Na casa de James e Lilly Potter

Gina sorve um gole do excelente vinho da adega dos Potters. Digamos que a parte séria da coisa já terminou e agora a equipe relaxa um pouco. Amanhã será um longo dia, eles têm consciência disso, mas agora a equipe vai aproveitar um pouco.

- E então, Gina? – Sirius pergunta com um sorriso irônico – o que você achou da nossa reunião de trabalho?

- Foi bem produtiva – ela diz com um sorriso – mas confesso que nunca pensei em algo assim quando sonhava em ir para a Scotland Yard

- Deixe-me adivinhar – seu chefe diz depois de pensar um minuto – você imaginava pessoas sérias e concentradas que respiravam casos e só viviam pra isso?

- Exatamente, senhor – ela diz meio sem jeito – desculpe, mas eu pensei que fosse exatamente assim.

- Não dá pra viver assim – Sirius diz – eu também pensei que deveria ser assim por um tempo, mas a vida me ensinou que o trabalho não pode ser a parte mais importante da minha vida

Ele vê que Gina parece pensativa e pelo que Kim lhe contou sobre a sua nova agente, Sirius já percebeu que entrar na Scotland Yard sempre foi a sua meta desde que era apenas a novata filha de Arthur Weasley e nada nem ninguém poderia tirá-la desta meta e ele se lembra do quão empenhado seu afilhado foi em uma fase da sua vida e o quanto o destino foi cruel. Felizmente Harry acabou superando, pelo menos em parte.

Mas agora não é hora para pensar nisso, eles devem apenas aproveitar mais um pouco antes de partirem para um merecido descanso. Amanhã é outro dia e muito trabalho virá...

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Enquanto isso

Draco Malfoy se olha no espelho tentando tirar as palavras de Luna Lovegood da cabeça. De que de jeito nenhum ele conseguiria disfarçar o fato de ser um policial. Diabos, ele se orgulha de ser um policial e se orgulha de parecer com um!

Ele ainda não entende o que deu na cabeça do seu chefe pra aceitar que uma garota, retificando, uma garota completamente avoada se meta a fazer o que ela pretende fazer. Qualquer pessoa com um mínimo de juízo saberia que isso é uma loucura e que pode sim terminar muito mal

Ele e a sua, digamos, parceira improvisada, não tiveram muito tempo para conversar. Se fosse em outra ocasião isso seria imperdoável, o loiro sabe que precisaria muito combinar detalhes. Mas Draco sabe também que nada nesta missão será exatamente como manda o protocolo

Ele ainda está tentando entender o que Sirius tinha na cabeça quando o escalou para esta missão, qualquer pessoa com um mínimo de juízo saberia que isso não é uma boa ideia

Sirius sempre foi a ovelha negra da família pelos moldes dos Black e dos Malfoy. De fato, os dois clãs poderosos de empresários dispostos a qualquer coisa para garantir seus lucros não aceitariam nada bem um dos seus membros com uma carreira policial, a não ser que fosse pra fazer alguma coisa para beneficiá-los. O que estaria fora de cogitação para Sirius, é claro.

Ele passou a infância e adolescência admirando secretamente o membro odiado pela família que abandonou os negócios e se atreveu a passar, digamos, para o outro lado, mesmo sabendo que as chances de indiciar um parente próximo eram grandes, e quando Draco conheceu a sua prima Tonks, filha da sua tia que havia deixado a família para se casar com alguém considerado não adequado, ele viu que sim era possível sair do circulo vicioso que permeava gerações da sua família. Se alguns deles conseguiram, por que ele não?

Sim, Draco admira muito seu chefe mesmo não entendendo o que ele estava pensando quando o colocou nesta roubada, mas embora eles tenham as suas divergências eles são meio parecidos e uma coisa que eles têm em comum é o fato não refugarem diante de um desafio e é por isso que ele vai dar tudo de si nesta missão e vai mostrar para Luna Lovegood que ele pode sim se disfarçar e passar por alguém que não é um policial...

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Em outro local

Luna Lovegood está alheia às lágrimas que descem livremente pela sua face. Ela observa seu pai jogar as cinzas da sua mãe no mar. Agora acabou e a sua mãe finalmente descansa em paz. Adeus mamãe, ela fala em pensamento, obrigada por ser a melhor mãe que uma garotinha poderia ter, eu sinto a sua falta, eu senti a sua falta todos os dias, eu nunca vou te esquecer e eu farei tudo o que eu puder pra honrar a sua memória e saber o que aconteceu.

Ela ouve seu pai suspirar e sentar em uma rocha, a mesma rocha que Luna viu várias vezes a sua mãe se sentar e contemplar o oceano. Esse era um dos poucos momentos que a sua mãe ficava calada, era como se ela estivesse com os pensamentos em algum lugar só dela e neste momento mesmo sendo uma criança, Luna sabia que deveria deixar a sua mãe em paz, mas ao mesmo tempo ela também sabia que Pandora precisava de alento, então a pequena Luna apenas se aproximava e colocava a cabeça em seu colo e mãe e filha ficavam em silêncio durante algum tempo até que a sua mãe respirava fundo e atacava a filha com cócegas

Luna se aproxima e deita a cabeça no colo do pai que acaricia seus cabelos repetindo o mesmo gesto da sua mãe e eles ficam assim por algum tempo, mas ao contrário do que acontecia quando era a sua mãe agora não é hora para risadas infantis, agora ela vai saber mais um pouco da vida da sua mãe. Então seu pai diz:

- A sua mãe teve uma vida muito difícil – ele vê que a filha o fita curiosa e dá um sorriso triste – é claro que você nunca poderia adivinhar, você era uma criança e a sua mãe sempre fez o possível para que você não percebesse isso (ele vê que Luna quer falar mas a impede) ela teve uma vida muito difícil, mas ela foi feliz, é nisso que você deve focar

- Eu sei – Luna diz meio envergonhada – é que eu sempre pensei que a gente conversasse sobre tudo

- Filha – seu pai diz de modo condescendente – vocês conversavam sobre tudo, esteja certa disso. Sobre tudo que era apropriado para a sua idade. A sua mãe nunca lhe colocaria um fardo tão pesado sobre as suas costas, ela iria falar quando você fosse madura o suficiente (ele suspira) infelizmente as coisas não caminharam como previsto.

Luna olha para o pai, ela tira a cabeça do seu colo e se senta ao lado dele, agora Luna não é mais uma garotinha, ela é uma mulher feita e é assim que ela precisa agir. Falta pouco para que ela encare uma empreitada meio louca e talvez o que ela ouça agora possa ajudar de alguma forma.

Ela fica em silêncio por alguns instantes, Luna conhece o seu pai e sabe que ele falará quando estiver pronto. Por mais difícil que seja pra ele, sempre foi assim, ele nunca escondeu nada dela, talvez por isso sejam tão unidos, pelo fato de passarem juntos por tudo que passaram.

Xenofilius respira fundo e segura a mão da filha – sua mãe teve uma vida muito difícil, mas ela nunca perdeu a esperança e a alegria de viver, ela não teve uma família como a nossa. Pandora viveu em uma casa de acolhimento durante a sua infância até que ela foi adotada.

- Eu não imaginava – Luna diz estarrecida – a mamãe sempre pareceu tão feliz.

- Ela foi feliz, pelo menos depois que ficamos juntos, mas as coisas foram difíceis antes de tudo começar a dar certo – seu pai diz, ele continua

- Na verdade adotada não foi bem o termo – ele respira fundo – ela foi levada para viver em uma casa com uma família muito rica, dessas que pegam crianças nos abrigos para aparentarem ter algum tipo de preocupação social. Antes que você me pergunte eu não sei que família era essa, a sua mãe nunca contou. Ela nunca me disse que casa era essa, nem falou o que aconteceu, mas creio que foi algo muito ruim. O fato é que ela fugiu quando tinha quinze anos e ficou nas ruas.

Luna olha para o pai. Mesmo que a sua mãe não tenha dito o que aconteceu, ela tem uma noção do que poderia ter acontecido para que a sua mãe fugisse e ela tem certeza que seu pai também sabe.

- Por que ela não procurou ajuda? Ela poderia ter ido à polícia ou procurado um assistente social ou...

- Ela era uma menina órfã de quinze anos e a família era rica e influente, provavelmente não acreditariam – seu pai suspira – ou pelo menos era o que ela achava. O fato é que nunca saberemos.

- Você nunca perguntou quem era essa família ou o que aconteceu? – Luna questiona. Ela se coloca no lugar da mãe, uma garotinha assustada nas ruas e tudo o que veio após isso. A sua mãe deve ter conhecido o inferno em uma época que ela deveria ter sido amada e cuidada.

- Eu perguntei, mas ela nunca quis dizer nada sobre isso – seu pai pensa por um momento – acho que ela sabia que eu tentaria fazer alguma coisa. Ela apenas dizia que apesar de tudo, ela havia conseguido e que ela não iria arriscar nada por causa de algo que já havia passado. A sua mãe era uma mulher incrível, outra não teria conseguido.

- E o tempo que ele ficou nas ruas? – Luna pergunta cautelosamente, ela sabe que isso é difícil.

- Ela fez o que tinha que fazer pra sobreviver, eu evitava falar disso por motivos óbvios – seu pai diz e Luna vê em seu semblante que isso é difícil – e ela pagou um preço alto por isso. Felizmente a sua mãe era uma mulher forte e ela conseguiu pedir ajuda antes de chegar ao fundo do poço. A clínica foi uma benção em sua vida e ela conseguiu tudo o que ela merecia.

- Graças a você – Luna diz – ela o amava muito, a mamãe sempre me dizia que rezava para que eu encontrasse um amor assim.

- Você era a garotinha dela – Xenofilius diz – assim como é a minha, a sua mãe estaria orgulhosa (ele respira fundo e encara a filha) eu sei que você vai fazer alguma coisa em relação a tudo que aconteceu (ele vê que Luna quer dizer alguma coisa, mas a impede) eu sei que você é uma mulher adulta e embora você tenha o jeito da sua mãe de não focar no que as pessoas acham ser o mais importante, você não faria nada impensado, mas eu não suportaria ficar sem você, então por favor, tenha cuidado

- Terei - ela diz torcendo para ser o suficiente. Felizmente seu pai apenas assente com a cabeça ele se levanta e se prepara para a viagem de volta - Pai! – ela diz num impulso – aconteceu alguma coisa com a mamãe antes dela desaparecer. Ela não falou nada especifico nos diários, mas eu senti isso. Não sei explicar, mas eu juro que tem algo a ver com tudo que a mamãe passou (ela olha para o pai) eu juro que eu vou descobrir o que aconteceu com ela, papai. Eu juro...

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Quase ao mesmo tempo

Gina se despede do casal Potter, os pais do seu parceiro são pessoas muito agradáveis e ela passou momentos muito bons. A ruiva nunca pensou que teria momentos assim na equipe da Scotland Yard, na mente de Gina, as pessoas que trabalhavam lá deveriam ser pessoas focadas apenas no trabalho e a sua equipe está se mostrando totalmente diferente.

Ao contrário do que disse, Harry acabou não ficando na casa dos pais, já que ele bebeu apenas uma taça de vinho e no dia seguinte todos trabalhariam, então ambos se dirigem para o carro do agente.

- Você está calada – Harry quebra o silêncio que já dura alguns minutos no trajeto de volta – alguma coisa está te incomodando (ele afirma categoricamente)

- Disse o cara que traça perfis – Gina sorri – e sim, algo está me incomodando. Eu não deveria ter aceitado o seu convite, eu vi que você foi pressionado por seu pai e pelo Sirius. A gente pode dizer que eu tive um compromisso inesperado e você pode levar quem você quiser.

- Imagina – Harry diz, ele suspira – eu sei o que o meu pai e o Sirius fizeram e, acredite, não é a primeira vez. Mas eu só faço o que eu quero e eu quero que você me acompanhe. Você é divertida e nos damos bem. Como amigos, é claro.

- É claro – Gina diz se recordando o que aconteceu algumas horas atrás...

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Algumas horas antes

O pequeno grupo se encontra completamente relaxado. O assunto trabalho agora foi esquecido e eles conversam amenidades e Harry, bem, Harry finge não perceber que o olhar do seu pai dança entre ele e Gina como se James tivesse ganhado um presente de natal antecipado.

Harry evidentemente conhece a história da família Potter com ruivas, mas ao contrário do seu pai ele não acredita que isso seja uma regra entre os homens da família, não que as ruivas não o atraiam, mas ele não pode dizer que apenas as ruivas o atraiam. Cho não era ruiva. Ele pensa e se espanta em perceber que não vem pensando nela com tanta frequência ultimamente.

- E então, Harry? - ele ouve a sua mãe dizer e se dá conta, envergonhado, que não estava prestando atenção na conversa. Ele olha para a mãe esperando que ela perceba e que seja discreta, afinal Lilly sempre soube que o seu filho costuma divagar de vez em quando.

Mas desta vez ela não o ajuda – você não ouviu nada que eu disse – sua mãe diz com um sorrisinho sarcástico de quem já passou por isso várias vezes.

- Não ouvi mesmo, mãe, desculpe – Harry diz como faz nas muitas vezes que isso acontece- eu estava distraído, o que você disse?

- Eu estou dizendo que encontrei o Severo ontem – ela diz e Gina nota que tanto Harry quanto James e Sirius torcem o nariz e a ruiva se pega perguntando quem seria este homem. Lilly continua:

- Ele disse que você foi convidado para o jantar anual do senhor Riddle. Isso é uma grande honra, prova que seu cargo na universidade é algo importante

- Meu trabalho não deve ser julgado por um convite para jantar – Harry diz pacientemente, a última coisa que ele quer é irritar a sua mãe.

- Eu sei querido – Lilly diz com um suspiro – eu não gosto do senhor Riddle e da sua corja de puxa sacos, mas devemos admitir que ele é alguém que colabora muito. Então se tivermos que ir uma vez por ano aos seus eventos e garantir a doação anual que ele faz para várias instituições, que seja.

- Eu sou apenas um professor novato – Harry diz com um suspiro – eu não deveria ser convidado pra esse tipo de evento.

- Você é o professor mais jovem da universidade nos últimos trinta anos – Sirius diz e Gina se espanta com a informação – e ainda colabora com a Scotland Yard! O senhor Riddle pode ser um narcisista vaidoso, mas ele é um homem inteligente , ele consegue ver os melhores então é claro que você seria convidado, aceite isso. Agora só o que você precisa fazer é convidar uma acompanhante, desfrutar da excelente comida e tentar não dormir durante os discursos.

- Sim, você deve levar uma acompanhante – James diz. Ele olha para a esposa que simplesmente rola os olhos. Lilly sabe exatamente o que o seu marido vai fazer e ela sabe também que nada no inferno vai impedir isso e se ele constranger uma pessoa ou duas no processo, paciência.

Harry olha para o pai. Ele também sabe o que o seu pai vai fazer e a ele só resta suspirar – eu não estava pensando nisso ainda, pai. Mas antes que o jantar aconteça, eu vou providenciar alguém, não se preocupe.

- Por que você não chama a senhorita Weasley? – James diz e o seu semblante é a personificação da inocência – vocês são colegas de trabalho e ela será a nova agente da Scotland Yard em breve, sem falar no fato que ela é brilhante como todos nós já pudemos constatar. Eu tenho certeza que será bom para a carreira dela. O que você acha? Você terá uma companhia agradável e ainda ajudará uma colega.

- Ah não, senhor Potter! – agora é Gina quem fala – eu não posso permitir algo assim! Eu sonho em entrar para a Scotland Yard desde pequena, é verdade, mas eu quero entrar pela minha própria competência e não com qualquer tipo de ajuda.

- Ah não, querida, não o entenda mal – Lilly que estava calada até então, se manifesta – é claro que você é uma jovem brilhante e o senhor Riddle não tem poder pra tanto também, embora eu tenha certeza de que ele gostaria disso. Se trata apenas de ser vista e de conhecer algumas pessoas. O Sirius aqui com certeza será favorável a sua incorporação, o Moody pelo que eu sei também. Mas existem outros departamentos e eles também tem as suas pessoas para indicar. Então ser conhecida é bom, consegue entender?

- Sim, eu acho – Gina diz – eu não sabia que havia esse tipo de coisa na Scotland Yard – ela completa pensativa

- Isso existe em todo lugar, Gina – agora é Sirius quem diz – todas as equipes sempre precisam brigar pra conseguir seus agentes. O orçamento nunca é tão grande quanto a gente gostaria e vai ser bom você ser vista e eu quero deixar claro aqui que se você não fosse tão competente, eu mesmo já teria levado você para o Kim no dia seguinte a sua apresentação

- Bom, se é assim... – ela suspira resignada.

- E então, Harry? Vai convidar a moça bonita para que ela seja vista por todos? – James diz com um sorriso travesso.

Harry olha para Gina que se encontra meio envergonhada – e então, Gina? Você gostaria de ser minha acompanhante neste jantar chato para que as pessoas possam vê-la e aumentar a sua chance de ser efetivada na Scotland Yard?

- Vamos lá, menina! Vai ser bom pra você e meu afilhado não é tão certinho o tempo todo. Ele pode ser uma companhia agradável – Sirius diz

- Bem, se você não está pensando em levar mais ninguém, tudo bem eu aceito – ela responde evitando olhar para os presentes e se o fizesse veria que James sorria como um garotinho a quem disseram que haverá natal duas vezes por ano.

- Então está combinado – Harry diz – pelo menos sei que vou ter alguém pra não me deixar morrer de tédio lá.

- Excelente, querida – Lilly diz – nós vamos marcar para ver as nossas roupas e vamos nos arrumar juntas, eu conheço um salão que faz maravilhas com nossos cabelos ruivos, depois que você for lá nunca mais vai querer saber de nenhum outro.

- Obrigada, eu acho – Gina diz enquanto faz cálculos mentais para saber se teria condições de arcar com um salão do nível de Lilly Potter

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De volta ao momento atual

Ela ainda está fazendo os cálculos quando percebe que Harry a encara.

- O que foi? – ela pergunta.

- Parece que é você que não está muito confortável com nosso encontro - ele diz

- Então isso é um encontro? – ela diz e logo se corrige ao ver o semblante do seu parceiro – tudo bem, parei. Mas você sabe do que eu estou falando, você não parece confortável em me levar neste jantar.

- Não é isso. É só que meu pai e o Sirius sempre fazem isso com toda garota que de alguma forma entra na minha vida desde que... – ele para subitamente

- Desde que? – Gina olha para ele – desculpe se eu estou sendo indelicada, mas aquele dia que você e o Malfoy estavam discutindo eu vi que vocês falavam de uma garota. Eu não queria ouvir, mas eu ouvi. Você não precisa falar, se não quiser...

Harry respira fundo. Ele definitivamente não quer falar sobre isso, mas ao mesmo tempo algo diz que ele deve contar a sua parceira, talvez isso faça com que ela entenda um pouco sobre o seu modo de agir

Então ele para o carro e começa meio titubeante – logo que eu terminei a faculdade, eu me inscrevi na academia de polícia. Era o meu sonho de infância, assim como o do Neville era ser médico. Eu estava eufórico pensando em todos os bandidos que eu poderia prender

Gina sorri, ela sabe exatamente qual é a sensação. Harry continua

- Logo eu conheci o Malfoy e nos tornamos inseparáveis e começamos a fazer planos juntos. Seriamos parceiros e combateríamos o mal juntos, é infantil, eu sei, mas era isso que nós pensávamos.

- Aconteceu comigo também – Gina diz – eu acho que acontece ainda mesmo sabendo que não funciona assim, mas não foi só isso, foi? Eu consigo perceber que agora vocês mal se suportam, o que aconteceu? – ela pergunta cuidadosamente

- Bem – ele suspira – nós começamos a academia e eu a conheci (ele respira fundo) Cho... Ela também era uma recruta. Você me lembra muito ela embora não se pareçam fisicamente. Ela também era arrojada, estava disposta a tudo pra fazer o que achava certo e bem, a gente se apaixonou e eu acho que o Draco deve ter se apaixonado um pouco por ela também. O fato é que nos tornamos um trio, iríamos ser os melhores policiais do nosso departamento, isso era fato (ele sorri) ou pelo menos era o que a gente acreditava

- O que aconteceu? – Gina pergunta, ela está curiosa, mas ao mesmo tempo ela não quer ser invasiva.

- Nós fizemos o treinamento e fomos para o trabalho em si – ele diz depois de um momento – e como você deve saber os recrutas sempre pegam o serviço mais chato e burocrático (ele sorri ao ver Gina concordar com um rolar de olhos) é claro que a gente odiava! Mal podíamos esperar que isso acabasse e que a gente fosse fazer algo interessante de verdade, Cho era a mais empolgada embora eu deva confessar que eu e o Malfoy não ficávamos atrás, até que finalmente aconteceu, a gente teria um caso sério!

Gina ouve em silêncio. Ela se lembra da emoção de ter o seu primeiro caso de verdade, então ela sabe exatamente o que ele sentiu. Harry continua:

- Claro que cada um estava em um caso diferente, você sabe como funciona. Ninguém com juízo colocaria três novatos juntos, então cada um estava com uma equipe diferente, eu estava investigando um sequestro, Draco estava com um homicídio e Cho ficou com uma tentativa de latrocínio e ela ficou frustrada achando que ela estava com algo menor por ser uma garota.

Gina ouve e por um momento ela se pega no lugar desta garota, se a ruiva não tivesse uma família de policiais que a prepararam para isso, ela também teria se revoltado com os casos sem importância que pegou no início. Aliás, a quem ela está querendo enganar? No fundo ela se revoltou, mas a ruiva sabia melhor que a forma de lidar com isso era trabalhando duro e mostrando seu valor, no entanto algo lhe diz que essa história não terminou assim.

- Até hoje eu fico pensando se eu poderia ter feito algo diferente – ele diz e por um instante parece que ele está falando para si mesmo – mas eu estava tão feliz com o meu caso que não dei muita bola para o que ela estava sentindo até que o Draco me procurou e disse que a Cho estava pensando em começar a investigar por conta própria, ela disse que achou uma pista quente e que iria checar sozinha e assim provar que era competente.

Gina ouve atentamente agora um pouco culpada, afinal investigar por conta própria foi exatamente o que eles fizeram dias atrás – desculpe – ela diz meio sem jeito – aquele dia...

- Eram circunstâncias diferentes – Harry sorri – mas sim, eu fiquei preocupado, esse tipo de situação sempre remota ao que aconteceu

- O que houve? – Gina pergunta, mas ela já sabe que isso não deve ter terminado bem – você tentou impedir?

- Eu falei pra ela que isso era uma loucura e que poderia acabar com a sua carreira, mas a Cho simplesmente sorriu e disse que isso iria dar certo e que ela seria perdoada e quem sabe até promovida.

Gina fica em silêncio. Ela sabe que isso não aconteceria mesmo se tudo desse certo, a ruiva se pega imaginando o que Kim faria com ela num caso desses, nem a consideração por seu pai a salvaria!

- Eu sinceramente achei que ela iria cair em si – Harry diz – mas eu devia saber melhor, a Cho era teimosa e determinada e nada iria atrapalhar os seus planos. Eu tinha acabado o meu plantão quando o Draco chegou dizendo que a Cho ligou dizendo que estava em uma boca de fumo, ela tinha conseguido as pistas e iria tentar achar alguma coisa no local onde os suspeitos frequentavam. Ele me perguntou se a gente deveria ir atrás dela e eu falei que se nós fizéssemos isso, a gente também iria se encrencar. Além de agir sem autorização ainda estaríamos em um caso que não era nosso.

- Você estava certo. Sabe disso, não sabe? – Gina diz de forma racional

- Eu sei – Harry suspira – e eu digo isso a mim mesmo o tempo todo, mas não ajuda muito, principalmente porque eu chequei meu celular e vi que ela havia tentado falar comigo várias vezes também, se eu tivesse atendido talvez eu a tivesse impedido. Eu fui egoísta, eu deveria ter feito mais, eu deveria ter trancado ela em casa, eu deveria... – ele para de falar

- Você sabe que não poderia – Gina o interrompe – o que aconteceu?

- Você deve imaginar o que aconteceu – Harry diz com um suspiro – uma policial novata tentando se infiltrar sem o conhecimento ou autorização dos seus superiores, na melhor das hipóteses ela seria demitida, mas infelizmente não foi a melhor das hipóteses

- Ela foi pega – Gina adivinha e o seu estômago se contorce. A pior coisa que poderia acontecer com um policial infiltrado é ser pego

- Ela não tinha a mínima chance – Harry diz e Gina vê que ele está mesmo se segurando

- Não me deixaram ver muito do corpo – Harry diz um pouco ofegante – nem a mim nem o Malfoy, disseram que a gente não precisava disso, que deveríamos lembrar dela como era antes, que a Cho seria uma policial excelente se tivesse dado tempo ao tempo e não tomasse uma decisão precipitada – ele dá um risinho sarcástico – na verdade o que eles queriam dizer é se ela não fosse uma novata burra e arrogante que arriscou a própria vida por um momento de gloria. Depois disso nada mais foi o mesmo, nós nunca falamos disso, mas eu sabia que o Malfoy no fundo me culpava por eu ter dito que a gente não deveria ir atrás dela e quando eu finalmente desisti de ser um policial isso foi a gota d'água.

Gina não sabe o que falar. No fundo ela concorda que essa garota foi arrogante e insensata, mas ela também sabe que em alguns momentos ela também é assim e mesmo que não fosse, como ela poderia julgar? Só o que ela sabe é que o seu parceiro deve ter sofrido o diabo e que deve estar se culpando porque ela com certeza estaria.

Ela seca uma lágrima solitária com as costas da mão. Isso explica muito do jeito do seu parceiro, o cuidado exagerado, a determinação de não se envolver demais na Scotland Yard trabalhando apenas em alguns casos e até mesmo o jeito que ele sempre diz a ela que são apenas colegas de trabalho. Se ela tivesse perdido alguém importante quem sabe ela não seria assim, mas por sorte nunca aconteceu nada mais sério com ninguém da sua família. Ela se pega pensando no que a sua mãe passa por todos esses anos com todos os filhos correndo perigo.

- Eu sinto muito – ela finalmente consegue balbuciar – o tempo todo eu achava que você era apenas um cara que gostava de fingir ser certinho e responsável, eu não tinha ideia...

- Ei – ele a interrompe ao mesmo tempo em que passa a mão no seu rosto – eu sou realmente um cara certinho e responsável e eu gosto de ser assim, eu realmente gosto do que faço e mesmo que ninguém acredite eu acabei me encontrando, eu sinto que as coisas tenham acabado assim entre eu e a Cho, mas talvez a gente não tivesse dado certo mesmo. Saber que eu nunca irei saber é o que dói mais.

Gina olha para Harry, nenhum dos dois saberia explicar o que acontece a seguir, eles sequer saberiam dizer quem deu o primeiro passo. O fato é que antes que alguém possa pensar ou talvez falar tudo acontece, eles se beijam como se fossem apenas um casal ansioso por experimentar sensações novas e desta vez ninguém pode dizer que foi consequência de uma missão, na verdade eles nem podem explicar o que está acontecendo.

- Isso foi... – Gina diz quando eles finalmente se separam, ela não tem palavras pra descrever o que aconteceu.

- Sim – Harry concorda. Tudo o que ele quer agora é dizer que eles são apenas colegas, mas as palavras não saem. Ele não sabe direito o que aconteceu, não sabe sequer se foi ele quem deu o primeiro passo e diabos, ele realmente não se importa. Ele neste momento quer esquecer tudo de trágico que já aconteceu na sua vida e se perder nos lábios doces da sua parceira, aliás, neste momento ele sequer se lembra que ela é a sua parceira.

Ou não se lembraria se os ouvidos treinados da ruiva não ouvissem alguma coisa...


Finalmente o capítulo! Não sei se tem alguém passando aqui mas mesmo assim gostaria de pedir desculpas pela demora. Eu viajei no mês de julho e fiquei algumas semanas sem escrever e depois quando eu voltei tive que atualizar a vida é feita de escolhas que estava mais atrasada.

Espero que tenham gostado do capítulo. Mesmo que não tenha muita gente passando por aqui posso dizer que faço tudo de coração. É claro que eu não sei direito como funciona esse lance de entrar na Scotland Yard então entendam como licença poética, ok.

Bjs e até o próximo