Isabella

O retorno a Forks foi tranquilo, muito diferente da última vez. A casa ainda tinha aquele cheiro familiar de café e madeira, e o som suave da chuva batendo contra as janelas me trouxe a certeza de que estávamos de volta. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim parecia diferente.

Chloe estava sentada no tapete da sala, segurando um ursinho de pelúcia igual ao que compramos para Henry em Londres. Ela passava a mão nas orelhinhas dele, o olhar pensativo para alguém tão pequeno.

— Mamãe? — sua vozinha quebrou o silêncio.

— Sim?

Ela franziu o nariz, como se estivesse tentando colocar em palavras algo muito importante. Igualzinha ao pai.

— Henry vai sentir minha falta?

Meu coração apertou. Chloe nunca tinha convivido com outras crianças antes e o laço que ela criou com o bebê de Rosalie era lindo. Agora, de volta a Forks, eu sabia que ela sentiria a ausência dele.

— Eu acho que sim, sole. Mas nós podemos ligar para ele sempre que quiser, e você pode mandar mensagens para a tia Rose no celular.

Chloe fez um biquinho adorável.

— Eu não sei escrever.

Soltei uma risada suave e me abaixei ao lado dela, passando a mão em seus cachos ruivos.

— Mas eu sei, e podemos fazer vídeos e áudios.

Seus olhos brilharam, e ela bateu palminhas.

— Sim! Vamos falar que eu estou com saudade e que eu vou cuidar dele quando ele crescer!

Eu ri e assenti.

— Acho que ele vai gostar disso.

Edward, que estava observando a cena encostado no batente da porta, sorriu. Seus olhos tinham aquele brilho intenso de ternura e amor, e algo mais… uma expectativa, um pensamento que ele não dizia em voz alta, mas que eu sabia qual era. Eu senti um frio na barriga.

Mais tarde naquela noite, depois de colocar Chloe para dormir, fui até o quarto e encontrei Edward sentado na poltrona perto da janela. Ele olhava para fora, os dedos tamborilando no braço da cadeira.

— Uma libra por seus pensamentos? — brinquei, me aproximando.

Ele olhou para mim e sorriu de leve. A libra estava custando bem caro.

— Só estava pensando em como Londres foi diferente dessa vez. Melhor.

Assenti, cruzando os braços e me sentando na beirada da cama.

— Tem algo que está me incomodando — confessei.

Edward arqueou as sobrancelhas e se inclinou para frente. Fiquei em silêncio por um momento, tentando encontrar as palavras certas para falar aquilo sem causar uma impressão errada.

— Quando Rosalie estava grávida, eu via o jeito que você olhava para ela.

Ele manteve os olhos em mim, esperando que aquilo fizesse algum sentido.

— Eu sei que você queria ter vivido isso — continuei — E… eu sei que ainda quer.

Edward respirou fundo antes de responder.

— Bella…

— Não precisa negar. Eu vi em seus olhos.

Ele sorriu suavemente.

— Eu não vou negar. Mas não estamos em uma competição, muito menos com Rosalie.

Engoli em seco.

— Eu só… eu não sei como me sinto sobre isso. Quando eu estive grávida de Chloe, foi… foi assustador. Eu estava sozinha, acreditava que você tinha me deixado.

A sombra da dor daquele tempo pairou sobre mim, mesmo depois de tudo o que descobrimos, depois de tudo o que superamos.

— Eu sei — Edward disse baixinho, pegando minha mão — E eu nunca vou me perdoar pelo tempo que perdi com vocês.

Balancei a cabeça.

— Não foi sua culpa. Mas ainda assim, foi difícil. Eu não sei se consigo passar por isso de novo, não sei como seria ser pega de surpresa assim outra vez, mas talvez se fosse algo planejado…

Ele apertou minha mão levemente.

— Eu adoraria ter outro filho com você, mas nossa felicidade não depende disso. Nós estamos completos aqui. Eu só quero que você seja feliz, Bella.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas ouvindo a chuva lá fora. Então, ele se inclinou e me puxou para mais perto, os lábios tocando os meus de maneira suave. Me deixei levar pela sensação familiar de seus braços ao meu redor, o calor de sua pele contra a minha. Havia segurança nisso. Amor. Confiança.

Ele pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos com cuidado.

— Eu jamais deixaria você passar por isso sozinha de novo.

O peso dessas palavras me atingiu com força. Dessa vez, ele estaria lá. Cada ultrassom. Cada chute do bebê. Cada noite insone. Eu nunca teria que duvidar da presença dele.

Fechei os olhos por um momento, sentindo o calor da mão dele na minha. Quando abri, ele me olhava com tanta ternura que meu coração se derreteu.

E, pela primeira vez, a ideia de ter outro filho não parecia tão assustadora.

*o*o*o*o*o*o*o*o*o*

Os dias seguintes passaram tranquilos, mas algo dentro de mim ainda estava em ebulição. Edward não trouxe o assunto de volta, e eu sabia que ele estava me dando espaço para processar tudo. Ainda assim, aquilo não saía da minha cabeça.

Eu poderia passar por uma nova gravidez? Seria diferente agora que Edward estava comigo? E o parto, seria tão traumático quanto da última vez?

Essas perguntas me acompanharam enquanto eu me ocupava com as pequenas rotinas do dia a dia, mas foi Chloe quem, sem nem perceber, fez tudo ganhar um novo significado. Era uma manhã ensolarada incomum para Forks, e eu aproveitei para levar Chloe ao quintal.

— Mamãe, olha! — ela exclamou, segurando um punhado de terra molhada entre os dedos — É um bolo!

Ri suavemente.

— Parece delicioso, sole.

— Você quer provar?

— Hmm… acho que vou passar dessa vez — brinquei, e ela deu uma gargalhada adorável.

Edward apareceu na varanda e sorriu ao nos ver.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou, descendo os degraus para se juntar a nós.

— Papai, eu fiz um bolo!

Ele arqueou as sobrancelhas e se abaixou ao lado dela.

— Ah, é? Qual o sabor?

— Sabor? É bolo!

Edward fingiu pensar.

— Parece uma delícia, amor. Nós podemos fazer mais?

Ela sorriu satisfeita e pegou mais um punhado de terra para decorar sua criação. Edward observava a cena com um brilho no olhar.

Mais tarde, quando Chloe finalmente se cansou de brincar e o sol se escondeu atrás das nuvens, deixando o clima mais fresco, levei-a para dentro para um banho. O cheiro de terra e grama ainda grudava em sua pele, e seus cachos estavam bagunçados pelo vento.

— Banho de bolhas, mamãe? — ela pediu com um sorriso enquanto eu tirei suas roupas sujas de lama.

Deixei a água quente encher a banheira e acrescentei um pouco da espuma de lavanda que ela adorava. Assim que as bolhas começaram a se formar, Chloe bateu palminhas e mergulhou os bracinhos na água, espalhando pequenas bolhas pelo ar.

— Vem, papai! — ela pediu, olhando para Edward, que estava encostado no batente da porta usando só a calça de moletom agora, nos observando com um sorriso no canto dos lábios.

— Se eu entrar aí, vai sobrar água na banheira? — ele provocou.

Chloe deu uma risada e balançou a cabeça.

— Vem, só um pouquinho!

Ele se aproximou e, em vez de entrar, sentou-se no chão do lado de fora, apoiando os braços na borda da banheira. Suas mãos deslizaram pela espuma e ele pegou um punhado para brincar, soprando bolhas em direção a Chloe.

— Aqui, papai! — ela pegou um pouco da espuma e colocou no topo da cabeça dele, rindo.

— Ah, então é assim? — Edward arqueou uma sobrancelha e estendeu a mão, jogando um pouco de água em seu cabelo.

Ela gargalhou alto, jogando o corpo para trás, espalhando água por todos os lados.

— Papai é engraçado!

Revirei os olhos de brincadeira e continuei lavando seus cachinhos molhados. Chloe bateu as mãozinhas na água outra vez, espalhando espuma por toda parte. Edward suspirou e pegou uma toalha ao lado, secando as pequenas gotas que respingaram nele.

— Você se diverte às minhas custas, não é?

— Sim! — ela sorriu, inocente.

Depois de mais alguns minutos, ela encostou no meu peito, esfregando os olhos e pedindo uma mamadeira. Hora do sono. Sorri e passei a mão pelo seu rosto.

— Vamos te secar e colocar na cama, então.

Edward pegou uma toalha e envolveu Chloe cuidadosamente, secando seu cabelo primeiro. Ela se aconchegou no peito dele, deixando escapar um bocejo longo enquanto ele a segurava com facilidade, como se seus braços tivessem sido feitos para isso.

No quarto dela, a luz suave do final de tarde que passava pelas janelas semi-abertas deixava o ambiente tranquilo e aconchegante. Edward a colocou na cama para colocar uma fralda nova e eu fui até o guarda-roupas pegar um conjunto limpo. Escolhi um de algodão azul-claro, com pequenas estrelinhas estampadas, e me virei para vesti-la.

— Mamãe, você sabia que o Henry tem pés muito pequenos? — Chloe disse de repente, enquanto eu passava a escova pela sua cabeça.

Sorri.

— Os bebês têm pés bem pequenos, você também tinha.

— Tio Emm disse no celular que ele ainda não sabe andar — ela continuou, esticando os bracinhos para Edward, que ajudou a puxar as mangas da blusa.

— Ele ainda não sabe, mas vai aprender daqui alguns meses — Edward explicou, com paciência — E um dia, ele vai correr tanto quanto você.

Chloe franziu a testa, claramente processando a informação.

— Mamãe… e se eu tiver um irmão? Ele também vai ser pequeno?

Meu coração deu um pequeno salto e Edward ficou imóvel por um segundo ao meu lado. Troquei um olhar com ele antes de me concentrar de novo na minha filha, passando a toalha novamente pelo seu cabelo ainda úmido.

— Se um dia você tiver um irmão, ele vai ser pequeno no começo — respondi suavemente, puxando o cobertor até sua cintura — E depois vai crescer, assim como você.

Ela pareceu refletir por um momento, olhando para o teto.

— E eu vou cuidar dele também?

Edward sorriu, deslizando os dedos pelos cabelos dela.

— Você seria uma ótima irmã mais velha, mas acho que primeiro precisa tomar sua mamadeira e tirar sua soneca.

Ele se inclinou e beijou suavemente sua testa antes de pegar minha mão e me puxar de volta para fora do quarto. Quando fechamos a porta, ele me olhou com um brilho terno nos olhos.

— Eu nunca me canso disso.

Eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Nós ficamos na sala, com o som da babá eletrônica nos acompanhando. Ele lia um livro e eu passava o dedo pela tela do celular, vendo a infinidade de fotos que Rosalie tinha enviado hoje. Henry tinha dado seu primeiro sorriso e, pelo que tudo indicava, teria covinhas iguais às do pai.

Mas minha mente estava em outro lugar. Olhei para Edward, sentindo meu coração acelerar. Ele ergueu os olhos do livro, atento.

— Quer dizer alguma coisa?

Mordi o lábio, hesitante.

— Você acha mesmo que Chloe gostaria de ter um irmão?

Ele fechou o livro devagar e apoiou os cotovelos nos joelhos, analisando minha expressão com cuidado.

— Depois de Henry, eu acho que sim… Mas podemos perguntar em outro momento, agora ela está totalmente enfeitiçada pela ideia de um bebê.

Assenti, absorvendo suas palavras. Edward segurou minha mão, seus dedos entrelaçados aos meus.

— Eu não quero que você se sinta pressionada. Um filho é uma grande decisão. Nós não precisamos decidir nada agora, Bella. Mas se algum dia quiser isso… eu estarei aqui. Do começo ao fim.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Ele nunca me pressionaria. Nunca me faria sentir que eu precisava fazer algo que não estivesse pronta para fazer. E, talvez por isso, pela certeza do amor dele, pela confiança que ele colocava em mim… a ideia não parecia tão impossível.

Me inclinei e beijei suavemente seus lábios, deixando que aquela certeza me envolvesse.

Edward retribuiu o beijo com suavidade, seus lábios se moldando aos meus com paciência, sem pressa. Era um gesto terno, sem cobranças, sem expectativas. Apenas ele ali, comigo, me lembrando que eu nunca mais precisaria enfrentar nada sozinha. Quando nos afastamos, ele deslizou os dedos pelo meu rosto, afastando uma mecha solta do meu cabelo e segurando meu olhar com os olhos cheios de devoção.

— Seja qual for a decisão — ele murmurou — ela vai ser nossa.

Assenti devagar, sentindo meu coração desacelerar, o nó apertado dentro de mim se desfazendo um pouco.

Nosso silêncio não foi desconfortável. Ficamos ali, lado a lado, sentindo o calor um do outro, ouvindo o leve farfalhar das árvores do lado de fora. Edward então soltou um suspiro suave e sorriu de leve.

— Além disso… se Chloe já está planejando cuidar do Henry, acho que a ideia de ser uma irmã mais velha não vai sumir tão fácil.

Ri baixinho, imaginando nossa filha dando ordens para um irmãozinho ou irmãzinha com sua voz determinada.

— Ela definitivamente herdou o lado mandão de alguém — provoquei, arqueando uma sobrancelha para ele.

Edward revirou os olhos, fingindo indignação.

— Eu?

— Absolutamente. Isso vem do lado Cullen dela.

Ele soltou uma risada baixa e puxou minha mão até seus lábios, beijando meus dedos com ternura.

— Vou fingir que acredito — brincou, os olhos brilhando com aquele carinho silencioso que só ele sabia expressar.

Suspirei suavemente e deixei minha cabeça descansar contra seu ombro, aproveitando o momento. Nenhum de nós sentiu necessidade de dizer mais nada. Apenas ficamos ali, no silêncio tranquilo da tarde, enquanto Chloe dormia a poucos cômodos de distância, cercada pelo mesmo amor que agora me envolvia.

Mais tarde, a casa estava mergulhada no silêncio. Chloe dormia profundamente, o som da babá eletrônica um lembrete suave de que havia paz ali. O céu do lado de fora estava escuro e limpo, com algumas estrelas tímidas visíveis.

Eu estava na cozinha, terminando de colocar as últimas peças na lava-louças quando Edward se aproximou por trás e envolveu minha cintura com os braços, encostando o queixo no meu ombro.

— Achei que fosse fugir — ele murmurou, a voz baixa e sonolenta.

— Quem sabe eu consigo um dia — brinquei, girando um pouco o rosto pra olhar pra ele — Mas você tem um jeito irritante de sempre me encontrar.

Ele sorriu e me deu um beijo leve na bochecha antes de se afastar só o suficiente para me deixar virar de frente.

— O que te prende aqui, Bella? — ele perguntou de repente, sério — Quer dizer… a mim, a essa vida. A essa ideia de família. Porque às vezes eu ainda me pego tentando entender por que você escolheu ficar.

A pergunta me pegou de surpresa. Não porque fosse injusta — mas porque ela mostrava, mais uma vez, que mesmo com tudo o que tínhamos, Edward ainda carregava dúvidas dentro de si. Eu deveria sugerir que ele procurasse um terapeuta.

Aproximei-me devagar, repousando as mãos no peito dele.

— Eu escolhi ficar porque você é a minha casa — respondi, sem hesitar — Porque, mesmo com os fantasmas do seu passado, mesmo quando você tem medo de não ser bom o suficiente… você é o melhor homem que eu conheço. Porque eu vejo o que você se esforça pra ser. Porque você ama a nossa filha do jeito mais bonito que alguém pode amar.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse tentando absorver aquilo.

— E também porque detesto mudanças — acrescentei, fazendo ele soltar uma risada baixa — E não estou afim de procurar outro pai incrível, dedicado, paciente e com essa barba por fazer irresistível.

— Agora parece mais convincente — ele murmurou, encostando a testa na minha.

Ficamos de olhos fechados por um tempo, apenas com o som da máquina lavando os pratos interrompendo nossa paz.

— Eu venho pensando… — ele começou, a voz mais baixa — Que talvez ser pai me ensine, mais do que qualquer outra coisa, a me perdoar. Porque Chloe me ama sem esforço, sem cobranças. E cada vez que ela confia em mim, sem saber tudo que eu já fui… eu sinto que posso ser alguém novo.

Engoli em seco. A vulnerabilidade dele me quebrava um pouco por dentro.

— E você é alguém novo, Edward. Mas você também é o homem que sobreviveu a tudo que passou. E isso não é algo para esconder, é algo pra honrar.

Ele assentiu, lentamente e me puxou para mais perto, beijando minha testa.

— Você é tudo o que eu precisava, mesmo antes de saber o que procurar.

Sorrimos, sem pressa. A noite ainda era longa. E mesmo com todas as incertezas, o futuro parecia menos assustador ali, no calor de um amor que resistiu a tudo.