Tudo é questão de obedecer ao instinto
Que o coração ensina a ter
Shikamaru saiu correndo do trabalho sem se importar com os falatórios. Ele precisava se acalmar e pensar. A sua cabeça doía e à essa altura, o Nara se viu dependente de um pouco de nicotina. Ele procurava como um louco a carteira de cigarro na roupa e foi quando se deu conta de que havia deixado-o em cima da mesa. O moreno suspirou em frustração, já estando quase à beira de um colapso nervoso. Cansado de andar em círculos, Shikamaru sentou-se recostado em uma árvore qualquer do parque e tentou por quase dez minutos controlar a crise dada pela falta do cigarro.
O lugar em questão era belo, tudo verde e preservado. De onde estava, o homem tinha uma visão bem ampla do céu limpo. Os raios de sol iam dando um colorido amarelado à grama aparada, juntamente com a brisa fresca causando o farfalhar das folhas das árvores. Tudo isso era de enorme contraste com o seu interior que era podre, inóspito e cinzento na opinião do mesmo.
As palavras "casamento" e "liderar" ecoavam absurdamente alto na cabeça do moreno, que na tentativa de interromper a linha de pensamento, pressionava as mãos fortemente contra os canais auditivos. Shikamaru se sentia frágil, sozinho.
Foi nessa hora que ouviu passos e alguém chamando por si. Frustrado por querer ficar sozinho com os seus problemas, o jovem apenas ignorou solenemente a pessoa que o chamava. Ele ouviu a voz ficando mais perto até que uma mão delicada pousou em seu ombro.
— Finalmente te encontrei, fujão. — era Hinata. A moça tinha as maçãs do rosto vermelhas por causa da árdua procura por ele. Ainda assim ela mantinha um sorriso gentil em seus lábios.
E ele, inconscientemente, se sentiu melhor.
Suspirou de alívio quando o encontrou escorado no tronco da árvore. Obviamente a situação dele não parecia ser a das melhores. Era evidente que Shikamaru estava lutando contra seus demônios internos, assim como ela. Gentilmente se aproximou do amigo, pôs a mão delicada em seu ombro para que ele soubesse que ela estava ali. Hinata pôde sentir que após o primeiro contato, Shikamaru já não se encontrava tão esquivo, então perguntou-lhe.
— Posso me sentar aqui, com você? — com a voz serena ressoando ao seu lado era quase impossível negar o pedido. Ele assentiu.
Hinata apoiou-se no tronco e sentou sobre as pernas cruzadas ao lado do Nara, ela estava a espera do momento certo para falar. Os dois estavam imersos em um completo silêncio apenas observando a vastidão do céu azul, até que Hinata decidiu quebrar o gelo.
— O dia está lindo, não? — ele ponderou por alguns minutos antes de responder. Hinata brincava com o cabelo, enrolando as madeixas índigo entre os dedos.
— Não sei, Hinata. O que você acha? — embora o comentário tenha soado sarcástico para quem quer que pudesse ouvir, a Hyūga notava certo humor no semblante triste do garoto.
— Acho que está ótimo, mas ficaria melhor se aquelas nuvens — apontou para o formação carregada. — se forem, não acha? — era óbvio para Shikamaru que ela não estava falando do tempo em si, mas usou aquilo como uma metáfora para que o mesmo se abrisse.
— Não sei. — ele tornou a carregar consigo uma aura melancólica e estava sob o olhar minuncioso da herdeira Hyūga. — gostaria de ser uma delas. — Hinata balançou a cabeça, concordando com o que fora dito.
— Me conte então...— a perolada abraçou as pernas, apoiando a cabeça sobre os joelhos. O Nara continuava imóvel, olhando apenas para o vazio de sua existência. — O que está se passando nessa cabecinha perturbada. — a palavra dita no diminutivo fez com que Shikamaru soltasse um sorriso soprado.
— Apenas problemas… — que estão me sugando por completo, completou em pensamento.
— Quer falar sobre eles? — foi direta.
— Preciso resolvê-los e não falar sobre eles. — a jovem arqueou uma sobrancelha, surpresa com a resposta atravessada. Ele estava sendo duro demais consigo mesmo, isso era fato. Porém a azulada compreendia que cada um lidava com problemas de formas distintas, não iria julgá-lo por isso.
Hinata voltou sua atenção à grama úmida, arrancando-as por não ter o que fazer. De repente um barulho alto ecoou, fazendo até mesmo o moreno sair do transe e a olhar incrédulo. Era o seu estômago lhe dando um vergonhoso aviso de que ela precisava urgentemente de comida. Encarou o Nara de esguelha e se arrependeu amargamente por isso, Shikamaru tinha um sorriso sacana no rosto como quem dizia "ei, não vou deixar essa passar". Praticamente em combustão pela gafe, a Hyūga escondeu o rosto entre as mãos.
— Ei, Hinata — o jovem tocou gentilmente o pulso da garota — você está bem? — inquiriu sério, deixando as formalidades de lado.
— S-s-sim — maldita gagueira, ela ruborizou pelo contato repentino, é que embora fossem amigos, Shikamaru não era Shino e muito menos o Kiba, os quais estava mais familiarizada. — N-não foi nada.
— Mesmo?! — ele estava consideravelmente perto da morena, as sobrancelhas levemente arqueadas indicavam a dúvida estampada na face do preguiçoso.
— Mesmo. — reunindo toda a coragem que tinha, Hinata respondeu-lhe com convicção, levantando-se apressadamente (e quase caindo). — E-eu só queria saber o por que de você ter saído transtornado no escritório, mas vejo que está melhor então não vou mais atrapalhar, tchau. — a garota falou tudo tão rápido que Shikamaru jurou se tratar de um trava-língua, mas ao ver que a perolada queria praticamente fugir da sua presença, ele a agarrou pelo pulso.
— O que foi? — ela perguntou.
— Por acaso você está fugindo de mim? — ele perguntou seriamente. As orbes claras o miraram com um misto de surpresa e incredulidade.
— Não é isso...— coçou levemente a testa ao se explicar — Só estou com a leve impressão de estar atrapalhando você. — baixou o olhar e começou a encarar o chão.
— Ah...— suspirou cansado — desculpe se causei essa impressão, não ando nos melhores dias.
Foi então que a morena teve um devaneio. Uma ideia maluca, mas que poderia dar certo.
— Shika...
— Hm?
— Eu estou indo visitar a Kurenai-sensei e a Mirai, gostaria de me acompanhar?
— Eu não sei, aparecer assim na casa dos outros sem antes avisar, não sei se ela irá gostar. — disse.
— Shikamaru...— Hinata revirou levemente os olhos. Talvez ele não soubesse mas Kurenai adorava visitas, talvez se desse pelo fato de que às vezes a mulher se sentia bastante solitária. Agora não tanto, já que tinha a filha para cuidar. — Faremos uma surpresa a ela. — piscou.
— Não é uma má ideia. — ele disse, pondo a mão no queixo enquanto fingia estar pensando. — Eu vou.
— Ótimo.
— Ótimo.— aceitou — e o que estamos esperando?!
— Você me...soltar? — disse Hinata, apontando para o pulso onde o Nara estava agarrado. Assim que se deu conta do que estava fazendo, o Nara se desgrudou dela.
— Ahn..Desculpe. — pediu meio sem jeito.
— Você tá' parecendo eu agora. — ela comentou divertida.
— Você tá muito bem humorada hoje hein, garota. — girou os calcanhares e rumou para a estrada principal sendo seguido pela Hyūga que hora ou outra passava vexame pelos roncos do estômago. Parecia que uma certa pessoa tinha pressa em devorar uns petiscos. Era quase 8 da manhã, não teria cabeça para voltar ao trabalho agora, mais tarde falaria com Kakashi e estava tudo certo.
Era absurdamente curioso a forma como o tempo poderia mudar drasticamente de uma hora para outra. Ao amanhecer estava um sol de lascar na visão do moreno, que pensou estar "sambando no mármore do capeta", agora o vento gélido e as nuvens escuras no céu davam o indício de que viria um forte temporal. Já não havia mais quase ninguém na rua e os poucos que sobravam, estavam procurando urgentemente por suas casas. O tempo parecia ter se fechado também para uma certa Hyūga, que veio de cara amarrada durante todo o percurso. Poderia ser apenas impressão sua? Poderia. Aliás, vinha se questionando sobre possíveis motivos do mau-humor da perolada e chegara a um total de zero conclusões, ou melhor, chegou a uma: mulheres eram muito problemáticas. Era isso, tinha a certeza!
Mas quando ela lhe acenou docemente, ficara confuso.
Que porcaria! Não conseguia lê-la, Hinata era um enigma.
Assim que os primeiros pingos de chuva começaram a cair, os dois chegaram na residência da Sarutobi. Ela os recebeu com entusiasmo junto da filha no colo. Deu passagem para que Hinata e Shikamaru adentrassem o local, e Mirai pulou eufórica nos os braços do mais velho.
— Ohayo, Okaa-san. — Hinata cumprimentou a ex-sensei com um abraço. As duas se dirigiram para a cozinha, onde a mesa estava cheia de quitutes. O Nara veio logo atrás com a pequena Sarutobi a tiracolo.
— Ohayo, Kurenai. — o moreno depositou delicadamente a sobrinha no chão e fez uma breve mesura à mulher.
— Hoje será um dia muito agradável com a presença de vocês dois. — Sorriu. Foi como Hinata havia dito, a mulher parecia realmente ter apreciado a sua aparição repentina. — Aceitam um café? — perguntou.
Ao olharem para o lado, lá estava Hinata sentada à mesa com três rolos de canela enfiados na boca.
Eles se entreolharam e Shikamaru soltou uma alta gargalhada.
— Ela é sempre assim? — provocou.
A Hyūga deu de ombros, tomando um gole generoso de chá.
— Por favor, faça como Hinata. Sente-se e coma à vontade. A casa é sua também. — sem cerimônia, ele se sentou. Hinata estava com Mirai nos braços que ria de cada careta que a Hyūga fazia. Ao contrário da amiga que parecia ser um poço sem fundo, o Nara comia moderadamente apenas para não fazer desfeita.
Desde que Asuma havia morrido, Shikamaru ficou incumbido da responsabilidade de cuidar da família do seu Sensei, foi uma promessa que havia feito à ele no leito de morte, quando o Sarutobi confidenciou ao moreno que iria ser pai. O falecimento do sensei deixou um vazio enorme no coração de Kurenai, que embora agora se mantinha sorridente na frente de outrem, ainda assim não era capaz de esconder a falta que o marido fazia. O olhar melancólico a denunciava.
O Nara sabia o quanto ela havia sofrido pois ele também esteve desolado.
E até hoje não soube como superar a perda.
— Como vai o trabalho como conselheiro do Hokage? — questionou a de olhos vermelhos. Aquele foi o único momento em que Hinata parou de querer devorar tudo o que tinha na mesa e parou para escutar a resposta que ele iria dar. Assim que os olhares do Nara e da Hyūga se encontraram, ele lhe lançou um olhar apreensivo para que não contasse à Kurenai sobre o seu grande surto.
— Está sendo bom...— mentira, mas pelo menos paga as contas.
— Ah, que ótimo! Yoshino deve ter muito orgulho do filho que tem. — comentou.
— Com certeza sim! — concordou Hinata.
Continuaram o desjejum em silêncio, as vezes quebrado pelas perguntas de Mirai. Vê-la ali tão sorridente fez Shikamaru perceber que seu esforço estava valendo a pena. E continuaria assim, ele não deixaria que nada de mau acontecesse com a menininha.
Porventura, uma corrente de ar gelado entrou pela janela. A brisa fresca foi como uma confirmação de que tudo se ajeitaria.
— Cuidado com o garfo, Mirai. Imagina se isso pega no olho! — falou a Hyūga assustada.
Estava exaurido após mais um dia intenso de trabalho. Tudo o que mais ansiava agora era um belo banho e cama. Passou pelo corredor ouvindo as reclamações de Yoshino sobre sempre deixar a toalha molhada em cima da cama. Deu de ombros, aquilo já era normal, que poderia ele fazer se sempre se esquecia disto? O moreno foi direto para o quarto, arrancando a roupa e se trancando no chuveiro. Enquanto a água quente escorria na pele bronzeada e relaxando totalmente os músculos, Shikamaru assim também o fez com os seus dilemas.
Ele fechou os olhos, querendo que a água os levassem pelo ralo do banheiro também.
