Quase ao mesmo tempo

James olha para o senhor meio calvo e obeso que o fita com curiosidade. A despeito da sua vontade de ser objetivo, ele sabe que deve esperar o professor dar o primeiro passo e se for preciso puxar o seu saco um pouquinho. Apesar de sempre ter tido uma certa aversão ao modo de vida deste professor se for para ajudar seu filho, ele o fará.

Antes que ele diga alguma coisa um barulho na porta chama a sua atenção e ele vê a sua esposa entrar com um sorriso enquanto diz:

- Imaginei que o meu marido viria conversar com o senhor e não podia perder a oportunidade de rever um dos meus professores preferidos.

A surpresa de James logo é substituída por um sorriso. Se ele tinha algum medo de que o homem a sua frente não fosse colaborar, ele se dissipou. O professor Slughorn seria incapaz de negar qualquer coisa a Lilly, a sua esposa era uma das suas alunas preferidas.

- A senhora continua encantadora – ele diz de modo galante – espero que seu marido saiba a sorte que tem. Mas, em que eu posso ajudá-los?

- Ah, ele sabe – Lilly responde com um sorriso – nós precisamos de ajuda. Aliás, nós precisamos de algumas informações para o Harry, ele está ajudando a Scotland Yard com um caso.

- Ah sim, o jovem Potter, meu colega aqui na universidade – o professor diz com um sorriso – eu espero que quando tudo terminar, ele possa comparecer a algum dos meus jantares. É sempre bom confraternizar com os colegas, ou será que ele pretende ser mais um Snape?

- Com certeza ele não quer ser como o Snape! – James diz arrancando um meio sorriso de sua esposa. Lilly sabe que a rixa dos tempos de faculdade entre James e Severo não terminou com o tempo e só em pensar no filho tendo um comportamento semelhante ao do seu desafeto seria o suficiente para causar brotoejas no marido.

- Fique tranquilo, senhor Slughorn, eu mesma levarei a Harry o seu convite e me assegurarei que ele o aceite – Lilly diz e James segura a gargalhada ao imaginar seu filho sendo obrigado a ir a um dos jantares entediantes e cheios de pompa do professor, mas se ele der alguma informação relevante será um sacrifício pequeno e Harry fará de bom grado e mesmo que não seja de bom grado, Harry é inteligente o suficiente para não se recusar a atender um pedido da mãe.

- Ele será muito bem vindo – o professor diz entusiasmado – pois bem, em que eu posso ajudar?

- Nós precisamos de nomes das pessoas aficionadas por cinema que o senhor conhece, com ênfase nos clássicos de qualquer espécie. Queremos os nomes dos melhores – James diz tomando o cuidado pra não revelar demais para o professor cujos olhos brilham de curiosidade.

- Eu sou uma das pessoas que mais entende disso – o professor diz – modéstia à parte, eu posso ajudar no que vocês precisarem.

- Certamente, professor – quem fala agora é Lilly – o senhor é a maior autoridade na área e irá ajudar, mas eu creio que o Harry precisa ver as coisas de vários ângulos, então quanto mais pessoas, melhor, o próprio James também está ajudando. E então, o senhor poderia fornecer?

- Claro – ele diz – eu fico feliz em ajudar, mas desde que deixem bem claro que eu posso dar mais informação do que qualquer um.

- Nem precisa dizer – Lilly fala evitando olhar para o marido, ela sabe que James deve estar a um passo de falar algo indevido. Seu marido nunca suportou a empáfia do professor – e se tiver mais alguém que você acha que possa ajudar e puder fazer a gentileza.

- Bem – Slughorn diz – tirando a minha pessoa e o James aqui que eu tenho que reconhecer ser muito bom nisso, eu poderia citar o senhor Riddle. Eu tenho certeza que ele também ficaria feliz em colaborar.

- Eu não sabia que o senhor Riddle era um apreciador dos clássicos – James diz lutando para não demonstrar seu estarrecimento.

- Ah sim, ele é – o professor fala – poucas pessoas sabem, mas eu tive o privilégio de ser seu professor. Ele havia acabado de ser reconhecido por sua família e estava tentando se encaixar, ele era um jovem brilhante e logo encontramos esse interesse em comum.

- É difícil imaginar o senhor Riddle como um garotinho sem família – James diz e encara a esposa – qual é! Você sabe que é difícil mesmo! É como se ele tivesse trezentos anos de vida, morando naquela casa imponente e fazendo os seus jantares de caridade anuais.

- Devo concordar com seu marido – o professor diz – não há nada do calouro amável que um dia eu conheci, mas creio que o jovem precisou crescer rapidamente depois de perder o pai e os avós, assumir toda aquela fortuna deve ter mexido muito com ele.

- Professor – quem fala agora é Lilly – e a mãe dele? Alguém sabe algo sobre ela?

- Digamos que ninguém fala sobre isso – Slughorn diz e a James parece que ele olha para os lados como se quisesse se certificar que ninguém está ouvindo – se você não quer cair em desgraça com o senhor Riddle, não toque nesse assunto nunca. Mas quando ele apareceu havia um boato que uma prostituta viciada deu a luz em um orfanato e morreu logo após, o fato é que nunca saberemos. Eu sugiro que caso o senhor ou seu filho forem perguntar algo a respeito do conhecimento cinematográfico do senhor Riddle, evitem tocar no assunto, isso é algo compreensivelmente sensível pra ele.

- Não se preocupe, professor – Lilly diz lançando um olhar discreto ao marido – nós entendemos e faremos o Harry saber. De qualquer forma são apenas pesquisas prévias, mas agradecemos a colaboração.

- Fico feliz em ajudar – o professor diz – lembranças ao Harry e espero vê-los em breve.

James e Lilly se retiram, eles não sabem se a conversa vai ou não ajudar Harry Potter, mas certamente isso os deixou com algo a pensar...

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De volta à Scotland Yard

Sirius encara o homem com feições ratazânicas de modo impassível. O detetive está muito próximo de soltar uma risada inconveniente. Quando Gina apresentou a sua ideia e deixou claro que tudo iria funcionar melhor se conseguisse um tempo sem o advogado, Sirius procurou a acessória jurídica para garantir que tudo pudesse ser feito sem que isso prejudicasse o seu caso e depois de conseguir acalmar os advogados tempo suficiente para explicar o que a sua agente pretendia, ele ouviu sim que era possível, não muito habitual, mas perfeitamente possível e é por isso que neste momento ele se encontra muito próximo a agir como um estudante do sexto ano e provocar deliberadamente o homem a sua frente.

- Nós não fizemos nada, doutor Pettigrew – Sirius diz encarando o advogado – nada que pudesse prejudicar o caso. Seu cliente falou com todas as palavras que dispensava a sua presença.

- Ora, seu... – Pettigrew diz e respira fundo, Sirius pode ver que o homem está se segurando – o senhor Filch é um ancião sem estudo, qualquer um pode levá-lo a dizer algo assim. Eu poderia anular qualquer coisa que vocês tenham conseguido!

- Ah, Pettigrew – Sirius diz com um suspiro – você acha mesmo que eu seria amador a ponto de tentar conseguir uma confissão sem a presença do advogado e iria usar isso como trunfo? Não subestime a nossa inteligência, faça-me o favor! Eu posso te dar uma cópia de tudo o que conversamos, se você quiser. Só que fizemos foi tentar conhecer melhor o seu cliente, a gente queria descobrir o que ele tem que chamou a atenção de um advogado que cobra por hora mais do que ele ganha no ano – ele completa e sorri ao ver o pomo de adão do homem a sua frente subir e descer.

- Eu quero conversar com meu cliente agora! – o advogado diz e Sirius nota que ele não está tão confiante quanto diz – e podem ter certeza que eu vou usar esta arbitrariedade para pressionar e conseguir um habeas corpus alegando que vocês estão se aproveitando da ingenuidade de um homem idoso!

- Claro, senhor Pettigrew – Sirius diz, ele faz uma pausa e respira fundo antes de encarar seu desafeto – o senhor terá o tempo que precisar com o seu cliente e, por favor, aproveite para informar que nós achamos o DNA dele em um dos últimos corpos encontrados – ele completa e se retira antes que o advogado possa falar qualquer coisa...

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Enquanto isso, em outro local

Draco olha para o local onde ele e Luna passaram os últimos dias. Alguma coisa em sua mente dizia que seria lá que Luna estaria agora, no entanto não há sinal da moça por lá.

Ele já deveria saber que a moça destrambelhada não iria ficar satisfeita com o que aconteceu e pra falar a verdade Draco não consegue condená-la totalmente. Ter convivido com o responsável pela morte da mãe deve mexer com a cabeça de qualquer um.

O detetive por um momento pensou que ela estaria no local onde eles ficavam durante o disfarce, mas pelo jeito ele se enganou. Draco já conhece a moça o suficiente pra saber que ela não foi para a Scotland Yard, o último lugar onde ela gostaria de ficar é no local onde o suspeito se encontra, por este motivo ele pensou que ela tivesse no local onde ficavam disfarçados. Onde será que ela se meteu? Draco se pergunta pedindo internamente que ela não tenha pensado em continuar pelas ruas sozinha. Ela não seria tão maluca assim, ele diz meio sem esperança, o loiro sabe que ela seria mesmo maluca assim.

Então a sua mente se volta a uma conversa que eles tiveram alguns dias atrás, talvez ele possa sim saber onde ela está...

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Alguns dias atrás

Draco tenta não sentir o cheiro das roupas surradas e sujas que ele está usando há alguns dias, literalmente a mesma roupa há vários dias. Ele sabe que isso é necessário para seu disfarce, mas isso não significa que ele goste, há poucas coisas no mundo que ele odeie mais do que esse tipo de disfarce, na verdade apenas há apenas uma coisa que ele odeia mais, que alguém diga que ele não é capaz.

Mentira. Ele descobriu uma coisa que ele odeia mais, ele odeia o momento em que ele precisa sair às ruas pra bancar a babá daquela avoada que por mais que ele diga para tomar cuidado teima em ir conversar com todo viciado que ela encontra perguntando deus sabe o que. Será que ela acha mesmo que vai conseguir alguma pista sobre a mãe depois de todo esse tempo? Ele não pode deixar de se perguntar.

- Você está fazendo de novo – a voz de Luna o tira do devaneio. Draco olha pra ela sem saber direito do que ela está falando e suspira. O loiro não fala nada, mas seu olhar mostra a sua curiosidade.

- Você está me encarando como se o que eu estivesse fazendo fosse uma perda de tempo e eu vou dizer mais uma vez que você pode ir embora se quiser. Eu não pedi ajuda de ninguém.

Draco luta para não rolar os olhos, eles têm essa discussão no mínimo uma vez por dia desde que o seu calvário começou, então ele suspira – você não pediu ajuda, mas falou com alguém ligado a Scotland Yard, isso não é pedir ajuda?

- Não senhor Malfoy – ela diz como se estivesse explicando algo a uma criança – isso é ter um pouco de consideração com as pessoas que finalmente estão fazendo algo para desvendar o desaparecimento da minha mãe, uma consideração que meu pai não recebeu durante todo esse tempo e eu tenho consciência que talvez eu não encontre nada aqui, por isso eu estou pensando em ir a outro local em breve.

- Outro local? – o loiro diz sem entender – esse é o local onde a maioria dos viciados fica, por que você iria para outro local?

- Acontece, senhor policial – Luna o encara – a minha mãe não foi uma viciada a vida toda, ouviu bem!

Antes que Draco fale alguma coisa, a moça sai e vai em direção a um grupo de viciados deixando Draco perdido em seus pensamentos...

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De volta aos dias atuais

Draco suspira enquanto pensa na conversa que tiveram, o loiro admite que ficou um pouco mal pelo jeito que tratou a moça, mas como Luna não parecia ter se abalado ele deixou por isso mesmo.

Ele conseguiu aprender uma coisa ou duas sobre a sua parceira improvisada e uma das coisas que ele aprendeu é que Luna Lovegood é uma mulher peculiar e muito inteligente e mesmo não sendo uma policial, ela deve ter feito a conexão que se existe mais alguém envolvido na morte da mãe, essa pessoa se é que ela existe não se arriscaria a ir para o local onde o suspeito foi pego tão cedo.

Ele tem uma vaga ideia sobre para onde Luna deve ter ido e ele irá atrás dessa maluca, mas antes ele precisa fazer duas coisas.

E com esse pensamento na cabeça o loiro se retira...

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Na Scotland Yard

Sirius observa o advogado conversar com seu suspeito, por lei ele não pode ouvir a conversa, mas ele conhece o ser humano o suficiente para ler as expressões de ambos e o detetive pode dizer com certeza que esta não está sendo uma conversa fácil.

Ele sabe que em breve serão chamados, Sirius sabe exatamente como aquele rato que se intitula advogado opera e a ele cabe ter mais algum trunfo na mão e é por isso que ele se dirige a sua agente novata. Ele quer saber das suas impressões sobre a entrevista, as dela e as do seu afilhado.

O detetive encara a ruiva cujo semblante demonstra que ela já o estava esperando.

- Estamos encrencados com o advogado? – ela pergunta receosa, Gina sabe que conversar com um suspeito sem a presença do advogado pode por tudo a perder.

- Claro que não – Sirius sorri – embora eu deva dizer que se olhar fuzilasse você teria que arrumar outro chefe, digamos que foi libertador. E então, o que você pode dizer da sua entrevista?

A ruiva respira fundo antes de começar – nosso suspeito odeia as mulheres que vivem nas ruas, isso é fato e ele seria capaz de fazer qualquer coisa para (ela faz aspas com os dedos) limpar a nossa sociedade desse mal.

- Isso inclui matá-las? – Sirius indaga.

- Sim – Gina diz – se ele tiver alguma oportunidade, sim. Mas dá pra ver que ele não é exatamente um cara forte, então matar não é uma coisa tão fácil assim. Eu sei o que você está pensando, Sirius, e eu admito que ele está envolvido, mas ele não elaborou aquelas cenas, ele pode até ter matado as mulheres, ele pode até ter transportado os corpos, mas aquilo não pode ser obra dele. O cara não sabe sequer quem é Hitchcock!

- Ele pode estar fingindo – Sirius argumenta – pode ser que ele conheça mais do que quer aparentar.

- Eu teria notado, Sirius, eu garanto. – a ruiva fala com convicção – Modéstia a parte, eu sou boa no que faço e eu aposto meu distintivo que esse cara não entende nada de cinema.

- E tem outra coisa – quem fala agora é Harry – o Remo não achou nada sobre ele em lugar algum, se esse cara tivesse dinheiro pra pagar um advogado como o Pettigrew, a gente saberia. Ninguém com grana assim seria um mero motorista num centro de reabilitação e antes que você fale que isso poderia ser um disfarce pra chegar perto das garotas, eu digo que a casa dele é muito modesta e ele guardou as reportagens em um lugar muito fácil de achar, quase como se quisesse isso.

- Sou obrigado a concordar – Sirius diz com um suspiro – isso vai ser um saco! Com certeza vai ter gente dizendo que o caso está resolvido e pressionando pra gente fazer uma divulgação, estou até imaginando a nota para a imprensa sendo elaborada agora. O Moody vai ter um problema e tanto pra segurar isso, mas o que mais vocês podem dizer?

Gina e Harry se entreolham, ele faz um aceno com a cabeça para a ruiva que toma a palavra:

- Tem alguém por trás, alguém com dinheiro e sofisticação, alguém a quem esse cara segue cegamente (ela suspira) alguém que ele vai proteger de todas as formas. A pergunta agora é, quem é essa pessoa?

Antes que Sirius ou Harry possam falar alguma coisa, alguém chega dizendo que Pettigrew está chamando. O senhor Filch quer fazer um acordo...

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Quase ao mesmo tempo

Draco Malfoy chega à Scotland Yard, o burburinho crescente mostra que algo aconteceu. Em outro momento ele seria o primeiro a tentar descobrir o que houve, mas não agora.

Ele se desvencilha das pessoas que o cumprimentam, o loiro sabe que eles já estão acostumados com seu jeito pouco amigável, então Draco não tem problemas quanto a isso. Ele continua caminhando até o local onde Remo Lupin se esconde, o setor de informática.

Ele vê o homem concentrado só deus sabe em que, Draco nunca entendeu direito essa parte do negócio, mas ele sempre soube que o cara é bom no que faz, então ele pigarreia para anunciar a sua presença.

- Oi Malfoy – Remo diz sem tirar os olhos dos monitores – pode falar ao Sirius que eu não achei nada sobre o senhor Filch, esse cara simplesmente não existe no mundo digital.

- Não foi por isso que eu vim – Draco diz de forma objetiva – eu preciso que você faça algo pra mim e preciso pra agora!

- É alguma coisa a respeito do caso? – Remo para o que esta fazendo e olha para Draco, intrigado.

- Eu ainda não sei dizer, Lupin – o loiro diz – pode ser que tenha, por favor, veja isso pra mim.

- Tudo bem – o analista diz com um suspiro – o que você precisa?

- Eu preciso de tudo que você possa conseguir de Pandora Lovegood...


NOTA DA AUTORA

Mais um capítulo pra vocês com direito a finalzinho com suspense! Espero que tenham gostado se é que tem alguém por aqui... Brincadeira, eu sei que tem gente aqui, o problema é que vocês são tímidos, né (autora falando pra si mesma "eu não vou reclamar da falta de comentários" várias vezes como se fosse um mantra...)

Falando sério agora, mesmo que vocês não comentem, eu agradeço a todo mundo que está lendo, espero que estejam gostando.

Bjos e até o próximo