Santuário – Chalé de Capricórnio
Atenas – Grécia
06:12 AM
O quarto de Scully não estava apenas vazio. Ele nunca foi ocupado.
O travesseiro estava intacto. O cobertor perfeitamente dobrado. Nenhuma peça de roupa a vista. Nenhum sinal de que ela sequer tinha passado por ali.
O estômago de Mulder afundou. - Ela não voltou.
Não foi uma saída discreta no meio da madrugada, ou uma insônia que a fez andar pelo Santuário até mais tarde.
Ela nunca voltou.
Ele soube no instante em que acordou, antes mesmo de conferir.
Mas agora, vendo a evidência escancarada na sua frente, a certeza caiu como um soco no peito.
Isso nunca aconteceu antes.
Porra, nem quando estavam no FBI e ele a arrastava pelos casos mais bizarros do planeta, Scully simplesmente sumia sem dar sinal de vida.
Mas agora?
Agora ela simplesmente se foi. E ele sabia para onde.
Sabia com quem.
Um riso seco e amargo escapou antes que ele pudesse conter. -É isso? É assim agora?
O que ele achava? Que ela ia voltar no meio da madrugada e deitar na cama como se nada tivesse acontecido? Que ela ia aparecer na manhã seguinte, tomar café e perguntar se ele dormiu bem? Que ela ia olhar para ele da mesma forma depois disso?
Mulder passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. A raiva estava lá, óbvia, queimando por baixo da pele. Mas não era por ela. Não podia ser.
Porque ela era livre. Ela não tinha que explicar nada para ele. Ele nunca fez nada para que ela pertencesse a ele.
Mas, Deus, doía.
Doía porque não era só sobre Kanon. Era sobre o fato de que Scully não precisava dele.
E isso? Isso sim o estava matando.
Ele sentiu o peito se contrair. Não podia ficar ali. Não podia respirar aquele espaço vazio. Pegou a jaqueta jogada no sofá e saiu do chalé antes que fizesse alguma coisa estúpida.
xXx
Mulder descia as escadarias entre os templos sem se importar com o que isso iria causar depois, seu preparo físico não valia muita coisa naquele lugar afinal. O ar fresco da manhã não fez nada para acalmar a tempestade dentro dele, mas no momento ele só sabia que precisava andar.
Precisava se mexer, porque se ficasse parado, ia acabar quebrando alguma coisa. Ou alguém. A si mesmo, talvez.
E foi exatamente nesse estado que ele esbarrou com Aiolia.
O cavaleiro de Leão estava subindo as escadas no sentido oposto, e franziu a testa no instante em que viu Mulder. Algo estava errado, o homem parecia feroz. Não no jeito de um homem que estava pronto para lutar.
Mas no jeito de um homem que estava pronto para perder.
Aiolia parou na frente dele.
"Você tá indo pra onde com essa cara de quem quer explodir alguma coisa?"
Mulder parou bruscamente. Respirou fundo. Soltou devagar.
"Pra um lugar onde ninguém tente me dizer que isso é normal."
Aiolia cruzou os braços, entendendo imediatamente. -Ah. Então era sobre isso.
"Ela não voltou."
Mulder riu sem humor "Ela nem passou perto."
Aiolia sustentou o olhar. "E você tá querendo o quê?"
Mulder passou a mão pelos cabelos, claramente agitado.
"Eu não sei. Eu não sei, Aiolia!" Ele gesticulou, irritado. "O que você quer que eu faça? Que eu bata na porta do desgraçado e peça minha parceira de volta?" Deixou os ombros caírem, desanimado "Eu nem sei onde ele mora..."
Aiolia arqueou uma sobrancelha "Bom. Seria interessante de assistir."
O gracejo caiu mal. O silêncio entre os dois ficou pesado.
Aiolia analisou Mulder por um momento, vendo tudo ali. A raiva. A frustração. O medo.
E então, soltou um longo suspiro.
"Vem comigo."
Mulder franziu a testa.
"Pra onde?"
Aiolia deu de ombros.
"Pra um lugar onde a gente pode falar sobre isso sem você tentar matar ninguém."
xXx
Santuário – Casa de Escorpião
Atenas – Grécia
08:38 AM
Milo estava sentado de qualquer jeito sobre um dos degraus de sua casa, terminando a segunda caneca de café do dia, quando sentiu dois cosmos se aproximando. Ele ergueu os olhos e viu Aiolia subindo os últimos degraus… e atrás dele, Mulder.
E o agente parecia um desastre ambulante.
Milo franziu a testa, imediatamente captando que o humor de Mulder não era dos melhores. Ele abriu um sorriso de canto.
"Bom dia, agente. Você tá com uma cara de quem não dormiu nada hein..."
Mulder parou no último degrau, encarou Milo, depois olhou para Aiolia como se perguntasse 'por que mesmo eu vim aqui?'.
Aiolia cruzou os braços. "Você acha que é só ele? Acho que quase ninguém dormiu essa noite..."
Milo arqueou uma sobrancelha, bebendo o resto do café. "Eu dormi muito bem, obrigado."
Aiolia ignorou. "Temos que conversar. A Criatura se manifestou pro Máscara de novo."
Milo piscou devagar. "De novo?"
Aiolia assentiu. "Ele me contou de manhã. Não foi uma possessão dessa vez. Foi algo... diferente."
Mulder finalmente se manifestou. "Diferente como?"
Milo soltou um suspiro e gesticulou para dentro. "Tá, tá. Entrem. A gente precisa mesmo conversar."
Entraram, Mulder deu graças a Deus pelo ar fresco da sala intima atrás do Templo. Milo sentou-se em uma poltrona enquanto Aiolia e Mulder ocuparam os assentos ao redor. O agente parecia desconfortável - e com razão.
Milo apoiou os cotovelos nos joelhos. "Ok. Conta essa história direito, Leão."
Aiolia respirou fundo antes de começar. "Máscara me procurou hoje cedo. Ele disse que sentiu algo o observando. Não um cosmo. Algo… além disso."
Mulder franziu a testa. "A Criatura?"
Aiolia assentiu. "Sim. Mas ele falou que não foi como das outras vezes. Não houve ataque. Não houve desespero, não da forma como ele sentiu antes. Ele disse que foi diferente. Como se estivesse sendo analisado."
Milo inclinou a cabeça, absorvendo a informação. "Analisado?"
Aiolia cruzou os braços. "É. Como se a Criatura estivesse tentando decidir se ele é confiável."
Mulder passou as mãos pelo rosto. "Ótimo. Agora além de um deus mitológico, a gente tem um monstro extraterrestre espionando nossos passos."
Milo riu. "Isso tá mais ou menos bizarro que os casos que você investiga na sua terra, agente?"
Mulder o fuzilou com o olhar. "Engraçado. Muito engraçado. Mas agora me diz, se a Criatura estava observando o Máscara, então ela pode ter feito isso com qualquer um de nós."
Aiolia assentiu. "Sim. E é isso que me preocupa."
Milo coçou o queixo. "Mas espera. Se dessa vez ela não estava em pânico, isso significa que ela tá começando a pensar sobre a gente."
Mulder inclinou a cabeça. "Pensar?"
Aiolia cruzou os braços. "Talvez ela tenha percebido que aqui é o único lugar onde pode estar segura."
Milo assobiou baixinho. "E se for isso… então essa coisa vai ficar muito perto da gente por um tempo."
O silêncio pesou entre os três.
Mulder soltou um longo suspiro. "Isso só reforça o que eu já sabia. Precisamos falar com todo mundo. Não dá mais pra continuar fazendo teorias sem compartilhar as informações."
Milo pegou um pedaço de fruta da bandeja e deu uma mordida. "É, acabou o recreio." Ele olhou para Aiolia. "Acho que tá na hora de chamar a reunião, então."
Aiolia assentiu. "Sim. Mas dessa vez… ninguém esconde nada."
Mulder levantou uma mão "Ok, mas por favor... antes de encarar mais quinhentos degraus, preciso só de um tempinho, pode ser?"
Milo e Aiolia se entreolharam, mal segurando o riso. "Relaxa, agente Mulder, deixa que eu cuido disso. Vocês podem ficar aqui descansando."
Aiolia se levantou e saiu, seus passos fáceis demonstrando nenhum cansaço.
xXx
Santuário – Casa de Escorpião
Atenas – Grécia
08:52 AM
A sala de Escorpião estava mais silenciosa do que o normal. Havia algo pesado no ar, uma tensão invisível que mantinha todos ali um pouco mais alerta do que gostariam.
Milo serviu-se de mais café, observando o grupo ao redor da mesa baixa do aposento interno de sua casa. Aiolia, ao lado, mantinha os braços cruzados, o olhar atento. Shura e Aldebaran, recém-chegados, ainda estavam tentando entender a urgência da reunião. Afrodite, por sua vez, recostava-se com falsa indiferença na poltrona mais afastada, enquanto Máscara de Morte… bom, Máscara ainda estava digerindo tudo que andava caindo no colo dele ultimamente.
No meio desse turbilhão, Mulder permanecia sentado, um pouco mais afastado, os braços cruzados sobre o peito. Ele não dizia nada, mas claramente absorvia cada palavra.
Foi Aiolia quem quebrou o silêncio.
"Precisamos entender o que aconteceu ontem." Sua voz saiu firme. "Recapitulando: Máscara, você sentiu a Criatura te observando. Não atacando. Observando."
Máscara soltou um longo suspiro e coçou o queixo.
"Foi estranho pra caralho, vou dizer." Ele recostou-se, apoiando um cotovelo no joelho. "Antes, cada vez que senti essa coisa, foi um inferno. Era puro desespero, puro pavor. Mas ontem… cara, foi diferente."
"Diferente como?" perguntou Aldebaran, os olhos estreitados.
Máscara hesitou. "Como se ela estivesse me medindo." Ele gesticulou de forma vaga. "Tipo… tentando entender quem diabos eu sou."
O silêncio se alongou por um instante.
"O que isso significa?" Afrodite finalmente falou, sua voz suave, mas carregada de peso.
Foi Mulder quem respondeu.
"Poderia significar que ela não tem certeza se pode confiar." Sua voz era grave, um pouco rouca pelo pouco sono.
Os olhares se voltaram para ele.
"Você também acha que ela estava avaliando se pode se aproximar?" perguntou Shura.
Mulder assentiu lentamente.
"Se essa coisa estava fugindo, como acreditamos, e se ela tentou impedir Poseidon de se aproximar de Scully, então faz sentido que agora ela esteja tentando decidir se encontrou aliados… ou outra ameaça."
Aiolia soltou um longo suspiro. "Ou seja… a Criatura está nos testando."
Milo soltou um assobio baixo, cruzando os braços. "Bom, se for isso, o Máscara de Morte não foi uma escolha muito prudente pra primeira tentativa."
Máscara virou-se bruscamente para ele. "Ah, vaffanculo Escorpião!"
Milo riu "Só tô dizendo que ela deve ter achado interessante o material de estudo."
"Você não tava lá, Cazzo." Máscara se inclinou para frente, os olhos estreitos. - Aquilo não era brincadeira.
Afrodite, que até então não parecia envolvido, inclinou-se levemente.
"Você… ficou com medo, não ficou?"
A pergunta e a expressão preocupada de Peixes pegou Máscara de surpresa. Ele piscou, depois desviou o olhar.
"Não era medo… era só… diferente."
Afrodite não pareceu convencido, mas não insistiu. De alguma forma não estava mais sentindo aquela necessidade constante de provocar o outro. Alguma coisa em Câncer estava despertando nele algo de protetor.
Aldebaran, que ouvia tudo com atenção, finalmente se pronunciou.
"Isso levanta outra questão." Ele apoiou os antebraços sobre os joelhos. "Se essa Criatura está aqui, observando… será que ela já sabe ou entende o que aconteceu com a agente Scully?"
O nome dela fez Mulder enrijecer levemente.
"Você quer dizer… o que aconteceu com ela depois da vacina?" perguntou Aiolia, seguindo o raciocínio.
Aldebaran assentiu.
"Se essa Criatura é a fonte do material biológico da vacina, como suspeitamos… então ela pode saber exatamente o que está acontecendo com a agente Scully." Aiolia ponderou "E tem o lance da conexão também."
Milo deu um gole no café. "E se ela quer nos testar… será que é por causa disso? Será que ela acha que a agente Scully pode ser usada contra ela?"
O silêncio caiu como um peso sobre a sala.
"Mierda." Shura esfregou o rosto.
Milo soltou um longo suspiro. "Tá. Dessa linha de pensamento eu não gostei nada."
Foi então que Afrodite olhou para Mulder com mais atenção.
"E você, agente Mulder?"
"Eu o quê?"
Afrodite inclinou a cabeça, estudando-o. "O que vai fazer em relação à sua parceira? Vai permitir que ela continue se encontrando com Kanon? Olha que isso pode piorar as coisas..."
Mulder olhou para ele, exausto.
"E o que você quer que eu faça? Que eu brigue com ela? Que eu exija que ela volte pra mim? Eu nem posso fazer isso, Scully não me pertence. Eu não tenho direito nenhum, droga!"
Afrodite sorriu de canto.
"Você não perdeu a agente Scully ainda, agente Mulder. Você só nunca a teve."
Mulder ficou em silêncio.
"Mas isso não significa que não possa estar ao lado dela." Aldebaran acrescentou.
O agente desviou o olhar. "Como amigo?"
Shura soltou um longo suspiro. "O que mais você poderia ser no momento?"
Mulder exalou pesadamente.
Milo apontou o dedo para ele.
"Já parou pra pensar que essa é uma péssima hora pra deixar ela sozinha? Se essa coisa toda for do jeito que estamos pensando, ela está até o pescoço enterrada nisso, então pelo menos não deixe ela na mão." O Escorpião voltou a se encostar, amenizando o tom um pouco "E se você quer esperar que ela faça uma escolha, ok. Mas não cometa o erro de sair do caminho antes disso."
Mulder fechou os olhos por um segundo, tentando absorver as palavras do jovem a sua frente.
Shura levantou-se.
"Bom, por enquanto acho que é isso. Aiolia, você cuida de chamar a reunião com os outros?"
O cavaleiro de Leão assentiu.
Aldebaran colocou uma mão no ombro de Mulder.
"Mas antes disso… por que você não volta pro chalé?"
Mulder piscou.
"E por quê?"
Afrodite sorriu "Porque quando ela voltar, você vai querer estar lá."
O coração de Mulder deu um pulo no peito.
Mesmo com tudo que estava sentindo, sabia que aquela era a verdade.
TO BE CONTINUED…
