daquela sala. Foi então que olhou para cima e percebeu finas ramificações presas no teto, onde folhas vívidas nasciam com certa abundância e em alta velocidade.
Com o olhar, acompanhou as ramificações, que, do teto, seguiam para as paredes e desciam até o vaso de plantas ornamentais no canto do cômodo, onde há pouco Koenma remexia. Os ramos saíam dali e se espalhavam em todas as direções. Conforme crescia, um deles esticou esbarrando na estatueta de samurai que repousava na prateleira ao lado, fazendo-a cair no chão e quebrar ao meio.
Foi então que Ootake se deu conta de que Koenma era o causador daquilo. Pelo menos indiretamente. "Deve ter sido ideia daquele maldito kitsune", foi o que pensou.
— Filho da mãe — Ootake disse em voz alta.
Atrelados aos ramos, flores vermelhas emergiam. Não eram harmoniosas ou bonitas, como rosas, mas sim afiladas, em formato de inúmeros espinhos agrupados. E então, no centro dos "espinhos", frutos arredondados cresciam exponencialmente na mesma proporção em que a planta florescia. Esses frutos, que no início tinham o tamanho de uma ervilha, aumentavam em volume conforme a flor desabrochava, assumindo o tamanho de uma bola de futebol.
Ao terminar o processo de floreamento, os ramos ficaram estáticos e os frutos já não aumentavam mais. Porém, Ootake estava cercado. A única parte da sala que estava livre da invasão era o perímetro ao redor de sua mesa. Todo o restante dela, incluindo a porta de saída, estava bloqueada pela planta.
Ootake deu um sorriso cínico, como de quem desdenhasse da situação.
— Só pode ser piada — ele disse — Como se essa porcaria fosse capaz de me prender aqui.
Sem saber que o intuito daquilo não era mantê-lo preso dentro da sala, mas sim destruí-la, Ootake se aproximou do grupamento de flores, ergueu o braço apontando em direção a elas e disparou a sua energia espiritual. Os frutos, que na verdade não passavam de bombas, se expandiram com violência e enorme pressão. A explosão não lhe deu tempo de pensar em nada. A sua única reação foi proteger o rosto, enquanto era arremessado para longe.
Diversos pontos do prédio se abriram, criando várias possibilidades de entrada para Yusuke, Hiei e Kurama, que prontamente adentraram ao edifício quando um terço dele se transformou em escombros e fumaça. O alarme de segurança passou a ressoar com força por todo o local, mas não foi o som barulhento e incômodo que deixou Yusuke desorientado. Ao olhar ao seu redor, ele notou que o prédio estava tão destruído por dentro que encontrar Ootake não seria tão fácil quanto ele tinha imaginado.
Yusuke duvidava muito que Ootake teria sido nocauteado pela explosão, mas também acreditava que seria impossível o falso líder do Reikai ter saído completamente ileso do ataque. No entanto, a localização da sala do comandante era um mistério para ele e nenhum dos destroços em sua volta lhe dava pistas de como chegar até lá. Se ao menos soubesse para que lado Koenma tinha ido, poderia encontrar Ootake.
— Yusuke, não se esqueça do plano — Kurama chamou sua atenção, sabendo que as intenções do amigo eram outras — Precisamos nos dividir, ir atrás de Botan, Kiara, Kuwabara e, agora, de Koenma também. Quanto antes os acharmos, mais rápido saímos daqui. Não podemos perder tempo desviando o foco.
— Sabe que não vai dar pra evitar confrontos, né? O Esquadrão Espiritual inteiro está aqui, ou pelo menos boa parte dele. Vamos ter que enfrentá-los uma hora ou outra, Kurama.
— É exatamente por isso que precisamos ser rápidos. Eles estão em maior número e precisamos poupar esforços pra fuga. Para de caçar problemas. Se o problema chegar até você, você resolve. Caso contrário, não tente criar um.
Yusuke apenas revirou os olhos e concordou balançando a cabeça e sem paciência para discutir. Enquanto isso, tentando ignorar toda a bagunça ao seu redor, Hiei buscava se concentrar no Jagan com o objetivo de rastrear qualquer um dos quatro que precisavam ser resgatados.
— Conseguiu localizar alguém? — Kurama perguntou.
— Koenma. É o que está mais fácil de achar. Por ali — Hiei indicou o caminho à direita, bloqueado por alguns pedregulhos.
Yusuke conseguiu disfarçar a empolgação.
— E os outros?
Hiei hesitou um pouco, tentando se concentrar mais uma vez.
— Ainda estão fora do meu alcance. Preciso de mais tempo para encontrá-los. Mas Koenma estava certo, a movimentação principal está nos últimos andares do prédio. Com certeza eles estão lá. Precisamos descer.
— Vou buscar o Koenma — disse Yusuke — Vocês dois se dividem e vão atrás do resto.
Kurama e Hiei concordaram e então os três se separaram, seguindo seus respectivos caminhos.
A passagem bloqueada pelos escombros não foi problema para Yusuke. Um único golpe bastou para transformar em pó qualquer obstáculo, abrindo espaço para que ele seguisse em frente.
E então, ele foi de encontro a Koenma sabendo que, se o antigo líder espiritual estava naquela direção, Ootake também estava.
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KIARA POV
Estava tão sonolenta que voltei a dormir depois de conversar com Botan. Meus olhos estavam pesados e eu tinha esperança de que a náusea passasse depois do descanso. Porém, não foi um sono profundo. Acho que no fim das contas apenas cochilei, mas o meu subconsciente parecia ter ficado em estado de alerta o tempo inteiro. Tive a sensação de ter tido sonhos estranhos, misturando pessoas e situações do meu passado com o meu presente. Quando acordei não lembrava de nada com clareza e tive a incômoda impressão de estar mais cansada do que antes.
Botan me chamava pelo meu nome, mas eu ainda me sentia tonta. Só despertei realmente quando percebi o quanto ela parecia preocupada.
Minha cabeça estava latejando.
— O que foi, Botan?
— Tem alguma coisa estranha. Escutei um barulho.
Ela olhava em direção à porta, como se esperasse que algo fosse acontecer a qualquer momento.
— Um barulho?
— É. Parece ter vindo lá de cima. Posso jurar que as paredes tremeram.
Nos encaramos em silêncio por um breve instante, pensando exatamente a mesma coisa. Ouvimos uma agitação no corredor, como se as pessoas estivessem correndo ali. Vozes alteradas se aproximavam da nossa porta e, embora não conseguisse distinguir o que diziam, a urgência no tom que usavam era perceptível. Tinha também…um alarme?
— Acho que são os meninos. Só pode ser! — Botan disse — O que vamos fazer?
— O que combinamos!
Rapidamente peguei a seringa e a ampola de sedativo, deixando a dose pronta para o uso. Ao que tudo indicava, precisaríamos dela a qualquer momento.
As vozes se aproximaram ainda mais do nosso quarto e então a porta se abriu. Com a mão fechada, mantive a seringa escondida usando a manga da minha camisa que cobria parcialmente o meu punho. Eu a segurava com firmeza e cuidado para não correr o risco de quebrar a agulha ou mesmo me espetar.
No entanto, quando dois guardas do Reikai entraram no quarto ao mesmo tempo, Botan e eu voltamos a nos encarar. Nenhuma de nós precisou dizer nada, pois sabíamos exatamente o que queríamos falar apenas com os olhares de espanto que mantinhamos fixos uma na outra.
Dois guardas e somente uma dose de sedativo. Definitivamente não era o que planejamos. Até então, os guardas sempre entravam sozinhos, um de cada vez. Por algum motivo, decidiram mudar o padrão e eu, idiota, nem sequer cogitei essa possibilidade.
— Você — um deles se dirigiu a mim — Temos ordens de escoltá-la para outro local. Precisamos que nos acompanhe agora.
— Aconteceu alguma coisa? — Botan perguntou a eles, tentando arrancar alguma informação útil.
Os dois se olharam brevemente, como se já esperassem por aquela pergunta. Obviamente já tinham também uma resposta ensaiada.
— Nada com que deva se preocupar — o outro respondeu, antes de voltar a atenção para mim — Vamos logo.
Eu não me mexi. Permaneci sentada na cama tentando reformular o plano sem muito sucesso. Botan me olhava preocupada e, pela cara que fazia, eu sabia que ela estava gritando por dentro. Eu quase podia ouvir os seus pensamentos em surto.
O que faremos?!
Era isso o que ela queria perguntar em voz alta. Infelizmente, eu não tinha ideia de como resolver aquele problema, mas sabia que não queria que me escondessem em outro lugar. Se o nosso resgate tinha chegado, precisávamos garantir que eles nos encontrassem. Então, eu teria improvisar, senão jamais escaparia das mãos do Reikai.
— Vamos logo!
Um dos guardas me agarrou de surpresa pelo braço, me forçando a levantar da cama tão bruscamente que quase caí no chão. Tive que ignorar a dor no peito e me focar em não deixar a seringa escorregar da minha mão.
O guarda continuou me segurando com uma pressão desnecessária. Me puxou pra perto dele, me colocou na sua frente e seguiu me empurrando pelas costas para me obrigar a andar em seu ritmo. Eu tropecei três vezes seguidas antes de reclamar.
— Para com isso! Eu não consigo andar assim tão rápido. Caso vocês tenham esquecido, eu estou ferida e até algemada! Não é como se eu fosse tentar fugir. Então, se não for me carregar no colo, será que dá pra me soltar e me deixar ir andando no meu próprio tempo, por favor?!
Ele me olhou com cara feia, mas entendeu o recado. Ou pelo menos parecia convencido de que eu não oferecia perigo e nem poderia escapar. Simplesmente decidiu seguir andando ao meu lado, sem desconfiar do que eu planejava fazer.
Naquela altura do campeonato eu estava suando frio. A seringa ameaçava deslizar da minha mão suada e eu a apertava com força. A parte boa era que eu sentia a adrenalina se espalhar tão forte no meu corpo que a dor no coração tinha sumido completamente, pelo menos naquele momento.
O guarda ao meu lado estava entre mim e o segundo oficial. Eu caminhava em passos curtíssimos pelo quarto, quase arrastando os pés pelo chão. Respirei fundo e tomei coragem para agir. Ao notar que o mais próximo de mim olhava para frente, ergui o braço velozmente projetando a seringa em direção ao seu pescoço.
Foi tudo tão rápido que ele não teve tempo de reagir. Quando notou que minha mão estava próxima de seu rosto, já era tarde. A agulha o perfurou na jugular na mesma hora em que apertei o êmbolo, injetando o sedativo.
Ele ainda tentou pegar a arma no coldre, mas eu sabia mais do que ninguém que o efeito do tranquilizante era imediato. No momento em que ele cambaleou, o segundo guarda se deu conta do que tinha acontecido. Esse sim, em boas condições, foi ágil ao pegar a própria arma e apontá-la para mim. Empurrei o seu colega — que ainda estava entre nós, perdendo a consciência — em cima dele. Ele apertou o gatilho, mas, com o impacto, o revólver caiu no chão e o disparo atingiu a parede atrás de mim.
Não tive muito tempo pra pensar no que fazer. Ao olhar a arma no chão, sabia que tinha que pegá-la pra conseguir neutralizar também o segundo guarda. Me joguei na direção do revólver, mas o oficial pensou o mesmo e interceptou o meu caminho, colidindo comigo.
Com o tranco, caí no chão de costas, com ele em cima de mim. Eu até tentei reverter a situação, o empurrando, mas o seu peso era pelo menos o dobro do meu. Tentava me libertar e, com os braços livres, ainda tentei alcançar a arma que estava a meio metro de nós. Meus dedos tatearam o chão até toca-lá, mas não consegui agarrar o cabo. Ele então segurou o meu pulso e puxou o meu braço de volta antes que eu conseguisse.
O homem me sacudiu com força pelos ombros e senti a minha cabeça bater no chão. Aquilo me deixou zonza. O suficiente pra ele conseguir se arrastar um pouco e recuperar o revólver. Ele o apontou para mim, quase o encostando no meu rosto.
Foi minha vez de segurar o seu braço, tentando impedi-lo. Virei inutilmente a cabeça pro lado, procurando desviar da mira, mas o cano já estava muito próximo de mim. Com o guarda de joelhos em cima do meu corpo , pressionando o revólver na minha têmpora e o dedo pronto para acionar o gatilho, eu apenas apertei os olhos esperando o pior.
Eu sabia que ia morrer (de novo!) e, justamente por saber, senti muito mais medo do que das outras vezes. Quando o som do tiro reverberou, porém, eu não senti nada. Só ouvi algo caindo ao meu lado e senti o peso em cima de mim aliviar.
Espiei com cautela e vi o guarda estirado no chão, desmaiado com um tiro na lateral do abdômen, onde vertia sangue. Eu tremia inconscientemente e olhei para Botan, que ainda mantinha erguido o revólver do outro oficial — aquele que eu tinha sedado. Ela estava de olhos fechados, nem sequer tinha tido coragem de olhar antes de atirar. Agiu por puro impulso. Ao se dar conta do que tinha feito, largou a arma e começou a choramingar sozinha.
— Ai meu Deus. Ele tá…ele tá morto? Eu…eu o matei?
— Não sei, Botan — levantei depressa, tão assustada quanto ela — Não sei. Mas precisamos sair daqui.
— Eu não queria…não queria isso, mas…mas ele…
Enquanto ela se lamentava, peguei rapidamente o cartão de acesso aos quartos do bolso do guarda que estava sedado.
— Botan, temos que sair daqui! — ela estava em transe e tive que chacoalhá-la para que prestasse atenção em mim — Se recompõe!
— Mas ele…eu não podia…eu não devia…
— E ia fazer o quê?! Você salvou minha vida, Botan!
Ela engoliu o choro e assentiu em silêncio.
— Vamos embora antes que alguém apareça — eu disse — Precisamos achar o Kuwabara. Você sabe onde deixaram ele?
— Sim, eu sei — ela tomou então a dianteira — Vamos!
KIARA POF
