Espaço Aéreo Mediterrâneo
01:14 AM
O jato da Fundação Graad cortava os céus escuros do Mediterrâneo, o ronco suave dos motores preenchendo a cabine em um ritmo quase hipnótico. Kanon estava recostado no assento ao lado, pernas esticadas, a camisa desabotoada no topo, exibindo um pedaço da pele ainda marcada pelos últimos dias – marcas que Scully conhecia bem demais.
Ela estava ali, ao lado dele, mas não havia mais aquela barreira invisível entre os dois. Não existia mais "meu espaço" e "seu espaço". Esse limite foi apagado no momento em que ela se entregou a ele.
A mão dele descansava relaxada sobre a coxa dela, o toque leve, natural, como se fosse algo que já existisse há muito tempo. E de certa forma, agora existia.
Scully suspirou, os olhos fixos na janela, mas sua mente não estava ali.
Kanon percebeu. Ele sempre percebia.
"Diga." A voz dele veio rouca, sem qualquer esforço.
Ela piscou, virando-se para encará-lo. "O quê?"
Ele sorriu de canto. "Você está longe."
O jeito como ele disse isso fez um arrepio subir pela coluna dela. Mesmo aceitando as muitas mudanças que vinha sentindo, ainda era muito estranho o tanto que aquele homem não falhava em decifrá-la como um livro aberto. "É óbvio que estou longe."
"Não." Ele inclinou-se um pouco, os dedos deslizando de leve pela coxa dela, quase distraído. "Você está se afastando."
Silêncio.
Scully fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso do que ele disse.
Kanon não era homem de rodeios. Ele nunca foi. E agora, depois de tudo que fizeram, depois de tudo que compartilharam, ele realmente não queria que ela recuasse. Obvio que ele sabia do destino dela, mas ainda assim não era de sua natureza simplesmente abrir mão.
Ela soltou um suspiro, abrindo os olhos lentamente, mas sem encará-lo ainda.
"Eu não estou me afastando. Eu só..."
Ela parou. O que? O que diabos ela estava tentando dizer?
Kanon inclinou a cabeça de leve, observando-a com paciência. "Você não precisa dizer. Eu já sei."
Ela se forçou a rir, mas soou baixa demais, um som sem vida. "Então, o que eu estou pensando?"
Kanon sorriu, mas não era um sorriso arrogante.
"Você está pensando em como vai lidar com Mulder. Em como vai olhar nos olhos dele depois de tudo isso."
O peito dela apertou. Porque ele estava certo. Scully desviou o olhar para as mãos, e dessa vez foi ela quem segurou a mão dele. Entrelaçou os dedos nos dele sem pensar, sem hesitação.
Um gesto simples, mas íntimo de uma forma absurda.
Kanon apertou de leve a mão dela em resposta. Soltou um riso baixo, um som vibrante que fez um arrepio atravessar a pele dela.
"O que aconteceu entre nós não foi um erro, Dana." A voz dele estava mais baixa agora. "Você não tem nenhum motivo pra se sentir culpada."
Ela sabia disso. Mas...
Kanon virou-se um pouco mais para ela, aproximando-se.
"Você é livre, Dana." ele murmurou, os lábios pairando perigosamente próximos dos dela. "Linda. E dona do seu destino."
O coração dela bateu mais forte. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro dele – algo quente, familiar agora, intoxicante de um jeito que ela nunca imaginou que alguém além de Mulder seria.
O jato estava escuro. O espaço entre eles era minúsculo.
E Scully não sabia o que dizer. Então, em vez disso, ela o beijou.
Não porque devia algo a ele. Mas porque queria.
O beijo foi lento, sem pressa, mas profundo. Quando ela se afastou, os olhos dele estavam cravados nos dela, lendo tudo.
O sorriso que Kanon deu em resposta foi devastador.
xXx
Santuário – Heliporto
Atenas, Grécia
02:52 AM
A luz do helicóptero cortava a escuridão silenciosa do Santuário, suas lâminas lançando sombras inquietas sobre as colunas de mármore. Quando as hélices começaram a desacelerar, Kanon foi o primeiro a descer.
A postura dele era relaxada – mas apenas na superfície. Estar de volta ao Santuário trazia nele a urgência dos problemas que, muito embora ele tenha ignorado por muitas horas, estavam todos à sua volta.
Precisava conversar com Camus. O francês precisava saber o que aconteceu. Precisava saber que Poseidon esteve lá.
Porque ele perdeu.
Ainda que Scully tivesse trazido ele de volta, -Era nisso que acreditava - ainda que não tenha sido Poseidon quem a tomou por completo, o deus ainda esteve lá. E isso era um problema.
Ao contrário de Kanon, Scully não carregava urgência alguma ao descer da aeronave. Seu corpo estava exausto, sim, mas sua mente estava em paz de um jeito que ela não esperava. Muito embora ainda pudesse sentir aquele calor constante dentro de si, nunca saciado. Ainda não tinha parado para considerar o motivo daquele sentimento. Ou sintoma, de verdade ela não sabia.
Ela ajeitou a alça da mochila no ombro e deu alguns passos, sentindo a pedra fria sob os sapatos, enquanto Kanon parava ao seu lado.
Apenas Shura os esperava.
O cavaleiro estava parado com as mãos nos bolsos, sua expressão neutra, mas os olhos captando cada mínimo detalhe.
O espanhol notou: A respiração de Scully ainda estava diferente. O jeito que ela mantinha os braços perto do corpo. O modo como evitava olhar diretamente para Kanon - mas também não se afastava.
"Chegaram antes do previsto." A voz dele cortou o silêncio.
Kanon ergueu uma sobrancelha e deu de ombros. "Bom, digamos que... não tinha muito mais o que conseguir por lá."
"Entendi." O tom de Shura foi casual, mas ele estava analisando cada expressão dos dois.
Não comentou nada, não fez perguntas. Apenas observou.
Kanon olhou rapidamente para Scully e sorriu de canto. "Acho que é aqui que nos despedimos."
Como se tivessem ensaiado, em vez de despedidas, houve apenas um entendimento mudo. Então, Kanon se virou e desapareceu nas escadarias.
Scully ficou ali por um segundo a mais, observando-o sumir.
Shura ofereceu o braço à agente. "Vamos?"
xXx
O chalé estava escuro e silencioso, como era de se esperar naquele horário.
Scully fechou a porta atrás de si e parou por um segundo, deixando os olhos se ajustarem à escuridão. O espaço estava do jeito que deixou – como se nada tivesse mudado.
Ela deu alguns passos pela sala, tirando a mochila do ombro e deixando-a sobre a poltrona. O som dela caindo no estofado pareceu mais alto do que deveria.
Nada. Nenhum movimento.
Scully olhou para a porta do quarto que Mulder ocupava. Estava fechada.
Provavelmente dormia. Suspirou, cansada. Não tinha o que fazer naquele momento a não ser fazer o mesmo.
Atrás da porta fechada, Mulder abriu os olhos. Ouviu ela chegar, ouviu cada pequeno ruído que indica a presença de outra pessoa.
Ela não entrou no quarto, não foi falar com ele. Claro que não, por que ela faria isso?
Fechou os olhos de novo.
Será que voltariam a se falar?
xXx
Santuário – Chalé de Capricórnio
Atenas, Grécia
07:32 AM
A manhã havia chegado rápido demais.
Scully abriu os olhos, piscando contra a luz fraca que atravessava a cortina. Não sabia ao certo se havia dormido – ou se apenas permaneceu deitada, imóvel, com a mente girando sem parar.
Porque a verdade era que ainda sentia. A pele ainda parecia vibrar com o calor da última noite. A energia pulsante dentro dela ainda não havia desaparecido.
E isso a inquietava.
Respirou fundo, passou uma mão pelos cabelos e se forçou a levantar. Não poderia adiar o inevitável. Porque Mulder estava ali. E, mais cedo ou mais tarde, eles teriam que se olhar nos olhos novamente.
Ele já estava na cozinha.
Scully parou na porta por um instante, observando as costas dele enquanto servia café. Nenhum movimento de hesitação. Nenhuma tensão visível nos ombros.
Mulder parecia exatamente o mesmo. Ainda assim, tudo parecia diferente.
Ela atravessou a sala e puxou uma cadeira, sentando-se sem dizer nada.
O silêncio pairou por longos segundos.
Até que Mulder, sem se virar, quebrou a distância invisível entre eles:
"Tem café."
A voz era neutra. Controlada. - Boa jogada, Mulder.
Scully passou a língua pelos lábios. "Ótimo."
Ele pegou outra xícara no armário e despejou o líquido quente sem pressa. Nenhuma palavra a mais. Nenhum comentário desnecessário. Só a presença silenciosa dele preenchendo o espaço.
Quando finalmente colocou a xícara na mesa, empurrando-a na direção dela, Scully ergueu os olhos. Ele já estava olhando para ela.
Calmamente.
Observando.
Mas sem perguntar nada.
Ela pegou a xícara e levou aos lábios, esperando que ele dissesse algo. Qualquer coisa. Mas Mulder apenas deu um gole no próprio café e recostou-se no balcão.
Silêncio.
Bom. Se ele não ia falar primeiro, então ela não daria esse luxo a ele. Scully pousou a xícara na mesa. "Você acordou cedo."
Ele ergueu uma sobrancelha. "Na verdade, não sei se dormi."
O olhar dela se estreitou ligeiramente.
Ele sustentou. E então, deu um meio sorriso. "Ou talvez o fuso horário tenha mexido comigo."
A xícara nos dedos dela ficou um pouco mais firme.
O fuso horário. Interessante escolha de palavras.
Ela o conhecia bem demais para não perceber o subtexto.
Mas ele não insistiu. Só continuou tomando café tranquilamente, como se fosse apenas mais uma manhã qualquer.
E isso, de alguma forma, era pior do que qualquer confronto direto.
Então, Mulder mudou de assunto.
"Chegaram antes do previsto."
Scully assentiu. "Sim. No fim não tinha muito mais o que conseguir por lá."
Ele inclinou a cabeça, como se ponderasse a resposta.
"Que eficiência."
Agora sim. Ela sentiu a borda de algo afiado nessa frase.
Mas Mulder manteve a postura relaxada. Neutro. Sem entregar nada. Ela poderia provocar. Poderia perguntar se ele queria dizer alguma coisa com isso.
Mas não faria isso.
Porque a verdade era que Mulder não precisava dizer. Ele sabia.
E ela sabia que ele sabia.
O que quer que estivesse entre eles agora, não precisava de palavras para existir. Então, Scully apenas respirou fundo, terminando o café.
Mulder olhou para o relógio, pegou sua xícara e começou a andar até a porta. Antes de sair, parou por um instante e, sem se virar, disse casualmente:
"Bem-vinda de volta."
E então, saiu.
Scully ficou ali, imóvel, olhando para o café na mesa.
Mulder não explodiu. Não cobrou. Ele apenas deixou a verdade pairar no ar.
E isso era pior do que qualquer discussão. Mesmo as últimas, que quase a enlouqueceram.
Ela sabia que ele sabia.
E ele estava esperando para ver o que ela faria com isso.
xXx
Santuário
Atenas, Grécia
07:46 AM
A manhã estava fria no Santuário, o vento soprando com força sobre as colinas. O silêncio ali era absoluto – ninguém se aproximaria sem que eles percebessem.
Camus serviu-se de chá, como sempre. Movimentos precisos, sem hesitação. Ele já sabia o que precisava perguntar.
Kanon serviu-se de café. Sem pressa. Mas seus olhos estavam afiados.
Eles ficaram ali por alguns segundos, apenas observando um ao outro. Então, Camus foi direto:
"Por que você desativou a defesa?"
Kanon girou a xícara entre os dedos e sorriu de canto. "Porque eu quis. Ela também."
Camus não reagiu. Apenas esperou.
Kanon bufou. "Sabia que a defesa faria ela desmaiar?"
Camus pousou a xícara. "Claro. É um mecanismo de defesa."
Kanon apertou a mandíbula. "Não foi nada agradável."
Camus inclinou a cabeça, analisando-o. "Mas isso não te impediu de nada, afinal."
Kanon não desviou o olhar.
Camus respirou fundo. "Ele a tomou?" Direto e reto.
Kanon fechou os olhos por um segundo antes de responder. "A princípio sim."
Camus cruzou os braços. "E depois"
Kanon soltou um riso seco. "Depois eu voltei e ele não conseguiu mais nada. "
O vento soprou forte entre os dois.
"Não se gabe, Kanon." Camus inclinou-se ligeiramente para frente. "Poseidon não aceita perder, ele toma."
Kanon apertou a xícara. "Dessa vez, não tomou."
Camus estreitou os olhos. "E por quê?"
Kanon respirou fundo, fechando os dedos sobre a porcelana quente. "Porque ele se perdeu."
Camus não piscou.
Kanon soltou o ar devagar. "No começo, ele tentou me empurrar para o fundo. Queria que eu ficasse submerso, que eu o deixasse tomar o controle." Ele passou a língua pelos lábios. "Mas então, ele sentiu."
Camus manteve a voz firme. "Sentiu o quê?"
Kanon riu de leve, balançando a cabeça. "O que eu estava sentindo."
Silêncio.
Camus recostou-se na cadeira. "Você está dizendo que Poseidon sentiu desejo por ela."
Kanon o olhou de canto. "Você acha isso impossível?"
Camus girou a xícara lentamente entre os dedos. "Não impossível. Mas perigoso."
O silêncio ficou denso.
Camus pousou a xícara e cruzou os braços. "O que você acha que ele realmente quer?"
Kanon bufou. "O que ele sempre quer. Poder. Controle. Mas dessa vez..." Ele suspirou. "...ele não esperava se sentir atraído também."
Camus apertou os lábios. "Isso o torna mais imprevisível."
Kanon riu de novo, sem humor. "Acha mesmo?"
Camus abaixou o olhar para a xícara. "Se ele não apenas quer controlar, mas deseja... então pode ser ainda pior do que imaginávamos."
Kanon sustentou o olhar. "Ele não vai conseguir tocar nela novamente."
Camus inspirou fundo. "Acha que pode garantir isso?"
Kanon largou a xícara e cruzou os braços. "Acho. Ela mudou, eu vi. Bem diante dos meus olhos." Os olhos azuis viajaram um pouco no tempo, lembrando do que presenciaram.
Camus assentiu lentamente.
"Ótimo. Porque enquanto você estava no Japão..." Ele parou por um instante.
Kanon franziu o cenho. "O que aconteceu?"
Camus o encarou. "O Santuário sentiu."
Kanon piscou, confuso. "Sentiu o quê?"
Camus inclinou-se para frente. "As emanações."
Kanon permaneceu em silêncio.
Camus continuou. "Mulder não sabia de nada. Shaka quase teve um colapso. Máscara de Morte foi possuído pela Criatura. E o Santuário inteiro sentiu."
O vento cortou o espaço entre os dois.
Kanon ficou imóvel.
Camus sustentou o olhar. "Você entende o que isso significa?"
Silêncio.
Então, Kanon riu baixinho. "Droga."
Camus fechou os olhos por um instante. "Você não tem mais escolha, Kanon."
Kanon largou o café na mesa, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e passou a mão pelo rosto.
"Droga."
Camus esperou.
Finalmente, Kanon respirou fundo e o encarou "Então agora todos sabem."
Camus assentiu. "Todos sabem."
Kanon inclinou a cabeça, os olhos brilhando com algo perigoso. "E Mulder?"
Camus deu um pequeno sorriso de canto. "Vamos dizer que ele não aceitou bem."
Kanon riu baixinho. "Isso eu queria ter visto."
Camus recostou-se na cadeira. "Pare de brincar com isso..."
Kanon ergueu a xicara como se fosse uma taça.
TO BE CONTINUED...
