Edward
Alguns dias haviam se passado desde nossa conversa, e eu podia perceber a mudança sutil em Bella. Não fisicamente, ela estava mais pensativa.
Não era o tipo de preocupação que a consumia, nem algo que a deixava visivelmente angustiada, mas havia um peso em seus pensamentos que eu podia sentir, mesmo quando ela tentava esconder. Eu sabia o motivo, mas também sabia que não poderia forçá-la a falar antes que estivesse pronta.
O dia estava chuvoso, então passamos a manhã em casa. Chloe estava sentada no chão da sala com um dos seus livros ilustrados abertos, enquanto Bella preparava chá na cozinha — nossa filha tinha ficado completamente obcecada por chás depois de Londres. Ela era mesmo minha.
Eu observava as pequenas expressões de concentração que ela fazia enquanto virava as páginas. De repente, ela ergueu os olhos brilhantes para mim.
— Papai?
— Sim, sole?
— Como os bebês vão parar dentro da barriga das mães?
Pisquei. De todas as perguntas que eu esperava dela, essa definitivamente não estava na lista. Isso não deveria acontecer somente daqui uns quinze anos? Bella, que estava colocando o chá em um copo com tampa, parou no meio do movimento, escondendo um sorriso.
— Onde você ouviu isso, Chloe? — perguntei, tentando parecer o mais natural possível.
— O Henry tava na barriga da tia Rose. Como ele foi parar lá?
Bella riu e tentou disfarçar com uma tosse, e percebi que ela estava se divertindo muito mais do que deveria com a minha expressão.
— É uma história longa, meu amor — tentei contornar.
— Mas eu quero saber, papai! — ela largou o livro e se jogou de barriga para baixo no chão, apoiando a cabeça nos braços e olhando para mim.
Bella riu, sem disfarçar agora, e se aproximou, se abaixando ao lado de Chloe com o copo com chá na mão.
— Bom, os bebês começam muito pequenos, e depois crescem dentro da barriga da mamãe até estarem prontos para nascer.
Chloe franziu a testa, pensativa.
— Eu saí de dentro da sua barriga?
Bella sorriu suavemente.
— Sim.
Chloe rolou para cima e olhou para si mesma e, em seguida, para Bella, claramente tentando entender como aquilo era possível.
— Mas eu sou muito grande!
— Você não era desse tamanho quando nasceu — Bella brincou, puxando um cacho do cabelo dela de leve.
Ela pareceu considerar isso por um momento antes de soltar um suspiro profundo.
— Muito estanho.
Bella e eu trocamos um olhar divertido.
— É mesmo estranho, amor — admiti — Qualquer hora você pode ver uma foto sua na barriga da mamãe.
Ela pareceu satisfeita com essa resposta e voltou sua atenção para o livro, cantarolando baixinho enquanto virava as páginas e bebia seu chá.
Mais tarde, decidi visitar Esme. Bella e Chloe ficaram em casa, aproveitando a tarde para pintar desenhos na mesa da sala, e eu sabia que aquele era o momento certo para procurar um tipo diferente de conselho. Um que só alguém como Esme poderia me dar.
Ela me recebeu com o mesmo calor de sempre, o olhar gentil e curioso já antecipando que algo me trazia ali.
— Edward! Que surpresa.
— Achei que podia vir te ver — sorri de volta.
Ela me guiou até a sala e me ofereceu uma xícara de chá, outra de café, um copo de água, um de suco e, por fim, uma taça de vinho, mesmo sabendo que eu não beberia essa última. Acabei escolhendo a água. Agradar era um hábito dela, e eu não negaria.
— Como você está?
Ela suspirou, entendendo o que eu perguntei.
— Nós estamos trabalhando nisso, meu bem. Não é fácil, ainda temos um longo caminho… — ela fez uma pausa — Mas acredito que vá dar tudo certo no final, mesmo que não sejamos mais um casal.
Carlisle não estava mais morando aqui desde quando descobrimos sobre a minha paternidade e, apesar de estarem mais próximos agora, eu não sabia se haveria uma reconciliação para os dois. Era estranho estar nessa casa sem ele, entretanto.
Sentamos na sala, e, por um momento, o som da chuva preenchia todo o espaço. Esme se ajeitou na poltrona e me observou com aquele olhar de quem via além do óbvio.
— Você está com aquele olhar… o que está pesando aí dentro?
— Na verdade, eu vim aqui porque preciso de um conselho — Esme me olhou atentamente — Eu e Bella temos pensado sobre ter outro filho.
Ela não pareceu surpresa.
— Eu imaginei que fosse acontecer — disse suavemente.
— Chloe trouxe o assunto hoje, o que me fez pensar novamente. Ela está muito curiosa sobre bebês desde que Henry nasceu — eu passei a mão pelo cabelo — Eu só não quero que Bella sinta que estou pressionando. Sei que a gravidez dela foi difícil.
Esme sorriu com ternura.
— E o que você sente? — ela perguntou, com a calma de quem já conhecia metade da resposta.
— Que eu perdi tanto… com a Chloe. Tudo o que poderia ter vivido. Eu sei que isso não pode ser recuperado, mas a ideia de viver cada etapa agora, sem medo, sem ausência… parece algo que eu quero mais do que pensei que um dia poderia querer.
Esme assentiu, os olhos atentos aos meus.
— E Bella?
— Ela está pensativa. Assustada, talvez. Não me disse isso diretamente, mas eu sei.
Esme cruzou as pernas e se recostou no sofá, pensativa por um instante.
— Eu estive lá, Edward. Durante a gravidez dela. Desde o momento que ela apareceu aqui, tentando ser forte, segurando tudo sozinha… até os dias em que ela mal conseguia disfarçar o medo de não conseguir.
— Eu devia ter estado lá.
— Você foi impedido de estar — ela respondeu com firmeza, sem qualquer hesitação — Aquilo foi uma violência contra vocês dois. Mas o que importa agora… é o que você faz daqui pra frente.
Fiquei em silêncio, absorvendo o que ela disse. Esme se inclinou um pouco para frente, suavizando o tom.
— O medo da Bella não vem só do que ela passou fisicamente, e eu imagino que você saiba sobre as circunstâncias da noite em que Chloe nasceu — eu assenti — Vem da solidão, da incerteza. Foram meses construindo a vida com Chloe dentro dela… sozinha.
Fechei os olhos por um momento. Eu sabia disso. Mas ouvir em voz alta era como reviver cada segundo perdido.
— Você não é mais aquele menino, Edward. Hoje, você é um pai incrível. Um parceiro presente. Ela vê isso, sente isso. Mas ainda assim… algumas feridas levam tempo para cicatrizar.
— Eu não quero que ela sinta que estou exigindo ou pressionando algo.
— E não está. Só de estar aqui, conversando comigo antes, já mostra isso. Mas, como tudo na vida, Bella precisa sentir que essa decisão é dela também. Não para te agradar. Não para completar algo. Mas porque o coração dela deseja isso, com você.
Esme se aproximou e colocou a mão sobre a minha.
— Dê a ela o tempo que não teve na primeira vez. Agora vocês têm isso. E têm um ao outro.
Eu respirei fundo, deixando suas palavras se assentarem dentro de mim como uma verdade inevitável.
— Obrigado — disse, por fim, com a voz mais baixa.
Ela sorriu.
— Você vai ser um pai ainda mais incrível do que já é. Só precisa confiar no tempo.
*o*o*o*o*o*o*o*o*
Depois que voltei para casa, encontrei a sala com resquícios de um verdadeiro campo de batalha artístico: um tapete de plástico cobria o original de tecido, folhas rabiscadas, potes de tinta abertos e uma Chloe muito satisfeita sentada no chão, com um pincel seco na mão e glitter até nas orelhas.
Bella estava ao lado dela, rindo baixinho, as bochechas levemente coradas. E por um instante, eu só observei. Ali estavam minhas duas meninas. Tão inteiras, tão reais. A cena mais simples do mundo, e ainda assim, tudo o que eu sempre quis.
— Olha o que a gente fez! — Chloe anunciou, empolgada, erguendo um papel cheio de borrões vermelhos, azuis e um amarelo que provavelmente deveria ser um sol.
— Isso é um arco-íris ou um monstro marinho? — perguntei, entrando no clima.
— É você, papai! Olha seu cabelo — ela respondeu, como se fosse óbvio.
— Perfeito. Fiquei lindo.
Me aproximei e me agachei ao lado das duas.
— Vocês se divertiram?
— Um pouco — Bella respondeu, limpando a mão de Chloe com um pano — Ela pintou até a mesa, então acho que sim.
— Ela é uma artista livre. Não pode ser contida pelas convenções da mobília — toquei o pequeno nariz da nossa filha — Hora de um banho?
— Só se você contar a história depois — ela disse, os olhos quase brilhando.
— Qual história?
— A da menina que ganhou um papai.
Meu peito apertou de leve, mas sorri.
— Essa história nós já contamos várias vezes, eu posso cantar para você ao invés disso.
Levei Chloe para o quarto e dei banho nela, com Bella entrando logo depois para ajudar a escolher o pijama. Ela ficou observando em silêncio enquanto eu penteava o cabelo da nossa filha e a colocava na cama.
— Você vai ficar aqui até eu dormir? — Chloe perguntou, já aninhada sob o cobertor.
— Sempre — respondi.
Bella me lançou um pequeno sorriso antes de sair do quarto, e eu me sentei na beirada da cama para cantar a música que ela escolheu.
Quando voltei para a sala, Bella estava na porta da varanda, já de pijama, segurando uma caneca com chá. A luz suave da cozinha projetava sua silhueta contra o vidro. Me aproximei devagar, encostando atrás dela.
Ela não se virou. Só disse, em voz baixa:
— Ela ama tanto você.
— E eu a amo mais do que consigo explicar — respondi, pousando a mão em sua cintura.
Ficamos ali, parados por um tempo, ouvindo a chuva tocar as folhas do quintal. Virei um pouco o corpo na direção dela.
— Esme me disse algo hoje que ficou na minha cabeça.
Bella ergueu os olhos lentamente, curiosa.
— Que o medo que você sente... É da solidão. Da incerteza. De ter que passar por tudo sozinha.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e então assentiu, como se estivesse aliviada por eu ter compreendido algo que ela ainda não tinha conseguido dizer em voz alta.
— Eu não sabia o que era mais assustador — ela disse, finalmente — Ter um bebê crescendo dentro de mim, ou acordar todos os dias me perguntando se eu conseguiria fazer aquilo sozinha.
— Eu nunca vou poder apagar o que você passou, Bella. Mas se um dia… se algum dia decidirmos tentar de novo, eu quero que você saiba que estarei ao seu lado. Desde o primeiro segundo.
Ela respirou fundo, e seus olhos começaram a brilhar.
— Você já me disse isso antes…
— E vou repetir quantas vezes forem necessárias.
Ela mordeu o lábio inferior, e eu soube que ela estava lutando contra a emoção.
— Não é que eu não queira — ela disse, baixinho — Às vezes, eu me pego imaginando como seria. Como seria sentir você segurando minha barriga, conversando com o bebê, escolhendo nomes…
Ela riu suavemente antes de continuar, mas não havia humor ali.
— Eu nunca tive isso. E às vezes acho que, se eu tiver agora, vou lembrar mais do que perdi do que do que ganhei.
Meu coração apertou no peito.
— Então me deixe te mostrar que o que está por vir pode ser novo. Não uma reparação, não uma substituição, mas um recomeço.
Bella me encarou por um longo momento.
— Eu te amo tanto, Edward. Mas às vezes ainda me sinto... frágil. Como se a parte de mim que sobreviveu àquilo ainda estivesse aprendendo a confiar que agora é diferente.
Eu levei a mão até o rosto dela, acariciando sua bochecha com o polegar.
— Você não precisa ter todas as respostas. Eu só quero que você saiba que, quando e se quiser, eu estarei aqui. Não como uma sombra do que passou, mas como o homem que escolhe você todos os dias.
Ela fechou os olhos por um instante, encostando o rosto na minha mão.
— Obrigada.
— Sempre.
Ficamos assim, sem pressa, a respiração dela se acalmando, o mundo lá fora diminuindo o volume.
— Sabe — ela disse depois de um tempo, com um tom mais leve — Você se saiu bem hoje quando a Chloe perguntou como os bebês vão parar na barriga das mães.
Soltei uma risada curta.
— Ela me pegou totalmente desprevenido, acho que ela está tentando decidir se quer ser irmã mais velha ou professora de biologia.
Bella riu baixinho e se inclinou para mim, repousando a cabeça em meu ombro.
— Talvez as duas coisas.
A abracei com força, sentindo seu corpo relaxar por completo.
Não havia pressa. Mas havia espaço. E isso já era um começo.
Depois que Bella adormeceu ao meu lado, ainda com a cabeça apoiada em meu ombro, permaneci ali por um tempo, sem me mover. Apenas ouvindo o som ritmado da respiração dela e o movimento suave das árvores lá fora.
O verão em Forks era sutil, mas presente — o tipo de calor leve que não sufoca, mas que convida a abrir as janelas, a respirar mais fundo, a sair para caminhar devagar. Era um verão que parecia saber exatamente onde não tocar com força.
E foi ali, naquela calma que quase doía de tão perfeita, que a certeza voltou. Eu já sabia o que queria fazer. Não era uma ideia nova — vinha amadurecendo há meses, ganhando forma a cada olhar dela, a cada riso da Chloe, a cada manhã em que acordávamos juntos e eu sabia, com toda a clareza do mundo, que ela era o meu para sempre.
Mas agora era diferente. Agora, eu queria fazer isso do jeito certo. Sem sombras do passado, sem medo, sem urgência.
Levantei devagar, tentando não acordá-la, e caminhei até meu escritório. Abri a gaveta da escrivaninha e peguei o pequeno caderno de capa preta onde costumava escrever pensamentos soltos — alguns meus, outros que nunca tive coragem de dizer em voz alta.
Sentei e escrevi no topo da página:
Pedido de casamento.
Debaixo disso, deixei a caneta deslizar, sem pensar muito:
Precisa ser íntimo.
Precisa ter a cara dela — simples, mas com intenção.
Precisa ser em um lugar onde ela se sinta segura.
E precisa ser no tempo certo.
Sorri ao terminar essa última linha. O tempo certo.
Estávamos perto do primeiro aniversário da minha volta, do início da nossa família como deveria ser. Talvez fosse simbólico. Talvez fosse só bonito. Mas parecia certo.
Fechei o caderno com cuidado e o guardei de volta na gaveta, sentindo aquele tipo de ansiedade, a boa, que antecede as grandes coisas da vida.
Porque pedir Bella em casamento não era um gesto para reparar o que fomos. Era para selar, finalmente, o que somos.
Espero que tenham tido uma ótima Páscoa :)
Será que no próximo capítulo teremos, finalmente, o pedido? hihihihi
Agora estamos realmente nos encaminhando para o fim, mais 10 capítulos até lá.
Comentem o que acharam!
Beijo e até o próximo.
