A luz suave do sol invadia o quarto com delicadeza, aquecendo as paredes simples e dourando o tatame sob meu corpo. O vento soprava pela janela entreaberta, trazendo consigo o cheiro fresco das primeiras horas da manhã. Aquela serenidade, no entanto, contrastava com a agitação silenciosa dentro de mim.
Hoje não era um dia qualquer.
O Exame da Academia Ninja estava prestes a começar — e com ele, um novo ciclo na minha vida.
Abri os olhos devagar, tentando domar o turbilhão de pensamentos que ameaçava me engolir. Levantei e fui direto ao banheiro. A água fria no rosto me despertou, mas foi meu próprio reflexo no espelho que realmente me fez encarar a realidade. Havia algo diferente nos meus olhos. Uma firmeza tímida, mas presente. Como se, lá no fundo, eu soubesse que tudo mudaria a partir dali.
Medo? Sim. Mas não era o tipo que paralisa. Era o tipo que avisa: é agora ou nunca.
Voltei para o quarto e vesti o uniforme da academia. Já o usara tantas vezes, mas hoje ele parecia mais pesado — como se cada costura carregasse uma lembrança de todos os dias de treino, suor e quedas que me trouxeram até aqui.
Desci as escadas em silêncio. Meus pais ainda dormiam, e por um instante, esse silêncio me protegeu. Na cozinha, preparei um café da manhã simples. Nada diferente de sempre — um pouco de arroz, chá morno e fruta cortada. Mas cada mordida parecia feita com a consciência de que, mais do que nutrir o corpo, eu precisava acalmar a alma.
O nervosismo ainda estava ali, feito nó no estômago. Mas eu me recusei a deixá-lo crescer. Inspirei fundo. Lentamente. Três vezes.
Depois, peguei meu estojo com os equipamentos básicos: kunais afiadas, cordas de fibra leve e, com o cuidado que se reserva a um símbolo, o protetor de testa com o emblema de Konoha.
Prendi o cabelo num coque alto, como de costume, deixando o rosto livre e a nuca fresca.
Antes de sair, parei por um segundo na porta. Era estranho pensar que aquele lar silencioso logo ficaria para trás, mesmo que só por algumas horas. Suspirei. Não havia mais tempo a perder. O exame não esperaria por ninguém.
O caminho até a academia foi mais longo do que eu lembrava. As ruas, as casas, até mesmo as árvores pareciam me observar em silêncio. A cada passo, meu coração batia mais rápido — como um tambor anunciando a chegada de algo grandioso. O vento me refrescava o rosto, e por um momento, tentei deixar que ele levasse embora a tensão presa nos meus ombros.
Vi outros alunos pelo caminho. Alguns andavam sozinhos, tão focados quanto eu. Outros conversavam baixinho, tentando disfarçar o nervosismo em palavras. Ninguém ria alto. Ninguém brincava. Todos sabiam o peso daquele dia.
E então, finalmente, avistei os portões da academia.
O campo de treinamento já estava tomado. Os instrutores davam as últimas orientações, organizando os grupos com firmeza e clareza. O cheiro de terra batida e madeira ressecada encheu meus pulmões, trazendo com ele memórias de treinos passados, de tombos e levantadas, de dias em que pensei em desistir... e não desisti.
Aquela era a mesma terra onde tantos outros haviam começado antes de mim. O mesmo chão que testemunhou a formação de verdadeiros ninjas.
Agora, era minha vez.
As primeiras palavras do instrutor cortaram o ar como uma kunai lançada com precisão.
— Preparem-se. O exame começa agora.
Aquelas poucas palavras ecoaram em minha mente com mais impacto do que deveriam. O silêncio que se seguiu foi denso, quase físico. Como se todos, de repente, segurassem a respiração. Meus olhos correram pela sala, captando fragmentos de nervosismo nos rostos ao meu redor.
Naruto, como sempre, sorria — aquela expressão boba que escondia uma teimosia feroz. Sakura, por outro lado, estava diferente. Mais séria, concentrada. O olhar dela parecia afiado como uma lâmina, como se nada ao redor pudesse distraí-la. Havia algo em sua postura que não era apenas determinação — era superação. Ela parecia pronta para algo além de uma simples prova escrita.
Engoli em seco e endireitei minha postura. Respirei fundo, forçando a mente a entrar no eixo. O exame da Academia Ninja era o primeiro grande obstáculo. Um passo entre a infância e o verdadeiro caminho shinobi. E esse passo exigia mais do que só conhecimento — exigia controle, foco e resistência emocional. Se falhasse aqui, não haveria uma segunda chance tão cedo.
O instrutor começou a passar pelas mesas, distribuindo as folhas com a mesma rigidez militar de sempre. Peguei a minha, mãos firmes apesar do frio que sentia na barriga. As letras na primeira página estavam nítidas, impiedosas. A prova estava dividida por temas e técnicas, e cada pergunta parecia pesar toneladas.
A primeira questão me olhou como um desafio pessoal:
"Explique as condições ideais para usar o Henge no Jutsu e as falhas mais comuns ao tentar executá-lo."
Fechei os olhos por um breve instante, revisando mentalmente cada explicação da aula. Henge no Jutsu. Técnica de transformação. Simples na teoria, traiçoeira na prática. A chave era manter o fluxo de chakra constante e a concentração intacta. Qualquer flutuação, qualquer distração… e a forma se quebrava. Comecei a escrever, descrevendo o ponto exato em que o chakra deveria ser estabilizado, as falhas por distração emocional, e os casos mais comuns de transformação incompleta. Respirei fundo, avancei.
"O que é o Bunshin no Jutsu e como ele pode ser utilizado em combate?"
Essa era mais tranquila. Sabia que os clones criados não tinham substância, mas poderiam enganar com eficiência. O segredo não era a força — era a ilusão. Estratégia pura. Um inimigo distraído por um clone podia abrir brechas valiosas. Escrevi isso com confiança, adicionando uma observação sobre como o uso combinado com arremesso de shurikens podia confundir ainda mais.
"Descreva o funcionamento do Kawarimi no Jutsu e em que tipo de situação ele seria mais eficaz."
A substituição — a arte de escapar da morte em um instante. Um tronco, uma pedra, até um pássaro capturado em uma armadilha, qualquer coisa servia, desde que houvesse tempo para formar os selos. Anotei com cuidado a importância da antecipação. O Kawarimi era menos sobre técnica e mais sobre leitura de combate, sobre saber o momento exato de desaparecer.
"O que é o Shurikenjutsu e como o uso de shurikens pode ser parte de uma estratégia de combate?"
Pensei nos treinos, nos alvos de madeira, nos estalos secos quando as lâminas acertavam ou erravam. O Shurikenjutsu exigia mais do que mira. Era ritmo, era tempo. Uma shuriken podia não derrubar um inimigo, mas podia distraí-lo. Forçá-lo a se mover. Abrir uma defesa. Anotei tudo isso, incluindo variações de ângulos e como lançar com impulso do corpo inteiro.
"Explique como o conhecimento de um terreno pode influenciar as estratégias de combate de um ninja."
Essa me fez parar por um momento. Era uma pergunta que tocava menos a técnica e mais a mentalidade. Pensei nas trilhas da floresta onde treinei, nos riachos que tornavam o solo escorregadio, nas sombras que escondiam armadilhas. Terreno era mais do que cenário. Era arma. Era escudo. Era armadilha. Escrevi sobre como um bom ninja adaptava sua estratégia ao solo onde pisava, e como um excelente ninja usava o próprio terreno como aliado.
A sala inteira estava imersa num zumbido abafado de canetas riscando, suspiros contidos e tensão suspensa. Cada segundo era precioso. As perguntas vinham uma após a outra, e o suor frio já escorria pela base do meu pescoço.
"Quais são as desvantagens de lutar à noite e como um ninja pode se proteger contra isso?"
Lutar na escuridão… A ausência da luz era mais do que apenas um obstáculo visual. Era um inimigo invisível. A falta de visibilidade transformava o campo de batalha em um jogo de adivinhação. Um passo em falso e tudo estaria perdido. Descrevi como a noite escondia o som, distorcia sombras e dificultava ataques de longa distância. Mencionei a importância de reforçar os sentidos — audição, tato, até mesmo percepção de chakra. Era preciso se adaptar.
E então — o silêncio que anunciava o fim. O instrutor deu um passo à frente e recolheu as provas. Meus dedos estavam rígidos, minha mente exausta. Mas a primeira parte havia acabado. Não havia mais nada que eu pudesse fazer ali.
Quando o último exame foi levado, o som das cadeiras sendo empurradas e o leve burburinho da tensão sendo solta ecoaram pela sala. Alguns relaxaram, outros apenas se calaram, ainda mergulhados nas próprias inseguranças. Eu respirei fundo. Um passo havia sido dado. Mas o caminho estava longe de terminar.
Um dos instrutores — o mesmo com olhar de pedra e ombros de aço — entrou na sala.
— Todos para o pátio de treinamento. A próxima etapa será prática — anunciou, firme como sempre.
Me levantei junto aos demais. Os passos em direção à porta pareciam mais pesados. Lá fora, o sol nos recebeu como se também testasse nossa resistência. O pátio estava pronto: alvos de madeira, troncos de substituição, faixas delimitando áreas de combate. E vários instrutores observando, braços cruzados, olhos atentos.
Agora, não haveria caneta, nem cadernos. Agora era o corpo. Agora era a alma.
A primeira parte do exame havia acabado. Ainda me sentia um pouco tonta por causa da tensão da prova escrita, mas não havia tempo para respirar fundo ou relaxar. Mal entregamos as folhas e já fomos conduzidos para o pátio de treinamento da Academia.
O céu límpido ganhava os primeiros tons dourados do sol nascente, que subia preguiçoso no horizonte, aquecendo aos poucos a terra batida e os telhados silenciosos ao redor. O som de passos ecoava pelo corredor, misturado às conversas nervosas dos outros alunos. O ar da manhã trazia consigo um cheiro forte de terra úmida, misturado ao perfume suave das flores no jardim lateral. Se não fosse pela tensão que pairava sobre nós, o lugar até pareceria acolhedor.
O pátio estava preparado especialmente para a segunda etapa. Cones laranjas marcavam trajetos, cordas estavam presas entre postes, troncos de madeira se equilibravam sobre estacas, e cordas pendiam de estruturas metálicas, como em um verdadeiro campo de testes. A grama nas bordas ainda brilhava com o orvalho da manhã, enquanto uma leve brisa balançava os galhos altos das árvores ao redor.
Formamos duas fileiras diante de três instrutores da Academia. Um deles era conhecido por ser exigente – o tipo de ninja que percebia até o menor erro de postura. Ele segurava uma prancheta repleta de papéis e seu olhar percorria cada um de nós com atenção silenciosa. Quando seus olhos passaram por mim, minha espinha se enrijeceu por reflexo.
— Parabéns por chegarem até aqui — ele começou, com voz firme e clara. — Mas a parte teórica foi apenas o aquecimento. Agora vamos ver se o que vocês aprenderam também vive no corpo. Esta fase será puramente física. Nada de chakra, nada de jutsus. Aqui vamos testar força, agilidade, resistência e, acima de tudo, disciplina. Só quem controla o próprio corpo pode, um dia, controlar suas técnicas.
Engoli em seco. Ao meu lado, alguns alunos esticavam os braços e pernas nervosamente. Outros respiravam fundo, como se tentassem convencer o próprio corpo de que ele aguentaria. Um menino mais alto que eu ajeitou a testa, como se tocasse uma bandana invisível — um gesto automático, talvez por ansiedade. Eu não fiz nada. Apenas mantive os pés firmes no chão e olhei para frente, buscando manter a respiração calma. O momento havia chegado.
— Começaremos com a corrida de resistência — disse o instrutor, apontando para a trilha de terra que contornava toda a área da Academia. — Duas voltas completas. Não é sobre velocidade, é sobre ritmo. Quem parar no meio será avaliado negativamente. Quem se atrasar demais, também. Corram como se fossem perseguidos, mas com inteligência. Controlem seus passos. Conheçam seus limites. E superem-nos.
O apito cortou o ar como uma explosão súbita. Um estrondo coletivo de passos e respirações pesadas tomou o pátio. Disparei junto com os demais, sentindo o coração bater com força — não apenas pelo esforço físico, mas pela adrenalina bruta que subia pelas veias. O mundo parecia correr ao meu redor: a terra soltando-se sob os pés, cabelos agitados pelo vento, o som das passadas, a intensidade do momento.
No início, tudo doía — os músculos ainda frios, os ombros tensos da prova anterior, e a tontura persistente que me acompanhava como um resquício da pressão psicológica. Mas, passo a passo, senti o corpo assumir o controle. A mente se calava, e restava apenas o ritmo do sangue, o foco no movimento. O impacto ritmado dos pés no chão ecoava como um mantra que me puxava para frente.
Não importava quem corria ao lado. Aquilo era meu corpo, minha mente, meu momento. Era sobre provar — a mim mesma — que eu podia ir além.
O ar entrava em jorros ásperos pela garganta, queimando por dentro, e o suor já começava a escorrer pelas têmporas. Mas eu continuei. Porque cada batida do coração era uma lembrança viva de tudo que treinei. Cada respiração ofegante, uma prova de que eu ainda estava de pé. Ainda estava lutando.
E isso era só o começo.
A trilha da corrida parecia se estender indefinidamente, como se o tempo tivesse desacelerado de propósito só para testar nossa paciência. A cada curva, uma nova rajada de vento contra o rosto, uma nova ardência nos músculos das pernas. Alguns colegas já demonstravam sinais de cansaço. Um deles tropeçou em uma raiz saliente na beira da trilha e quase caiu. Outro já arrastava os pés, como se fossem feitos de ferro.
Mas eu seguia firme. Meus passos estavam pesados, mas constantes. As batidas do meu coração ditavam o ritmo, como um tambor de guerra. Uma respiração a cada dois passos. Braços colados ao corpo, olhos focados no chão à frente. Não havia espaço para distração. Nem mesmo para dor. Era só eu e o caminho.
Ao fim da segunda volta, um dos instrutores ergueu o braço, indicando que os que cruzavam a linha imaginária deviam parar. Reduzi o passo aos poucos até parar de vez, ofegante, com os ombros subindo e descendo em um ritmo frenético. O suor escorria pela testa e colava meus cabelos na pele. Mas eu havia conseguido. Não fui a mais rápida, mas também não fiquei entre os últimos. Um resultado satisfatório. Pelo menos por enquanto.
Agora – disse o instrutor, após todos terminarem – passaremos para o circuito de obstáculos. Força nos braços, precisão nos pés, e atenção nos detalhes. Vocês terão que escalar, se equilibrar, rastejar e saltar. Tudo isso sob o olhar atento dos avaliadores. E lembrem-se: nada de técnicas. Aqui é o corpo que fala.
Fomos levados até a lateral do pátio, onde o circuito estava montado. Havia uma parede de madeira com tábuas estreitas para escalar, seguida por um tronco suspenso por cordas para teste de equilíbrio. Mais adiante, uma rede de cordas próxima ao chão exigiria que rastejássemos por baixo sem encostar. No final, uma sequência de estacas exigia saltos precisos e controle total do corpo. Era o tipo de desafio que exigia mais do que força bruta – precisava de controle, calma e estratégia.
Esperei minha vez enquanto observava os primeiros colegas atravessarem o percurso. Alguns foram rápidos, mas escorregaram no tronco. Outros hesitaram demais na escalada. Cada erro era anotado com frieza pelo instrutor de prancheta.
Quando meu nome foi chamado, respirei fundo. Meus pés pisaram na primeira base da parede de escalada e minhas mãos rapidamente encontraram os apoios. Meus dedos se agarravam às tábuas com firmeza, e minhas pernas empurravam meu corpo para cima com movimentos curtos e decididos. O mundo lá embaixo parecia distante, mas eu não podia parar para admirar a vista. Alcancei o topo, joguei o corpo com cuidado por sobre a borda e desci pelo outro lado.
O tronco veio a seguir. Ele balançava levemente a cada passo. Um erro e eu cairia direto no chão de areia. Estiquei os braços para os lados, como asas, e andei devagar, sentindo o mundo girar por um instante. Mas me mantive firme, um passo de cada vez. Quando desci, já sentia o orgulho crescendo dentro do peito.
Me joguei ao chão e comecei a rastejar sob a rede de cordas. O cheiro de terra era forte, e pequenos pedriscos arranhavam meus cotovelos. Avancei com os braços e pernas como se fosse uma sombra rastejando, silenciosa, invisível. Cada movimento foi calculado. O que mais me surpreendeu foi a minha própria calma – a clareza de pensamento durante o esforço. No fim, os troncos verticais. Pulei de um para o outro com o máximo de precisão que meu corpo permitia. Quase escorreguei no penúltimo, mas recuperei o equilíbrio no último segundo.
Ao terminar, ouvi um leve som de aprovação vindo de um dos instrutores. Não era muito, mas era suficiente para me fazer sorrir, mesmo com o rosto sujo de terra e suor. Ainda havia muito pela frente, mas naquele instante… eu sabia que estava um passo mais perto do meu sonho.
E ainda era só a segunda etapa.
Enquanto eu ainda recuperava o fôlego, sentada na beira do campo com as mãos nos joelhos e o suor escorrendo pelas têmporas, escutei a voz do instrutor ecoar novamente pelo pátio:
– Muito bem. Hora da última parte da prova prática. – Ele deu uma breve pausa, deixando que o silêncio pesasse por um momento. – Vocês agora passarão por um teste de combate corpo a corpo. Nada de técnicas ninjas, clones ou truques ilusórios. Apenas taijutsu básico. Vamos avaliar reflexos, resistência e, principalmente, controle.
Alguns alunos se entreolharam. Era comum ouvir boatos sobre quem era bom de briga nos corredores da academia, mas uma coisa era encarar um colega no intervalo – outra, completamente diferente, era enfrentar alguém com os olhos atentos dos instrutores cravados em cada movimento.
– As duplas serão chamadas por ordem – continuou ele. – Lembrem-se: o objetivo não é nocautear, mas mostrar domínio dos movimentos, raciocínio rápido e disciplina. O combate será interrompido ao menor sinal de descontrole.
As duplas começaram a ser formadas. Meu nome não foi um dos primeiros a ser chamado, o que me deu tempo para observar os outros. Alguns alunos investiam com tudo desde o início, outros tentavam manter distância e analisar antes de agir. Havia quem tivesse boa técnica, mas se deixasse levar pelas emoções. Outros pareciam hesitar demais. Os instrutores faziam anotações constantes, trocando impressões entre si com expressões fechadas.
Quando finalmente foi a minha vez, meu corpo estava ainda pesado pela corrida e pelo circuito. Mas algo dentro de mim se acendeu. Meu instinto me dizia que a parte mais difícil já havia passado. Agora era o momento de provar que o controle físico era tão refinado quanto minha capacidade.
Parei diante do meu oponente – um jovem alto, com cabelos prateados e um olhar tranquilo, mas seguro. Suas mãos estavam abertas, prontas para o combate.
Respirei fundo. "Controle. Respiração. Movimentos econômicos."
Meu corpo se posicionou automaticamente, os pés afastados, os joelhos ligeiramente flexionados, os olhos focados no centro do seu peito. Era taijutsu puro – cada golpe, cada esquiva, um cálculo instantâneo, quase como um reflexo.
O grito de início ainda ecoava quando Riku avançou. Ele não hesitou. Fez isso como se ela fosse só mais uma oponente fácil. Mas Sakura não ficou parada. Seus reflexos, mesmo tensos, responderam ao impulso: ela saltou para o lado, sentindo o vento da mão de Riku passar rente ao seu rosto.
Ela girou sobre os calcanhares e tentou um chute baixo, mirando as pernas dele. Mas ele pulou por cima com facilidade, como se esperasse exatamente aquilo. Seus olhos se encontraram por um breve segundo. E naquele momento, Sakura soube: ele estava testando. Observando. Subestimando.
Ela rangeu os dentes.
— Vai lutar de verdade ou só brincar de me assustar? — disparou, tentando esconder o tremor na voz.
Riku riu, curto.
— Que gracinha. Você fala bem. Vamos ver se luta do mesmo jeito.
Dessa vez, ele veio com mais seriedade. Um soco direto ao tórax, depois outro, e mais um. Sakura recuou dois, três passos, desviando por pouco. Sentiu os pés escorregarem um pouco na terra solta. Sabia que, se fosse atingida de frente, não teria força para resistir.
Ela esperou por uma abertura. Riku confiava demais na própria força — e foi exatamente isso que ela usou a seu favor. Quando ele tentou mais um golpe, ela não recuou. Baixou o tronco, girou o corpo e encaixou um golpe com o ombro bem no centro do peito dele.
Riku cambaleou.
Não caiu, mas seus olhos se arregalaram. Ele não esperava aquilo.
— Tá brincando... — murmurou, e os dois ficaram frente a frente por um instante. O ritmo da luta havia mudado.
Sakura sentiu. Aquilo não era mais só um teste. Era um duelo. E ela não estava mais ali apenas para não ser derrotada. Ela queria vencer. A adrenalina tomou conta dela, afastando o medo e a insegurança. Agora, era pura estratégia e vontade. Ela estava aprendendo a cada golpe, e mais importante, estava se forjando como ninja.
Riku rosnou baixinho, fechando os punhos com mais força. Os olhos dele, agora sem o brilho zombeteiro de antes, fixaram-se nos de Sakura com um novo olhar: de quem agora a via como ameaça. Ele deu dois passos lentos para a esquerda, circulando. Sakura o acompanhou com o olhar e os pés, atenta. O círculo de luta parecia cada vez menor, sufocante. Um movimento em falso e ela estaria no chão.
De repente, ele investiu. Sem aviso, sem hesitação. Veio como uma onda — um chute giratório rápido, baixo, que raspou no tecido da calça de Sakura. Ela saltou para trás, tropeçou por um instante, mas recuperou o equilíbrio e se manteve de pé. Riku avançou de novo. Um direto. Sakura bloqueou com o antebraço, mas o impacto vibrou por todo seu braço. A dor a fez estremecer, mas ela sabia que não podia parar.
Ele continuava atacando como uma tempestade: soco, chute, joelhada. Sakura defendia, desviava, recuava. Cada impacto arrancava o ar de seus pulmões, e seus músculos começavam a gritar de dor. O coração dela batia descompassado, as mãos tremiam levemente. Mas os olhos... os olhos dela estavam fixos, calculando, aprendendo o padrão dos movimentos dele.
E então, ela achou uma brecha.
Quando ele ergueu o pé direito para um chute frontal, Sakura se abaixou de repente, impulsionando o corpo com força para frente. Bateu com o ombro na perna de apoio dele, desequilibrando-o. Riku caiu de costas com um baque seco e rolou para o lado, tentando se levantar, mas Sakura foi mais rápida. Ela correu até ele e, sem hesitar, tentou imobilizá-lo. A pressão no movimento foi o suficiente para quase dominá-lo, mas Riku, com agilidade, girou e usou os pés para empurrá-la com força. Ela cambaleou, sentindo a exaustão começar a tomar conta, mas rapidamente se reequilibrou. Ele ficou de pé, ofegante, com o olhar furioso. O cotovelo dele estava ralado e sujo de terra, e agora havia marcas visíveis de irritação nos seus gestos.
— Agora você vai se arrepender.
Ele correu até ela com velocidade. Sakura mal teve tempo de pensar — cruzou os braços para proteger o rosto, mas o chute veio mais baixo, acertando seu flanco. Ela cambaleou para o lado com um gemido abafado, tentando recuperar o ar. Cada respiração era mais difícil, e seus músculos queimavam de cansaço, mas ela sabia que não poderia parar. A luta agora era tão interna quanto externa.
A dor latejava, mas ela não podia parar.
Sakura se manteve em pé. Recuou dois passos, respirou fundo e voltou para o centro do círculo. Ela encarou Riku com a expressão firme, o queixo erguido, mesmo com o suor escorrendo pelo rosto.
Riku avançou mais uma vez, mas dessa vez, Sakura estava pronta.
Ela girou o corpo para o lado, escapando do soco. Aproveitou o movimento e deslizou por trás dele, aplicando um chute lateral que o atingiu na parte de trás do joelho. Riku caiu de joelhos, e Sakura, com um impulso, empurrou-o com as duas mãos pelas costas.
Ele caiu com o rosto na terra.
O campo inteiro ficou em silêncio.
Mas antes que alguém dissesse qualquer coisa, Riku rolou no chão e se levantou, sujo e ofegante. O olhar dele estava cheio de fúria. Ele cuspiu um pouco de terra e sangue, misturados com um gosto amargo de derrota. Seus olhos estavam fixos em Sakura, sem nenhum resquício da arrogância anterior.
- Você é mais durona do que parece - disse ele, ofegante. - Mas eu ainda não acabei.
Ela não respondeu. Só respirou fundo, controlando o tremor das mãos, esperando o próximo ataque. Sabia que ele vinha. Sabia que ele seria mais brutal agora.
E foi.
Riku correu com toda a força, erguendo o braço direito para um soco destrutivo. Sakura não fugiu. Esperou o tempo certo, desviou para o lado, e o punho dele assou raspando em sua bochecha. Ela girou em torno dele e acertou um chute nas costelas. Riku grunhiu, virou o corpo e tentou agarrá-la, mas ela escapou com um salto para trás.
Os dois ficaram ofegantes, suados, sujos, cercados pelo silêncio dos colegas.
Riku correu novamente, ignorando a dor nas costelas, ignorando o sangue que escorria discretamente de seu lábio inferior. Ele já não lutava por vitória. Agora era por orgulho ferido. Sakura viu o olhar dele — aquela mistura de fúria e humilhação que o empurrava para frente, mesmo quando a mente já gritava que era hora de parar. Ela sabia que ele viria com tudo.
Ele saltou, tentando aplicar um golpe com os dois pés, mas Sakura rolou para o lado e se levantou em um só movimento. Antes que ele pudesse cair corretamente no chão, ela avançou, usou o impulso e aplicou um soco com o peso do corpo inteiro. O punho dela acertou em cheio o ombro de Riku, fazendo-o girar no ar e cair de lado com um baque alto.
Dessa vez, ele demorou mais para se levantar.
A plateia estava imóvel. Alguns colegas da Academia prendiam a respiração, outros tinham as mãos sobre a boca. Os instrutores observavam em silêncio, trocando olhares discretos, atentos a cada movimento da jovem kunoichi. Sakura arfava, o peito subindo e descendo rápido, os olhos ainda atentos, o corpo inteiro em prontidão.
Riku se arrastou até os joelhos e tentou se levantar novamente, mas as pernas fraquejaram. Ele caiu de novo, apoiando uma das mãos no chão, os dedos cravando a terra. Rangeu os dentes.
- Eu ainda... - tentou dizer.
Mas Sakura já estava à frente dele, com um chute leve, firme, direto no peito. Não forte o bastante para machucar, mas o suficiente para forçar Riku a deitar no chão de vez.
Ela ficou ali, em pé, acima dele, ofegante.
Riku cuspiu para o lado, franziu a testa e virou o rosto, encarando o céu. Pela primeira vez, ficou em silêncio, absorvendo a derrota. O orgulho ferido parecia latejar em cada músculo tenso, mas ele sabia que não poderia mais continuar.
O instrutor apareceu logo em seguida, atravessando o círculo. Analisou a cena, o estado dos dois lutadores, e anunciou:
A luta está encerrada.
Sakura permaneceu imóvel por um instante, como se não tivesse ouvido. Depois relaxou os braços e deixou os ombros caírem. O corpo inteiro parecia pesado, dolorido, cansado — mas o coração pulsava com uma energia nova. Ela tinha vencido.
Riku ainda estava no chão, o olhar distante, como se processasse o peso da derrota. Quando Sakura se virou para sair do círculo, ele a chamou, num tom rouco:
- Haruno.
Ela olhou por cima do ombro.
- Da próxima vez... não segura nada.
Sakura esboçou um sorriso cansado, mas confiante.
- Não me segurarei
E seguiu em frente, deixando para trás o primeiro passo de sua jornada como ninja.
