Mais tarde, na Scotland Yard
O senhor Riddle espera impassível na sala de interrogatório com um olhar superior, o olhar que sabe que tem muita gente sob seu domínio e que não ficará muito tempo nessa situação.
Sirius observa o homem pelo lado de fora, ele sabe que não tem muito tempo para isso logo a prisão do homem será notícia em todos os jornais e ele sabe que o homem tem cacife para conseguir vários advogados e ele não duvida que tenha algum juiz no bolso para lhe conseguir que responda em liberdade. Tudo deve ser feito com cautela.
Draco foi para o hospital com Luna Lovegood, em momento algum o agente loiro reclamou quando Sirius lhe deu esta ordem, o que o espantou muito. Em outros tempos Draco teria dito que gostaria de participar do interrogatório, mas parecia que ele estava mais preocupado com a moça do que em interrogar o homem.
Ele sabe que tem uma grande luta pela frente e que esse interrogatório vai ser particularmente difícil, mas por sorte eles têm um trunfo, um trunfo que talvez coloque um ponto final nessa história toda. É por este motivo que mesmo com desagrado, ele se prepara para conversar com Severo Snape...
XXXXX
Mais cedo, no mesmo dia
Peter Pettigrew olha para os homens a sua frente, homens que há um tempo foram seus melhores amigos, homens dos quais ele se afastou para trilhar o seu caminho bem sucedido, mas parece que agora tudo está sendo jogado a ele novamente.
Ele sempre soube que não era tão bonito ou inteligente quanto seus amigos. Diabos, se Remo não o tivesse tomado sob sua proteção, James e Sirius nem sequer o notariam! Mas eles se tornaram amigos e foi assim durante todo o seu ensino médio e parte da faculdade, o amigo gordinho e desajeitado que estava sempre atrás como um cachorrinho.
E ele nunca percebeu que queria mais até que alguém mostrou sim, que ele poderia ter mais, alguém que lhe ensinou que não existe o bem e o mal apenas o poder, alguém que lhe mostrou que ele poderia ter o poder e o sucesso que almejava desde que pudesse passar por cima de certos princípios.
E ele passou e não foi tão difícil assim, pelo contrário foi ridiculamente fácil e prazeroso, e a partir daí a sua relação com os rapazes foi por água abaixo e ele viu que aquele não era o seu lugar, o seu lugar era onde o poder estivesse.
Mas agora ele não está em um lugar que se chamaria confortável, o que ele disser vai definir o rumo da sua vida. Peter sempre foi acima de tudo um sobrevivente e é por isso que ele já sabe o que fazer.
Então ele olha para Sirius e diz – eu... Eu vou falar onde ela pode estar...
XXXXX
Quase ao mesmo tempo
Severo Snape olha para Harry Potter enquanto se recompõe. A forma direta com que seu ex-aluno, agora colega o interpelou fez com que ele perdesse a sua famosa feição impassível, mas foi apenas por um minuto.
O que faz você sonhar que eu sei alguma coisa sobre o senhor Riddle? – ele diz voltando à sua compostura – e mesmo que tivesse, por que você acha que eu contaria a vocês, Potter? – ele fala seu nome com desdém.
- O que me faz pensar não importa – Harry diz alheio ao espanto de Gina – mas eu sei que você morou por anos na casa daquele homem e eu sei que você viu algo terrível, talvez não só uma vez (ele respira fundo) eu tenho consciência que eu deveria passar por uma burocracia sem tamanho para obrigá-lo a falar, mas nós não temos tempo. Esse homem precisa parar, você precisa contar o que você viu.
Severo Snape encara o seu colega e ex-aluno, um aluno que ele nunca conseguiu olhar como tal. Para ele Harry sempre foi apenas o filho de James, o homem que se casou com a única pessoa em que ele confiou na vida, Lilly. Ele nunca conseguiu olhar para o rapaz sem ver nele o pai, mas neste momento não é a face de James que ele está vendo, mas sim os olhos de Lilly e é por isso que ele diz:
- Eu vou te contar tudo...
XXXXX
Pouco depois
Harry olha estupefato para o homem a sua frente, ele presenciou uma coisa horrível e ele era pouco mais que um garoto.
- Não me encare desta forma, Potter - Snape diz voltando a seu temperamento habitual – se você me abraçar, eu...
- Não – Harry o interrompe com uma careta – sem abraços, eu prometo. Mas eu não posso me impedir de ficar um pouco chocado, por que você nunca falou pra ninguém?
- Você conhece o senhor Riddle? – Severo fala com ironia – então acho que é meio evidente porque eu não contei pra ninguém. Em quem as pessoas iriam acreditar? No benemérito da sociedade ou num garoto filho da empregada que vivia de favor na casa? Mas sim eu falei para a minha mãe anos depois, quando a gente já havia deixado a casa – Severo não diz mais nada, mas Harry sabe ler nas entrelinhas.
- Ela sabia – Harry diz, não é uma pergunta
- Ela nunca admitiu – Snape diz com um suspiro – mas eu vi nos olhos dela quando eu contei e ela me implorou que eu nunca contasse isso a ninguém. Bem, e eu cumpri a promessa, mas agora ela está morta faz alguns anos, eu creio que ela não se importaria.
- Então – Harry diz tentando esconder o entusiasmo, ele conhece seu colega bem o suficiente para saber que se Snape perceber que ele está animado, isso poderia bastar para que ele mudasse de ideia.
- Sim – Snape diz – eu vou à Scotland Yard, vou contar tudo que sei...
XXXXX
De volta à Scotland Yard
Sirius encara Severo Snape, seu desafeto da juventude, uma pessoa que ele mal suporta. Mas neste momento ele precisa esquecer isso e fazer seu trabalho, o detetive só espera que o homem não faça nada para tirá-lo do modo profissional.
Mas esta esperança vai por água abaixo quando ele vê a feição com que o homem o encara, mesmo que ele não esteja em uma sala de interrogatório comum, Sirius sabe que ele não está nem um pouco satisfeito com a situação.
- Eu diria que é um prazer – Severo diz de forma sarcástica – mas nós dois sabemos que é uma mentira.
- Acredite, é recíproco – Sirius diz ao mesmo tempo em que pensa. Isso vai ser difícil.
- Então vamos acabar com isso o mais rápido possível – Snape diz e a sua mente se volta a época em que ele era apenas um adolescente...
XXXXX
Voltando alguns anos no passado...
Snape está nos jardins da casa olhando as nuvens que passam. Ele não tem muito a fazer agora, a sua tarefa de química está terminada e foi mais rápido do que ele esperava. Essa é uma das matérias que ele se sai melhor, até mesmo que James Potter e sua corja.
Ele poderia sair para tentar encontrar Lilly, mas ela certamente estará acompanhada por aquela sua irmã horrível e hoje ele não quer mesmo começar uma discussão.
Então só resta a ele perambular pelos jardins da mansão Riddle onde a sua mãe trabalha e faz questão de dizer que eles devem ao senhor Riddle mais do que eles poderiam pagar em cem vidas. Graças a este emprego eles não precisam mais se submeter ao pai abusivo, graças a este emprego ele estuda em um colégio conceituado. Você deve ser grato, ele ouve isso mais vezes do que gostaria.
Ele não é ingrato, Severo sabe que sem o senhor Riddle ele estaria em uma dessas escolas de subúrbio onde fatalmente seria massacrado. Embora na sua escola atual as coisas não sejam tão melhores assim, ele sabe que esta é uma oportunidade que ele não teria sem o apoio do dono da casa.
Sim, ele é grato, mas ao mesmo tempo existe alguma coisa por aí, algo que faz com que a sua nuca se arrepie quando ele para por algum tempo para pensar nisso. Ele sabe que há algo, mesmo que o senhor Riddle ajude tantas pessoas, como ele sabe que acontece com as garotas que vem e vão.
No início Severo achou que elas iriam procurá-lo, afinal ter uma pessoa com idades semelhantes morando na própria casa deveria ser motivo para que eles se aproximassem. Não que ele quisesse esse tipo de atenção, no entanto quando isso não ocorreu e ele comentou casualmente com a mãe e ela o encarou de modo sério e disse que ele nunca deveria se aproximar delas.
Ele obedeceu, até porque não era como se Severo fosse exatamente um jovem sociável, então bastava um livro para que ele não sentisse falta de pessoas na sua vida, a não ser Lilly Evans, bem entendido.
Mas neste momento ele está sozinho e sem ter o que fazer, a última garota que esteve na casa não aparece há algum tempo e a sua mãe saiu para resolver um problema referente ao seu pai que provavelmente foi preso por estar bêbado em público ou algo parecido e o senhor Riddle, bem, ninguém sabe onde ele foi, mas Severo sabe que ele vai demorar a voltar.
Geralmente Severo segue as regras, na verdade ele tem um certo desprezo com aqueles que não o fazem. Mas diabos, ele é um adolescente entediado e isso de certa forma acaba fazendo que eles tomem decisões inapropriadas.
E é por isso que ele entra sorrateiramente na mansão...
XXXXX
De volta aos dias atuais
Sirius observa seu desafeto de infância contar a sua história. A sua feição continua impassível, mas Sirius como um agente experiente conhece os sinais, Snape está desconfortável com a situação. Ele diria mais, o homem na sua frente está a um passo do pavor absoluto.
Em outra ocasião, ele não perderia a chance de tirar um sarro daquele homem. Mas não agora e não é apenas porque ele pode ajudar na investigação. Sirius nunca faria algo assim por mais que não gostasse de alguém.
Então ele se vê dizendo para o seu próprio espanto – você quer fazer uma pausa ou tomar uma água talvez?
Snape olha para ele como se de repente um nariz extra houvesse surgido no rosto do detetive, definitivamente ele não esperava algum tipo de empatia vinda deste homem.
- Eu só quero acabar logo com isso – Snape responde, ele para por um minuto – quanto à água, eu aceito – ele completa meio sem jeito
- Pois bem – Sirius diz enquanto serve um copo com água ao homem a sua frente – então você entrou na casa?
E a mente de Severo volta novamente ao seu passado obscuro...
XXXXX
De volta há alguns anos atrás
O jovem Snape entra sorrateiramente na casa, ele sabe que os empregados estarão na cozinha ou na área destinada a eles. A rotina da casa funciona com uma precisão britânica e há esta hora toda a limpeza já foi feita e eles estão cuidando do almoço, mesmo que o senhor Riddle não vá comer em casa, religiosamente o almoço fica pronto ao meio dia.
Ele caminha sorrateiramente pela casa deixando de lado a biblioteca e os aposentos privados do senhor Riddle, a biblioteca porque o dono da casa gentilmente lhe deu acesso, então ele já a conhece e os aposentos privados por motivos óbvios, ele não seria capaz de uma invasão dessa natureza.
Então ele se lembra de um lugar, um lugar onde a sua mãe lhe disse para manter distância. Severo geralmente é bom em cumprir regras, mas não se pode condenar um jovem entediado por querer um pouco mais de emoção em sua vida de vez em quando e por este motivo ele entra na sala de projeção do dono da casa.
Ele sabe que o senhor Riddle é um aficionado por filmes policiais clássicos e muitas vezes ele fica horas assistindo sozinho naquela sala. Snape se pega imaginando como seria sentar-se em uma sala como aquela e assistir seus documentários preferidos, algo que ele sabe que não vai acontecer nunca, mas talvez alguns minutos no local deem a ele um gostinho sobre como seria.
O jovem Severo sabe que o patrão da sua mãe é um homem metódico e observador e que uma agulha fora do lugar seria fatalmente notada, mas ele também é um metódico, então ele entra tomando cuidado para não esbarrar em nada.
Um som vindo de dentro faz com que ele se assuste e por um momento ele pensa se não pode ter se enganado e que o senhor Riddle está lá dentro. Com a respiração suspensa ele repassa mentalmente os últimos acontecimentos e chega á conclusão que não há como ele ter retornado sem que ele tivesse visto. Provavelmente o homem apenas esqueceu seu equipamento ligado, ele pensa aliviado mesmo achando estranho algo assim ter acontecido.
Ele vê a tela de projeção ligada com um filme de aparência muito antiga sendo exibido, ao lado da poltrona um cinzeiro onde um charuto queima. É como se a pessoa que estava sentada naquele local precisasse sair às pressas por algum motivo.
Isso o faz temer ainda mais ser descoberto, se ele realmente saiu às pressas a ponto de deixar o projetor ligado e um charuto acesso, isso pode significar que ele voltará a qualquer momento e certamente ele não gostará nada da sua intromissão
Severo se prepara para sair rapidamente e neste minuto seus olhos encontram com o que está sendo transmitido pelo projetor.
Ele pisca algumas vezes para ter certeza do que está vendo ao mesmo tempo em que seu queixo cai e ele sente seu estômago se contorcer de medo e asco enquanto diz para si mesmo que isso deve ser apenas um filme antigo de muito mau gosto.
Mas ele sabe que não é!
XXXXX
De volta aos dias atuais
Severo termina a narrativa buscando uma força sobre humana para manter seu semblante impassível. Muitas vezes quando jovem ele acordou no meio da noite com a cena bizarra em sua mente e embora não seja algo tão frequente, isso acontece nos dias de hoje também.
Ele vê que Sirius não sabe direito o que dizer, provavelmente ele não esperava algo assim. Snape só espera que o homem a sua frente não o encare como se ele fosse uma vítima, isso ele não suportaria.
Mas o olhar que ele vê não é um olhar piedoso, seria mais como um gato que está prestes a comer um canário e ao contrário do que acontecia durantes os anos escolares não é ele esse canário.
Snape sabe que tem um trunfo poderoso algo que pode colocar fim em uma investigação e algo que deixa Sirius e a Scotland Yard em suas mãos.
Neste momento ele sorri internamente ao imaginar o que aconteceria se ele simplesmente se recusasse a dizer qualquer coisa em um tribunal ou algo parecido. Snape tem que admitir que a possibilidade é tentadora, mas ele também sabe que tudo isso já durou tempo demais, isso precisa parar é o seu último pensamento antes de perceber que Sirius estava falando com ele.
- Presumo que você tem noção da gravidade do que acabou de dizer – Sirius repete ao ver que agora o homem na sua frente voltou à realidade – não se preocupe, eu não vou perguntar por que você não levou isso à tona antes, mas o que eu quero saber agora é. Você está disposto a fazer isso agora e arcar com todas as consequências?
Snape olha para o detetive, alguém que ele despreza desde a escola e isso não mudou, e agora ele sente como se tivesse a chance de dar o troco e garantir que não respingue nada na sua reputação ilibada. Ele sabe que não há nada que Sirius possa fazer se ele resolver não testemunhar.
Ele não é uma pessoa dada a arroubos, não que ele seja covarde, mas acima de tudo Snape sabe quais batalhas lutar, a sua sobrevivência sempre esteve em primeiro lugar.
No entanto, ele sabe que isso não vai acabar e pode até piorar e que se não fizer isso nunca mais vai conseguir fechar os olhos sem que a cena que ele viu venha a sua mente, então ele diz:
- Sim, eu vou dizer o que sei e arcar com as consequências...
NOTA DA AUTORA
Finalmente postei! Desculpe a demora mas como sempre estou enrolada com o trabalho e outras coisas, mas juro que eu estou tentando fazer o meu melhor
Espero que tenham gostado. Eu comentei que estava bem chateada com o número de acessos da fic e estava pensando seriamente em dar um tempo daqui depois que terminasse as que tinham começado, mas bastou um único comentário para reativar meu ânimo. Obrigada Shaene por deixar uma palavrinha! Você não tem noção do bem que me fez!
Por enquanto é só, assim que eu puder posto o próximo.
Bjs
