KURAMA POV
Botan chorava a ponto de soluçar, me deixando sem reação alguma. Não sabia o que ela queria dizer com ter matado uma pessoa, mas sabia que só podia ser um engano. De qualquer forma, a explicação teria que ficar para outro momento.
Precisava primeiro lidar com Shunjun.
— Calma Botan, vai ficar tudo bem. Não precisa mais fugir — eu disse a ela, tentando ampará-la ao envolvê-la pelos ombros, mas sem desgrudar os olhos de Shunjun. Não podia me dar ao luxo de baixar a guarda.
Shunjun estreitou os olhos para mim.
— Não pense que vou deixar vocês dois escaparem.
— Isso nem me passou pela cabeça. Se estava disposto a ameaçar até mesmo uma inofensiva guia espiritual, as suas intenções não poderiam estar mais claras. É uma pena, achei que você fosse um pouco menos autoritário que Ootake.
Shunjun soltou um riso forçado.
— Apenas estou cumprindo com a minha função.
— Isso é uma desculpa para o que estava prestes a fazer? — olhei para Botan, que se encolhia atrás de mim ainda aos prantos — Você só não quer abdicar a posição que possui noReikaie por isso segue essas ordens sem fundamento.
— Eu levo o meu compromisso muito a sério. Nunca deixei de cumprir uma tarefa. Nem mesmo quando me mandaram ir atrás de você.
— E você não mudou nada desde aquela época? Então, é pior do que eu pensava. Não devia se orgulhar disso.
Pela cara que ele fez, soube que minhas palavras o atingiram em cheio.
— Quem é você pra falar de orgulho? Perdeu o seu quando foi derrotado por mim. Deixou de ser quem era.
— Você fala como se isso fosse ruim. Mas, se quer saber, eu podia te agradecer pelo que fez. Mais me ajudou do que me prejudicou. Eu não guardo rancor algum.
A expressão de Shunjun era de pura aversão, como se repudiasse cada palavra que ouvia.
— Quanta bobagem, Youko. Não acredito em nada do que diz. Você só fala mentiras para tentar sair por cima, quando na realidade odeia o que te aconteceu. Sua falsa redenção não me engana. Nunca me enganou. Você é traiçoeiro.
— Não preciso que acredite. Sua opinião não vale nada para mim.
No mesmo instante ele estendeu o braço, disparando tiros de energia em nossa direção. Reagi rápido ao lançar ramos de rosas que interceptaram o golpe, impedindo-os de chegarem até nós.
— Botan, é melhor você se afastar!
Ela assentiu em silêncio, dando passos para trás, em tempo de eu me virar para Shunjun e lançar contra ele aRose Whip. Ele desembainhou uma espada de lâmina larga e rebateu o chicote. Os dois se chocaram com força. Ele brandiu a lâmina de um lado para o outro, lançando pelo ar feixes de energia cortantes. Pelo ar, também, eu dispersei o furacão de pétalas de rosas que me cercaram formando uma barreira que bloqueou os cortes da lâmina. Quando o furacão parou, as pétalas restantes foram ao chão.
A espada então brilhou quando ele a ergueu novamente. Ao desferir o próximo golpe, a lâmina se chocou com o piso e descarregou brutalmente a energiaque se propagou em cinco ondas massivas. Eles avançam sobre mim como rachaduras luminosas no solo, crescendo em velocidade e poder destrutivos. Sabia que não tinha como escapar e, na verdade, não estava preocupado comigo, mas sim com Botan atrás de mim. Desse jeito, ela também seria pega pelo ataque.
Tive que ser rápido ao me transformar. Não tinha como conter o golpe na forma humana sem causar muitos danos. Comoyoukai, me joguei na frente de Botan, protegendo-a da onda de energia que convergia para nós. Ela se encolheu atrás de mim quando aquelereikime atingiu. Um ferimento se abriu no meu tórax, mas não dei outra oportunidade para Shunjun continuar. Me atirei em sua direção logo em seguida e disparei sobre ele espinhos pontiagudos.
Como se fossem agulhas, eles se prenderam em seu corpo. Shunjun demorou um pouco para entender o que era aquilo. Na realidade, não pareceu se importar tanto, por não sentir os danos imediatamente. Somente quando se virou novamente para mim —ameaçando brandir a espada mais uma vez —que ele paralisou.
Dos espinhos, caules começaram a crescer lentamente, se enrolando em cada centímetro de seu corpo como se fossem serpentes. As videiras o apertavam com força, prendendo seus braços e pernas, elevando-o alguns centímetros do solo. A partir dos espinhos, a energia de Shunjun era sugada aos poucos, alimentando a planta que crescia com a força de seureiki.
Shunjun rosnou em fúria, tentando se libertar. A espada tremulou em sua mão quando o seu pulso foi envolto com agressividade, obrigando-o a soltá-la.
Eu o observei friamente, voltando à forma humana. O ferimento me causava dor, mas não era o suficiente para me derrubar.
— Isso não acaba aqui, Youko! — Shunjun rugiu. Ele forçava os olhos para ficarem abertos enquanto lutava para se manter consciente— Você não vai me vencer assim!
Inclinei ligeiramente a cabeça.
— Bom descanso, Shunjun. Espero que faça escolhas melhores quando te tirarem daí.
Atrás de mim, ouvi um soluço contido. Me virei e encontrei Botan com os olhos marejados, observando a cena com preocupação.
— Está tudo bem agora, Botan — assegurei — Vamos achar os outros e sair daqui.
—x.x.x.x—
KIARA POV
Sentada no chão, continuei escondida, observando o desenrolar do confronto pelas bordas das caixas que me serviam de escudo. Observei Hiei se aproximar daquele homem que me perseguia. Os dois pararam a uma certa distância um do outro, mas foi o membro do esquadrão espiritual que tomou a iniciativa de falar primeiro.
— Você é o ex-ladrão problemático que já roubou oReikaiuma vez. Hiei, não é?
— Se tiver a intenção de se apresentar em seguida, prefiro que poupe o meu tempo. Não me importo com quem você seja — Hiei respondeu — Até porque, me falta espaço na memória para decorar os nomes de todos os idiotas que já cruzaram o meu caminho.
— Você é mesmo bem arrogante, como me disseram. O maior erro daquele frouxo do Koenma foi dar uma segunda chance pra gente do seu tipo. Precisamos corrigir isso.
— E quem vai corrigir? Você? — Hiei deu um riso sarcástico — Que azar o meu. Fui encontrar logo o mais fraco de todos. Isso vai acabar bem rápido.
Acho que aquela provocação foi a gota d'água. Jiro ficou tão furioso que atacou primeiro. Ágil, ele desapareceu num salto e Hiei fez o mesmo em seguida. Me senti absurdamente patética por não ser capaz de acompanhar os movimentos no ar. Era como se todos os meus sentidos tivessem sido reduzidos a nada desde que me algemaram com as argolas douradas que drenavam a minha energia. Eu não conseguia ver nada além de alguns clarões verdes e púrpuras se chocando pelo depósito.
Mas na minha visão periférica, outra coisa chamou minha atenção. Podia jurar ter visto algo se mexendo mais adiante, como se fosse uma sombra. Tinha tido a mesma sensação alguns minutos atrás, mas pensei ter imaginado. Agora, já não tinha mais tanta certeza se era coisa da minha cabeça.
Desviei a minha atenção da batalha que acontecia atrás de mim e discretamente recuperei a adaga que estava caída ao meu lado; a arma que Jiro tinha usado para me esfaquear. Me levantei do chão com bastante dificuldade e observei tudo ao redor de mim, procurando por algo que eu não sabia o que era. Apesar de não ver nada suspeito, ainda tinha a sensação estranha de que algo não estava certo.
Por trás de mim, o som de algo sendo destruído chamou novamente a minha atenção. A batalha agora fervia, literalmente. Consegui um breve vislumbre de Hiei e Jiro. Faíscas e chamas se dispersavam ao redor dos dois.
— Eu estou aqui.
Aquela voz feminina inesperada me pegou de surpresa. Me virei depressa erguendo a adaga, mas não encontrei ninguém. Confusa, olhei para os lados, procurando seja lá quem fosse. E então, absolutamente do nada, a mulher se materializou diante de mim. Sua forma, que inicialmente parecia uma sombra, escura e distorcida, logo se tornou clara em sua verdadeira forma — uma mulher alta, imponente e com o uniforme do Esquadrão de Defesa.
Ela golpeou o meu pulso antes que eu a atacasse, fazendo a adaga cair longe. Em seguida, outras sombras emergiram do chão e se enrolaram em meus braços e pernas. Me debati inutilmente, tentando me soltar daqueles vultos, mesmo sabendo que estava fraca demais para lutar.
— Você precisa vir comigo. Se resistir será pior.
A mulher tentou se aproximar de mim, mas alguma coisa rapidamente atravessou o seu caminho. Ela pulou para trás e retraiu as sombras, pois akatanade Hiei foi arremessada envolta em fogo, criando uma espécie de cerco de chamas entre nós duas, nos separando totalmente. Ela me observou pelas labaredas sem fazer alarde. Despreocupada.
— Isso é perda de tempo.
Fiquei indignada ao ver os vultos negros avançarem pelo chão, passando por baixo das chamas até chegarem em mim novamente. Mais uma vez, eles se projetaram, me envolvendo e me imobilizando com firmeza.
Enquanto tentava me soltar, vi Hiei saltar em nossa direção. Ele estava prestes a atacar aquela mulher, quando Jiro o atacou primeiro. Vi uma explosão luminosa o atingir em cheio, ao mesmo tempo em que as sombras me levantaram do chão e me arrastaram para perto de sua conjuradora.
— Não! Me solta! — gritei, tentando me mexer, embora fosse inútil.
Eu estava ferida demais para reagir. Se nem ao menos tinha força pra me manter em pé, muito menos teria para escapar. Suspensa e paralisada no ar, procurei mais uma vez por Hiei. Ele se recuperou do golpe de Jiro e me olhou de volta. Ameaçou correr até nós duas, mas, novamente, Jiro o impediu. Uma espécie de laço o segurou pelos braços, puxando-o de volta para trás.
— Eu sou o seu adversário! — Jiro o advertiu e então olhou para nós duas — Ryohi, leve logo a garota daqui! Eu vou dar um jeito nesse youkai.
A mulher não respondeu, mas obedeceu a ordem. Virando-se de costas, ela começou a me levar embora. Em desespero, eu olhava ao redor procurando alguma forma de escapar, mas não tinha nada que pudesse me ajudar naquele lugar. Olhei para cima, focando nas lâmpadas do depósito e então uma ideia me veio à mente.
Sem luz não há sombras.
Mesmo de costas para a luta, eu gritei com força
— Hiei, as luzes!
Não tive certeza se ele iria entender o que eu propunha, mas também não precisei esperar muito pela resposta. Ela veio logo em seguida quando um trilho de fogo percorreu todo o teto. As lâmpadas explodiram com o calor e, de repente, o depósito emergiu num breu. Meu corpo despencou e se chocou com o chão quando as sombras deixaram de existir.
Os cacos de vidro das lâmpadas se espatifaram. Ouvi Ryohi resmungar alguma coisa, mas na escuridão ela me perdeu de vista.
O mais difícil foi levantar. Além da dor no coração, minha perna machucada doía tanto que eu achei que ela fosse adormecer. Fiz o maior esforço que pude para me pôr de pé o mais rápido que consegui e, mesmo naquele escuro absoluto, sabia exatamente onde encontrar akatanade Hiei.
Igual a quando ficamos no escuro na fortaleza de Mukuro, eu fui capaz de me guiar naquela situação, mesmo sem enxergar nada. Sabia exatamente onde pisar, quantos passos dar…a escuridão era a minha aliada. Recuperei o sabre no momento em que outro clarão veio da batalha entre Hiei e Jiro, iluminando parcialmente os contornos de tudo ali. Antes que aquela mulher pudesse tentar qualquer coisa, me joguei sobre ela pelas suas costas, a derrubando no chão.
A prendi no piso com o peso do meu corpo e, com a lâmina da espada pressionada em seu pescoço, ela permaneceu imóvel debaixo de mim.
— Se você se mexer, é o seu fim — a alertei.
— Você entendeu tudo errado.
Seu rosto estava virado de lado, encostado no piso. Sem poder mover o pescoço, ela apenas direcionou o olhar para mim.
— Tá falando de quê?
— Não vim aqui por ordem de Ootake para te prender de novo.
— Ah, por favor…acha que sou tão burra?
— Eu estava tentando te tirar daqui sem que ninguém soubesse.
— Não mente pra mim! — pressionei ainda mais a lâmina do sabre em sua nuca — Aquele outro ali mandou você me levar!
— Ele não tem ideia do que eu ia fazer de verdade. Eu não concordo com a decisão de Ootake.
Fiquei em silêncio por alguns minutos. Não acreditava nela, mas também tinha a impressão de que ela não era uma mentirosa. Me esqueci completamente da batalha e quando me dei conta os golpes daqueles dois iluminavam tanto o ambiente que, se continuassem assim, logo Ryohi poderia criar sombras novamente.
— Por que eu acreditaria em você? — perguntei a ela.
— Porque você está tão pateticamente frágil que, se eu quisesse, já tinha te feito sair voando pelos ares, pego essa espada e acabado com o que sobrou da sua vida. Mas não. Eu estou deitada aqui, deixando você pensar que conseguiu me vencer só pra poder te contar tudo isso sem que Jiro perceba. Será que dá pra sair de cima de mim? Eu sei onde está o seu amigo humano. Tem uma saída escondida no último andar. Eu levo vocês até lá.
—x.x.x.x—
HIEI POV
A aparição daquela mulher atrapalhou os meus planos. O que era pra ser uma luta rápida, acabou se estendendo quando tive que desviar a atenção do meu adversário principal. Simplesmente não conseguia cuidar dos dois ao mesmo tempo. As investidas ridículas daquele imbecil não me davam uma trégua para agir contra aquela outra que se escondia nas sombras.
Fui atingido pela sua energia quando tentei salvar Kiara. Acabei sendo derrubado e arrastado pela força do golpe. Não era extremamente forte, tampouco fraco a ponto de não causar nenhum dano. No meu braço direito a bandagem havia se desfeito e sangue escorria por cima do dragão negro. Tive vontade de usá-lo, mas não podia. Não ali. Se o fizesse, o prédio inteiro desabaria sobre nós.
De qualquer forma, não precisaria de tanto para derrotar aquele cara. Na verdade, não precisaria nem de metade disso. O problema era a mulher que me atrapalhava e não me permitia concluir o meu objetivo. Tentei um novo ataque contra ela, mas o idiota mais uma vez me impediu, com uma espécie de corda espiritual que se prendeu em meus braços, me puxando de volta.
Ele disse uma bobagem qualquer sobre ser o meu adversário, mas eu não dei atenção. Aquele estorvo falava demais e eu precisava me livrar logo dos dois. Não tinha mais tempo a perder.
Foi então que Kiara gritou.
Consegui entender o que ela queria que eu fizesse. Não precisei de grande esforço para fazer com que as chamas emanassem do meu corpo e se propagassem pela corda que me prendia. Aquele homem recuou antes que se queimasse na outra extremidade e eu aproveitei o momento para disparar o fogo em direção ao teto. Ele se alastrou estourando cada uma das lâmpadas enfileiradas. No escuro que se seguiu, ouvi os cacos de vidro caindo no chão e ativando o Jagan consegui enxergar o que os meus olhos não podiam ver.
De longe, vi Kiara se livrar daquela mulher e decidi acabar de uma vez por todas com o estúpido membro do esquadrão doReikaique ousava me desafiar mesmo sabendo que não tinha chances de vitória. Ele conjurou o que pareciam ser argolas brilhantes e serrilhadas e as lançou contra mim. Me esquivei de cada uma delas com tanta agilidade que ele não pôde prever o que viria a seguir.
Concentrei as chamas em volta do meu punho e parti para um ataque direto. O soco o atingiu no estômago e o arremessou contra a parede, abrindo um rombo na estrutura do prédio.
O observei caído no chão e supus que não conseguiria se mover por um tempo, mesmo que consciente. Dei meia volta, decidido a resolver o assunto com a outra serviçal doReikaique ainda estava ali. Quando eu já estava de costas, aquele maldito insuportável resolveu me atacar mais uma vez. Por trás, corria até mim já visivelmente debilitado. Sua aura tinha um brilho azulado, mas asua velocidade era risível.
Eu então apenas esperei que chegasse perto o bastante para desaparecer da sua vista e reaparecer de surpresa atrás dele. Em minha mão, conjurei a espada de fogo. Não costumava usá-la com frequência, mas era uma forma mais discreta de acabar com aquilo.
O joguei no chão, fincando a espada em sua perna, deixando ele gritar enquanto a enterrava no músculo, como imaginei que ele tivesse feito com Kiara. O cheiro da carne queimando rapidamente se propagou no ambiente.
— É como os humanos dizem por aí: tudo o que vai, volta. Mas acho que você não pensou nisso quando fez o mesmo com ela.
Ele obviamente não respondeu. Não conseguiria, mesmo se quisesse. Então, dissipei a espada, aliviando a sua dor. Ofegante e atordoado, ele simplesmente desmaiou em seguida. Pelo menos, agora eu tinha certeza que ele não ia mais me atrapalhar.
Um resquício das minhas chamas iluminavam precariamente o depósito, então, no escuro, fui até onde Kiara estava, me deparando com uma cena incomum e suspeita. A mulher doReikaia levantava do chão e a katana estava caída aos seus pés. Recuperei a arma assim que me aproximei e a apontei para aquela mulher.
Ela recuou por instinto e Kiara cambaleou, entrando na sua frente como se tentasse protegê-la.
— Espera, Hiei! Ela não está do lado deles. Disse que vai nos ajudar.
— Eu não acredito. Sai da frente.
Kiara não se mexeu. Permaneceu entre nós, com a lâmina da katana quase encostando em seu corpo.
— Ela sabe onde tá o Kuwabara, vai nos levar até ele. Disse que o acesso é restrito. Ela conhece uma saída segura. Por favor…
Ela colocou a mão na lâmina, como se pedisse uma trégua. Bufei, irritado por ainda ter que aturar aquilo. Abaixei a arma e a guardei na cintura.
— Você é tão ingênua que acreditou em tudo sem nem pensar duas vezes — eu disse a Kiara, me voltando em seguida para a mulher que se protegia por trás dela — Se isso for mentira, eu te mato.
— Tudo bem. Você está certo em desconfiar de mim. Não adianta eu dizer nada agora, melhor provar as minhas intenções com atitudes. O acesso restrito para a câmara dos prisioneiros é seguindo por aqui.
Ela indicou a direção, mas tudo que Kiara conseguiu fazer foi se apoiar na parede mais próxima e escorregar até o chão. A mulher chamada Ryohi se ajoelhou ao seu lado.
— Você está bem?
— Não. Eu me sinto tonta. Não consigo mais andar.
O ferimento em sua perna ainda sangrava bastante. Naquela altura, provavelmente ela já tinha perdido sangue suficiente para causar um estrago.
— Isso não é bom. O corte foi profundo. Deve ter comprometido muitos vasos sanguíneos. Talvez tenha pego uma artéria. Posso improvisar um torniquete, mas não vai resolver o problema — Ryohi disse.
— Acho que não tenho outra escolha — Kiara deu de ombros.
— Tem outra opção — rebati — Eu posso cauterizar a ferida com fogo e estancar o sangramento de uma vez. Mas já aviso que vai sentir uma dor insuportável. O que você prefere?
Ela me olhou insegura. Então, respirou fundo e respondeu.
— Faz logo issoe me tira daqui.
Eu me agachei em frente às duas. Estendi a mão em direção ao ferimento e deixei oyoukifluir como há tempos não deixava. Estava acostumado a manter o fogo contido, liberá-lo somente na forma do dragão. Mas naquele dia estava quebrando os meus protocolos.
Senti o meu corpo todo aquecer conforme as chamas se esvaíam de dentro de mim. As mesmas chamas que, sem controle, queimaram as mulheres do gelo quando eu era um recém-nascido.
Às vezes, ainda achava difícil detê-las, especialmente quando não podia usar o poder de forma exagerada. Precisava manipulá-las minuciosamente, se não quisesse causar ainda mais danos. O problema é que não causar danos não era uma das minhas preocupações mais recorrentes.
Sei que minha pele fervia quando a encostei no ferimento de Kiara. Ela, que mordia o lábio evitando gritar, apertou os olhos com força e arqueou o corpo todo contra a parede. O grito de dor realmente ficou contido em sua garganta, provavelmente porque lhe faltou forças para dizer qualquer coisa. Kiara relaxou quando me afastei e ficou pálida como papel, perdendo os sentidos ao cair em cima da mulher doReikai.
A queimadura tinha cumprido o objetivo.
— Que droga, ela desmaiou — a mulher disse, dando leves tapas em seu rosto, tentando despertá-la — Bom, mas pelo a ferida menos parou de sangrar. Não podemos esperar que ela acorde. Temos que nos apressar!
Puxei Kiara sem muita delicadeza e me inclinei, posicionando-a em minhas costas. Seus braços caíram frouxos sobre os meus ombros e senti a sua respiração suave no meu pescoço. Levantei a sustentando pela parte de trás dos joelhos para que não escorregasse, deixando as suas pernas suspensas de cada lado do meu corpo. Me virei então para aquela mulher doReikai, dando uma última advertência.
— Agora que não tem ninguém pra te defender, saiba que falei sério. Se estiver mentindo, eu vou te matar.
—x.x.x.x—
YUSUKE POV
Qual era o sentido de tudo aquilo? Às vezes, eu me perguntava o porquê sempre terminava tendo que tomar uma decisão que eu não estava preparado para tomar. Uma decisão que exigisse ser mais racional do que emocional. Eu nunca pensava antes de agir, mas se dessa vez eu não me guiasse pela razão, poderia colocar tudo a perder.
Ser umyoukaino Mundo dos Humanos estava sendo mais complicado do que pensei que seria. Já era ruim ter que lidar com o peso que a minha natureza trazia pro meu futuro com a Keiko e, agora, ainda tinha que aguentar um bando de malucos miseráveis querendo ditar onde e com quem eu poderia viver. Como se não tivesse passado a vida inteira como humano, como se nunca tivesse construído laços aqui!
Koenma não entendia. Nunca entenderia a raiva que eu estava sentindo por isso. Era fácil pra ele dizer pra eu não matar Ootake agora mesmo, difícil era me convencer de que ele estava certo. Afinal, quando alguém simplesmente decide que eu não posso mais viver com a minha própria mãe ou esposa, não tem como eu ficar calado. Não tem como não reagir diante de tanto absurdo. Por que eu deveria ter misericórdia de alguém que não mede esforços pra conseguir o que quer, mesmo se para isso tenha que torturar ou matar outras pessoas?
O Rei Enma, Kuwabara, Kiara e provavelmente muitos outros foram usados por Ootake e peloReikai. Eles pretendem reerguer a barreira entre os dois mundos e expulsar todos osyoukaisdo Mundo dos Humanos. O que significaque, se eu não fizer nada, serei expulso e, se fizer, serei expulso do mesmo jeito por ser oposição.
Se é pra arriscar essa expulsão, eu devia pelo menos lutar pelo que acredito. Ou isso me separaria de Keiko pra sempre?
Toda aquela hesitação me fez apenas ficar esquivando como um covarde no início da luta. Não sabia o que fazer, se atacava com tudo ou se evitava o confronto. Vagando naqueles pensamentos, eu simplesmente perdi o foco da batalha. Quando Ootake desapareceu num borrão, fui muito lento ao perceber que tinha se transportado para o meu lado. Ootake cravou uma joelhada brutal em seu estômago, me tirando o fôlego. Depois, o seu punho se chocou com o meu maxilar. Fui simplesmente arremessado dali, colidindo com força na parede.
De joelhos no chão, senti o sangue escorrer pelo canto da minha boca. O gosto metálico me incomodou, me forçando a cuspir o excesso no chão. Quando tentei levantar, veio o primeiro disparo. Flutuando no ar, Ootake apontava a arma espiritual para mim. Senti o tiro atravessar o meu corpo, me destruindo por dentro. Aquilo me paralisou momentaneamente. Outros disparos vieram em seguida, cada um me atingindo em pontos diferentes. Braços, pernas e abdômen. O sangue esguichando em cada perfuração.
— Já chega, Ootake! — Koenma gritou, correndo até nós.
Prendi meu olhar no chão, respirando fundo. Estava cada vez mais difícil conter a raiva.
— Não atrapalhe, Koenma. Vocês vieram aqui em busca de problemas e foi o que conseguiram. Você também faz parte disso. Serei obrigado a tomar providências não só contra osyoukais, mas também contra você.
Ele estendeu o braço em direção a Koenma, com o revólver apontado para ele.
— Ah, que se foda! — eu gritei.
Eu nem pensei duas vezes, simplesmente me joguei pra cima de Ootake. Quando ele puxou o gatilho, meu pé acertou tão forte a sua cara que ele simplesmente foi lançado em direção ao solo. Então, tudo tremeu com o impacto, como se fosse um terremoto. A bala espiritual desviou da rota e Koenma saiu ileso do ataque.
— Yusuke, temos que achar os outros — ele disse a mim — Desse jeito esse prédio não vai aguentar! Se eles estiverem lá em baixo…
— Eu sei! Não precisa dizer mais nada. Vou acabar com isso agora mesmo e rapidinho levo a gente pro último andar.
Ele me olhou com uma expressão de incógnita. A sensação estranha de algo tomando conta de mim era familiar e, ao mesmo tempo, diferente. Percebi que minha aura brilhava sem eu fazer esforço. Era o poder de Raizen despertando em mim mais uma vez. As marcas da antiga tribo dos demônios surgiram no meu corpo, deixando transparecer a ascendênciayoukai.
Caminhei até onde Ootake havia caído. Consciente, seu rosto todo estava manchado de sangue e ele estava curvado, com as mãos apoiadas no chão. O agarrei pelo colarinho e o ergui, deixando-o suspenso no ar.
— Vamos dar um passeio pelo prédio.
