Isabella

Depois de dias lidando com mistérios, desconfiança e o peso do passado, pisar no chão de madeira, sentir o cheiro familiar e ver Chloe correr alegremente pelos corredores foi o que finalmente me fez respirar aliviada.

A verdade era que, por mais que Londres fosse significativa para Edward, Forks era onde pertencíamos agora. E eu estava pronta para retomar nossa vida.

Nos dias seguintes, Edward parecia mais leve. Talvez porque estivesse longe da pressão, ou talvez porque, finalmente, estivesse aceitando que algumas verdades não precisavam ser descobertas para que ele seguisse em frente.

A troca de gestão do escritório tinha sido como tirar um peso das costas dele. Agora, Emmett seria o CEO e Edward apenas atuaria em casos pontuais como consultor, além de permanecer como o maior acionista, o que lhe garantia poder de decisão quando fosse necessário. Os dois estavam conversando sobre alterar o nome da empresa, mas Emmett ainda estava receoso e queria dar um passo de cada vez.

Passamos tardes tranquilas com Chloe, levando-a para brincar no parque e aproveitando pequenas coisas que antes pareciam corriqueiras, mas que agora tinham um valor diferente. Após uma conversa franca com Edward, eu decidi tirar uma licença do restaurante e nós estávamos cem por cento focados nela.

— Papai, corre comigo! — Chloe pediu um dia, puxando-o pela mão.

Ele riu e se levantou.

— Está me desafiando para uma corrida, mocinha?

Ela sorriu amplamente.

— Sim!

Edward fingiu alongar-se antes de segurar a mão dela.

— Certo. Vamos até aquela árvore. Quem chegar primeiro ganha um sorvete.

Chloe soltou uma risada animada.

— Preparar… apontar… já!

Ela saiu correndo o mais rápido que suas perninhas permitiam, e Edward a seguiu, fingindo que estava tentando alcançá-la.

Eu fiquei parada, observando a cena, e senti meu coração se aquecer.

Esse era o Edward que eu conhecia. O Edward que amava incondicionalmente, que ria sem reservas, que estava presente. E eu soube, naquele momento, que por mais que houvesse segredos e cicatrizes do passado, isso era real, era o que importava.

Certa tarde, algumas semanas depois de voltarmos para casa, Edward chegou com um envelope na mão.

— O que é isso? — perguntei, observando a expressão séria dele.

Ele passou o polegar pela borda do papel, pensativo.

— Chegou pelo correio. Sem remetente.

Meu estômago revirou levemente. Eu estava começando a odiar envelopes pardos.

— Você vai abrir?

Ele hesitou por um momento antes de rasgar a borda do envelope e puxar o conteúdo.

Dentro, havia apenas uma folha de papel. Edward franziu a testa enquanto lia e, então, me entregou.

"Alguns segredos nunca ficam enterrados.
Você pode ter escolhido parar, mas nem todos esquecem."

Meu corpo ficou tenso.

— Isso é… uma ameaça? Essas pessoas encontraram a nossa casa?

Edward apertou a mandíbula. Olhei para ele, esperando que dissesse algo, mas ele apenas fechou os olhos por um instante antes de pegar o papel e rasgá-lo ao meio.

— Não importa — disse firmemente — Isso ficou para trás.

Assenti devagar, mas algo dentro de mim me dizia que talvez não fosse tão simples assim. Talvez, por mais que quiséssemos, algumas histórias não terminassem apenas porque escolhemos parar de contá-las.

E, por mais que estivéssemos em casa agora, uma parte de Londres ainda parecia nos assombrar.

Na primeira semana após nosso retorno, fomos jantar na casa de Charlie.

— Eu disse que Londres ia ser agitada demais para vocês — ele comentou, servindo-se de mais um pedaço de lasanha.

— Vovô, lá tem chá e princesas! — Chloe respondeu animadamente — Mas aqui é muuuuuito melhor.

Edward sorriu, e nós dois sabíamos o quanto era importante que, para ela, aquela viagem não tivesse passado disso: dias cheios de passeios, chá e histórias sobre princesas.

— Tudo certo por lá, Edward? — Charlie lançou um olhar de canto para nós.

O clima na mesa mudou levemente, mas Edward assentiu.

— Sim. Tudo resolvido.

Eu percebi a leve hesitação na voz dele, mas Charlie apenas deu um aceno curto.

— Bom, se algo incomodar vocês, me avisem. Sabe que sempre pode contar comigo.

— Eu sei, Charlie. Obrigado.

O que eu mais gostava em Charlie era sua maneira simples de dizer as coisas — ele não insistia, não pressionava. Mas eu sabia que, se algo acontecesse, ele estaria pronto para agir.

E isso me dava paz.

As semanas passaram e Rosalie parecia brilhar cada vez mais conforme a gravidez avançava. Ela e Emmett nos mandavam fotos de ultrassom, vídeos curtos e, sempre que possível, fazíamos chamadas para acompanhar tudo.

— Como está se sentindo? — perguntei em uma videochamada uma noite, enquanto Chloe tentava empilhar brinquedos atrás de mim.

Rosalie revirou os olhos, mas estava sorrindo.

— Gigante. Cansada. E estou começando a odiar a voz de Emmett porque ele nunca para de me mimar.

Eu ri do tom que ela usou.

— Parece horrível.

— Você não faz ideia.

Emmett apareceu atrás dela com um copo de suco na mão.

— Aqui está, madame. Só o melhor para minha rainha e nosso futuro herdeiro.

Rosalie pegou o copo e me lançou um olhar de tédio.

— Viu? Eu disse.

— Você sabe que gosta — Emmett retrucou, beijando seu rosto antes de sair da tela.

Eu sorri. Ela merecia ser tratada assim.

— Alguma novidade por aí?

Rosalie hesitou por um momento antes de responder.

— Nada direto, mas… algumas movimentações estranhas. Emmett ouviu rumores de que antigos contatos do seu sogro ainda estão tentando reorganizar algumas coisas.

Meu estômago revirou, mas tentei manter a calma.

— Isso é um problema?

— Não para vocês — o tom dela foi firme — Emmett disse que ninguém está sequer mencionando Edward. Se alguém tentou ameaçá-lo, não foi um movimento coordenado.

Suspirei, sentindo um alívio leve.

— Ele escolheu se afastar. Espero que isso tenha sido suficiente, Rose.

— E se não for?

Hesitei por um instante antes de responder.

— Então, vamos lidar com isso juntos.

Edward recebeu apenas mais uma correspondência estranha depois da que chegou logo que voltamos. Dessa vez, não havia mensagem.

Apenas uma foto. Uma imagem antiga, tirada à distância, mostrando Elizabeth Cullen segurando um bebê — Edward. Ele ficou olhando para a foto por um longo tempo antes de finalmente guardá-la na gaveta de seu escritório e encerrar o assunto ali.

Eu sabia que ainda havia perguntas dentro dele. Mas, por enquanto, Londres estava no passado, e nós estávamos seguros em casa.

*o*o*o*o*o*o*o*o*

Era uma tarde chuvosa quando ouvi a campainha tocar. Eu não esperava visitas, e Edward tinha saído para buscar Seth, que voltava de uma visita à Portland com a escola. Chloe dormia no sofá depois de uma mamadeira, então fui até a porta, hesitante.

Ao abrir, senti um arrepio na espinha. Na varanda, o carteiro me observou, com curiosidade. Ele segurava um envelope pardo idêntico ao primeiro que Edward recebera.

— A senhora é Isabella Cullen? — sua voz era grave e pausada.

Meu coração acelerou e eu apertei a maçaneta com força. Ninguém me chamava assim, a não ser…

— Quem enviou? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

— Está sem remetente, foi deixado na agência no centro da cidade. Endereçado a Edward ou Isabella Cullen — ele me entregou o envelope e virou-se, caminhando até o carro dos correios estacionado na rua.

Fiquei ali, imóvel, observando o veículo desaparecer sob a chuva. Meu coração martelava no peito. Com as mãos trêmulas, fechei a porta rapidamente e me certifiquei de girar a chave duas vezes. Respirei fundo, tentando acalmar meus nervos, antes de rasgar o lacre.

Dessa vez, não era uma ameaça. Era um convite.

"Se quiser respostas, venha sozinho. Você sabe onde."

Não havia assinatura. Nada que identificasse o remetente. Mas eu soube, no mesmo instante, que Edward entenderia. Meu olhar recaiu sobre Chloe, dormindo tranquilamente, alheia a tudo isso.

Eu não sabia quem estava por trás disso, nem o que eles queriam. Mas uma coisa era certa: o que quer que estivesse em Londres, ainda não tinha terminado conosco.

Edward chegou pouco tempo depois, sacudindo o casaco molhado e tirando os sapatos na entrada. Ele sorriu ao ver Chloe dormindo de barriga para baixo no sofá, mas seu sorriso sumiu quando percebeu minha expressão.

— O que foi? — ele franziu a testa.

Em silêncio, estendi o envelope para ele. Vi seu maxilar se tensionar conforme seus olhos percorriam as palavras no bilhete. Edward passou a mão pelos cabelos, exalando um suspiro pesado. Ele não precisou dizer nada para que eu soubesse que, sim, ele entendia exatamente do que se tratava.

— Eles estão brincando comigo — ele disse, com uma risada amarga.

— Você acha que é alguém relacionado ao seu pai? — perguntei, tentando manter a calma.

— Se for, eles estão me testando. Querem saber até onde eu iria para descobrir a verdade — ele apertou o papel com força — Mas por que agora? E por que dessa forma?

Minha mente estava a mil. Algo estava errado. Esse jogo de mensagens anônimas, fotos do passado, convites sem remetente... alguém queria manipular Edward. Outra vez.

— Não podemos mais ignorar isso. Se alguém sabe onde estamos, se está tentando mexer com a nossa família, precisamos entender o que está acontecendo.

Ele hesitou, e então assentiu devagar.

— Vamos falar com Charlie.

A casa que eu tinha deixado há alguns meses estava igual. Nós chegamos logo depois de Charlie, que ainda estava usando sua roupa de trabalho. Seth levou Chloe para brincar enquanto nós três nos sentamos na sala.

— Certo... vocês querem me dizer o que está acontecendo? — ele apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para nós.

Edward jogou o bilhete sobre a mesa de centro. Charlie pegou o papel, leu, e franziu a testa.

— "Você sabe onde"? O que diabos isso significa?

Edward cruzou os braços, olhando para o chão por um momento antes de responder.

— Acho que você merece saber o que realmente aconteceu em Londres, Charlie.

E então ele contou tudo. Desde o momento em que descobrimos o apartamento de Elizabeth, até as cartas que ela nunca enviou. Falou sobre como seu pai passou a vida manipulando sua mãe, moldando seu destino e silenciando qualquer verdade que pudesse mudar a história que ele queria contar.

Charlie permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente enquanto Edward revelava a parte mais difícil.

— Eu comecei a investigar os negócios que meu pai deixou para trás. Descobri que ele tinha inimigos, pessoas que ainda podem estar envolvidas com atividades questionáveis, até que recebi um aviso. Me disseram para parar.

Charlie não reagiu imediatamente, apenas cruzou os braços e franziu levemente o cenho.

— E você parou?

Edward assentiu.

— Sim. Por Bella. Por Chloe. Eu achei que poderia fazer as duas coisas, mas percebi que estava colocando minha família no meio de algo que não vale a pena.

Charlie pegou o envelope, analisando-o com um olhar de policial experiente.

— Sem remetente, sem marcas postais. Isso foi entregue à porta?

Assenti.

— Pelo carteiro. Ele disse que foi deixado, com nosso endereço, na agência no centro da cidade.

Charlie suspirou e se levantou.

— Eu não gosto disso. Alguém quer provocar vocês, e não duvido que seja coisa daquele pessoal em Londres. Mas por quê? Se quisessem vingança, já teriam agido. Se quisessem negociar, teriam feito contato direto. Isso aqui... — ele ergueu o papel — Isso é psicológico.

Edward passou a mão pelo rosto.

— O que quer que seja, eu não vou cair nesse jogo.

Charlie assentiu.

— Certo. Mas eu vou fazer algumas ligações. Ver se consigo rastrear algum registro de movimentação incomum por aqui. Se alguém está tentando te testar, Edward, o melhor que podemos fazer é antecipar o próximo passo deles.

Eu soltei um suspiro de alívio. Ter Charlie ao nosso lado trazia uma sensação de segurança que não havíamos sentido desde que voltamos.

— E se isso for só o começo? — perguntei.

Charlie olhou para nós, sério, mas que pudesse responder, ouvimos passos apressados vindo do corredor. Seth entrou na sala, um pouco sem fôlego, e com Chloe no colo.

— Ela quer dormir, vou levá-la para o quarto, ok? Mas preparem-se, Leah chegou e ouviu vocês conversando — ele disse, olhando de mim para Edward e depois para Charlie.

Charlie ergueu os olhos para o teto como se pedisse paciência a alguma força maior.

— Ótimo — murmurou, antes de Leah aparecer na porta da sala com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada.

— Desde quando vocês recebem bilhetes ameaçadores e não contam para ninguém? — ela disparou, ignorando todos os olhares — Achei que a transparência fosse o mínimo aqui.

— Não era uma reunião coletiva, Leah — Charlie respondeu, sério.

— Ah, claro. Porque é sempre assim, né? — ela se virou para Edward — Você vem, causa uma confusão, coloca todo mundo em risco e depois espera que eu aja como se fosse normal.

Senti meu corpo enrijecer, mas antes que eu dissesse qualquer coisa, Edward se levantou com calma.

— Se você tem algo para me dizer, diga logo. Mas não finja preocupação com a segurança da sua família para me atacar.

Leah riu, seca.

— Você não entende, Edward? Eu não confio em você, é histórico.

Jacob apareceu atrás dela, meio hesitante.

— Leah... — ele começou, mas ela ergueu a mão.

— Não, Jake. Nós vimos tudo passar nos últimos anos e aí Edward apareceu com esse ar de bom moço e promessas de estabilidade, e de uma hora para outra Bella se jogou nos braços dele outra vez, levando Chloe junto, e nós aceitamos, porque era pela felicidade das duas. Mas agora tem bilhetes anônimos, investigações secretas e temos que fingir que está tudo sob controle?

— Ninguém está fingindo nada, Leah! — falei, finalmente me levantando também — Nós estamos tentando entender e proteger a Chloe. Isso é tudo o que importa.

— Você devia saber disso melhor do que ninguém — Edward completou, com firmeza na voz.

— Cale a boca! Você foi embora e largou Bella grávida aqui, não faz ideia do que eu deveria saber ou não.

Eu queria voar no pescoço dela, mas me contive. Edward foi quem falou.

— Não seja desonesta. Você sabe muito bem o que aconteceu, nós já passamos por isso. Eu não simplesmente fui embora, todos nós fomos vítimas nessa história.

Leah bufou e olhou para Charlie, esperando alguma reação. Mas ele só balançou a cabeça.

— Eles estão aqui fazendo o que qualquer um de nós faria se estivesse no lugar deles.

Jacob se aproximou, mais calmo, tentando apaziguar o clima.

— Leah, ninguém está dizendo que você não pode se preocupar. Mas atacar os dois não ajuda. Se tem alguém que quer prejudicá-los, talvez nós precisemos ficar do lado de cá. Juntos.

Leah respirou fundo, apertando os olhos por um segundo, como se quisesse conter tudo o que ainda não havia dito.

— Só espero que vocês estejam certos.

E então ela saiu, sem olhar para trás. O silêncio que ficou foi espesso, incômodo, até que Charlie falou novamente.

— Vamos acabar com isso antes que vá mais longe. Essa é a minha cidade, Bella.

*o*o*o*o*o*o*o*o*

Nos dias seguintes, Charlie usou seus contatos na polícia para tentar identificar quem estava por trás do bilhete. Enquanto isso, Edward evitava falar sobre Londres, mas eu via a inquietação crescendo dentro dele. Ele passava cada vez mais tempo no seu escritório, olhando para a gaveta onde havia guardado a foto de sua mãe.

Então, uma noite, quando já estávamos na cama, ele finalmente quebrou o silêncio.

— Se eu não for até lá, nunca vou saber o que eles querem de mim.

Eu me sentei, sentindo o peso daquela frase.

— Edward...

— Eu sei o que você vai dizer. Que é arriscado. Que já nos afastamos. Mas e se isso for algo que não posso ignorar? — ele virou-se para me encarar — Se eles acham que ainda têm algum poder sobre mim, eu preciso provar que não.

Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu coração martelar no peito.

— Você não vai sozinho.

Ele franziu a testa.

— O bilhete foi claro.

— E eu não me importo — cruzei os braços — Se você for, eu vou com você. E Charlie também vai.

Ele soltou um riso fraco.

— Eu não acho que Charlie vai querer viajar para outro país só para isso.

— Se ele souber que você pode estar caminhando para uma armadilha, ele vai — segurei sua mão — Não vamos enfrentar isso separados, Edward.

Ele respirou fundo e, depois de um longo momento, assentiu. E assim, Londres voltava a nos chamar. Só que, dessa vez, não íamos desarmados.

Dois dias depois dessa conversa, Charlie veio até a nossa casa com uma pasta na mão e uma expressão séria.

— Consegui algo — ele disse, entregando a pasta para Edward — O envelope foi deixado na agência central, sem remetente, e sem câmeras que registrassem quem a entregou. Mas…

Edward abriu o envelope e tirou uma folha de papel com um único nome escrito:

Caius McCarthy.

Edward congelou ao ver aquele nome. Meu estômago se revirou.

— Ele era um dos advogados do seu pai — murmurei, lembrando-me das poucas vezes que ouvira Edward falar sobre ele.

— O braço direito dele, para ser mais específico — Edward completou, apertando a folha entre os dedos — Mas ele sumiu depois da morte do meu pai. Ninguém sabia onde ele estava.

Charlie cruzou os braços.

— Bom, parece que ele está tentando reaparecer agora.

Edward soltou um riso sem humor.

— E quer que eu vá até ele.

O silêncio preencheu a sala. Todos nós sabíamos que não seria apenas um encontro amigável. Charlie quebrou o silêncio primeiro.

— Eu vou com você.

Edward balançou a cabeça.

— Charlie, isso não é sua responsabilidade.

— Edward — o tom dele foi firme. — Eu sou policial e você tem uma família para proteger. Se há qualquer chance disso ser perigoso, eu vou estar lá.

Eu olhei para Edward, desafiando-o a dizer que não. Ele suspirou, derrotado.

— Tudo bem. Vamos para Londres.

Cinco dias e três passagens superfaturadas depois, pousamos em Heathrow, onde um carro já nos esperava — um favor de Emmett, que ficou em alerta caso algo saísse do controle.

O endereço para onde o bilhete nos guiava ficava em uma área discreta de Londres. Um prédio antigo de fachada discreta, mas que Edward reconheceu de imediato.

— Esse era o escritório que meu pai usava antes de se mudar para o prédio atual — ele disse, observando a entrada — Mas deveria estar abandonado há anos.

Charlie lançou um olhar atento ao redor.

— Bem, não parece tão abandonado assim.

As luzes estavam acesas no segundo andar. Meu coração disparou quando Edward empurrou a porta. Não estava trancada. Subimos as escadas lentamente, atentos a qualquer movimento. O silêncio dentro do prédio era quase ensurdecedor.

E então, ao chegarmos ao segundo andar, encontramos um homem sentado atrás de uma mesa de madeira escura. Ele parecia nos esperar, mas seu rosto carregava o cansaço de alguém que passou anos vivendo nas sombras.

— Edward — ele disse, com um sorriso que não chegou aos olhos — Sabia que mais cedo ou mais tarde você viria. E, claro, não seguiria a ordem de vir sozinho. Você nunca foi bom em seguir ordens, não é? — seu olhar caiu sobre eu e Charlie, e um arrepio passou pela minha espinha.

Edward fechou a porta atrás de nós.

— Você me fez vir até aqui — sua voz era fria — Então, agora fale. Por que tudo isso?

Caius suspirou, encostando-se na cadeira.

— Porque seu pai deixou algo para você. E eu precisava ter certeza de que você estava pronto para isso.

Meu corpo ficou tenso.

— Pronto para o quê?

Caius nos observou por um instante antes de abrir a gaveta e tirar uma pequena caixa de metal. Ele a colocou sobre a mesa e empurrou para Edward.

— Seu verdadeiro legado.

Edward hesitou antes de pegar a caixa. Suas mãos estavam firmes, mas eu sabia que ele estava lidando com um furacão interno.

Com um clique, ele abriu a tampa. Dentro, havia apenas um pen drive. O ar na sala ficou pesado. Edward fechou a caixa com um estalo, seus olhos duros como pedra.

— O que há aqui?

Caius cruzou as mãos sobre a mesa.

— Tudo o que seu pai nunca te contou.

De volta ao apartamento, o clima estava carregado. Edward segurava o pequeno pen drive entre os dedos, sem pressa para conectá-lo ao laptop. Havia algo definitivo naquele momento, como se ele soubesse que, uma vez que abrisse aqueles arquivos, não haveria mais volta.

— Eu posso fazer isso sozinho — ele disse, sem nos olhar.

— Não — respondi, firme — Estamos nisso juntos.

Charlie apenas assentiu, cruzando os braços. Ele também queria saber a verdade.

Edward respirou fundo e finalmente conectou o dispositivo ao computador. A tela brilhou, e uma pasta única apareceu, nomeada simplesmente como Cullen & Associates.

Ele clicou. Centenas de arquivos se espalharam diante de nós: documentos jurídicos, registros financeiros, contratos e gravações.

Edward abriu o primeiro vídeo. O rosto que apareceu na tela era de seu pai. Mais jovem, sentado atrás de uma mesa cheia de papeis. Ele não parecia saber que estava sendo gravado.

"Isso é um jogo de interesses. Se você quer vencer, precisa estar disposto a sujar as mãos. Eu nunca perdi um caso porque sempre soube o que estava em risco. E agora, eles também sabem."

A gravação se encerrou abruptamente.

Edward ficou imóvel, apenas encarando a tela.

— "Eles"? — Charlie perguntou.

Edward não respondeu. Apenas abriu outro arquivo.

Dessa vez, não era um vídeo, mas sim um documento assinado por Edward Cullen Sr. e um nome que eu nunca tinha visto antes: Laurent da Revin.

— Ele era um dos criminosos que meu pai defendeu — Edward murmurou, passando os olhos pelo conteúdo — E isso é um acordo de imunidade.

Charlie se inclinou para ler melhor.

— Isso não é um simples acordo. Seu pai não apenas defendia esses caras no tribunal. Ele estava garantindo que eles escapassem da justiça.

— Ele subornava juízes? — perguntei, horrorizada.

— Muito mais do que isso. Aqui, — Charlie apontou para outro nome no documento — Tem uma cláusula assinada por um detetive. Ele estava comprando policiais para garantir que certas provas nunca chegassem aos tribunais.

Meu estômago se revirou. Edward esfregou o rosto, como se estivesse tentando absorver tudo.

— Eu sabia que meu pai fazia acordos com criminosos. Mas eu nunca imaginei que ele… que ele fosse um deles.

O silêncio pesou entre nós. E então, ele abriu mais um vídeo.

A câmera estava tremida, como se alguém tivesse filmado escondido. A imagem mostrava o pai de Edward sentado em um restaurante, conversando com dois homens. Um deles parecia nervoso.

"Se você acha que pode sair agora, está enganado."

"Eu só quero minha parte, Cullen. Não quero problemas."

"Problemas são para aqueles que não sabem com quem estão lidando. Você não vai ver um centavo se abrir a boca."

O vídeo cortou. Meu corpo ficou tenso.

— Não é só corrupção — Charlie disse, sério — Isso é muito maior.

Edward fechou os olhos por um instante antes de continuar abrindo os arquivos. Havia registros bancários mostrando transferências para contas offshore1, transcrições de depoimentos apagados, listas de subornos pagos a autoridades, até mesmo evidências manipuladas em casos de assassinato.

E então, assistimos a última gravação.

Agora, o pai de Edward estava mais velho. O tempo havia marcado seu rosto, mas seus olhos eram os mesmos das fotos que eu já tinha visto: frios, calculistas.

"Edward, se um dia você estiver vendo isso, significa que meu tempo acabou. Você sempre foi esperto. Sempre quis acreditar que era diferente de mim. E talvez você esteja certo, já que o sangue que corre nas suas veias não é o meu. Mas fui eu que te criou, eu que te ensinei tudo. Você pode fugir, pode se esconder, mas nunca poderá apagar quem você realmente é."

A tela ficou preta. Edward não se moveu. Não respirou. Charlie foi quem quebrou o silêncio:

— Ele queria que você assumisse isso.

— Sim — Edward fechou o laptop com força — Mas eu não vou.

Ele se levantou, passando as mãos pelos cabelos, respirando fundo.

— Ele achava que eu seria como ele, que eu herdaria esse império sujo. Mas eu fiz tudo diferente. E vou continuar fazendo.

— O que vamos fazer com essas informações? — perguntei.

Edward olhou para Charlie.

— Se isso for entregue à polícia, o que acontece?

Charlie suspirou, escolhendo as palavras.

— Alguns desses caras já estão mortos ou presos. Mas os que ainda estão soltos podem ser pegos, eles estão espalhados pelo mundo. Seu pai encobriu muitos crimes. Se entregarmos isso, podemos desmantelar os últimos resquícios da rede dele.

Edward assentiu e andou pela sala, pensando. Então, pegou o pen drive e estendeu para Charlie.

— Acabe com isso. Eu não quero mais nenhuma ligação com ele.

Charlie pegou o dispositivo, sem surpresa. Ele sabia que Edward tomaria essa decisão.

— Eu vou acionar alguns contatos e garantir que isso não fique apenas em uma gaveta de evidências.

Edward soltou um longo suspiro. Então, olhou para mim.

— Vamos para casa.

Dois dias depois, pousamos em Forks. Edward não olhou para trás ao deixar o aeroporto. Não mencionou Londres. Não mencionou o que aconteceu. Ele apenas segurou minha mão e seguimos para casa.

Charlie manteve sua palavra. O material foi entregue às autoridades, e, algumas semanas depois, prisões foram feitas. A sombra de Edward Cullen finalmente estava desaparecendo.

Uma tarde, enquanto brincávamos no parque com Chloe, Edward olhou para mim e sorriu. Um sorriso leve, despreocupado.

— Meu pai achava que eu nunca poderia escapar do que ele era — ele abaixou os olhos para nossa filha, que corria na frente — Mas ele estava errado.

Eu apertei sua mão.

— Você fez sua própria história, Edward. E é isso que importa.

Ele beijou minha testa e, pela primeira vez em muito tempo, pude ver um alívio genuíno em seus olhos. O passado tinha tentado puxá-lo de volta. Mas Edward tinha escolhido seu futuro.


1 Offshore é um termo que se refere a empresas ou contas bancárias criadas em outro país, ou seja, fora do país de origem dos seus proprietários.

Obrigada pelos comentários do último capítulo, espero que tenham gostado desse também! A partir de agora, as coisas passam a girar novamente em torno do casal e de coisas positivas para eles, prometo :)