NOTA:

Olá!

Então, aqui vai um aviso: esse capítulo tem algumas cenas um pouco explícitas (apesar de não sexuais), então leia com cuidado!

Tenham uma boa semana!


ELECTRA ADHARA BLACK

James praticamente me mandou para o quarto assim que eu voltei depois de conjurar mais feitiços de proteção ainda. Alyssa me acompanhou escada acima, depois de me convencer que discutir com James agora não era uma boa ideia.

- Escute, - Alyssa deslizou para dentro do quarto que eu dividia com James, os olhos passando pela penteadeira com o perfume dele e as minhas maquiagens, seguindo pelos casacos pendurados no armário entreaberto e os sapatos no chão. - preciso falar com você.

- Sobre? - eu perguntei, finalmente me permitindo soar cansada.

- Esses vômitos… Você não está grávida, está? - Alyssa segurou minhas mãos com força. Eu arregalei os olhos, corando, mas ela continuou a falar. - Não vou ficar brava, e Evan também não, mas vocês vivem grudados e dormem no mesmo quarto desde que você teve acesso à Magia Ancestral. Vocês são próximos e ficam sempre sozinhos e Sirius já reclamou sobre pegar vocês dois se agarrando no escritório sob o pretexto de estudar Runas.

- Não estou. - eu balbuciei. - Não mesmo.

- Você fez um teste? Precisamos ter certeza… - Alyssa insistiu, ainda preocupada e eu sacudi a cabeça:

- Eu não estou grávida. Prometo. É impossível.

- Só se você estiver praticando abstinência. - Alyssa me encarou séria e eu corei ainda mais. - Ah. Sério? - ela soou incrédula.

- Sério. Nós falamos sobre, mas nada nunca aconteceu. O vômito é só reação do meu corpo aos dementadores e, bem… Ao sangue. Eu não lido muito bem com isso. - eu desviei os olhos.

- Quando você diz que nada nunca aconteceu, está me dizendo que você e James…

- Não, nunca. Nem com ele e nem com ninguém. Não precisa se preocupar com uma gravidez. - eu respondi, com pressa. - Pode passar a informação da não-gravidez adiante. O restante…

- Fica entre nós. - ela assentiu, um sorriso ameaçando escapar dos lábios. - De todos nesta casa, você era a minha última aposta em ainda ser virgem.

- Alyssa.

- É só um comentário. - ela ergueu as mãos na defensiva. - Mas, se for arriscar, eu tenho poções anticoncepcionais e posso dar um pouco para você.

- Eu não acredito que estamos tendo essa conversa.

- É uma obrigação minha como sua amiga e, bem, como sua avó. - Alyssa apertou minha mão com carinho. - James deve vir em breve. Espere por ele. Acho que ele vai precisar de você.

- E Evan de você. - eu suspirei e ela sacudiu a cabeça:

- Ainda nem assimilamos o que aconteceu aos Potter e à Sra. Nott. Isso é horrível. - Alyssa sacudiu a cabeça e passou os dedos sob os olhos. - Agora não é a hora. Preciso ouvir de Evan o que houve e se ele precisa de alguma coisa. Depois será a hora de chorar.

Nós éramos mais parecidas do que eu imaginava.

- Até amanhã, Aly.

- Até amanhã, Els. - Alyssa abriu um sorriso triste e saiu do meu quarto, fechando a porta atrás de si.

Eu tirei os sapatos de salto e, em seguida, o vestido longo e elegante que tinha escolhido para o evento especial de Alvo - um vestido que eu jamais seria capaz de usar novamente, independente de quão lindo e elegante fosse. Não com a memória que agora ele trazia.

James chegou cerca de duas horas depois. Eu o esperava, sentada no meio da cama, depois de tomar uma ducha rápida para tirar a sensação de corpo sujo depois de vomitar. Ele não disse nada, apenas arrancando os sapatos e meias sociais, antes de desfazer a gravata e arrancar a camisa pela cabeça, com raiva.

- O que ficou decidido? - eu perguntei, enquanto James desafivelava o cinto, ainda em silêncio. James parou, respirando fundo:

- Amanhã teremos o funeral de Gideon. Ele será enterrado no mausoléu Potter, com Fleamont e Euphemia. Pontas enviou uma carta contando a Arthur sobre a perda de Gideon e para que conte aos outros o que aconteceu. - James terminou de tirar o cinto e sentou na banqueta da penteadeira, passando a mão pelo cabelo escuro. - Depois do funeral, todos iremos para a Mansão Nott.

- Precisamos arrumar as malas.

- Iremos fazer isso agora pela noite. Pegue suas anotações e tudo o que for importante. A Mansão Potter está abandonada como Quartel General. - James respondeu, ficando de pé e pegou uma toalha. - Vou tomar um banho. Comece a arrumar as suas coisas, Els. O funeral será ao nascer-do-sol. Iremos embora em seguida.

James não esperou resposta antes de se enfiar no banheiro, sem se dar ao trabalho de fechar a porta, e ir tomar um banho.


James manteve a expressão neutra, me ajudando a guardar todas as nossas roupas em nossos malões, sem dizer uma palavra enquanto me observava encaixar tudo como um quebra-cabeças nos malões. O que não coube - nossas roupas mais elegantes, nossos livros e anotações - foi designado a três bolsas magicamente aumentadas: uma para roupas e sapatos, outra para livros e anotações e outra, menor, para os nossos objetos de valor.

- Você é boa nisso. - foram as primeiras palavras dele depois de sair do banho.

- É o resultado de viajar com a família todo verão. - eu respondi, a voz tão neutra quanto a dele.

- Não isso. - James apontou para os malões e as bolsas metodicamente arrumadas, as únicas coisas deixadas de fora eram os pijamas que estávamos usando e as vestes que usaríamos amanhã. - Estou falando sobre… O controle das suas emoções, sobre como consegue compartimentalizar tudo isso. Meus sentimentos estão à flor da pele, parece que eu vou explodir o tempo todo. Ele estava bem ali e, de repente, estava morto. Eu podia… Eu deveria…

- Não havia como saber que Greyback faria algo do tipo. Somos bruxos talentosos, James, mas nenhum de nós tem o dom da clarividência. - eu passei a mão pela bochecha dele. James abaixou os olhos. - Você fez o que pôde e o seu melhor. Estamos fazendo o nosso melhor.

- Mas não está sendo suficiente. - James virou o rosto e eu abaixei a mão, brincando com o cordão da calça de moletom que eu tinha roubado dele. - Fazemos tudo o que pensamos ser melhor, nos desdobramos para tornar as coisas mais seguras e só nos fodemos. Perdemos quatro pessoas em um intervalo de dias. Nos encontraram no nosso Quartel General. Hogwarts está sob um fio de cair. Dumbledore está morto. E ele continua vivo e matando e nos destruindo. Que esperança temos?

- Nós vamos caçar o que resta daquela alma miserável dele. - eu encarei James, que tinha os olhos cheios de tristeza e, para a minha surpresa, medo. - Vamos lutar, como estivemos lutando este tempo todo. Vamos vingar cada um dos nossos caídos, vamos manter o que resta de nós vivo. E vamos voltar para casa.

James suspirou, sacudindo a cabeça:

- Nunca me senti tão inútil. Quer dizer, me senti, quando fomos pegos e tudo aquilo aconteceu. - ele admitiu. - Mas… Desta vez foi diferente. Greyback olhou para mim, sorriu e desapareceu. Ele sabe o que fez. Ele mirou no nosso amigo, nossa família, e está nos destruindo por dentro. Fabian está inconsolável, e com razão, não consigo imaginar o que ele está sentido. Caradoc perdeu o senso de direção. Os três eram nossos mais velhos, nossos mais experientes. Com a morte de Gideon, Fabian fora de jogo por um bom tempo, e o luto de Caradoc…

- Cabe a nós tomar a dianteira. - eu completei, quando James hesitou e ele assentiu:

- Sirius e Pontas vieram falar comigo. Caradoc e Fabian não estão em condições de lidar com missões em campo. Nós faremos isso, agora. Ainda não falamos com nenhum deles, mas acho que não haverá discussão. Pontas teve seus dias para prantear os pais e Aric para prantear a mãe. Caradoc e Fabian precisarão dos dias deles. - James segurou a minha mão com carinho. - Agora, nós tomamos a dianteira.

- Nós, nós dois ou nós, os adolescentes? - eu perguntei, ansiosa.

- Nós, os adolescentes. - James suspirou. - Foi uma merda de duelo, Els. Nós nem estávamos em números tão pequenos assim e mesmo assim… Perdemos um.

- Pegaram alguém? - eu perguntei, receosa. James sacudiu a cabeça, desgostoso. - Está bem. Iremos nos vingar no momento certo. Assim que eu colocar as minhas mãos em Greyback, Anabelle, Cygnus e eu teremos um dia de diversão.

- E o restante de nós? - James questionou, erguendo as sobrancelhas.

- Você não vai querer saber o que vamos fazer com ele. - eu suspirei. Anabelle já tinha prometido violência verbalmente, mas Cygnus não precisava dizer para que nós entendêssemos os planos dele.

O ódio e o desejo de vingança do meu irmão estavam explícitos nos olhos dele.

James olhou para mim, preocupado, mas eu sacudi a cabeça:

- Eu sei que há limites de legalidade e quais são. Sei quais são os limites mágicos. - eu ergui uma mão, silenciando James antes que ele sequer começasse a argumentar. - Mas, como Anabelle disse, nós temos sangue Rosier, Yaxley e Black. Nenhuma dessas famílias é conhecida pela inclinação ao perdão.

- Certo. - James cedeu. - Mas deixe um pouco da sanidade dele para mim. Tenho algumas coisas a resolver com ele.

- Sem problemas. - eu abri um sorriso hesitante. - Como… Como faremos amanhã?

- Está tudo empacotado. - ele apontou para o nosso quarto desmontado. - O funeral será ao amanhecer e, depois, iremos partir imediatamente para a Mansão Nott.

- E Fabian? - eu perguntei, nervosa. - Caradoc?

- Eles vão com a gente, mas acho que talvez Fabian tire um tempo. Ele vai precisar. - James suspirou. - Eu precisaria. Talvez até me aposentasse se visse Alvo… - ele engasgou e eu senti meu estômago afundar ao imaginar os gêmeos na mesma situação de Gideon.

- Deixe que ele decida o que quer fazer. - eu respondi, depois de um tempo em silêncio. - Ele e Caradoc vão precisar.

- Vão. - James concordou. - O que Alyssa veio falar com você? Evan tentou me encurralar a todo custo, mas eu disse a ele que precisava checar como você estava.

Eu corei:

- Ah. - eu desviei os olhos, subitamente interessada em revisar a bolsa com a pesquisa novamente. Toda e cada anotação estava ali, assim como todos os livros que eu tinha usado. James me pedira para tirar qualquer traço que desse dicas do que estávamos fazendo aqui dentro, caso a Mansão fosse invadida de alguma forma, embora fosse improvável que isso acontecesse.

- Els. O que era? - James perguntou, ansioso.

- Ela achou que eu estava grávida porque andei vomitando horrores hoje. - eu disse, rápido, arriscando olhar para James.

James que, agora, estava corado.

- Ah. E o que disse a ela?

- Que não havia chance nenhuma de esse ser o caso. Eu só… Eu pude sentir o gosto dos dementadores, James. - eu senti meus braços se arrepiarem novamente, o gosto horrível ainda marcado na minha memória. - Disse a ela para não se preocupar com isso, mas Aly fez questão de me lembrar que tem poções anticoncepcionais no quarto dela. O que me deu um pouco de informação que eu não queria saber, mas acho que nós duas concordamos com a mesma coisa.

- Enfiar essa poção goela abaixo de todas as garotas. - James riu, sem graça. - Disse a ela que ainda é virgem?

- Sim. Ela pareceu surpresa, o que me deixou um pouco ofendida, mas não quero pensar muito a respeito. - eu sacudi a cabeça, ainda sem graça. - Acho que Evan queria conversar com você sobre isso.

- Acho que sim. - James passou a mão pelo cabelo. - Merlin, ainda bem que escapei dele. Isso seria constrangedor.

Eu franzi os lábios:

- Foi bem constrangedor. Isso não interessa a ninguém além de nós dois, mas aqui estamos. - eu sacudi a cabeça, ignorando o sorriso brincando nos lábios de James. - Vamos dormir. Está tarde e amanhã teremos um dia cheio de eventos.

- Sim, teremos. - James me ajudou a levantar e me abraçou em seguida. - Estou aliviado que você não estava lá fora. - ele admitiu, baixinho, beijando a minha cabeça em seguida. - Vamos dormir. - ele me deu um beijo delicado e entrelaçou os dedos nos meus, em silêncio.


Nenhum de nós dormiu muito bem a noite. James acordava o tempo todo, ofegante e suado, me abraçando cada vez com mais força. Eu boa parte da noite acordada com os pesadelos de James e, sinceramente, toda vez que eu fechava os olhos, a imagem do pescoço destroçado de Gideon aparecia como se estivesse colada nas minhas pálpebras.

Pela primeira vez, eu não quis me enfiar no banheiro para trocar de roupa. James ergueu as sobrancelhas, mas não comentou. Eu simplesmente não queria perdê-lo de vista e ter James perto depois do que aconteceu ontem era a única coisa que me deixava menos ansiosa.

Ele estava bem ali. Greyback poderia tê-lo escolhido ao invés de Gideon, mas escolheu o homem mais velho e mais experiente de propósito, para nos desestabilizar - o que ele tinha tido sucesso.

James me ajudou a atar as botas e me passou uma série de grampos de cabelo enquanto eu prendia meu cabelo no meu coque habitual e levou os dois malões para baixo, enquanto eu carregava as três bolsas pequenas.

Os outros estavam lá embaixo, as bagagens todas colocadas em uma fila organizada. Aric, Alvo e Caradoc levavam os malões para fora, antes de aparatar para a Mansão Nott, já começando a nossa mudança antes mesmo do funeral.

- Quanto menos tempos demorarmos para dar o fora daqui, melhor. - Aric disse, baixinho, pegando os malões que James carregava.

- Caradoc não consegue entrar lá. - James murmurou. Aric sacudiu a cabeça:

- Ele quis ir como um segurança a mais. Para garantir a nossa sobrevivência. - ele comentou. - Se é o que o ajuda a lidar com a situação, não sou eu que direi não a ele.

- Certo. - eu assenti e olhei em volta. Pontas, Remus, Reggie Lily e Sirius conversavam a um canto, com Evan e Alyssa. Todos solenes e visivelmente tensos. Os gêmeos estavam com Fabian, que estava mais do que abalado.

O ruivo estava sentado na poltrona mais fofa, encarando o vazio, os olhos ainda vertendo lágrimas. Anabelle o lembrava de tomar um gole do chá, o que ele fazia mecanicamente, mas Cygnus mantinha uma mão firme sobre o ombro do Prewett.

- É a última mala. - Alvo pegou o malão que eu sabia ser de Regulus. - Vamos levar esta e já voltamos.

- Vou com eles. - James beijou a minha bochecha e saiu atrás dos três, a passos largos, ignorando o protesto do irmão mais novo.

James não perderia Al de vista agora. E eu entendia o sentimento, porque as minhas pernas me levaram imediatamente até os meus irmãos.

- Tem chá. - Anabelle olhou para mim, os olhos azuis acompanhados por olheiras escuras. Eu não tinha sido a única a ter uma noite insone. - Vamos. Cyg…

- Eu fico com Fabian. - Cygnus disse, gentilmente. Fabian me cumprimentou com um aceno e eu o imitei. Não haviam palavras que eu pudesse dizer a ele que melhorariam o dia, que tornariam a dor dele menos insuportável.

Anabelle me levou até a cozinha, que agora parecia vazia e gelada demais sem a risada alta e rouca de Gideon, sem o sorriso fácil dele para tornar o meu ódio pelas manhãs menor. Ela colocou um pouco de chá em uma xícara para mim e eu peguei uma torrada, suspirando um agradecimento.

- Está se sentindo melhor? - ela perguntou, gentilmente. Eu acenei que sim. - Tomou alguma coisa para a náusea?

- Era só espantar aqueles dementadores. - eu respondi. - Eles têm um cheiro horrível.

Anabelle continuou me encarando, avaliando cada mordida na torrada.

- O que foi?

- Não está nauseada?

- Não. Por que estaria? - eu franzi a testa e os olhos de Anabelle pousaram sobre a minha barriga. Eu corei. - Não! - eu sacudi a cabeça. - Não mesmo. Os dementadores tem cheiro de morte e eu pude sentir o gosto daquilo quando tocaram nas proteções. Só isso. - eu abaixei a voz.

- Tem certeza?

- Sim! - eu olhei em volta, constrangida. - Quem mais pensa isso?

- Alvo. Cygnus. - Anabelle encolheu os ombros. - Todo mundo.

- Só pode ser brincadeira. - eu coloquei a xícara sobre a mesa, olhando minha irmã caçula, que ainda parecia suspeita. - Anabelle. Se eu estivesse grávida, você saberia.

- Tudo bem. - Bells pareceu aliviada. - Depois daquela situação na Mansão, eu soube, mas com esses vômitos… Alvo conversou comigo, ontem, ele parecia preocupadíssimo. Ele sabe que, quando vocês tiverem filhos, James vai se tornar… Bem, mais autoritário. E se isso acontecesse agora…

- Voldemort não teria a menor chance de sobrevivência se fosse o caso. - a voz de James veio da porta e eu olhei para o meu namorado, que estava apoiado contra o batente, os braços cruzados, e tinha uma expressão preocupada. - Electra e eu não teremos um bebê, Anabelle. Não se preocupe.

- Como eu disse, - eu tomei o último gole do chá. - se eu estivesse grávida, você saberia.

Santos Deus, que fiasco.

- A cerimônia vai começar. - James disse, quando Bells e eu começamos a pequena caminhada até a sala de estar. - Bells, se puder contar ao meu irmão que ele não será tio, eu agradeceria.

- Vou avisá-lo. - um sorriso brincou nos lábios de Bells, mas logo sumiu. - Vamos acabar com isso logo e nos mudar. Não suporto mais ficar aqui.

James entrelaçou os dedos nos meus e me levou para o terreno, exatamente no mesmo lugar que tínhamos conjurado a Magia Ancestral. Sirius e Pontas tinham passado um bom tempo apagando a mandala que tinha sido desenhada para o ritual. Eu tinha assistido os dois pela janela, enquanto esperava por James, mas tinha me recusado a descer. Eu não suportaria ver os efeitos do pós-batalha que tinha levado Gideon.

Foi Pontas que liderou a cerimônia, desta vez. Caradoc e Fabian estavam sentados na primeira fileira, sem dizer nada, apenas observando enquanto Pontas conduzia tudo sem nenhuma falha. Anabelle fungava baixinho ao meu lado e James mantinha a mão sobre o meu joelho, sem dizer nada e sem derramar uma lágrima.

Eu não sabia exatamente o que ele pensava, mas tinha acesso aos sentimentos dele: culpa, tristeza, saudade. Ele tinha se recusado a me contar o que tinha causado tanta comoção no sono dele, se recusava a me contar o motivo dos pesadelos, mas não havia como fingir que não havia acontecido.

Pontas acenou com a varinha para o caixão de Gideon, fazendo-o levitar até o mausoléu da família Potter. Fabian, então, caiu no choro, sendo amparado por Cygnus e Caradoc. Anabelle fungou um pouco mais alto, com Alvo agora passando um braço em torno dos ombros dela.

A mão de James apertou meu joelho com tanta força que eu tive problemas em segurar a careta, mas não reclamei: eu não ia dar mais um motivo para ele se sentir culpado. Quando o mausoléu se fechou, James abaixou a cabeça, respirando fundo, antes de finalmente soltar o meu joelho e ficar de pé, com Evan logo atrás.

- Eu sinto muito, Fabian. - James se ajoelhou de frente para o Prewett. - E sei que não é o momento ideal para isso, mas precisamos ir embora.

Fabian assentiu, ainda soluçando.

- Não queria arrastá-lo para longe agora, não quando está pranteando seu irmão, mas é preciso. - James deu um tapinha no braço dele. - Vamos aparatar na floresta próxima à Mansão Nott. - ele ficou de pé, olhando em volta. Eu me levantei, ajustando as vestes. - Els, conte a todos eles a localização da mansão.

- Iremos todos ser enfeitiçados com o Feitiço da Desilusão. - Caradoc pigarreou, a voz rouca. - Para que não sejamos vistos. Não havia ninguém ali perto, quando fomos levar as malas hoje, mas não significa que não haverá nada agora.

- Certo. - Lily acenou com a cabeça e eu acenei para que todos fizessem fila na minha frente, murmurando o segredo no ouvido de cada um.

- Iremos em duplas. - James se aproximou de mim. - Todos devem esperar perto do portão, ainda sob o feitiço. Aric irá abrir o portão para nós e, apenas então, iremos entrar. Não tentem entrar sozinhos.

- A Mansão é tão hostil assim? - Sirius me encarou e eu assenti:

- Faz Grimmauld Place parecer calorosa. - eu admiti e ele fez careta. - Vamos, todos. Precisamos começar o quanto antes. A casa é imensa e cheia de perigos que eu gostaria de lidar antes do anoitecer.

Ninguém precisou de muito incentivo para sair em direção ao portão lateral, liderados por Pontas. James e eu ficamos para trás e ele olhou para mim e, depois, para a construção:

- Não voltaremos aqui. - ele disse, por fim, quando os outros estavam longe o suficiente.

- Não. - eu concordei, entrelaçando os dedos com os de James. - Só quando estivermos no tempo certo.

- Eu sei. Espero que a Mansão sobreviva até lá. Odiaria ter que criar uma nova sede familiar. - James suspirou e começou a caminhar em direção ao portão, onde Sirius e Reggie nos esperavam, parecendo ansiosos.

Antes de sairmos pela última vez, eu olhei pela mansão que tinha virado a minha casa nas últimas semanas.

Eu sentiria muita saudade da Mansão Potter.


A entrada na Mansão foi tranquila. Caradoc e Fabian tinham seguido à risca tudo o que tínhamos explicado, sobre não tocar em nada e não entrar em nenhum lugar antes de checar se era seguro. Nós tínhamos acomodado os dois na sala de cristais, onde tínhamos passado a noite com Gideon antes de sermos atacados por um Poltergeist machista e assassino.

- Vamos terminar o térreo. - Aric sugeriu, depois de arrumar as malas e acomodar Fabian e Caradoc nos sofás da sala mais segura da Mansão até o momento. - E depois subimos para os quartos e só então iremos para a biblioteca.

- Não era melhor limpar a biblioteca logo? - Pontas questionou, cruzando os braços. - Eles precisam de acesso e nós também.

- Nós podemos tentar. - Aric ponderou. - Era a ideia, inicialmente. Limparmos a biblioteca para podermos dormir lá enquanto a Mansão não é segura o suficiente para todos nós dormirmos em quartos, mas…

- Mas… - Pontas incentivou para que Aric continuasse quando ele hesitou.

- Eu esqueci que ali tem um acesso para o corredor do quarto principal. E se a Mortalha-Viva foi ruim e estava na entrada da casa, eu nem quero imaginar que porra que deve ter naquela passagem secreta. - Aric admitiu, encolhendo os ombros.

- Vamos andar por andar. - Evan se aproximou, com as mãos nos bolsos. - Esse lugar é o mais seguro, você diz?

- Foi limpo. - Aric assentiu. - Els e Anabelle tiraram o que tinha de perigoso. Foi aqui que dormimos da outra vez em que viemos.

- Então, quantos cômodos faltam neste andar? - Alyssa perguntou.

- Apenas dois: a sala de jantar e a sala de visitas. - Aric disse, sério. - Não sei de nada que habite ali, mas isso não significa que não exista. Eu não fazia ideia de que tínhamos uma Mortalha-Viva de estimação.

- Certo. Duas equipes, então. A cozinha é segura? - Sirius perguntou, parando ao lado de Evan.

- É, sim. Fizemos comida lá da outra vez. - Aric respondeu. - Mas não saímos deste andar. Não faço ideia de como estamos nos outros ambientes.

- E é mais hostil que Grimmauld Place? - Sirius olhou para mim. Eu fiz careta, assentindo:

- Novamente, tia Filomena foi atacada por um Poltergeist. Alvo teve que banir a coisa. Fomos atacados por uma Mortalha-Viva. - eu suspirei. - Vão ser dias longos, Sirius.

- Vamos nos dividir, então. Uma equipe fica aqui e faz o levantamento de coisas que temos, alimentos e outras provisões. - Pontas decidiu. - Outras duas vão para esses cômodos. Sugiro que ninguém ande sozinho.

- Andar sozinho é um grande risco. - Aric concordou. - Vamos começar.


Os dias se passaram e, com eles, nós fomos encontrando mais coisas na Mansão: havia um bicho-papão em um dos quartos, o quarto de Aric estava amaldiçoado e tinha levado um dia completo para que o feitiço fosse desfeito e um banshee em um dos banheiros.

Além disso, havia um punhado de objetos amaldiçoados, que tinham sido todos enfiados em uma sala selada por magia - nós não tínhamos tempo de destruir tudo - e também alguns quadros que faziam questão de xingar todos nós: todos os quadros foram retirados da casa, sendo guardados sem muita cerimônia no mausoléu da família.

- É onde pertencem. - Aric jogou o último quadro num canto, com violência, ignorando os xingamentos em galês de um de seus antepassados. Ele fechou o mausoléu atrás de si, impaciente e olhou para mim. - Casa limpa. Só falta a Mortalha-Viva.

- Que está passeando pelo terreno, sim. Nada mágico pode deixar os limites do terreno da sua família. - eu acompanhei Aric até a mansão. Nós tínhamos enterrado as irmãs dele há alguns dias, no mausoléu, próximas à mãe. Ele ainda estava deprimido, mas muito menos melancólico do que no dia em que chegamos.

Caradoc tinha voltado a ser mais energético, mas ainda não saía: Fabian se recusava a se mover, saindo do quarto escolhido para ele apenas para comer. Caradoc, como amigo mais próximo, decidiu que dividiria o quarto com ele e estava mantendo o Prewett sob supervisão rigorosa.

Ontem Fabian tinha descido e ficado um pouco mais de tempo na sala de jantar, comentando aqui e ali sobre as criaturas encontradas, mas sem muitas palavras.

- Já formou o esquadrão de busca? - Aric perguntou, curioso, segurando a porta dos fundos da mansão para que eu entrasse primeiro.

- Ainda não. Somos muitas pessoas interessadas em lidar com a coisa e, sinceramente, ainda temos tanta coisa para resolver. - eu suspirei, seguindo Aric para a sala de cristais, onde o restante se recuperava de se livrar dos quadros. - Duas horcruxes, idas a Londres e a uma praia. A Mortalha-Viva… - eu me joguei ao lado de James, que colocou um braço sobre os meus ombros, distraído.

- Muitas coisas. - Aric concordou, assentindo. - Já está anoitecendo. Vamos fazer o jantar e podemos discutir quem é que vai.

- Pode ser. - Evan ficou de pé, estalando o pescoço em seguida.

- Vou tomar um banho. - Anabelle também ficou de pé. - Estou cheia de poeira. - ela fez careta, batendo a blusa branca, fazendo com que a poeira flutuasse no ar.

- Pelo menos a casa está oficialmente limpa. - Al comentou, sorrindo para a minha irmã. - Exceto pela Mortalha-Viva.

- Eu vou. - Sirius definiu, com Pontas acenando com a cabeça:

- Nós vamos. - ele corrigiu e eu suspirei. Essa era uma briga que eu já tinha desistido de ganhar. Anabelle riu, sacudindo a cabeça, e subiu as escadas, sem pressa.

Agora a mansão já não era tão sombria: apesar dos detalhes em cores escuras, a luz do sol brilhava pelas janelas e deixava tudo mais aconchegante. A Mansão Nott ainda era o local onde quatro de nós tinham ficado presos - e nenhum deles desceu até as masmorras ou foi até o salão de bailes (agora lacrado por magia), preferindo ficar com outras tarefas na casa.

A casa ainda era fria, mas não congelante. Não era confortável como a Mansão Potter e ali eu me sentia sempre uma convidada e não uma moradora, mas era seguro e o que tínhamos para agora. O sol ajudava muito e a ausência de criaturas não-amigáveis tornava a casa bem mais acolhedora, com as paredes claras e o piso limpo, sem poeira, sem sinais de magia negra praticada ali. Sem as manchas de assassinato que, apesar de terem encharcado o chão, agora não tinham mais espaço no nosso novo Quartel General.

Ninguém da Ordem sabia onde estávamos. Caradoc, James e Cygnus tinham encontrado com McGonagall fora da Mansão para discutir a morte de Gideon e as implicações disso, assim como receber notícias do restante da Ordem, mas não disseram onde estávamos - apenas que estávamos seguros agora e que não iriam dizer mais nada a ninguém.

Eu olhava pela janela da sala de cristais, distraída, quando um grito agudo cortou o ar. Eu pulei no lugar, assustada, mas Alvo, Cygnus e James saíram correndo no mesmo instante, sendo seguidos de perto pelos outros. Eu corri atrás deles, com Lily e Reggie logo atrás.

Anabelle não gritava.

Pelo menos, não daquele jeito.

Aquele grito era carregado de terror, na sua forma mais pura. E se ela estava gritando assim, algo estava errado. Nós tínhamos limpado tudo - exceto pela Mortalha-Viva.

Por Merlin, que ela não estivesse sendo comida por aquela coisa.

Alvo entrou no quarto que dividia com a minha irmã e eu o segui de perto: Nott Sr estava na frente dela, com os braços estendidos e um par de alianças em mãos. Ele não falava nada, mas o sorriso era sinistro. Anabelle tremia, o rosto pálido demais, incapaz de se mexer. Nott Sr olhou para nós e girou o corpo na direção de Alvo e se transformou: agora era o corpo de Anabelle no chão, os olhos azuis desfocados, e os lábios pálidos.

Morta.

Meu estômago afundou a minha varinha tremeu na minha mão. Antes que eu pudesse me lembrar do que diabos tinha que fazer, James assumiu o problema:

- Riddikulus. - a voz grave dele ressoou pelo quarto, se transformando em uma bola de futebol que, em um acesso de fúria, Cygnus chutou para fora da janela.

Anabelle caiu no choro, sendo abraçada por Aric em seguida, antes que Al ou qualquer um de nós chegasse a ela:

- Ele não está aqui. Está em St. Mungus, ainda se recuperando. Não se preocupe com ele. - Aric murmurou, passando os dedos pelos cabelos de Bells. - Você está segura. Era só um bicho-papão. - ele continuou, ignorando o olhar do restante de nós.

- Achei que seu bicho-papão fosse a nossa família morta. Era isso, antes de virmos para cá. - Cygnus disse, cuidadosamente, se aproximando da irmã gêmea. Bells soluçou um pouco mais alto. - Desculpe. Eu não quis piorar tudo. Desculpe. - ele colocou a mão sobre o ombro de Anabelle.

Alyssa deu um passinho para frente, soltando Anabelle de Aric:

- Vamos, vou te ajudar. - ela puxou Bells para perto do banheiro. - Por que vocês não descem?

- Eu não vou… - Alvo começou, mas Anabelle se encolheu perto de Alyssa. Al pigarreou e olhou para nós. - Ficarei do lado de fora da porta. Para garantir que nada mais vai aparecer.

- Tudo bem. - Aly levou Bells para o banheiro, sem pressa e nós saímos do quarto.

Eu ainda estava trêmula e horrorizada com o bicho-papão na forma de Anabelle morta. Alvo nos seguiu, meio contra a vontade, em silêncio.

- Desde quando seu pai é bicho-papão da Anabelle? - Alvo segurou Aric pelo cotovelo. A mão de James veio parar nas minhas costas, como se procurasse estabilidade.

- É uma pergunta que você deveria fazer a ela. - Aric respondeu, vagamente. Eu olhei James, que sacudiu a cabeça, ainda pálido.

O coração dele batia forte e rápido na runa, que irradiava ansiedade e medo. Eu guardei a varinha em um bolso oculto do meu casaco:

- Fale com ela, Al. Mas deixe-a se recuperar primeiro. Se o medo dela for o que eu penso que é, - eu continuei a arrumar o casaco, sem erguer os olhos. - ela não vai querer homem nenhum perto dela pelas próximas horas.

A mão de James ficou mais rígida ainda nas minhas costas e, depois de Al prometer que esperaria a ordem da minha irmã para entrar, nós saímos de volta para a sala de cristais. Evan tinha ficado de prontidão lá em cima, com Al - ele também estava ansioso e visivelmente preocupado.

- Você vai me contar. - eu disse a James, quando nos sentamos de volta no salão de cristais.

- Não é minha história para contar. - James agora olhava para os joelhos, ainda com as costas rígidas.

- Como a magia sem varinha que ela fez naquele dia? - eu perguntei, fechando as mãos em punhos. James me encarou:

- Não é minha história para contar, Electra. - ele repetiu, a voz mais firme. - Fale com sua irmã.

- Eu não esconderia algo desse nível se fosse Alvo. - eu insisti e James me encarou, crispando os lábios:

- Não é minha história para contar. - ele disse, se levantando. - É sobre quando ficamos presos aqui. Eu não quero falar sobre isso. - James saiu sem olhar para trás.

- Dê um tempo a ele. - Sirius me fez sentar na poltrona onde James estivera segundos atrás. - Deve ser uma memória bem ruim.

- Ele a feriu? - Cygnus olhou Remus, que sacudiu a cabeça, negando:

- Não. Ele insinuou porque Anabelle, até onde ele sabe, é uma bruxa de sangue-puro e jovem. Ele cogitou o mesmo que pensou ter com Alyssa. - Remus disse, ainda sem encarar nenhum de nós. - Mas ele não a tocou. Considerou Anabelle suja por ser da Ordem. Mas acho que Electra já sabia.

- Eu imaginei pela reação. - eu passei as mãos pelo rosto. - James devia ter me contado.

- Não é história dele para contar. - Aric lembrou. - James se culpa muito por tudo o que houve aqui. Esse bicho-papão deve ter apertado um ponto muito sensível nele.

- Aconteceu mais do que vocês nos contaram. - Pontas foi enfático. O silêncio de Remus e Aric nos deu a resposta. - Nós precisamos saber…

- Não precisam. - Remus cortou. - Há coisas que não cabe a ninguém além de nós.

- Somos um grupo diferente agora? - Pontas encarou o amigo, irritado. - Não sabia que guardávamos segredos entre nós.

- Não somos um grupo diferente. Só vivemos coisas que vocês não viveram e nunca vão entender. - Remus rebateu, seco. - Você pode ter visto o que ele fez a mim, mas nunca sentirá o que eu senti. Electra pode entender a irmã, mas jamais saberá o que ela sentiu quando Nott a ameaçou da forma que fez. Vocês não sabem porque não vão entender.

- Então nos ajude a entender. - Lily disse, suavemente. - Nós queremos ajudar, mas não conseguimos ajudar vocês se não nos contarem o que houve e o que os atormenta.

- Não quero falar sobre isso. E duvido que os outros três também queiram. - Remus ficou de pé e saiu em direção a porta. - Vejo vocês no jantar.

Aric seguiu Remus, sem dizer nada, trotando até chegar no Lupin, ambos cochichando sem nos dar atenção.

- Não acredito nisso. - Pontas pareceu incrédulo, mas Reggie suspirou:

- Eles ainda estão lidando com o que Nott fez a eles. - ele disse, soando cansado. - Eu ainda lido com os efeitos do que minha mãe fez a mim e eu estou acostumado e estou longe há mais tempo. Para eles, é muito recente e foi muito traumatizante. Não ajuda estarmos no lugar onde tudo aconteceu. Eles estão com os nervos à flor da pele.

- Dê um tempo a James. - Sirius deu tapinhas no meu joelho. - Ele precisa digerir o que viu.

Eu assenti e voltei a encarar a janela, sem dizer mais nada por um bom tempo.


James estava enfiado no quarto quando eu fui buscá-lo para o jantar. Ele estava jogado na cama, encarando o dossel verde escuro e ignorando o vento gelado que entrava pela janela aberta. Eu fiz careta e fechei a janela com um aceno de varinha. James olhou para mim, assustado, mas relaxou quando me reconheceu.

Eu sentei na beira da cama, apoiando as costas em um dos postes de madeira:

- Nós precisamos conversar.

- Precisamos. - ele concordou, voltando a encarar o dossel.

- Me desculpe. Não deveria ter pressionado você. - eu admiti, abaixando a cabeça. - Passei dos limites.

- Eu teria te contado, se Anabelle tivesse me dado permissão. Mas ela se recusa a falar sobre isso. - James cedeu o pedacinho de informação. - Não cabia a mim contar a ninguém. Não sobre a ameaça e nem sobre a magia sem varinha.

- Ela é boa?

- Muito boa. - um sorriso brincou nos lábios dele. - Foi assim que conseguimos mandar uma mensagem pelo colar dela.

- Eu pensei que tinham conseguido uma varinha, sei lá. - eu corei. - Ela nunca mencionou que conseguia fazer isso.

- Acho que ela queria ser perfeita antes de contar a alguém. - James comentou. - E sobre a ameaça… Realmente não cabia a mim.

- Remus contou parte. Quer dizer, contou sobre a ameaça de tomá-la como esposa, como faria com Alyssa. Minha irmã é muito bonita. - eu estremeci.

- Ele disse muitas coisas. - James disse, vagamente. - Anabelle ficava aterrorizada. Mas ele jamais a tocou. Disse que ela era rebelde demais, arredia demais e que não gastaria tempo com uma mulher exatamente como a falecida esposa. Então, ele escolheu Alyssa.

- Mas se Alyssa não estivesse disponível…

- Eu acho que ele tentaria. Só não valia a pena o desgaste naquele momento. Não com uma outra… Opção. - ele pareceu enojado. - E é isso que irei falar. Se quiser saber mais, vai ter que perguntar à sua irmã.

- Não preciso saber mais. - eu suspirei. - Há mais alguma coisa? Remus deu a entender que vocês não contaram tudo.

- Contamos o essencial. Não quero entrar em detalhes sobre o que houve aqui. - James cortou o assunto. - Você sabe. Você sentiu.

Eu suspirei:

- Sei a tortura física. Não sei o que lhe disseram.

- O que era importante, você sabe. - James foi firme.

- É isso que atormenta seus sonhos, não é?

James ficou estático e voltou a me encarar:

- Isso e o pescoço destruído de Gideon. Exceto que Gideon não é Gideon e sim você. Exceto que a ameaça a Anabelle é feita à você e eu sou obrigado a escutar seus gritos de desespero e seu choro. - James se sentou, apertando os lábios com força. - É o suficiente para você?

Eu assenti, abaixando os olhos.

- Desculpe. - eu repeti, suspirando. - Eu só estou estragando as coisas hoje.

- Há coisas que eu não quero falar sobre. - James ficou de pé e pegou uma toalha. - Vou tomar um banho. Pode descer se quiser, o jantar já deve estar pronto.

- Vou esperar você. - eu murmurei e James não respondeu, se enfiando no banheiro.

JAMES SIRIUS POTTER

Electra estava quieta no quarto, sentada na beira da cama, encarando a janela com os olhos vidrados. Ela não disse nada quando eu enfiei as calças e uma camiseta e sequei os cabelos com uma toalha.

- Eu não quis ser rude. - eu sentei ao lado dela. - Só é um tópico sensível.

- Eu não quis passar dos limites, mas quero ajudar. Quero entender para poder fazer algo a respeito. - Electra admitiu. - Só isso.

- Posso te contar as coisas com o tempo. - eu cedi. - Mas só quando me sentir confortável o suficiente para isso.

- Sobre Anabelle…

- Ele nunca a tocou. - eu prometi. - Anabelle foi bem clara quanto a isso. Ele ameaçou, mas não fez nada de fato.

Electra assentiu, ainda pensativa.

- Ele ainda está se recuperando em St. Mungus. - ela comentou, distraída. - Acho que Cygnus e eu deveríamos fazer uma visitinha. Alvo também. Talvez Aric?

- Electra…

- Anabelle não poderá ir. - ela me encarou. - Você fica com ela?

- Você não pode invadir um hospital. - eu disse, pacientemente.

- Eu invadi Grimmauld Place e a Mansão Nott. Eu consigo invadir um hospital. Ainda mais St. Mungus, que vive lotado. - Electra respondeu. - Tenho um assunto a resolver com Nott.

- Eu vou…

- Não. Fique com Anabelle. Ela vai precisar de você. - Els sacudiu a cabeça. - Estarei com seu irmão e Cygnus. Não confia neles para me manter segura?

- Claro que confio.

- Então fique. - Els se levantou e eu a imitei. - Ainda não sei quando vamos, mas vamos.

- Se algo acontecer…

- Você será o primeiro a saber. - Electra disse, a voz tão calma que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem. A magia dela estava controlada, mas eu podia sentir a fúria dela estalando no ar.

E aquilo era aterrorizante.

Sinceramente, eu não queria estar na pele do pai de Aric quando ela o pegasse.

- Vamos jantar. - Electra enganchou o braço no meu e me arrastou para a cozinha, onde Evan terminava o jantar.


Anabelle estava enfiada no sofá entre Cyg e Al, ambos com uma expressão homicida. Ela tinha contado em maiores detalhes exatamente o que Nott tinha prometido que faria a ela, o que tinha deixado todo mundo - incluindo eu - furiosos. Els e Aric estavam a um canto, claramente planejando algum tipo de vingança, enquanto Evan tentava acalmar os dois, sem sucesso.

- Eles vão a St. Mungus. - Pontas sentou ao meu lado.

- Eu sei.

- Ela disse algo?

- Algo sobre ter invadido duas Casas Ancestrais e um hospital lotado não ser um problema. - eu admiti. - Eu não vou contra ela. Não agora.

- Vai ficar para trás? - Lily ergueu as sobrancelhas, sentando do meu outro lado.

- Não para trás. Vou cuidar da Bells. - eu ajeitei a camiseta. - Eu não queria estar na pele do Nott agora. Se Els já é um problema, Alvo e Cygnus são ainda piores.

- Que bom que sabe. - Al parou na minha frente. - Pode ficar com Anabelle? Vou resolver uma coisa. - ele apontou para Els com a cabeça.

Eu assenti e fui até a loira, que aceitou que eu sentasse ao lado dela. Cygnus pediu licença e andou com pressa até onde a irmã mais velha, Al e Aric conversavam, agora ignorando completamente qualquer argumento de Evan e Sirius.

- Como está se sentindo? - eu perguntei, com cuidado.

- Péssima. Envergonhada. - Bells matinha as mãos sobre o colo, as pernas sacudindo em nervosismo evidente.

- Você foi ameaçada. E mesmo que ele tivesse feito algo, de fato, você não precisaria se sentir envergonhada. Nada disso foi sua culpa. - eu assegurei. - Eles só vão… Alinhar algumas coisas.

- Me vingar, você quer dizer. - Bells olhou para mim, os olhos azuis cheios de tristeza.

- Bem, Electra já queria o couro dele. Agora é só a desculpa. - eu encolhi os ombros, arrancando um sorriso relutante da loira. - Vou ficar com você.

- Todos eles vão?

- Acho que os quatro ali, apenas. - eu apontei para o quarteto que cochichava furiosamente. - Ainda não sei quando, mas sei que vão. Electra nem abriu diálogo. Apenas me comunicou.

- Pelo menos você sabe onde ela está indo. Nós não dissemos nada a ninguém. - Anabelle ponderou. - Se alguma coisas acontecer…

- Saberemos onde procurar. - eu completei e ela assentiu. Remus se apossou do outro lado da Black, dando tapinhas no joelho dela:

- Ouvi boatos de que Evan preparou Pain au chocolat. - ele comentou. Anabelle arregalou os olhos:

- É o meu favorito.

- É o que ouvi dizer. - Remus abriu um sorriso carinhoso e, rindo baixo, me acompanhou até a cozinha, onde Anabelle tinha se enfiado atrás de doces.

Electra foi displicente e vaga durante o resto da noite, dizendo que ainda não tinham definido nada, mas que planejavam ir antes que Nott fosse liberado do hospital. Primeiro porque ali ele estava encurralado e segundo porque depois que ele estivesse livre, ele poderia solicitar entrada à Mansão por ser o Nott mais velho.

- Bem, até agora ele é o mais velho. - Electra ponderou, enfiando uma camiseta minha pela cabeça e, depois, uma calça de moletom que também era minha.

- Até agora?

- Morte faz parte da vida. - ela disse, displicente, se enfiando embaixo dos cobertores. - Boa noite.

- Boa noite. - eu respondi. Electra se virou para o lado, suspirando e, antes que eu pudesse pensar muito a respeito, começou a ressonar.

Que diabos ela iria fazer?


Eu acordei no meio da noite, sozinho.

Merda.

Eu olhei para o lado, alarmado, mas encontrei apenas um bilhete:

"Estamos resolvendo um probleminha no St. Mungus. Peço ajuda se precisar. Por favor, faça companhia a Anabelle.

E. A. B."

Eu passei os dedos sobre o bilhete - a tinha estava molhada e sujou meus dedos. Eles não deveriam ter saído há tanto tempo assim.

Uma batidinha na porta fez com que eu me assustasse a ponto de pegar a varinha.

- James? - a voz de Anabelle soou assustada do outro lado da porta. Eu abri a coisa com um aceno de varinha, ainda olhando para a porta com desconfiança. - Ele saiu.

- Al?

- Al e Cyg. Eu fui atrás do meu irmão primeiro. Se nenhum dos dois está em casa, então Els não está. - ela pareceu incerta. - Certo?

- Certo.

- Aric está dormindo? - ela perguntou, tensa.

- Não sei. Vamos ver. - eu andei com pressa até o quarto do Nott.

Vazio.

Filhos da puta.

Eles tinham saído para o St. Mungus sem nos avisar!

- Acho que devemos avisar os outros. Sabe, ficar de prontidão. - Anabelle pareceu incerta. - Acha que vão matá-lo?

- Não sei. Talvez? - eu perguntei, receoso e bati na porta de Pontas, cheio de ansiedade. Ele abriu a porta, coçando os olhos:

- É uma hora da manhã. Que caralhos aconteceu? - ele resmungou.

- Electra, Alvo, Cygnus e Aric foram até o St. Mungus. - eu fui direto ao ponto. Aquilo pareceu acordá-lo imediatamente:

- Merda. - ele praguejou e se virou para a esquerda. - Lily, eles foram atrás de Nott.

- Merda. - ela repetiu, soando cansada. - Deveríamos ir?

- Não. Eles planejaram isso e Els prometeu pedir ajuda se precisasse. - eu olhei Pontas, que assentiu:

- Vamos nos trocar e esperar na sala de cristais. Avise os outros. - ele bateu a porta na minha cara sem esperar resposta.

Uau.

Quanta educação.

- Acho melhor a gente obedecer. - Bells disse, delicadamente. Eu assenti, suspirando.

Agora eu entendia a raiva de Els em ter ficado para trás. A única coisa que me acalmava era o acesso total à ela pela runa: ela estava furiosa, um tanto ansiosa, mas não havia um traço de medo verdadeiro nela. O coração sequer estava acelerado: claro, batia forte, mas regular e estável. Controlado.

De alguma forma, aquilo era mais assustador do que se ela estivesse com taquicardia.

Nós juntamos todos, agora devidamente vestidos, e nos reunimos na sala de cristais. As janelas estavam com as cortinas fechadas, como em todos os cômodos: a Mortalha-Viva não era a única criatura das trevas que habitava a floresta em torno da Mansão Nott.

- Nott vai morrer. - Sirius disse, se recostando no sofá, a varinha em mãos, parecendo exausto. - Que diabos eu fiz, por Merlin. Estou pagando todos os meus pecados com aqueles dois. Pelo menos uma saiu decente. - ele lançou um olhar carinhoso para Anabelle, que sorriu para ele, encolhendo os ombros.

- Eu não queria estar na pele dele hoje. - Caradoc olhou para mim. - Ela não disse nada a você?

- Ela disse que estava planejando, não que iria nesta noite. - eu sacudi a cabeça.

Parte de mim queria arrancar a cabeça dela do pescoço, mas outra parte queria beijá-la até perder a noção do tempo.

Merlin, como eu a amava.

Ela era inconsequente, sim, e imprudente e muito impetuosa, mas era corajosa e amorosa. Não havia como separar uma característica da outra porque elas estavam interligadas e tornavam Electra quem ela era: Electra Adhara Black, a filha mais velha de Atlas Black e Aella Rosier.

Um pesadelo na forma de sonho.

- Al prometeu pedir ajuda se precisar. - Bells comentou. - Só temos que esperar.

- Eles são malucos. - Fabian, finalmente, falou. - St. Mungus é vigiado fortemente.

- Essa Mansão e Grimmauld Place também eram e eles invadiram mesmo assim. - Caradoc lembrou. - No máximo eles vão azarar uns aurores e dar o fora de lá.

Eu não tive coragem de discordar, mas sabia, no fundo, que Alvo mataria se precisasse tirar todos vivos de dentro do hospital. Cygnus também. Talvez Aric e Electra.

Mas Electra já havia matado: o bisavô morreu após a queda da janela nesta mesma mansão, o que não a deixava completamente dentro do grupo de pessoas que jamais cometeriam homicídio.

E pela fúria que eu sentia emanando da runa, homicídio não só era opção como era o objetivo naquela noite.

- Não há nada a fazer a não ser esperar. - Fabian olhou para mim. - Eu entendo Electra. Eu faria o mesmo por Gideon.

Eu assenti e suspirei, passando a mão pelos cabelos, ansioso.

Electra ainda iria me matar.


Horas se passaram até que os quatro saíssem da floresta, enquanto eu olhava pela janela, ansioso, assim que amanheceu. Electra vinha à frente, vestida completamente de preto, seguida de perto por três sombras maiores do que ela. Eu vi Aric colocar a mão sobre o portão, dando acesso aos demais.

O coração dela batia tranquilo, mas o meu quase saía pela minha boca.

Não ajudou em nada quando ela entrou e eu vi respingos de sangue no rosto da garota, acompanhando as sardas tímidas de inverno.

- Não é meu. - ela disse, displicente. Eu pisquei. - Bom dia a todos.

- Todos inteiros? - Evan olhou para o quarteto silencioso e tranquilo. Eles acenaram que sim. - Eu vou matá-los…

- Não pode matar o chefe da família Nott. - Cygnus tirou as luvas de couro, distraído.

- Perdão? - Sirius olhou para o neto, que ergueu os olhos:

- Aric é o novo chefe da família Nott. Único Nott vivo e tal. - ele respondeu. - Não pode matá-lo.

- Vocês mataram Nott? - Pontas perguntou, depois de um silêncio pesado. Els fez bico:

- Foi um acidente.

- E esse sangue nas suas mãos? - Evan questionou. Els jogou uma adaga de prata na mesa de centro. Sirius engoliu em seco:

- Quando pegou isso?

- Estava aqui. - ela sacudiu os ombros. - Aric disse que seria um presente para Belatriz.

- É uma adaga amaldiçoada. Todo mundo a conhece. - Sirius piscou. - Os ferimentos causados por ela cicatrizam, mas sempre ficam sensíveis e suas cicatrizes nunca podem ser apagadas.

- Eu sei. Belatriz a usou em tia Hermione. - Electra tirou as luvas, sem pressa, ignorando o olhar de Sirius sobre as mãos manchadas de sangue. - Nott merecia ser reconhecido pelo o que é.

- E o que ele é? - Alyssa perguntou baixo e Els ergueu os olhos para ela:

- Um estuprador. Ele feriu a Sra. Nott, ameaçou Anabelle e você. - ela guardou as luvas nos bolsos da capa preta que usava. - É um problema que foi resolvido e não voltará a nos incomodar.

- Podem chegar até você, se forem espertos. - Caradoc olhou a Black, que sorriu:

- Não com uma Marca Negra sobre o corpo.

- Você conjurou a Marca Negra? - eu olhei a minha namorada, horrorizado. - Você sabe o encantamento?

- Aric conhece, mas estava com medo de conjurar. Eu já estou manchada, de qualquer forma, então eu conjurei. - ela ergueu o queixo. - Será atribuído aos Comensais da Morte. Estamos todos bem, nenhum de nós foi ferido e todos passamos ilesos pelo hospital. Esperem notícias no jornal agora pela manhã. - ela se empertigou. - Se me derem licença, eu preciso tomar um banho e dormir um pouco. - Electra girou nos calcanhares e saiu em direção ao quarto, seguida de perto pelos outros três.

- Quer saber? - Evan pareceu exasperado. - Eu não me meto mais. Boa sorte. - ele olhou para mim. - Ela é seu problema agora.

- Obrigado. - eu murmurei, azedo, me resignando a ir atrás da garota cujo saltos estalavam no chão de madeira.

ELECTRA ADHARA BLACK

James ressonava ao meu lado, dormindo pesado o suficiente para que eu me sentisse segura para ir me trocar e encontrar Al, Cyg e Aric no átrio da mansão.

James sabia que eu iria, mas não sabia que eu iria esta noite.

Ele tentaria me impedir e usaria argumentos e mais argumentos e, no fim, iria se enfiar naquela bagunça. Uma bagunça que, por mais que ele amasse minha irmã como amava Lily, não era dele.

Aquela era uma questão Rosier-Black, com Nott no meio pura e simplesmente pela mãe de Aric. Alvo tinha sido teimoso demais para aceitar não ir - e, sinceramente, eu não tiraria isso dele, não quando a própria namorada havia sido ameaçada daquela forma.

Os outros três me esperavam quando eu desci, depois de escrever um bilhete às pressas para James - ele ficaria furioso se eu simplesmente sumisse e, com aquilo, pelo menos ele saberia onde eu tinha me enfiado e por onde começar a procurar caso tudo desse errado.

- Prontos? - eu olhei o trio de sonserinos, que assentiu. - Vamos. Temos um compromisso.

Cygnus sorriu, oferecendo o braço a mim, e nós saímos da mansão e, depois das proteções erguidas em torno da mesma, indo em direção à floresta para aparatarmos para o St. Mungus.

Foi bem fácil entrar - havia tanta gente na sala de espera e os corredores estavam tão cheios, que nós apenas passamos pela entrada, sem sermos parados por ninguém.

Era fácil não ser parado quando você andava como se soubesse exatamente para onde estava indo - nós sabíamos qual era a ala de Nott porque o curandeiro responsável por ele era, no futuro, chefe de mamãe e eu conhecia desde o meu nascimento.

E ter uma mãe curandeira significava que eu conhecia o hospital como a palma da minha mão, inclusive as formas de entrar e sair dos lugares.

Foi fácil localizar Nott Sr depois de olhar rapidamente para a lousa com os nomes e quartos anotados, atrás da pequena bancada onde alguns bruxos faziam anotações. Nenhum deles pareceu nos notar, ocupados demais com o número absurdo de pacientes e procedimentos para serem feitos.

No futuro, isso sempre me incomodou: eram muitos pacientes e poucos funcionários, mas hoje isso era a nossa maior vantagem. Ninguém nos notaria se andássemos com calma, sem pressa e sem nenhuma atitude suspeita até o quarto do Comensal da Morte.

Nott dormia quando nós quatro entramos no quarto e lacramos a porta atrás de nós com o mesmo feitiço que havíamos usado para nos proteger na sala de cristais na nossa primeira noite na Mansão Nott.

Ninguém entraria aqui sem a nossa permissão. A nossa saída já estava planejada - nós iríamos aparatar no ar, pulando pela janela: insensato e arriscado, mas melhor do que enfrentar um exército de aurores nos corredores do hospital.

Eu apontei a varinha para o bruxo adormecido, fazendo com que ele ficasse pendurado pelo tornozelo, de cabeça para baixo.

O grito assustado e alto foi o suficiente para me fazer rir.

Ah, isso seria divertido.

- Boa noite, Sr. Nott. - eu abaixei o capuz e o homem ficou pálido. Quando Al, Cyg e Aric abaixaram os capuz, ele arregalou os olhos. - Viemos prestar uma visita.

- Aurores estão lá fora. Vocês não podem… - ele começou a balbuciar, mas Cyg riu:

- Nós entramos nesse hospital sem sermos parados sequer uma única vez. Uma segurança bem falha. - meu irmão ponderou, olhando para o bruxo mais velho com desprezo. - Acho que conseguimos resolver nossas diferenças aqui sem sermos pegos com tanta facilidade.

- Eu já serei preso em Azkaban. O que mais querem? - Nott pareceu assustado e eu ergui as sobrancelhas:

- Ah, agora você quer negociar. Não tentou nem mesmo uma vez quando decidiu atacar nossa família e agora quer conversar? - eu fiz um biquinho. - É uma pena. Eu poderia dar esse presente a você, mas como não me foi dada esta cortesia, teremos que nos entender da forma que você parece preferir.

- O que quer dizer?

- Acredito que você saiba muito bem. Não foi você quem torturou meu marido? Minha irmã? Meus amigos?- eu tombei a cabeça.

- Marido? - ele gaguejou.

- Ah, sim. O Potter que você pegou. - eu assenti, séria. - Acho que conhece Belatriz? - eu perguntei e ele ficou em silêncio, obviamente desconfortável. - Quando eu era criança fui muito comparada a ela, apesar de sermos primas distantes. Acho que vou testar toda essa semelhança. Não parece uma boa ideia para você?

O rosto de Nott ficava mais vermelho conforme mais tempo ele passava de cabeça para baixo.

- Ouvi sobre ameaças de estupro contra minha irmã. Várias maldições Cruciatus contra meu marido e amigos. - eu continuei. - Acho que podemos começar pela Cruciatus, certo, meninos?

- É a minha favorita. - Al sorriu torto, apontando a varinha para o bruxo mais velho.

E, assim, nós começamos.


As proteções conjuradas sobre a porta do quarto de hospital eram atacadas sem piedade, mas continuavam firmes. Nott Sr agora já tinha perdido todas as unhas das mãos, cortesia do próprio filho, que contava todas as violências que a mãe sofria ao arrancar cada unha, assim como tinha perdido os dois olhos, arrancados por Cygnus com a faca de prata que eu tinha pegado escondido em um dos expurgos na Mansão Nott. Alvo tinha passado um tempo nada saudável castrando o homem mais velho.

Eu, por fim, escrevi Estuprador no peito dele com a mesma adaga, depois de assumir uma cota nada saudável de Maldições Cruciatus.

Dizer que ele estava gritando era diminuir o que ele fazia: o homem berrava em silêncio - Al tinha conjurado um feitiço silenciador depois do primeiro grito, impaciente com tanto barulho.

- Acho que basta. - Aric olhou para mim. - Ele não merece mais um minuto neste mundo.

Cygnus passou a ponta da faca ao longo do braço direito do homem, cavando até o osso.

- Tudo bem. Chega, irmão. - eu olhei Cyg, que parou imediatamente. - Vamos encerrar. Quem quer fazer as honras?

- Ele não merece uma morte rápida. - Al tomou a adaga de Cygnus. - Posso?

- À vontade. - eu ergui as mãos, ignorando o sangue que escorreu entre os meus dedos. Alvo não esboçou emoção alguma ao cortar o pescoço de Nott com um movimento liso da adaga.

Eu fiz questão de esperar até que bolhas parassem de sair da garganta cortada do bruxo antes de olhar para o trio de homens que me acompanhava.

- Último feitiço e então iremos embora. - eu apontei a varinha para o teto do quarto. - Morsmordre!

A Marca Negra iluminou o quarto de verde. Cygnus colocou a mão no meu cotovelo:

- Discutiremos depois como você aprendeu isso. Mas precisamos ir embora. O escudo está caindo. - ele apontou para o escudo que brilhava menos forte agora. - Ouvi que trouxeram um Desfazedor de Feitiços do Gringotes.

- Merda. Vamos. - eu agarrei a mão de Cyg, enquanto Al e Aric pulavam da janela, juntos, aparatando no meio do ar.

A porta foi arrombada e Moody me encarou, subitamente estupefato ao me reconhecer, mas antes que ele pudesse dizer ou fazer algo, eu pulei da janela, agarrando Cyg com força e aparatei antes que qualquer feitiço chegasse a mim.


A conversa logo após nosso retorno foi curta. Eu não queria ter que explicar mais do que já tinha explicado, mas fui inocente em pensar que James não iria me seguir para fazer mais questionamentos.

- A roupa de Alvo está encharcada de sangue. - James começou, enquanto eu me desfazia das roupas sujas.

- Isso é exclusivamente culpa dele. Eu disse para acabarmos com aquilo e ele optou pela adaga e não pelo feitiço. - eu sacudi os ombros.

- O que fizeram a ele?

- Você realmente não quer saber. - eu olhei James pelo espelho, desfazendo o corselet que usava sobre a roupa, exatamente na moda Bruxa das Trevas preferida por Belatriz Lestrange.

- Você se vestiu assim e usou essa adaga de propósito. - James concluiu.

- Sim. Belatriz e eu temos feições parecidas demais. Uma pessoa que tenha menos contato com a gente jamais saberia nos diferenciar. - eu olhei meu namorado, séria. - Nada disso - eu apontei para mim mesma. - foi coincidência. Ela será responsabilizada pela morte de Nott.

- Como conseguiram entrar no hospital?

- A segurança é falha. Quando se juntar ao Quartel, faça com que melhorem isso. Ninguém nem viu a gente passar reto pela recepção. O quarto dele não tinha um mísero auror de guarda! - eu sacudi a cabeça, indignada. - Eu esperava um pouco de ação, um duelo. Ele estava dormindo. Nem teve graça.

- O que fizeram a ele? - James questionou, de novo. - Preciso saber.

- Cyg arrancou os olhos dele, por olhar para Anabelle daquela forma. - eu cedi a informação. James pareceu chocado, mas não surpreso. É claro que não estaria surpreso, ele nos conhecia desde o nascimento. Mas, talvez, não pensasse que chegaríamos a esse ponto. - Aric arrancou as unhas das mãos dele. Eu o cortei todinho e deixei um recado bem delicado no peito dele. Seu irmão é que causou o maior estrago. - eu tentei segurar um sorriso. - Alvo fez questão de castrá-lo e amarrar as partes nas mãos dele. Depois degolou Nott.

James sentou na cama, afundando o rosto nas mãos:

- Vocês são terríveis. Eu entendo e não vou discutir sobre seus métodos, mas santo deus. - ele olhou para mim. - Quando foi que decidiu chegar ao nível deles?

- Depois de tudo o que fizeram a nós e à nossa família. Isso foi por vocês quatro, sim, mas foi também por Fleamont, Euphemia, Gideon e a Sra. Nott. É um recado. - eu trinquei os dentes. - Não mexa com a gente.

- E não será traçado até vocês? - James me encarou.

- Moody me viu, talvez tenha me reconhecido, mas saberemos se for o caso. Com a Marca Negra ali, duvido que vão investigar mais. - eu sacudi os ombros. - Não fui eu. Foi Belatriz.

- Você é terrível.

- E, ainda assim, você quer se casar comigo.

- Eu sabia disso quando me apaixonei por você e isso não muda nada. - James olhou para mim. - Vá tomar um banho, você está ensanguentada.

Eu revirei os olhos, girando nos calcanhares e fui para o banheiro.

Um banho quente e longo era tudo o que eu precisava.