Capítulo 3: O Reflexo

A porta bateu atrás de Maya com um estrondo seco, e Severus permaneceu onde estava, o peito subindo e descendo de maneira irregular. O silêncio o envolveu como uma névoa pesada, tão densa quanto as memórias que começavam a se agitar.

Um filho.

Ele tinha um filho.

A revelação reverberava em sua mente como uma maldição recém-lançada, cada repetição afundando mais fundo na carne aberta que era sua culpa. Não saber. Não suspeitar. E, acima de tudo... ter sido deixado de fora.

Severus se virou abruptamente e, com passos largos, atravessou o quarto. A janela dava vista para a rua deserta de Grimmauld Place, mas ele não enxergava nada além dos olhos pretos e intensos do bebê.

Sam.

O nome ecoava com um peso estranho. Era curto. Simples. Forte.

Um nome que não havia sido discutido. Um nome que lhe fora entregue como um fato consumado, como se fosse apenas mais uma anotação em um pergaminho, e não o reflexo vivo de uma noite que ele achava enterrada nos escombros da guerra.

Ele odiava essa sensação. De surpresa. De impotência.

Com um gesto brusco, ele pegou o casaco do encosto da cadeira e desceu as escadas.

O som abafado de vozes vindo da cozinha cessou assim que ele surgiu. Todos os olhos se voltaram para ele — alguns com pena, outros com cautela, e alguns com aquela irritante curiosidade que só os Weasley sabiam fazer parecer genuína.

Mas Severus não parou.

Ele atravessou o corredor e encontrou Maya sentada no sofá da sala de estar, com Sam ainda nos braços. Ela o embalava lentamente, o olhar fixo no nada. Quando o viu, seu corpo inteiro se enrijeceu.

— Eu mandei você sair — disse ele, frio.

— E eu saí do quarto. Não da casa — respondeu, sem desviar os olhos.

Severus permaneceu parado por um momento, antes de falar novamente:

— Eu quero vê-lo.

Ela entrou no quarto reservado primeiro. Severus fechou a porta atrás de si, devagar.

Por um momento, nenhum dos dois disse nada.

Maya se virou para ele. Os olhos dela estavam vermelhos, não por choro recente, mas por noites mal dormidas. O bebê dormia em seus braços, com os cabelos escuros espalhados pela testa e a respiração serena, como se aquele lugar não fosse cheio de fantasmas.

Severus não se moveu.

— Você me procurou? — ela perguntou, de repente, como se precisasse confirmar que não era uma invenção da própria culpa. — Eu… pensei que tinha morrido naquela noite. E depois, quando os aurores chegaram, eu...

— Você fugiu. — A voz dele era controlada, firme.

— Sim. Eu fugi. Estava com medo, Severus. A guerra, você ferido, todo aquele caos... Eu pensei que você me odiaria. Que não me procuraria. Eu...

— E por isso resolveu sumir por dois anos? — Ele deu um passo à frente, os olhos fixos nela. — Por isso escondeu isso de mim?

— Eu não sabia o que fazer. Quando descobri a gravidez, eu entrei em pânico. Estava em outro país, sem ninguém. E você... você sempre teve aquela... coisa com a mãe do Potter, e eu achei...

— Que eu era incapaz de amar outra pessoa?

— Que eu era só mais uma missão. Um peso. Um erro.

Ele a fitou por longos segundos.

— Você pensou muitas coisas, srta Stone. Todas elas erradas.

Ela respirou fundo. O bebê se remexeu, e ela o embalou com delicadeza.

— Eu nunca quis esconder dele quem era o pai. Mas... também não queria que você sentisse que era obrigado a aceitar isso. Não depois de tudo que você já perdeu.

Severus não respondeu. Apenas estendeu os braços, em um gesto rígido, quase automático.

Ela hesitou — talvez por instinto, talvez por medo do que viria depois. Mas então o colocou cuidadosamente nos braços do professor.

Severus o segurou como se fosse feito de vidro.

Sam era pequeno. Leve. Mas havia um peso estranho naquela presença — um peso que não vinha do corpo do bebê, e sim do que ele representava. Um vínculo inegável, impossível de ser apagado ou ignorado.

O professor de poções fitou o rosto da criança.

Cabelos negros. Pele muito clara. E então os olhos se abriram, devagar.

Escuros. Profundos. Quase idênticos aos dele.

Severus ficou imóvel. Um músculo na sua mandíbula tremeu, e só isso.

— Severus... — Maya disse, com a voz trêmula. — Ele é seu. Você sabe disso. Eu... nunca poderia ter sido de mais ninguém. Você sabe.

Ele manteve os olhos no menino, mas respondeu, seco:

— Isso não muda o que foi feito.

Ela engoliu em seco.

— Não. Mas é a verdade.

Silêncio.

Snape caminhou lentamente até a poltrona e sentou-se com Sam ainda nos braços. O bebê soltou um som quase inaudível e logo voltou a dormir.

Ele ficou olhando para ele como se visse uma poção complexa se misturar diante de seus olhos. Algo que exigia tempo, precisão e silêncio absoluto.

— Eu deveria odiá-la. — Disse, por fim, em voz baixa. — Por me tirar isso. Por me tirar... ele.

Ela se aproximou, mas não ousou tocá-lo.

— Eu não espero perdão. Só... que você saiba. Que ele saiba.

Severus ergueu os olhos lentamente para ela. Havia raiva, sim. Mágoa. Mas também havia algo mais — algo que ele não sabia nomear. Talvez nunca soubesse.

— Ele tem meu sangue. E foi criado sem o meu nome. — A frase saiu fria, como um veredito. — Isso nunca mais se repetirá. Está entendido?

Ela assentiu, firme. Com lágrimas nos olhos, mas firme.

— Entendido.

Mais alguns segundos se passaram.

Ele olhou novamente para o bebê e, com extrema delicadeza, ajeitou o cobertor que cobria os pés pequenos de Sam.

Ela não esperava ver isso.

— Ele é... calmo. — Snape murmurou.

— Só quando sente que está seguro. — Maya disse, e então acrescentou, com um sorriso triste: — Você tem esse efeito nele.

Snape a ignorou. Ou tentou.

— Ele tem três meses? — perguntou.

— Quase quatro. Nasceu em novembro.

— Escorpião. — Ele quase pareceu considerar isso como um detalhe relevante, o que era não era típico dele. — Como Dumbledore.

— Não sabia disso. — Ela sorriu, sem humor.

Severus ficou em silêncio.

A tensão se dissolveu levemente, mas o ar ainda pesava.

— E o que exatamente você espera que eu faça agora, srta Stone? Que eu assuma esse papel de pai depois de tudo?

— Não. — Ela respondeu de imediato. — Não espero nada. Mas queria que você soubesse. Que ele soubesse. O resto... eu aceito o que vier.

Ele não respondeu.

A única reação foi um leve toque nos cabelos do bebê, quase imperceptível, como se sua mão tivesse agido antes que sua mente permitisse.

Por um instante, Maya o viu como nunca tinha visto antes. Não o professor. Não o espião. Mas o homem. O que sobreviveu. O que perdeu tudo e ainda assim estava ali, segurando a única coisa que talvez pudesse lhe dar um novo começo.

Mas Snape não era homem de começos fáceis. Ele desconfiava da esperança tanto quanto desconfiava de sorrisos.

— Vai ficar em Londres? — perguntou, por fim.

— Sim. Pensei em alugar algo em Hogsmeade, talvez. Ou perto de Hogwarts. Sam é pequeno, mas... queria que ele estivesse próximo desse mundo. O mundo dele.

Snape assentiu lentamente.

— Hogsmeade é uma boa escolha. Posso... ajudar, se precisar.

Ela o olhou surpresa. Não esperava generosidade. Não vinda dele.

— Eu... agradeço.

Ele se levantou, devolvendo Sam aos braços dela com mais cuidado do que jamais demonstrara com qualquer criatura viva. E sem dizer mais nada, caminhou até a porta.

Antes de sair, ele parou.