Cabo Sunion – Ágora antiga
Atenas – Grécia
06:42 PM

O vento quente do mar varria a clareira no alto da encosta, carregando consigo o cheiro salgado e o peso de uma noite que prometia ser diferente. Scully estava sentada na pedra mais alta do lugar, olhando para o oceano em silêncio. Atrás dela, Kanon encostou-se à estrutura de pedra que ele chamava de altar, os braços cruzados. Ele observava Scully sem pressa, sem palavras. Mas seu olhar…

Ele sabia.

O dia inteiro conversaram. Sobre Poseidon, sobre a Criatura, sobre o que quer que estivesse acontecendo dentro dela. Mas no fim… sempre voltavam para o mesmo ponto.

Ela mudou.

Kanon inclinou a cabeça, ele podia sentir a energia do corpo dela vibrando, pulsando em ondas silenciosas. Ela estava diferente. E era isso que o deixava fascinado. Ele se aproximou devagar, sentando-se atrás dela, perto apenas o suficiente para que Scully sentisse o calor do corpo dele contra suas costas.

"Você sente isso, não sente?"

Scully fechou os olhos, exalando devagar.

"...Sim."

"É seu." Kanon murmurou, a voz baixa, quase hipnótica. "Isso que está crescendo dentro de você. Não é a Criatura. Não é Poseidon. É você."

Ela virou a cabeça levemente, os olhos brilhando em tons de azul escuro.

"Você tem certeza?"

Ele se inclinou um pouco mais, os lábios perigosamente próximos da pele dela.

"Quero que confie em mim."

Scully segurou a respiração por um instante.

E então… ela virou-se completamente para ele.

O sol estava se pondo atrás de Kanon, dourando as bordas de seus cabelos, a luz refletindo no olhar dele como se ele próprio fosse uma entidade vinda do mar.

Mas naquele momento, não era um Deus.

Não era um General.

Não era ninguém além dele mesmo.

E quando os lábios dela se pressionaram contra os dele, não houve dúvidas.

Era ela quem o tomava.

Kanon não conteve um gemido baixo quando Scully o puxou para mais perto. Ela não era a mesma mulher de dias atrás. Ela sabia o que queria.

E ele? Ele apenas cedeu.

xXx

Mu servia mais uma xícara de chá para Shaka, que mantinha a postura serena de sempre – pernas cruzadas, olhos cerrados, imperturbável. A noite parecia tranquila, até que ele ergueu a xícara aos lábios.

E congelou.

O líquido tremeu, ameaçando transbordar.

Mu percebeu na hora. "Shaka?"

O loiro não respondeu. O ar escapava em suspiros tensos. Seu corpo havia se enrijecido, os dedos se cravando na túnica como se tentasse conter alguma coisa. Algo que crescia dentro dele.

Mu viu. E entendeu.

"Eles estão juntos."

Shaka fechou os olhos com força. Respirava como se lutasse contra uma onda invisível.

"Maldito seja, Kanon," murmurou, a voz carregada de frustração e desejo.

Mu mordeu o lábio, uma risada breve escapando. Mas o humor logo deu lugar a algo mais sério. Shaka tremia. Estava perdendo o controle ali, bem diante dele.

Foi então que se moveu.

Tomado por impulso – ou instinto – Mu segurou o rosto do amigo e o beijou.

O efeito foi imediato.

A conexão que torturava Shaka se rompeu num estalo. O que restou foi só o presente: o calor de uma boca viva, o gosto de outro ser humano, o toque real. Nada de ecos, nada de visões emprestadas.

Shaka arfou contra os lábios de Mu, como se tivesse sido puxado para a superfície após um afogamento.

Mu aprofundou o beijo, e sentiu: a entrega hesitante, desajeitada, de alguém que nunca esteve ali antes.

A constatação caiu sobre o ariano como um raio. Mas não o fez parar. Pelo contrário, algo dentro de Mu se acendeu. Um desejo feroz de mostrar tudo, de guiar, de fazer aquele corpo entender o que era o prazer direto, pleno, merecido.

Shaka tentou corresponder, mas as mãos tremiam. O beijo era incerto, os gestos tímidos. Ele estava vulnerável, perdido entre o instinto e a vergonha.

Mu o tomou nos braços com firmeza, os lábios descendo para o pescoço, depois para a clavícula. Beijava com paciência e fome. As mãos desenhavam o caminho pelos ombros, pelo peito, até encontrar o nó que segurava a túnica.

"Shhh... deixa comigo," sussurrou, a voz rouca contra a pele sensível de Shaka.

Desfez a amarra devagar, revelando aos poucos o corpo escondido sob camadas de disciplina e voto. Cada pedaço de pele nua era uma revelação. Shaka tremia. Não de medo, mas de antecipação.

Mu se abaixou, a boca marcando o caminho até a barriga, até a virilha. Quando o tocou, Shaka arqueou o corpo com um gemido trêmulo, como se o próprio ar lhe faltasse. Era a primeira vez que alguém o tocava ali com intenção. A primeira vez que o prazer não vinha como eco de outro, mas nascido em si, para si.

Mu o tomou nas mãos, com calma. Depois com a boca. Shaka tentou se conter, tentou manter o autocontrole, mas era inútil. Os quadris se moveram por conta própria. Os sons que escapavam de sua garganta não tinham nome.

"Isso... assim... deixa vir," sussurrava Mu entre um beijo e outro, entre uma lambida lenta e um sopro quente. Shaka explodia, desmoronava a cada segundo.

Quando veio, foi violento, inteiro – e Mu o calou com um beijo, roubando-lhe o grito, o fôlego, a alma.

A energia se quebrou como vidro estilhaçado.

Mu o segurou, guiando-o de volta. Deitou-se ao lado dele, as respirações descompassadas no escuro. O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas era outro silêncio agora. Um silêncio cheio de corpo, de toque, de presente.

Depois de alguns minutos, Shaka abriu os olhos. Ainda parecia em transe.

"Eu não acredito."

Mu virou a cabeça. "Hm?"

Shaka se sentou com dificuldade, os cabelos colados à pele, os olhos ainda embaçados.

"...EU NÃO ACREDITO que a minha primeira vez foi por CIÊNCIA!"

xXx

Na biblioteca do Salão do Grande Mestre, Saga e Camus estavam em uma conversa séria. Planejavam os próximos passos sobre a Criatura, sobre o que sabiam até agora. Mas então…

Saga parou no meio da frase.

Camus franziu as sobrancelhas.

"O que foi isso?" Camus perguntou, preocupado. Saga parecia ter saído do corpo momentaneamente.

Saga levou um segundo para responder, os olhos azuis analisando o nada, como se tentasse decifrar o que estava sentindo. Até que compreendeu.

"É… Kanon."

Camus ergueu uma sobrancelha. "Imagino que ele tenha voltado para o Japão."

Saga soltou um suspiro longo, passando a mão no rosto.

"Queria eu."

Camus cruzou os braços, o rosto fechado em preocupação "Ele está com a agente."

Saga fechou os olhos brevemente "E eles não estão meditando."

"Que maravilha." Camus apertou a ponte do nariz "Você não conversou com ele?"

"Sim, conversei. O problema é que Kanon nunca me escuta."

"Ele está arriscando demais." Camus sabia que estava sendo redundante, mas era impossível não constatar o obvio "Parece até que está querendo provocar o outro."

"Hm?"

"Você sabe."

Saga pausou. Não era possível que seu irmão estivesse fazendo tudo aquilo apenas para provar um ponto ao deus que vivia adormecido nele mesmo. Um maldito deus.

"Pardon mon ami, mas seu irmão é bem capaz disso sim." Camus parecia ter lido seus pensamentos.

xXx

Santuário – Casa de Câncer
Atenas – Grécia
08:56 PM

Máscara de Morte estava recostado no parapeito da varanda da Casa de Câncer, encarando as estrelas. O vinho não tinha descido como deveria. O cigarro apagado entre os dedos era só um gesto automático. Por mais que levasse as coisas de um jeito mais descompromissado, ele ainda precisava de algo que o relaxasse e fizesse esquecer um pouco daquele caos todo.

Mas, antes que pudesse acender o cigarro, sentiu. Não era um cosmo. Não era algo humano.

Era medo. Aquele medo.

O frio percorreu sua espinha antes mesmo que sua mente pudesse processar. Era de novo aquele medo que não era dele. Algo pulsava ao seu redor, como um sussurro silencioso na noite.

Ele endireitou a postura, os sentidos aguçados. - Dessa vez, não! - Os olhos varreram o horizonte, as sombras entre os templos antigos, as ruínas perdidas no Santuário. Algo estava ali.

E então… ele viu.

No penhasco à frente, entre as sombras ondulantes, algo o observava. Não um corpo definido. Não uma silhueta reconhecível. Apenas uma presença.

E então, olhos.

Brilhantes. Vivos. Fugidios.

Era ela.

Máscara prendeu a respiração. O tempo pareceu desacelerar. Seu cosmo pulsou instintivamente, mas ele não atacou.

Porque aquilo não se movia.

Não se aproximava, só olhava.

E ele sentiu. Desta vez, não era terror absoluto. Era algo tentando decidir.

Os dedos de Máscara apertaram o parapeito. A Criatura estava tentando entender algo.

[- Ele.

- Ele seria um inimigo? Seria como os outros que a caçavam? Seria uma ameaça como Poseidon?

- Ou… poderia ouvi-la?]

Máscara não conseguia respirar direito. Algo dentro dele dizia para se afastar. Mas algo mais profundo, mais instintivo, o fez permanecer onde estava.

Porque, pela primeira vez, ele percebeu… Ela não era um monstro.

Ela estava tentando sobreviver.

Foi então que os olhos dela brilharam mais forte -não em ameaça, mas em dúvida. E então, assim como veio, desapareceu.

Sumiu, como se nunca tivesse estado ali.

Máscara soltou o ar com força, os pulmões queimando. Ele nem percebeu que estava segurando a respiração até aquele momento.

Ela não atacou. Não fugiu.

Mas o viu.

Agora, ele sabia. A Criatura não queria lutar. Ela queria ajuda.

E ela ainda estava tentando decidir se eles eram os aliados certos.

xXx

Mulder acordou de súbito.

Ele nem percebeu que tinha adormecido no sofá. O coração dele estava acelerado. A respiração, curta.

– Por quê?

Ele passou as mãos pelo rosto. Tentou raciocinar. Mas então… ele sentiu.

Algo estava errado, ele não sabia o quê. Não estava certo. Ele levantou-se lentamente, indo até a porta.

O Santuário estava em silêncio absoluto. Mulder nunca confiou em silêncios absolutos. Ele olhou para o céu, para as estrelas fixas no firmamento.

E pensou nela.

Onde estava Scully? Ele ainda não a tinha visto desde a reunião.

Ela não voltou ao chalé.

Mulder fechou os olhos por um segundo, o maxilar travado. Algo não estava certo.

TO BE CONTINUED...