Oi, pessoal. Eu nunca faço notas de início, mas gostaria de saber se alguém por aí está gostando da história. Vejo alguns números, mas poucos comentários, então não sei exatamente qual é o sentimento aí do outro lado. Enfim, me deixem saber :)


Isabella

No início do novo ano, nós decidimos ir em busca das respostas que ainda faltavam. O voo para Londres foi longo, mas surpreendentemente tranquilo. Chloe dormiu a maior parte do tempo, no meu colo, ignorando totalmente seu próprio assento de classe executiva. Eu não podia reclamar, entretanto, ela estava se saindo muito bem para sua primeira viagem de avião.

Edward, ao meu lado, manteve-se em silêncio durante boa parte da viagem, apenas olhando pela janela com uma expressão pensativa. Eu sabia o que se passava na cabeça dele.

Londres não era apenas a cidade onde ele nasceu e cresceu. Era também o cenário de todas as mentiras que moldaram sua vida – onde um homem que ele chamou de pai por anos manipulou cada passo seu, tentando controlá-lo como uma peça em seu jogo de poder. A diferença agora era que Edward estava voltando como um homem que finalmente conhecia a verdade.

Chegamos ao aeroporto de Heathrow ao amanhecer e Chloe acordou no momento em que pousamos, esfregando os olhinhos antes de olhar ao redor com curiosidade.

— Mamãe… já chegou?

Sorri, ajustando seu cachecol antes de segurá-la no colo.

— Sim, amor. Agora vamos conhecer a casa do papai aqui e depois passear na cidade.

— Vai ter chá?

Edward riu baixinho ao lado dela. Antes de virmos, Seth tinha ensinado a ela que Londres era a terra do chá e essa era sua nova obsessão.

— Aqui sempre tem chá, princesa, de todos os tipos. Você vai gostar.

Ele beijou o topo da cabeça de Chloe antes de me lançar um olhar rápido – um daqueles que dizia mais do que qualquer palavra. A viagem era importante para ele de muitas formas, mas eu sabia que sua prioridade ainda era estar conosco, nos dando momentos felizes antes de lidar com tudo que ainda precisava ser resolvido.

Um motorista nos esperava ao lado de um carro tão grande que caberia uma família inteira e ainda sobraria espaço. Edward o cumprimentou com um aceno e o ajudou a colocar nossa bagagem no porta-malas, enquanto eu prendi Chloe na cadeirinha e passei meu próprio cinto, antes de pegar o celular na bolsa para avisar Rosalie que já tínhamos pousado.

Nós seguimos para o apartamento de Edward, uma cobertura enorme e sofisticada no centro de Londres, com vista para o Tâmisa e o Big Ben. Assim que entramos, Chloe correu para as janelas que iam do chão ao teto, maravilhada.

Uaaaau, é grande!

— É sim, amor. E nos próximos dias vamos sair para explorar tudo — garanti, rindo da empolgação dela.

Edward tirou os casacos e me lançou um olhar carregado de significado. Ele estava feliz por nos ter aqui, mas algo ainda o incomodava.

— Eu prometo que serei o melhor guia, mas antes disso… tenho uma reunião no escritório. Vocês vão ficar bem aqui? Eu pedi que deixassem tudo pronto e os armários estão abastecidos, a casa é de vocês.

O ar na sala pareceu mudar quando ele me avisou que o motorista na verdade era um segurança particular que o seguia quando estava aqui, e que outro ficaria na porta. Edward nunca havia mencionado sobre a necessidade de seguranças. Eu fiquei tensa quando ele saiu, parecendo intimidada pelo ambiente luxuoso demais.

Era como se nós não devêssemos estar aqui. O silêncio que tomou conta do apartamento assim que a porta se fechou foi quase ensurdecedor.

Chloe ainda estava encantada com a vista, pressionando as pequenas mãos contra o vidro enquanto observava os carros minúsculos se movendo lá embaixo — deixando marcas na janela, quase como se quisesse mostrar que aquele espaço também era seu. Eu, por outro lado, não conseguia afastar a sensação de que algo estava… fora do lugar.

A sofisticação daquele lugar me lembrava do homem que Edward costumava ser antes. O ambiente impecável e claro, os móveis elegantes, o silêncio quase solene. A única coisa que quebrava essa imagem era a presença da mala de brinquedos de Chloe e a nossa bagagem um pouco desorganizada ao lado do sofá.

Respirei fundo e tentei afastar aquele pensamento. Era só uma viagem. Edward queria nos mostrar sua cidade, e nós íamos aproveitar.

— O que acha de tomarmos café da manhã, amor? — perguntei para Chloe, tentando me ocupar.

— Com chá?

Sorri.

— Com chá.

Fui até a cozinha moderna e equipada, surpresa ao encontrar o armário já abastecido, como Edward dissera. Pães, frutas, cereais… e, claro, uma seleção impressionante de chás. Peguei um de camomila para Chloe e preparei algo para mim, tentando me sentir mais à vontade naquele espaço que não parecia nosso.

Depois do café, tentei encontrar algo para fazer com Chloe dentro do apartamento enquanto esperávamos Edward. Brincamos um pouco no tapete da sala, assistimos desenhos na TV enorme, mas era impossível ignorar os seguranças do lado de fora. Eu podia vê-los pelo reflexo do vidro, e a sensação de que algo estava errado não me abandonava.

Pensei em mandar uma mensagem para Edward perguntando sobre isso, mas me segurei. Ele já estava lidando com coisas demais. Quando voltasse, conversaríamos.

O dia em Londres estava frio e nublado, como sempre, mas o calor dentro do apartamento e a presença animada de Chloe tornavam tudo mais aconchegante. Ela estava adorando cada segundo e eu quase vi seus olhos saltarem da cabeça quando entramos em mais um cômodo.

— Uau, mamãe! — exclamou, com os olhos arregalados;

A suíte era ampla, iluminada por mais janela que ocupava toda a parede. O cinza do céu londrino entrava pela cortina fina, suavizando o brilho do ambiente. A decoração era discreta, elegante, do jeito de Edward: móveis em tons neutros, linhas retas, tudo muito organizado. Um contraste gritante com a energia caótica e adorável da nossa filha.

Havia uma poltrona perto da janela e, sobre ela, um cobertor dobrado cuidadosamente. O cheiro dele estava por todo lugar — não só o perfume que ele usava, mas aquele aroma familiar e difícil de descrever que era só dele. Respirei fundo, tentando absorver um pouco daquela sensação de pertencimento, mesmo longe de casa.

Atravessando mais uma porta, o banheiro parecia ter saído de uma revista. No canto, quase reluzindo, uma banheira enorme, com bordas arredondadas e torneiras douradas que brilhavam sob a luz suave de mais uma janela que pegava quase toda a parede. O banheiro da suíte era quase do tamanho da nossa sala em Forks, com piso de mármore claro que refletia cada movimento com elegância silenciosa.

Chloe segurava minha mão enquanto eu girava os registros, observando a água quente se misturar com o vapor perfumado que começava a subir.

— O papai tem uma piscina! — ela disse com os olhos arregalados, completamente encantada.

Sorri, puxando o elástico do cabelo dela com cuidado.

— Quase isso, sole. Mas essa é só nossa hoje.

Ela balançou a cabeça e começou a tirar as meias com esforço, sentando no tapete felpudo, rindo sozinha quando uma das meias voou longe.

Deixei os sais de banho se dissolverem na água, liberando um aroma leve de lavanda — o favorito dela. O som da água correndo e o calor do banheiro tornavam tudo mais lento, mais calmo. Depois de tantas horas no avião, atravessando fusos e cochilos quebrados, esse momento parecia um prêmio.

Quando nos acomodamos na banheira, Chloe se encostou no meu peito com os bracinhos apoiados nas minhas pernas. O silêncio confortável entre nós foi quebrado apenas pelas bolhas que ela tentava estourar com o dedo.

— Quero morar aqui — ela disse de repente.

— Aqui na banheira? — perguntei, rindo baixinho, enquanto passava a mão nos cachinhos úmidos dela.

— Aqui em Londês. Com você e o papai.

Meu coração apertou de leve. Era incrível como ela sempre sabia o que dizer sem nem perceber o peso das palavras. Se Edward ouvisse, ele era capaz de planejar uma obra inteira na nossa casa para que tivéssemos uma banheira igual ou maior que essa antes mesmo que voltássemos a Forks.

— Vamos ficar aqui um tempinho, todos juntos.

Ela assentiu, já quase cochilando contra mim, e ficamos ali mais um pouco, cercadas pelo calor da água e pelo conforto silencioso de estarmos finalmente paradas, depois de um dia inteiro de aeroportos, malas e corredores apressados. Do lado de fora, o céu de Londres continuava cinza, mas aqui dentro… estava tudo bem.

Depois de passarmos a manhã explorando os cômodos e nos ajustando ao novo ambiente, decidi preparar um almoço simples para nós duas.

— O que acha de fazermos um piquenique? — sugeri, enquanto pegava alguns ingredientes na cozinha.

Chloe, que estava sentada no tapete da sala brincando com seu pônei, levantou a cabeça com curiosidade.

— Aqui?

— Sim, amor. Podemos montar uma toalha no chão e fingir que estamos no parque. O que acha?

Seus olhinhos brilharam.

Siiim!

Ri do entusiasmo dela e comecei a organizar as coisas. Peguei um cobertor macio e o espalhei sobre o carpete da sala, depois trouxe pratos, suco e alguns sanduíches cortados em triângulos pequenos.

Chloe se sentou ao meu lado e ajudou a organizar as coisas com suas pequenas mãos.

— Mamãe, eu gosto de Londês — ela disse de repente, mordendo um pedaço do pão.

Eu passei a mão por seus cabelos brilhantes. Sempre me surpreendendo.

— O que você mais gostou até agora?

Ela mastigou pensativa antes de responder.

— Da janelona! Da piscina do papai! E do chá!

Soltei uma risada.

— Seu tio Seth realmente te convenceu de que chá é a coisa mais incrível do mundo, não foi?

Chloe sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.

— E o papai gosta de chá também?

Meu coração aqueceu ao ouvir isso.

— Sim, sole. Ele adora chá, às vezes toma com leite.

Ela arregalou os olhos para mim antes de fazer a pergunta mais absurda de todos os tempos.

— Mamãe, o papai toma chá com o seu leite?

Eu quase engasguei com o pedaço de pão.

— Não! Não, Chloe. Não é nada disso — eu me levantei do cobertor, procurando por ar. Ela me encarou com os olhinhos inocentes e curiosos — Adultos tomam outro leite, um que compramos no mercado.

Minha mente parecia estar em branco enquanto eu tentava encontrar as palavras para explicar de uma maneira que ela entendesse. Por que nós começamos a falar de chá, em primeiro lugar? Ela não lembrava de ver leite na mesa do café da manhã em casa? Muitas perguntas, mas eu não queria fazê-las agora e estender esse assunto.

Ela continuou comendo, distraída, enquanto brincava com um dos guardanapos.

— Mamãe, o papai tá triste?

— Como assim, amor?

Chloe olhou para mim com a expressão inocente de uma criança que não entende completamente o mundo ao seu redor, mas sente tudo com uma clareza assustadora.

— Eu acho que ele tá triste.

Passei a mão suavemente pelos cachinhos dela.

— Acho que ele só está pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, mas está muito feliz de ter você aqui.

Ela assentiu e voltou a se concentrar em seu lanche, satisfeita com a resposta.

Depois do almoço improvisado, arrumei tudo enquanto Chloe voltava a brincar. Ela estava concentrada montando um pequeno quebra-cabeça quando um som inesperado quebrou o silêncio do apartamento.

Uma batida firme na porta, fazendo meu corpo ficar tenso imediatamente. Eu sabia que os seguranças estavam do lado de fora, então quem quer que fosse não deveria ser uma ameaça. Ainda assim, meu coração bateu mais rápido.

— Mamãe? — Chloe me olhou com curiosidade, percebendo minha hesitação.

— Está tudo bem, sole. Continue brincando, eu já volto.

Caminhei até a porta e a abri devagar. Do outro lado, um dos seguranças, um homem alto e robusto, vestindo um terno escuro, me encarava com uma expressão neutra.

— Sra. Cullen, um envelope foi deixado para seu marido.

Sra. Cullen, eu gostei de como soou. Ele me entregou o objeto. O papel era grosso, e não havia remetente ou qualquer tipo de identificação.

— Quem deixou isso? — perguntei, mantendo minha voz firme.

— Foi deixado na recepção do prédio há cerca de uma hora.

— E vocês não viram quem foi?

— Não, senhora. A instrução da recepção era entregá-lo imediatamente.

A forma como ele disse aquilo me incomodou.

— Quem os instruiu?

O homem permaneceu em silêncio por um momento antes de responder.

— Apenas seguimos ordens, senhora.

Algo na maneira como ele falou me fez perceber que ele não diria mais nada. Segurei o envelope com força, sem desviar o olhar.

— Ordens de quem?

Ele apenas me lançou um olhar cauteloso antes de inclinar a cabeça levemente.

— Se precisar de algo, estaremos aqui.

E então ele se afastou. Fiquei parada por alguns segundos, sentindo o peso do que quer que estivesse dentro daquele envelope. Respirei fundo e fechei a porta, guardando o envelope em uma das gavetas do aparador da sala, longe do alcance de Chloe. Eu não queria abrir sem Edward, mas também não sabia se queria mesmo ver o que havia ali. O simples fato de ter sido deixado assim, sem identificação, já era o suficiente para me deixar inquieta.

Voltei para perto da minha filha e tentei me distrair com ela, ajudando-a a montar o restante do quebra-cabeça. Mas minha mente não estava ali. A cada peça encaixada, eu pensava no olhar do segurança. No silêncio dele. Quando Edward chegou cerca de meia hora depois, encontrou-me sentada no sofá, o envelope repousando ao meu lado como se fosse uma bomba prestes a explodir.

Chloe estava brincando no tapete, totalmente alheia à tensão, e disparou para os braços dele. Ele percebeu minha expressão imediatamente e se aproximou devagar, me dando um beijo rápido.

— Como foi por aqui? Tudo bem?

— Chloe vai te contar — murmurei, sorrindo de leve — Mas… temos que conversar depois.

O olhar dele se estreitou. Ele assentiu devagar, entendendo que não era algo para ser dito diante dela.

— Papai, a mamãe fez piquenique! — Chloe anunciou com entusiasmo — No chão!

Edward arqueou uma sobrancelha, rindo.

— No chão? Isso sim é uma surpresa. Teve chá?

— Com leite! Mas do mercado, tá?

Eu quase engasguei e Edward olhou para mim, confuso.

— Longa história — só balancei a cabeça.

— Papai, depois nós tomamos banho e eu quero uma piscina em casa igual a sua!

Ele sorriu, mas seus olhos voltaram a ficar sérios quando pousaram nos meus.

— Tenho certeza que podemos providenciar isso, sole — claro que ele diria isso. Eu não tinha dúvidas de que encontraria uma banheira em casa quando chegasse — Agora, por que você não escolhe um filme na televisão enquanto vou trocar de roupa?

Minutos depois, Edward surgiu na sala com uma camiseta preta e calça de moletom — parecia mais com o homem que dividia comigo os dias em Forks do que com o advogado frio que aquele apartamento tentava lembrar.

— O que aconteceu? — perguntou, quando percebeu que Chloe estava entretida demais com um filme na televisão.

Peguei o envelope e o entreguei para ele.

— Isso foi deixado na recepção. Seus seguranças o trouxeram até mim.

Edward franziu o cenho e pegou o envelope, analisando-o.

— Quem entregou?

— Eles não sabem. Ou não quiseram me dizer.

Ele estreitou os olhos, claramente não gostando da resposta, antes de rasgar a aba do envelope e puxar os papéis de dentro. Seu olhar percorreu as primeiras linhas e, com um suspiro, ele revelou o conteúdo para mim.

— É sobre minha mãe.

Meu coração acelerou.

— Elizabeth?

Ele assentiu, ainda absorvendo as palavras diante dele.

— São registros de um apartamento. No nome dela.

Pisquei, surpresa.

— Mas… ela viveu com seu pai desde que veio morar aqui, não?

— Pelo que eu lembro, sim.

Ele folheou mais algumas páginas antes de parar subitamente, sua expressão se tornando ainda mais fechada.

— Tem algo errado aqui.

Me aproximei e olhei para o que ele segurava. Uma foto antiga estava anexada ao documento, mostrando um prédio discreto em algum lugar de Londres.

— Você já viu esse lugar antes?

Ele balançou a cabeça.

— Nunca. Mas tem um endereço.

Nossos olhares se encontraram, e senti o peso do que aquilo poderia significar.

— Você quer ir até lá, não quer?

Ele não precisou responder. A história que o pai de Edward tentou esconder estava começando a emergir. E agora, ele estava determinado a descobrir a verdade.

A noite caiu sobre Londres enquanto eu e Edward nos preparávamos para sair. Chloe já estava segura com Rosalie e Emmett, animada demais em revê-los para notar que algo estava diferente. Nós prometemos contar tudo na volta, e eu não ia decepcionar uma grávida.

O endereço no documento nos levou a um bairro discreto e afastado do centro, com ruas de paralelepípedos e prédios antigos. Não era um lugar onde eu imaginaria Elizabeth Cullen morando – especialmente sendo esposa de um homem como Edward Cullen Sr.

Quando paramos em frente ao prédio, Edward ficou em silêncio por um longo momento, apenas observando a fachada.

— Você tem certeza de que quer fazer isso hoje? — perguntei suavemente.

Ele respirou fundo antes de assentir.

— Eu preciso.

Subimos os poucos lances de escada até o terceiro andar. A porta do apartamento 33 parecia como qualquer outra, sem sinal de que escondia qualquer grande segredo. Edward testou a maçaneta e, para nossa surpresa, a porta se abriu. Ele trocou um olhar comigo antes de entrar.

O ar dentro do apartamento era seco e uma fina camada de poeira cobria os móveis, mas nada ali parecia abandonado. Era como se alguém tivesse saído um dia e nunca mais voltado.

— Parece… habitado — murmurei — Ou pelo menos, cuidado.

Edward caminhou lentamente pelo ambiente, passando os dedos pelo encosto do sofá antes de parar em frente a uma estante de madeira. Ele pegou um pequeno porta-retrato virado para baixo e o virou para mim.

Era uma foto de uma mulher segurando um bebê. O rosto de Edward ficou rígido.

— Essa foto… Eu nunca vi antes.

Me aproximei para olhar melhor. Claramente era a mãe de Edward, Elizabeth, jovem, talvez no início dos vinte anos. Seu sorriso era suave, mas havia algo nos olhos dela. Algo triste.

Edward seguiu para outro cômodo – um quarto pequeno, com uma cama arrumada e uma cômoda com gavetas semiabertas, como se estivessem esperando por nós. Nesse momento, eu agradeci pelo segurança lá fora, porque algo aqui não estava certo. Em cima do móvel, estava um conjunto de cartas amareladas pelo tempo. Ele pegou uma, abriu e, começando a ler, seu rosto mudou.

Meus olhos se ergueram para encontrar os de Edward, que engoliu em seco. O silêncio dentro do apartamento parecia mais pesado agora. Ele permaneceu imóvel, segurando a folha, enquanto seus olhos percorriam a pequena cômoda. Então, como se tivesse sido tomado por uma urgência súbita, começou a abrir as gavetas com pressa.

Suas mãos eram ágeis revirando os compartimentos até que, em uma gaveta mais funda, encontrou um pequeno maço de cartas amarradas por uma fita desbotada.

Eu me aproximei lentamente, sentindo meu coração acelerar.

— São todas dela?

Ele assentiu, puxando a fita e soltando as cartas sobre a cama. Algumas tinham endereços escritos no envelope. Outras estavam apenas dobradas cuidadosamente, como se ela tivesse planejado enviá-las, mas nunca o fez.

Edward pegou a primeira delas.

— Essa é para mim.

Meu peito apertou.

— Quer que eu saia para você ler?

Ele balançou a cabeça rapidamente.

— Não. Quero você aqui.

Ele abriu o papel amarelado e começou a ler em voz baixa.

"Meu querido Edward,

Se você está lendo isso, significa que de alguma forma essas palavras chegaram até você. Eu queria que fosse diferente. Eu queria que você ouvisse isso de mim, não de uma carta.

Por toda sua vida tentei protegê-lo, mas agora temo que não consiga mais. Há verdades que escondi de você porque achei que era o certo. Mas todos os dias me pergunto se estou cometendo o mesmo erro que seu pai cometeu comigo — controlar sua vida sem que você perceba.

Eu queria que você crescesse sabendo quem realmente é. Eu queria que você soubesse que nunca pertenceu ao mundo que ele criou para você. Eu queria poder te proteger por muitos e muitos anos ainda. Você tem um coração puro, eu sei disso. Você merece algo melhor.

E, acima de tudo, você merece saber a verdade: Você não é filho dele. Independentemente do que aconteça, saiba que você sempre tem uma escolha.

Espero que me perdoe.

Com amor, mamãe."

As mãos de Edward tremeram ligeiramente enquanto segurava a carta.

— Ela queria me contar — ele murmurou, quase para si mesmo — Ela queria que eu soubesse.

Minha garganta estava seca. Ele respirou fundo antes de pegar outra carta. Dessa vez, o destinatário era claro.

— Essa é para Carlisle.

O nome dele estava escrito em uma caligrafia delicada no envelope que Edward abriu com cuidado, e eu vi seus olhos percorrerem as palavras rapidamente.

Então, ele prendeu a respiração.

— O que foi?

Ele não respondeu de imediato. Apenas estendeu a carta para mim, sua expressão vazia, como se estivesse tentando processar o que acabara de ler. Peguei o papel e comecei a ler.

"Carlisle,

Espero que esta carta chegue até você. Não sei por quanto tempo conseguirei esconder isso de Edward. Ele está ficando mais atento a cada dia. Mas você merece saber. Você sempre mereceu saber.

Edward, o meu Edward, é seu filho.

Eu deveria ter te contado antes, mas o medo me impediu. Eu temia o que seu irmão faria se descobrisse que ele não era o pai biológico do menino que criou durante esses anos. Temo ainda mais o que ele pode fazer agora que desconfia.

Se as coisas tivessem sido diferentes, se eu tivesse sido mais corajosa, talvez Edward tivesse crescido com um pai que realmente o amava, não com um homem que quer moldá-lo para ser sua própria cópia.

Se algum dia ele descobrir a verdade, espero que possa perdoar minha covardia. Espero que Esme nos perdoe também.

Com carinho,
Elizabeth."

Olhei para Edward, sentindo meu coração pesar por ele. Ele continuava imóvel, os olhos fixos na carta, mas seu rosto estava mais pálido do que nunca. Me preocupei que talvez ele desabasse ali mesmo.

— Ele te criou como herdeiro, mesmo sabendo que você nunca foi biologicamente dele.

Edward soltou uma risada sem humor, esfregando a mão no rosto.

— Ele me manipulou, me treinou, me transformou em quem ele queria que eu fosse… sabendo que eu nunca pertenci a ele. Isso é sádico.

O peso da verdade parecia esmagador. Elizabeth quis contar. Quis impedir que Edward crescesse sob as sombras do homem que o criou. Mas ela não conseguiu. Não teve tempo.

E agora, Edward estava lidando com as consequências de uma vida inteira de mentiras. Eu queria dizer algo para confortá-lo, mas sabia que palavras não seriam suficientes.

Então, apenas me aproximei e segurei sua mão. Ele apertou meus dedos de volta, sem dizer nada. O silêncio no apartamento era pesado, preenchido apenas pelo som distante da cidade do lado de fora.

Edward ainda segurava a carta de sua mãe, seus olhos fixos no papel, como se pudesse arrancar mais respostas dali se olhasse por tempo suficiente.

— Eu preciso entender o que aconteceu — ele disse finalmente, a voz baixa e carregada de uma emoção contida.

Eu sabia que ele não estava apenas tentando compreender a verdade. Ele estava tentando se encaixar nela.

— Por onde começamos? — perguntei suavemente.

Edward respirou fundo, passando a mão pelos cabelos bagunçados antes de olhar ao redor.

— Esse apartamento. Ele nunca foi mencionado, nunca apareceu em nenhum documento que meu pai me deixou. Se minha mãe o manteve, significa que havia algo aqui que ela queria preservar. Nós viemos aqui por algum motivo.

Ele começou a vasculhar o ambiente com mais atenção, abrindo gavetas, puxando caixas de cima do armário. Eu fiz o mesmo, tentando encontrar qualquer pista. Foi quando vi algo diferente na parte de trás do armário do quarto. Uma pequena fenda, como se houvesse um compartimento escondido.

— Edward… vem ver isso.

Ele se aproximou rapidamente, e juntos empurramos a lateral do móvel. Atrás dela, havia uma pequena caixa de madeira. Edward a pegou com cuidado, sua expressão se fechando. Ele a abriu devagar e, dentro, havia um conjunto de fotos, algumas cartas e um diário.

Meu coração acelerou.

— O diário da sua mãe — murmurei.

Edward passou os dedos pelas páginas gastas antes de abrir a primeira. Sua respiração ficou presa na garganta ao ler as primeiras palavras escritas em uma tinta desbotada pelo tempo.

"O dia em que me casei com Edward foi como o início de um sonho. Eu agora era Elizabeth Cullen, esposa de um dos homens mais respeitados do Reino Unido"

Meu peito apertou ao ver a expressão de Edward endurecer. Ele virou a página e continuou lendo, sua voz baixa e carregada de emoção.

"Eu era jovem, e tudo parecia um conto de fadas. Até que deixou de ser. O homem que se tornou meu marido nunca foi cruel aos olhos do mundo. Mas dentro de casa… eu era uma prisioneira."

Edward fechou os olhos por um momento antes de virar a página.

"Os primeiros meses em Londres foram um borrão de expectativas e obrigações. Eu fazia tudo que esperavam de mim, tentava agradar. Mas então, eu engravidei. E, por um breve momento, pensei que poderia ser feliz. Pensei que poderia encontrar um propósito nisso. Eu achei que aquela era a minha segunda chance. Até que a verdade bateu à minha porta."

O olhar de Edward encontrou o meu.

— A verdade sobre mim — ele murmurou.

Assenti, sentindo um nó se formar na garganta. Ele continuou lendo.

"Quando descobri que o bebê não era de Edward, mas de Carlisle, o medo tomou conta de mim. Eu sabia que não poderia contar. Não para ele. Não para Esme. Não para ninguém. Mas Edward… ele sabia. Talvez não de imediato, mas ele sempre soube… Sempre esteve lá. E ele usou isso contra mim pelo resto da minha vida."

Edward travou a mandíbula, os olhos escurecendo.

— Ele sabia.

Eu engoli em seco.

— E usou isso para te manter sob controle.

Ele virou mais algumas páginas, as mãos tremendo levemente.

"Eu pensei em fugir. Muitas vezes. Eu pensei em contar a verdade para Carlisle, contar para Edward, contar para qualquer um. Mas ele sempre estava um passo à frente. Sempre sabia quando eu cogitava fazer algo. E então ele me ameaçou."

Edward parou de ler por um instante, como se precisasse de um momento para processar. Minha mente girava. Ele continuou depois de um minuto.

"Ele me disse que se eu o deixasse, eu nunca mais veria meu filho. Que ele me afastaria de Edward, me faria parecer incapaz, frágil e instável. Ele tinha contatos. Tinha influência. Eu sabia que ele era capaz de cumprir a ameaça."

Meu estômago revirou.

— Ele teria feito isso.

Edward assentiu lentamente, seus olhos cheios de algo que eu não conseguia decifrar.

— Ele fez isso. Comigo.

Meu coração apertou ao perceber do que ele estava falando. Edward Sr. não apenas destruiu a vida de Elizabeth. Ele também tentou fazer o mesmo com Edward, manipulando a separação entre nós e garantindo que ele nunca soubesse sobre Chloe. Era o mesmo padrão. As mesmas táticas.

E, de alguma forma, mesmo após sua morte, ele ainda estava deixando cicatrizes.

Edward fechou o diário com um estalo e passou as mãos pelo rosto.

— Ele roubou a vida da minha mãe.

Senti um nó na garganta, mas me mantive firme.

— Mas agora você sabe.

Ele levantou os olhos para mim, e pela primeira vez desde que entramos ali, vi algo além da dor. Determinação.

— Agora, eu posso garantir que ele nunca mais controle nada na minha vida.

E naquele momento, eu soube que essa era a verdadeira libertação de Edward. Não apenas das mentiras do pai, mas do peso de uma vida que nunca foi completamente sua.

Depois que saímos do apartamento de Elizabeth, Edward parecia diferente. Ele estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio — era um que carregava peso, pensamento, raiva e determinação. Eu sabia que ele precisava de tempo para processar tudo.

Voltamos para o carro e seguimos em direção ao apartamento de Rosalie e Emmett. O trânsito de Londres era intenso, e as luzes da cidade refletiam nas janelas enquanto eu observava Edward, que permanecia com uma expressão tensa.

Finalmente, ele quebrou o silêncio.

— Você já percebeu que eu nunca tive seguranças em Forks, certo?

A pergunta veio de repente, e eu soube que ele estava respondendo à dúvida que vinha rondando minha mente desde que chegamos.

— Sim — admiti — E estava esperando você me dizer o motivo.

Ele soltou um suspiro longo, mantendo os olhos na estrada lá fora.

— Aqui… é diferente.

— Diferente como?

Ele apertou a mão por um instante antes de responder.

— Quando meu pai morreu, descobrimos que ele deixou um rastro de inimigos. Pessoas que ele manipulou, enganou, usou para seus próprios propósitos. Muitos deles eram sócios, investidores, advogados de alto escalão. Mas alguns… eram pessoas perigosas.

Franzi o cenho.

— Você quer dizer criminosos?

Edward assentiu levemente.

— Durante anos, ele manteve negócios paralelos que nunca apareceram nos registros oficiais. Dinheiro movimentado em lugares errados, acordos obscuros… coisas que eu nunca soube até que precisei lidar com tudo que ele deixou para trás.

Eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Então, quando ele morreu…

— Muitos desses negócios ficaram sem resolução — Edward completou, sua voz baixa — E o nome Cullen ainda carrega peso para algumas dessas pessoas.

O nó no meu estômago apertou.

— Você acha que essas pessoas ainda podem representar uma ameaça?

Edward desviou os olhos rapidamente para me encarar.

— Eu não sei, mas não vou correr o risco.

Minha mente girava. Edward sempre fora cuidadoso, mas agora eu entendia o porquê.

— Por que nunca me contou isso antes?

Ele soltou o ar devagar antes de responder.

— Porque em Forks… eu estava seguro. Você e Chloe estavam seguras. Lá, eu era apenas Edward. Aqui, sou Edward Cullen.

Ele disse isso com um tom de desprezo, como se o nome carregasse um peso que ele nunca quis.

— Mas se há riscos, por que estamos aqui?

Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Porque eu precisava fechar esse capítulo da minha vida. Me desculpe, Bella, vendo agora… percebo que foi uma péssima ideia trazer vocês aqui.

Eu absorvi suas palavras, tentando processar tudo.

— Edward… há algo que eu deveria estar preocupada?

Ele pegou minha mão suavemente e a apertou.

— Não vou deixar nada acontecer com vocês.

Isso não era exatamente uma resposta, mas eu sabia que era a única que ele poderia me dar no momento.

Olhei pela janela, observando as ruas passarem rapidamente. A sensação de que estávamos sendo observados não parecia mais apenas um reflexo da minha imaginação.

E eu me perguntei: será que os fantasmas do passado de Edward estavam realmente enterrados? Ou ainda havia mais segredos esperando para serem descobertos?