O som do mar voltou a dominar.
As águas que antes rugiam com explosões, batalhas e gritos agora se moviam com suavidade, como se o oceano também estivesse aliviado. O sol começava a romper pelas nuvens, lançando raios dourados sobre os destroços, os rostos cansados e o convés manchado de sangue.
Patty limpava restos de madeira com um pano velho, resmungando baixo. Mas mesmo ele, conhecido por sua grosseria, estava visivelmente mais calmo.
— "Que dia, hein…" — murmurou, olhando para o buraco aberto no restaurante. — "Eu só queria servir os clientes…"
Jeff observava o horizonte com um olhar distante. Seus pensamentos vagavam entre o passado e o presente, entre os dias de pirata e o agora como chef. A imagem de Mihawk, a morte de Don Krieg e a força de Naruto... tudo aquilo o fazia lembrar que o mundo era vasto — e perigoso.
Alguns clientes voltavam lentamente para suas mesas, mesmo sem pedir comida. Falavam entre si, vozes baixas, dividindo impressões sobre o que haviam presenciado.
— "Você viu aquele soco do garoto? Atravessou a armadura de Krieg como se fosse papel!"
— "E aquele cara... Mihawk... ele realmente é do governo? Ou é um demônio vestido de espadachim?"
Sanji, encostado na mureta, acendia um cigarro com mãos trêmulas, observando Naruto de longe. Um leve sorriso em seu rosto.
— "Você é um monstro, moleque... mas um monstro do tipo certo."
Naruto riu em resposta ao comentario de sanji
Mas enquanto todos falavam, riam nervosamente, se acalmavam — Gin permanecia em silêncio.
Ninguém prestava atenção nele.
Afastado, sentado nas sombras ao lado de uma pilha de caixas, os braços apoiados nos joelhos e o olhar perdido no chão. Seus punhos cerrados tremiam, mas não era raiva. Era... algo mais profundo.
Vergonha. Dor. Luto. Confusão.
Ele havia sobrevivido — mais uma vez. Mas para quê?
Seus companheiros haviam morrido... todos. Cem homens afundaram com o navio de Krieg. E embora tivessem cometido crimes, eram irmãos de armas. Homens que, como ele, só procuravam um propósito no mar.
Mas ele estava vivo. E por quê?
Ele pensava no prato de comida que Sanji havia lhe dado.
No garoto de cabelo loiro que lutou como um deus e matou seu capitão.
No olhar frio e penetrante de Mihawk.
Gin abaixou a cabeça.
— "O que eu sou agora…?"
Ninguém respondeu. Ninguém ouviu. Ninguém percebeu que ele estava chorando em silêncio até que um som seco ecoou pelos destroços do mar.
Clang. Clang. Clang.
Era o som de metal batendo contra metal, vindo de uma das tábuas flutuantes que restavam do antigo navio de Don Krieg. Todos voltaram os olhos para a origem do ruído, confusos e tensos.
Lentamente, emergindo da água, coberto de cinzas, lama e sangue seco — Pearl, o Muro de Ferro, ergueu-se.
Seu corpo ainda vestia parte da armadura flamejante, agora queimada e trincada. Seu escudo reluzente estava lascado, e sua expressão, marcada por desespero, tentava manter a arrogância de sempre.
— "Vocês… todos vocês acham que acabou?!"
Ele cuspiu no chão, cambaleando até o convés do Baratie, deixando um rastro de água salgada e raiva contida.
— "Eu sou Pearl! O escudo vivo! O muro inquebrável do exército de Krieg! EU AINDA ESTOU DE PÉ!"
Pearl então ergueu os braços com dificuldade, batendo os escudos de metal em cada lado do corpo, criando faíscas que caíam como pequenas estrelas apagadas.
— "Ajoelhem-se! Ou eu transformo esse restaurante num campo de fogo!"
Mas ninguém se moveu.
Os cozinheiros apenas trocaram olhares. Os clientes continuaram sentados, olhando confusos.
Sanji sequer tirou o cigarro da boca, apenas soltou uma fumaça e comentou:
— "Esse cara... tá falando sério?"
Naruto, ainda encostado na mureta, olhou para Pearl com os braços cruzados, sem dizer nada. Apenas observando.
Jeff suspirou fundo e murmurou:
— "Mais um idiota que não entendeu a gravidade do que acabou de acontecer…"
Enquanto Pearl gritava, tentava ameaçar, mostrar poder — ninguém parecia sentir medo. Não depois do que haviam visto com Mihawk. Não depois de Naruto esmagar Krieg como se fosse feito de papel.
Pearl tremia. E não era de raiva.
Pearl percebeu que seus gritos e ameaças não causavam impacto algum. A indiferença de todos ao seu redor o corroía por dentro — até que seus olhos pousaram em Gin, isolado, agachado em um canto do Baratie, longe de todos, envolto em sombras, o olhar perdido e vazio.
Pearl sorriu.
Um sorriso torto, sujo, e oportunista.
— "Gin…", ele murmurou enquanto caminhava, arrastando os pés, até ficar próximo do ex-comandante dos Piratas Krieg. "Você ainda é fiel, não é?"
Gin não respondeu. Suas mãos tremiam levemente. Os sons ao redor pareciam distantes, como se ele estivesse imerso em outra realidade.
Pearl se agachou ao lado dele e sussurrou com veneno:
— "Nosso capitão morreu como um cachorro. Aquele pirralho esmagou ele como se fosse lixo... Mas você… você pode honrar a memória dele."
Gin continuou sem responder. As palavras batiam, ecoavam, se chocando com a confusão em sua mente.
Pearl persistiu:
— "Don Krieg acreditava em você. Ele dizia que você era o mais leal, o mais forte, o seu braço direito. E agora você tá aqui... sentado como um inútil... enquanto aqueles cozinheiros riem da sua dor."
Gin apertou os punhos. As palavras entravam como navalhas.
— "Se você não fizer nada... tudo o que ele lutou vai ser esquecido. Você vai deixar que o Baratie pise na honra do seu capitão assim?"
As faíscas do escudo de Pearl voltaram a zunir no ar.
— "Ataque. Queime esse restaurante. Vingue nosso bando. Faça Krieg se orgulhar de você uma última vez."
E naquele momento, algo em Gin estalou.
Seus olhos perderam o pouco de lucidez que tinham.
Ele se levantou, cambaleante, a respiração pesada. Não parecia ele mesmo.
Era como se a sombra de sua antiga lealdade tivesse tomado conta por completo.
Pearl recuou um passo com um sorriso satisfeito.
Gin olhou ao redor do restaurante.
Sanji, Jeff, Patty, todos distraídos, tentando seguir em frente com o caos que se acalmava.
E Naruto, de costas, olhando para o mar…
Sem saber que a verdadeira tempestade estava prestes a recomeçar — agora, dentro do próprio restaurante.
O crepitar súbito de chamas ecoou no salão principal do Baratie.
Um escudo em chamas voou pelo ar e explodiu contra uma das colunas centrais do restaurante flutuante, espalhando fogo e estilhaços. O impacto fez tremer o chão sob os pés dos cozinheiros e clientes.
— "ATAQUE!" — berrou Pearl, girando seus escudos flamejantes com fúria insana. Seus olhos estavam arregalados, um brilho fanático dançava neles. "PELA HONRA DE DON KRIEG!"
Todos viraram-se, espantados, quando viram Gin ao lado dele — agora com sua máscara recolocada, os olhos cobertos pela sombra da loucura. Ele segurava suas tonfas com força, a postura ofensiva, pronto para matar.
— "GIN?!" — exclamou Sanji, dando um passo à frente, incrédulo.
Gin respondeu com o som metálico de suas tonfas se chocando, avançando direto contra o grupo de cozinheiros com movimentos velozes e precisos. Ele golpeava sem hesitar, como uma máquina de guerra movida a culpa e dor.
Patty e Carne foram os primeiros a reagir, bloqueando os ataques com frigideiras e panelas gigantes, tentando entender o que estava acontecendo.
— "Ele ficou maluco?! Tá tentando destruir o restaurante?!" — gritou Patty, se defendendo com dificuldade.
Jeff, mais atrás, observava a cena com olhos afiados. Ele viu Pearl incitando Gin de longe, gritando palavras sobre honra, lealdade e vingança. A conexão ficou clara em sua mente.
— "Manipulação psicológica…" — murmurou o velho pirata. "Gin não está agindo por vontade própria… Pearl envenenou o coração dele."
Naruto observava tudo em silêncio, ainda parado na beira da mureta do restaurante, de costas para o ataque. Apenas quando um dos escudos flamejantes passou a centímetros de sua cabeça, ele virou-se lentamente, olhos semicerrados, frios e atentos.
Ele viu Gin, golpeando como uma fera sem controle.
E viu Pearl, dançando entre as chamas, se achando intocável.
Naruto respirou fundo.
— "Vocês querem mesmo continuar esse ciclo de sangue?" — sua voz foi baixa, mas atravessou o caos como uma lâmina de vento. "Então se preparem pra lidar com as consequências."
Todos ali entenderam:
Naruto D. Uzumaki não deixaria isso continuar.
Naruto avançava devagar, os olhos fixos em Gin, pronto para pôr fim ao conflito de forma rápida e definitiva.
Mas, de repente, uma mão firme segurou seu ombro.
— "Deixa comigo, Naruto." — disse Sanji, sério, os olhos acesos por uma chama silenciosa.
Naruto parou, virando o rosto apenas o suficiente para encarar seu amigo.
— "Isso é entre cozinheiros agora." — completou Sanji, largando o cigarro e o pisando com firmeza. "Eles estão atacando a minha casa, o meu restaurante… a minha família. E se o Gin tá perdido, então é meu dever trazê-lo de volta. Nem que seja na porrada."
Naruto hesitou por um instante. Ele reconhecia aquele olhar — era o mesmo que ele próprio carregava quando tudo estava em jogo. Um olhar que dizia: "Essa luta é minha."
Depois de alguns segundos, Naruto apenas assentiu.
— "Tá bom... Mas não morre, idiota." — respondeu com um meio sorriso, antes de recuar, observando em silêncio.
Sanji estalou os dedos do pescoço, girando os ombros.
— "Muito bem, Pearl… Gin…" — sua voz carregava peso. "Vocês escolheram o pior dia pra surtar aqui."
Pearl riu, cuspindo faíscas pelas bordas da boca.
— "Você não tem chance contra mim, cozinheiro de merda! Eu sou a parede de ferro! Eu sou invencível!"
Sanji acendeu um novo cigarro, nem ligando para a ameaça.
— "E eu sou o cara que vai te apagar."
Ele partiu como um raio.
Um chute giratório explodiu contra o escudo de Pearl, rachando-o em dois. Outro veio logo em seguida, atingindo o estômago do pirata flamejante, que cuspiu sangue e voou pelo salão.
Gin tentou interceptá-lo, mas Sanji bloqueou suas tonfas com o seu pé e o chutou com força no queixo, fazendo-o cambalear. Ainda assim, o olhar de Gin não era de raiva — era de confusão e desespero.
— "Acorda, Gin!" — gritou Sanji no meio do confronto. "Você não é um monstro! Você sabe que isso aqui tá errado!"
Gin hesitou.
Os gritos de Pearl continuavam ao fundo, mas Sanji o ignorava por um momento. Ele encarava Gin como se estivesse tentando salvá-lo de dentro de um abismo.
— "Você me disse que só queria comer, só queria sobreviver! Então por que agora tá tentando destruir o único lugar que te deu isso?!"
As mãos de Gin tremiam.
A respiração estava pesada.
Algo dentro dele estava se quebrando — e não eram apenas os ossos.
Pearl se levantava, ainda tentando retomar o controle do caos.
Mas antes que pudesse reagir…
Sanji avançou novamente.
Desta vez, era para terminar tudo.
Pearl rugia, coberto de fuligem, os olhos arregalados de fúria e desespero. Suas placas de ferro estavam rachadas, chamuscadas pelas próprias chamas descontroladas que ele tanto usava como símbolo de poder.
— "EU AINDA NÃO ACABEI!" — gritou, girando seus escudos flamejantes como se fossem serras vivas. "EU VOU INCENDIAR ESSE LUGAR E TRANSFORMAR VOCÊ EM CINZAS!"
Mas Sanji não recuava. Ele apenas andava na direção de Pearl com passos lentos, calculados, firmes. Sem medo. Sem hesitação.
— "Você fala demais…" — murmurou, tragando fundo seu cigarro. — "Sabe qual o problema de viver se achando invencível, Pearl? É que uma hora alguém aparece pra te lembrar que você nunca foi."
Pearl avançou com fúria, os braços girando como moinhos ardentes. Mas Sanji deslizou para o lado com agilidade absurda, desviando no último instante.
"Costela!"
O pé de Sanji explodiu contra a lateral de Pearl, fazendo um estalo seco ecoar.
Pearl gritou, mas continuou.
"Pescoço!"
Outro chute giratório, agora vindo de cima, acertou-o na base da mandíbula, lançando o pirata para trás, girando no ar.
"Barriga!"
Um chute frontal potente cravou-se no estômago de Pearl, que vomitou sangue.
Sanji não parava. Ele dançava entre os ataques com a precisão de um mestre, cada chute atingindo um ponto vital, desmontando o inimigo pedaço por pedaço. E tudo — aquilo era puro talento, técnica, e fúria fria de um verdadeiro cozinheiro.
Pearl, ensanguentado, tremia ao se apoiar em um dos pilares do restaurante.
— "Você… você é só um cozinheiro…" — murmurou, cuspindo sangue. "Você não devia ser forte assim…"
Sanji aproximou-se devagar, parando a um metro do inimigo.
— "Sou um cozinheiro, sim." — respondeu. "E por isso mesmo… protejo com a minha vida a cozinha onde trabalho. E as pessoas que comem nela."
Pearl rugiu pela última vez, tentando um golpe desesperado.
Sanji, calmo, girou no ar.
"Último prato."
Seu calcanhar caiu como um machado decisivo na cabeça de Pearl, enterrando o rosto do pirata no chão de madeira e fazendo o restaurante interio tremer junto com o barco.
Pearl não se mexeu mais.
Um silêncio absoluto se instalou por alguns segundos.
Sanji apenas se afastou, apagando o cigarro com os dedos.
— "Pedido cancelado." — murmurou, voltando os olhos para Gin, que observava tudo em silêncio absoluto
A brisa do mar já não trazia a mesma paz. As ondas quebravam suavemente contra o casco do Baratie, agora marcado pela destruição e pelo sangue. O cheiro de pólvora ainda pairava no ar, misturado ao gosto salgado do oceano e ao silêncio pesado que restou após a queda de Pearl.
Gin estava ajoelhado próximo ao convés, os olhos baixos, os punhos cerrados com tanta força que seus dedos sangravam. Sua respiração era pesada, entrecortada por sussurros que ninguém mais conseguia entender.
Naruto se aproximou primeiro, com cuidado. Havia empatia no olhar do garoto. Ele via naquela figura desmoronada algo familiar. O trauma. A perda. A dor cravada fundo na alma.
— "Gin… a luta acabou. Você ainda pode ter um caminho." — disse Naruto, com a voz suave, mas firme. — "Não precisa terminar assim."
Sanji veio logo atrás, sem seu habitual sarcasmo. Apenas seriedade. O olhar abatido, o cigarro pendendo dos lábios.
— "Você não é como ele, Gin. O Krieg te quebrou, mas não te matou. Não deixa que ele te controle mesmo depois de morto…"
Mas então... Gin riu.
Uma risada seca, distorcida, que gelou o sangue de todos que a ouviram e conhecia aquilo.
Ele ergueu a cabeça. Os olhos estavam vazios… mas cheios de um brilho maníaco. Era como se a realidade tivesse finalmente cedido em sua mente.
— "Vocês… acham que sabem o que é dor?" — sua voz saiu rouca, tremida. — "Vocês acham que é simples assim?! Me oferecer piedade?! Me dar esperança?!"
Ele levantou-se de um salto, como uma mola prestes a explodir, e avançou contra Sanji.
— "VOCÊ MATOU O MEU CAPITÃO! VOCÊ DESTRUÍU MINHA FAMÍLIA!"
Naruto gritou:
— "GIN, PARA!"
Mas era tarde.
Gin golpeava sem parar, com as mãos nuas, os punhos já feridos e encharcados de sangue. Ele não estava mais lutando… estava se debatendo contra o mundo. Contra tudo que o esmagou até ali.
Sanji apenas recuava, evitando os ataques com habilidade. Seu rosto, normalmente confiante, agora era pura dor emocional.
— "Eu não quero lutar com você, Gin…"
Mas Gin já não o ouvia mais.
Aquele homem havia desaparecido.
Só restava o eco da loucura, da culpa e do desespero.
O som dos golpes de Gin ecoava pelo convés do Baratie. Cada soco, cada chute, cada grito… carregava uma dor acumulada por anos. O convés de madeira rangia sob os passos rápidos e furiosos, enquanto o sangue se misturava às poças de água salgada deixadas pela última maré.
Sanji continuava a recuar, desviando sempre que podia, bloqueando quando necessário. Mas havia algo diferente nele agora. Ele não lutava para vencer. Ele estava tentando salvar alguém… que já não existia mais.
— "GIN, ACORDA!" — gritou ele, bloqueando mais um soco. — "Olha pra mim! Olha direito!"
Mas os olhos de Gin estavam perdidos.
— "Você deveria ter me matado junto com ele! Eu era o segundo comandante! O escudo dele! EU DEVERIA TER IDO JUNTO COM O DON!"
Sanji deu um passo para trás para se esquivar de levar um soco direto no peito. Ele chutou Gin em seu peito fazendo ele cair para com o gosto de ferro e sal preenchendo sua boca.
Naruto tentou intervir, mas Sanji ergueu a mão, mesmo em conflito nessa situação.
— "Naruto… por favor… não." — disse entre dentes. — "Esse é meu fardo agora. Eu… preciso terminar isso."
Naruto parou. O olhar firme, mas cheio de compaixão. Ele entendia. Mesmo que doesse… ele entendia.
Gin rugiu como um animal ferido, e pulou em cima de Sanji com os dois punhos erguidos. Sanji desviou e girando no ar com elegância, mas sem contra-atacar.
— "Você queria um novo caminho, Gin. Você queria sair dessa vida… EU SEI!" — gritou Sanji, lágrimas misturadas ao suor em seu rosto. — "Mas você deixou que a dor te cegasse! Você se perdeu!"
Gin gritou mais alto ainda, as veias saltadas no pescoço, os olhos ensanguentados e dilatados. Ele chutou, socou, mordeu, cuspiu. Não havia técnica. Só agonia crua.
E mesmo assim, Sanji hesitava. Ele não queria matar. Não aquele homem.
Mas algo dentro dele começou a ceder.
Ele via nos olhos de Gin o mesmo abismo que olhava para ele, anos atrás, no naufrágio, no desespero, na fome… e soube. Gin não voltaria mais.
Não havia mais salvação.
Só restava alívio.
E isso… doía mais que qualquer chute.
A luta de Sanji contra Gin se intensificava, mas agora o campo de batalha estava em silêncio. Não era mais o som dos golpes que predominava, mas o eco do vazio no coração de ambos. Sanji, com a dor pulsando em seu coração, estava completamente ciente de que, para Gin, aquela luta já não era mais sobre vencer ou ser salvo. Era sobre sobreviver à dor que o consumia.
Gin não conseguia mais distinguir o que era real e o que era sua própria loucura. Cada soco, cada golpe, parecia uma tentativa desesperada de se livrar de algo muito maior do que ele mesmo. Ele estava sendo consumido por um monstro interno que Sanji não podia mais controlar.
Sanji sentiu seu corpo fraquejar. O cansaço mental que aquilo estava causando em Sanji era demais , mas a dor, as feridas... tudo que infligiu em gin era muito pior. Mas ele sabia o que tinha que fazer.
— "Gin... Eu sei o que você quer. Eu sei o que você sente..." — Sanji murmurou, sua voz se tornando mais suave. Ele ergueu a perna e, com a força mental que lhe restava, deu um golpe certeiro no peito de Gin, mandando-o para trás. Gin caiu no chão, ofegante, mas os olhos ainda queimavam com a raiva incontrolável.
Ele olhou para Sanji, sua respiração pesada, e gritou:
— "Eu... eu nunca... nunca serei livre! Nunca poderei escapar disso! NUNCA!"
Sanji se aproximou lentamente, sentindo a luta em seu interior. A empatia que sempre o guiava estava sendo desafiada por uma necessidade cruel de dar fim ao sofrimento de Gin.
— "Gin... a liberdade não vem da luta. Não vem da vingança ou da dor." — Sanji se ajoelhou diante dele, com as mãos caindo para os lados. — "Às vezes, a liberdade é deixar ir... e parar de carregar o peso do mundo. Eu sei disso, mais do que você imagina."
Gin, com os olhos cheios de uma dor imensa, olhou para Sanji. Pela primeira vez, algo em seu rosto mudou. Era um vislumbre de humanidade — uma sombra da pessoa que ele já tinha sido.
— "Você... não vai me matar, não vai?" — Gin perguntou, com uma voz fraca e trêmula.
Sanji não respondeu imediatamente. Ele olhou para o homem que estava diante dele — aquele que um dia foi alguém, que teve sonhos, que já foi um ser humano, como ele. Mas não havia mais retorno.
Ele colocou sua mão sobre o ombro de Gin e, com um suspiro profundo, disse:
— "Eu não posso mais te deixar sofrer, Gin. Isso... isso é o melhor para você."
E, com um movimento rápido, Sanji desferiu o golpe final, não com a força de sua perna, mas com o peso de um coração que se partia em pedaços.
O som de um suspiro final foi o que restou no ar. Gin caiu em paz, os olhos se fechando, finalmente livre da tormenta que o havia consumido.
Sanji caiu de joelhos, tremendo, com as lágrimas escorrendo por seu rosto. Ele não queria matar. Mas ele sabia que, às vezes, a única forma de dar paz a alguém era terminar sua luta. E, mesmo assim, ele se sentia vazio.
Naruto estava atrás dele, observando silenciosamente, mas com uma compreensão profunda do que acabara de acontecer. Ele sabia que Sanji tinha feito a coisa certa, embora isso custasse tanto.
O silêncio no restaurante parecia absoluto. Todos estavam testemunhando uma tragédia que, de certa forma, os tocava. Até mesmo Patty e Jeff, que estavam observando à distância, sabiam que, naquele momento, o mundo havia mudado.
Sanji levantou a cabeça lentamente, os olhos vermelhos de tanto chorar. Ele olhou para todos ao seu redor, seu peito pesado.
— "Isso... isso foi o melhor para ele." — ele murmurou, tentando convencer a si mesmo mais do que aos outros.
Mas, em sua mente, o que ele sentia era claro. Ele sabia o peso do que havia feito. Ele havia tirado a vida de alguém, mas ao mesmo tempo, o libertou. E isso o destruía.
O sol já se punha lentamente no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e púrpura. As águas do East Blue refletiam a luz dourada, agora tranquilas, como se a natureza estivesse oferecendo um breve suspiro de paz após tanta destruição.
O Baratie estava em ruínas. Não completamente, mas ainda assim avariado: paredes rachadas, mesas viradas, utensílios espalhados, e o aroma de pólvora e sangue ainda pairando no ar. No entanto, havia algo novo também — esperança.
Naruto e Sanji estavam lado a lado, esfregando o chão, martelando tábuas e levantando móveis. Naruto usava um avental emprestado por Jeff, já imundo de poeira e farinha. Sanji, com a camisa arregaçada, suava e resmungava sem parar.
— "Tsc... Isso é coisa de cozinheiro ou de pedreiro?" — Sanji bufou, pregando uma tábua no chão com um chute bem direcionado.
Naruto riu alto, carregando duas cadeiras nos ombros.
— "Ei, isso aqui é fichinha perto do que minha mãe fazia eu limpar. Uma vez ela me fez lavar a casa inteira... com escova de dentes!"
— "Sua mãe era uma tirana."
— "Uma rainha da guerra."
Os dois trocaram um sorriso rápido, aquele tipo de sorriso silencioso que só quem sobreviveu a algo brutal consegue dar. Um olhar de respeito mútuo.
Ao fim do trabalho, a cozinha foi reabastecida, a sala de refeições improvisada, e todos os cozinheiros, clientes e trabalhadores sobreviventes se reuniram ao redor de uma longa mesa improvisada — um banquete foi preparado por todos os cozinheiros e Sanji para celebrar não só a sobrevivência, mas também a coragem e o sacrifício nesse longo dia.
Jeff observava tudo com um olhar atento e orgulhoso. Com os braços cruzados e o eterno cigarro pendendo da boca, ele gritou:
— "Certo, molecada! Todo mundo se senta. É hora de comer!"
Todos começaram a se acomodar nas cadeiras ao redor da mesa... menos Naruto e Sanji.
Sanji, confuso, apontou com o polegar para os lugares restantes.
— "Ei, velho, não tem espaço pra nois dois ali!"
Jeff respondeu com um sorriso torto:
— "Lugar pra vocês dois? Que nada. Vocês cozinharam, então comem no chão. Regras da casa!"
Naruto gargalhou, já se jogando de pernas cruzadas no chão com um prato cheio.
— "Tá ótimo! Melhor do que comer na rua!"
Sanji, indignado, cruzou os braços.
— "Isso é um restaurante cinco estrelas, cacete! Comemos no chão agora?! Tsc... Isso é absurdo."
— "Quer ir pra cozinha de novo?" — Jeff rebateu com calma.
Sanji mordeu a língua e sentou ao lado de Naruto, ainda bufando.
— "Isso é um atentado contra a culinária... contra a elegância!"
Naruto deu um leve empurrão no ombro do amigo, sorrindo.
— "Relaxa, mestre gourmet. A comida tá boa e a companhia também."
Com o clima agora mais leve, a risada de todos preencheu o ar — uma risada sincera, de alívio, de gratidão por estarem vivos.
A tarde já começava com velas nas mesas tremeluziam com a brisa leve do mar, enquanto o som de talheres e risos preenchia o restaurante flutuante com uma energia renovada.
Os pratos estavam cheios, as barrigas também — peixe fresco grelhado com ervas, arroz aromático, sopas quentes e pão recém-assado. Sanji, apesar de bufar ainda por estar no chão, não podia esconder o leve sorriso no canto da boca. Ele via os clientes sorrindo, os cozinheiros conversando animados, e Jeff finalmente relaxado, com uma taça de vinho na mão.
Naruto estava com a cabeça apoiada nas mãos, olhando para o céu vendo as nuvens passageiras lá no alto com um leve brilho nos olhos.
— "Sabe, Sanji... tem algo de mágico nisso tudo."
— "Magia não, trabalho. A gente reconstruiu esse lugar com os próprios braços."
— "Sim, mas... não é só isso." — Naruto pegou um pedaço de pão e mordeu. — "É a sensação de que, mesmo depois do caos, a vida continua. E às vezes, até mais bonita."
Sanji olhou de canto, mais sério.
— "É. Só que tem um gosto agridoce. A gente perdeu o Gin..."
Naruto apenas assentiu, o olhar um pouco mais pesado.
— "Mas pelo menos... ele viu que alguém ainda se importava. Isso vale mais do que ouro."
O silêncio durou alguns segundos.
A atmosfera era leve, sobre o mar tranquilo... até que Patty, com sua costumeira cara de poucos amigos, apareceu por trás segurando uma concha fumegante de sopa.
— "Alguém deixou essa sopa aqui... tava dando sopa. Heh." — Patty resmungou, levando a colher à boca.
Sanji, distraído, virou-se com um sorriso de canto.
— "Ah, então você experimentou minha sopa, né? Heh, tá boa, né?"
Patty mastigou... engoliu... parou.
E sem dizer nada, deixou a concha cair no chão. Com os olhos semicerrados e expressão de puro desgosto, cuspiu a sopa ao lado com teatralidade.
— "Quem foi o responsável por ISSO? Isso tá um lixo!"
Naruto arregalou os olhos e olhou para Sanji.
— "Ei, mas você acabou de—"
— "EU FIZ ESSA SOPA, SEU TRONCO DE MADEIRA MOFADA!" — gritou Sanji, levantando-se furioso.
A comoção chamou a atenção dos outros cozinheiros. Um a um, curiosos, começaram a provar a sopa deixada no canto. Com cada colherada, uma nova careta. Um novo insulto.
— "Tem gosto de água de bilge!"
— "Você jogou sal ou areia, Sanji?!"
— "Isso aqui não tá nem pra peixe morto comer!"
Sanji tremia de raiva, as veias saltando na testa.
— "VOCÊS TODOS ESTÃO MALUCOS! EU FIZ COMO SEMPRE!"
Foi quando os passos firmes de Jeff ecoaram entre as mesas. Ele se aproximou devagar, encarando a sopa como se já soubesse o resultado. Pegou uma colher, mergulhou na tigela, e levou à boca.
O silêncio reinou por um segundo com ele .
— "Se você servisse isso aqui, nosso restaurante fechava em dois dias."
As palavras caíram como um raio. Mas o que veio depois foi pior.
— "E qual é a maldita diferença da sua sopa pra minha, hein?!" — Sanji explodiu, o rosto vermelho de frustração e segurando Jeff pelo colarinho da sua roupa de cozinha.
Até que Jeff deu um passo à frente. E, pela primeira vez... ele ergueu o punho.
SMACK!
O som seco do soco ecoou como um trovão no convés. Todos os cozinheiros congelaram.
Jeff sempre usava os pés. Sempre.
O impacto fez Sanji tropeçar para trás, não pelo golpe em si, mas pelo peso do gesto.
— "Porque você ainda cozinha com raiva. E Porque você ainda cozinha... como uma criança."
Sanji olhou para Jeff com os olhos fervendo, o rosto marcado.
A boca se contraiu... e então, ele cuspiu no chão.
— "Eu não sou mais uma criança, velho!"
Virou-se de costas, chutando uma cadeira no caminho, e saiu porta afora. O som de seus passos furiosos ecoava no convés do restaurante.
Naruto, ainda no chão com um pedaço de pão na boca, olhou pra tudo com expressão mista entre choque e curiosidade.
— "... Ok. Isso escalou rápido."
Depois de toda a confusão e o soco inesperado, um silêncio pesado pairava sobre o Baratie. Naruto, com uma tigela da soupa de Sanji nas mãos, olhou para o conteúdo com curiosidade. Levou a colher à boca. Seu rosto se iluminou no mesmo instante.
— "Ué... mas isso tá delicioso!" — exclamou ele, erguendo as sobrancelhas.
Ele virou-se para os cozinheiros reunidos e perguntou:
— "Por que todo mundo falou que tava horrível, então?"
Patty, um dos primeiros a reagir antes, desviou o olhar e coçou a nuca.
— "Bom... a gente mentiu."
— "Hã?" — Naruto franziu a testa.
— "É, a verdade é que essa sopa tava perfeita."
— "A melhor que o Sanji já fez até agora."
— "Tinha um equilíbrio de sabores que... droga, me fez lembrar da cozinha da minha vó."
— "Concordo, a textura, o tempero, o aroma... parecia sopa de um chef dos sonhos!"
Naruto arregalou os olhos com os comentários de todos os cozinheiros .
— "Então... por que fizeram isso?! Por que fingiram que tava ruim?"
Foi Jeff quem respondeu, com a voz firme, mas carregada de um estranho carinho.
— "Porque se a gente não fizesse isso, aquele teimoso nunca iria sair daqui."
— "Sanji sonha com o All Blue desde que é pequeno. Ele só nunca teve coragem de dar o primeiro passo."
O silêncio voltou. Mas não durou muito.
Jeff encarou Naruto, como quem tomava uma decisão importante.
— "Você precisa de um cozinheiro na sua tripulação, garoto?"
Naruto assentiu de imediato.
— "Preciso, sim. E quero o Sanji pra isso."
Jeff cruzou os braços, olhando com um sorriso leve.
— "E se eu pedir pra você levar esse cabeça-dura com você pra Grand Line?"
Naruto sorriu de volta.
— "É pra lá que eu tô indo, de qualquer jeito."
Do lado de fora da porta, escondido pela parede do corredor, Sanji ouvia tudo.
Os olhos arregalados. A respiração presa.
Ele queria gritar. Queria dar meia-volta e fingir que nada daquilo importava.
Mas seu coração batia forte. Forte como nunca.
Porque naquele momento... ele sentia que talvez... só talvez... estivesse pronto
Jeff ainda olhava firme para Naruto, os braços cruzados, como se ainda buscasse algo na resposta do garoto.
— "Você realmente quer levar o Sanji com você, não quer?"
— "Quero." — Naruto respondeu sem hesitar.
— "Então leve. Leve esse teimoso pra Grand Line. Faça ele realizar o sonho dele. O All Blue."
Mas Naruto franziu o cenho.
— "Eu só vou levar ele se ele quiser ir. Se ele mesmo me disser isso."
Jeff ergueu uma sobrancelha.
— "Você tá me dizendo que mesmo sabendo que a Grand Line é o sonho da vida dele, você não vai levar o Sanji... a menos que ele peça?"
— "Exatamente." — Naruto afirmou com convicção.
— "Não se força ninguém a viver um sonho que não escolheu viver com você. Nem mesmo se for o sonho da vida dela. Se ele não disser que quer, então não vale."
Jeff permaneceu em silêncio por um momento. Depois, um leve sorriso surgiu em seu rosto enrugado.
— "Isso é... muito justo." — murmurou.
— "Mas me diga, garoto... como é que a gente faz aquele teimoso admitir isso pra si mesmo?"
Antes que Naruto pudesse responder, uma voz veio do fundo da sala, rouca e firme.
— "Não precisa fazer nada."
Sanji apareceu na porta, com as mãos nos bolsos e um cigarro pendendo dos lábios. Seus olhos estavam vermelhos, talvez do vento... ou de algo mais antigo e mais fundo.
— "Eu ouvi tudo." — disse, caminhando até o centro do salão.
Ele encarou Naruto diretamente.
— "Sabe... todo mundo tem um sonho. Mesmo que esse sonho pareça idiota ou impossível pros outros."
— "Mas a gente só tem essa vida. E mesmo se for um sonho bobo..."
Sanji deu uma tragada no cigarro e deixou a fumaça sair devagar.
— "...a gente tem que correr atrás dele até o fim."
Então, ele sorriu.
— "É por isso que eu vou."
— "Pelo meu grande sonho. O All Blue."
Jeff se manteve em silêncio. Os outros cozinheiros assistiam a tudo com os olhos arregalados.
Sanji virou-se de novo para Naruto e disse com firmeza:
— "A resposta é sim."
— "Eu vou com você nessa jornada pra ser o Rei dos Piratas..."
— "E eu serei o cozinheiro do seu navio."
— "Vamos juntos pra Grand Line, Naruto!"
Por um instante, o salão ficou completamente mudo.
Até que, de repente...
— "SÉRIO?!"
Naruto pulou no ar com tanta força que quase derrubou uma cadeira ao lado.
— "ISSO É INCRÍVEL! FINALMENTE!"
— "AEEE, SANJI! O COZINHEIRO ESTÁ A BORDO!"
Os cozinheiros se entreolharam, surpresos e sorrindo. Jeff apenas bufou, tentando esconder um sorriso orgulhoso.
Sanji, de costas, apenas continuou caminhando... com um leve sorriso no canto da boca.
O barco já estava preparado, balançando suavemente nas águas calmas do porto do Baratie.
Naruto se mantinha à frente do navio, braços cruzados, observando o momento com respeito. Ele sabia o peso daquela partida para Sanji. Não era só uma despedida — era a ruptura de uma vida inteira.
Sanji subiu a prancha lentamente, passos firmes, mas o olhar baixo, carregado de memórias. Quando ele pisou no convés do Baratie pela última vez como cozinheiro da casa... todos os cozinheiros se alinharam — lado a lado, em silêncio.
Patty à direita. Carne à esquerda.
Eram dezenas. Todos os cozinheiros que um dia discutiram, lutaram, dividiram panelas, tapas e garfadas com ele. Formavam um corredor de honra, abrindo caminho para Sanji.
Nenhuma palavra.
Apenas o som do vento e das gaivotas.
Sanji caminhou entre eles. Seus sapatos tocavam a madeira devagar, como se cada passo pesasse uma tonelada. Ele tentava manter o orgulho, o queixo erguido... mas os olhos já começavam a brilhar.
Quando ele chegou ao fim da passarela, uma voz ecoou do segundo andar do restaurante.
Era Jeff. Com os braços cruzados no parapeito, o vento agitando sua longa perna mecânica e a bandana suada de anos de cozinha.
— "Sanji!" — ele gritou.
O loiro se virou, o coração na garganta.
Jeff tragou seco, mantendo a pose... mas havia algo trêmulo em sua voz:
— "Tenta não pegar um resfriado por aí... seu idiota."
Foi como um disparo.
As palavras simples... mais que cortaram fundo.
Sanji caiu de joelhos no deck do navio. As lágrimas brotaram de uma vez só, descontroladas, pesadas, quentes.
Ele não se importou em esconder o choro.
Fez uma reverência completa — mãos e testa tocando o chão.
A voz embargada saiu baixa, mas clara o suficiente para todos ouvirem:
— "OBRIGADO POR TUDO, CHEFE JEFFF!"
— "OBRIGADO... POR SALVA A MINHA VIDA... POR ME DAR UM LAR... POR ME ENSINAR O QUE É COZINHA DE VERDADEEEE!
Os cozinheiros atrás dele já choravam. Alguns tentavam disfarçar com tosses ou tapas nos outros. Mas todos sabiam...
Ali não estava apenas indo embora um cozinheiro.
Estava partindo um filho do Baratie.
Jeff apertou o maxilar e respondeu, baixo, apenas para si:
— "Vai... All Blue tá te esperando, Sanji."
E então, o navio partiu. Lentamente, afastando-se da plataforma.
Sanji, ainda ajoelhado, virou-se para frente... e encarou o mar aberto.
Ao seu lado, Naruto apenas colocou uma mão em seu ombro, sem dizer nada.
Era hora de seguir em frente.
Mas aquele pedaço do coração de Sanji... ficaria para sempre entre o cheiro de óleo, sopa quente e gritaria do Baratie.
O pequeno barco seguia firme sobre as ondas suaves, embalado pelo ritmo calmo da tarde no mar.
O sol, começando a descer, tingia o céu com tons de laranja e dourado, refletindo na água como uma trilha cintilante.
Era o barco de Naruto — feito com amor e cuidado por sua mãe, Kushina.
Simples, mas robusto. Compacto, mas acolhedor. Cada detalhe tinha um toque pessoal: as velas costuradas à mão, o timão esculpido com o símbolo de um redemoinho, e até um pequeno sino pendurado no mastro, que balançava levemente com o vento.
Lá dentro, Sanji andava, abrindo os compartimentos, conferindo os barris e as caixas.
— "Água doce, cheia... arroz, massas, farinha, enlatados, temperos, carne seca... até uns peixes curados que nem fui eu que preparei." — murmurou ele, analisando tudo com olhos de profissional.
Fechou o último compartimento e passou um pano no balcão.
— "Estoque de comida e água tá no máximo, capitão." — disse com um tom meio sarcástico, encostado na porta da cabine.
Naruto estava deitado na rede esticada no pequeno convés, braços atrás da cabeça, olhando o céu.
— "Hmm? Ah, valeu, Sanji! Você é o melhor." — respondeu ele com um sorriso aberto.
Sanji suspirou.
— "Certo... então, qual é o próximo passo, Naruto? Qual o rumo da tripulação do futuro Rei dos Piratas?"
Naruto se virou na rede, agora com os olhos brilhando de animação.
— "Vamos atrás do nosso próximo tripulante."
Sanji arqueou a sobrancelha, curioso.
— "E quem seria esse?"
Naruto deu uma piscadinha, como se já soubesse de tudo.
— "Um navegador. Alguém que possa nos levar para qualquer lugar do mundo sem se perder."
Sanji coçou o queixo, pensativo.
— "Hm... bom plano. Porque eu sou bom na cozinha, mas sou uma negação com mapas."
Ambos riram.
Naruto ainda estava na rede, mas agora se sentou, tirando algo de dentro da camisa: um jornal dobrado e um pouco amassado, ainda com cheiro de maresia.
— "Ei, Sanji... dá uma olhada nisso."
Ele estendeu o jornal para o loiro, que o pegou com uma sobrancelha arqueada. Ao abrir, o título em letras garrafais chamou atenção:
"Jack Sparrow, o Pirata fugitivo, finalmente capturado após um ano fugindo da Marinha!"
Abaixo, uma ilustração rústica em preto e branco mostrava um homem com chapéu estiloso, cabelo bagunçado, olhar sagaz e um sorriso torto no rosto.
No fundo da imagem, o que parecia ser o convés de um navio parcialmente em chamas.
Sanji assobiou, surpreso.
— "Jack Sparrow... ouvi falar dele. Um maluco que vive dizendo que voou com um navio. Um pirata maluco e imprevisível."
Naruto riu.
— "É esse mesmo."
Se levantou da rede, agora com os olhos cheios de seriedade e empolgação.
— "Ele ficou mais de um ano fugindo da Marinha aqui no East Blue. Um ano inteiro! Roubou navios, enganou capitães, iludiu frotas inteiras... e nunca feriu ninguém gravemente. Um verdadeiro artista da fuga."
Sanji voltou os olhos para o jornal, lendo os detalhes.
— "Foi preso numa enseada rochosa da Ilha Sundown... e será transferido em dentro de 13 dias para a prisão marítima de Loguetown..."
Naruto confirmou com a cabeça.
— "Exatamente. Até lá, ele está trancado numa prisão temporária na costa. Não tem escolta oficial ainda, nem navio de guerra... e eu quero ele na nossa tripulação."
Sanji cruzou os braços, pensativo.
— "Você tem certeza disso? Digo... o cara é meio doido, não é?"
Naruto sorriu daquele jeito que só ele sabia: confiante, despreocupado e cheio de fé no impossível.
— "Eu sou doido também. E o mundo é feito por quem não tem medo de sonhar.
Esse cara... ele não é só um pirata. Ele é um navegador de verdade.
E se vamos atravessar a Grand Line... vamos precisar de alguém como ele."
Sanji fitou o jornal mais uma vez, agora com outro olhar — não mais de ceticismo, mas de curiosidade.
— "Então Sundown é o nosso próximo destino."
Naruto assentiu, virando-se para o leme com um brilho nos olhos.
— "Aventura nos espera, Sanji. E Jack Sparrow vai navegar com a gente."
O vento soprou firme nas velas do pequeno barco, levando os dois piratas rumo ao desconhecido.
Os dias no mar se passaram com um ritmo constante e disciplinado.
Naruto e Sanji seguiam navegando em silêncio e planejamento — a calmaria do mar contrastava com o que viria pela frente.
Durante o dia, Sanji cozinhava com maestria, garantindo refeições nutritivas e saborosas.
Naruto, por outro lado, passava horas deitado sobre o convés com o mapa da região, observando os ventos, as correntes e, acima de tudo, a posição da Ilha Sundown.
À noite, à luz fraca de um lampião preso à vela, os dois se sentavam juntos para revisar cada detalhe.
— "Você tem certeza que não tem nenhum vilarejo lá?", perguntou Sanji, cruzando os braços e olhando o mapa sobre uma caixa.
Naruto confirmou com a cabeça.
— "Nenhum. Sundown é uma ilha prisão.
Só tem rocha, mar e muros altos. Uma construção militar cercada por desfiladeiros de pedras afiadas. A Marinha fez de tudo pra tornar aquele lugar impossível de escapar."
Sanji puxou o cigarro dos lábios, pensativo.
— "E agora a gente vai fazer o oposto... invadir."
Naruto deu um leve sorriso.
— "Jack Sparrow está lá dentro.
E se ele é mesmo como dizem, ele já deve estar tramando alguma coisa. A gente só precisa ser o estopim."
O cozinheiro assentiu. Nos olhos dos dois havia determinação — e um pouco de ansiedade.
Sombria, isolada, rodeada por muralhas naturais de pedra escura.
No centro da ilha, uma construção de concreto armado e torres de vigia. Holofotes varriam o entorno como olhos atentos e impiedosos.
O barco de Naruto se escondeu entre fendas rochosas próximas à costa.
Ambos saltaram para uma saliência segura, vestindo capas negras improvisadas e mantendo seus passos silenciosos.
Sanji analisava as torres, os pontos cegos da segurança, e as rotas de patrulha com atenção digna de um estrategista.
— "Dois guardas por torre. Um farol central com campo de visão limitado por rotação.
Tem uma janela de 20 segundos a cada volta. É ali que a gente entra."
Naruto puxou o mapa com o esboço que fez da ilha, mostrando o que parecia uma fenda estreita na parte leste.
— "Segundo os relatórios, ali é a entrada de manutenção para escoamento da água da prisão. Pequena demais pra um navio... perfeita pra gente."
Sanji sorriu de lado.
— "Então a gente vai por baixo. Invadir uma prisão pela tubulação... esse plano é tão ridículo que pode dar certo."
Naruto apertou a sua faixa laranja em volta da testa com um brilho nos olhos.
— "Vamos invadir o inferno, Sanji. E tirar de lá o pirata que vai nos guiar pelo mar mais perigoso do mundo."
A escuridão ainda era densa quando os dois começaram a se mover.
A missão de resgate estava oficialmente em andamento.
Jack Sparrow ainda não sabia... mas sua liberdade estava prestes a chegar.
As grades enferrujadas rangiam suavemente, acompanhando o som constante das ondas batendo nas pedras da Ilha Sundown.
Na cela mais isolada e escura da prisão — no nível mais baixo, onde nem o sol se atrevia a olhar — um homem balançava de um lado para o outro.
Cabelos desgrenhados, trançados com miçangas e pedaços de pano colorido.
Roupas sujas e puídas, mas ainda com um certo charme de nobre falido.
E olhos… olhos que não paravam de se mover, como se vissem o mundo por uma lente completamente diferente.
Jack Sparrow.
Ele estava sentado no chão, pernas esticadas, braços abertos como se esperasse um abraço da própria parede.
Cantava uma melodia desafinada que ele claramente inventava no momento, misturando palavras sem sentido com frases em línguas mortas.
Foi então que dois guardas da Marinha passaram em frente à sua cela, parando por um instante.
— "Ei... esse é mesmo o pirata com uma recompensa de 22 milhões de berries?", murmurou o primeiro guarda, franzindo a testa.
O outro cruzou os braços, encarando Jack com desdém.
— "Hmpf. Pra mim, ele é só um maluco.
Não acredito que esse cara conseguiu fugir por mais de um ano do Capitão Smoker."
Jack, sem mover o rosto, apenas abriu um sorriso lento…
Depois, começou a rir. Uma risada lenta, cortada, quase teatral — que ecoou pela pedra fria da prisão como um sino quebrado.
Ele se levantou com a lentidão de um bêbado experiente.
Caminhou até as barras, cambaleando de propósito, como se não tivesse equilíbrio nem mesmo da sanidade.
Parou diante dos guardas, olhos semiabertos, expressão de falsa surpresa.
— "Ora, ora... vejo que tenho fãs.
Dois jovens rapazes debatendo o mistério que é... eu." — ele apontou para si mesmo, piscando.
Os guardas se entreolharam, irritados.
Jack encostou a cabeça nas grades, ainda sorrindo.
— "Deixem-me contar um segredo... sabem como consegui fugir por tanto tempo?"
Eles não responderam, mas estavam atentos.
Jack inclinou o corpo, cochichando como quem compartilha o segredo mais perigoso do mundo:
— "Porque enquanto vocês procuram por lógica..." — ele girou o dedo na direção da têmpora — "...eu navego pelo caos."
Ele recuou, fez uma reverência desajeitada e virou de costas, voltando a sentar no chão como se nada tivesse acontecido.
Os guardas, desconcertados, se afastaram murmurando coisas como "maluco" e "teatro barato" — mas a verdade é que, por um breve instante, eles sentiram algo.
Algo errado.
Algo... imprevisível.
Jack, sozinho novamente, puxou uma pedrinha do chão e começou a batucar no ferro da grade como se fosse uma batuta de orquestra.
— "Acho que o espetáculo vai começar em breve...
Espero que tragam pipoca."
E então, pela primeira vez em dias, ele olhou para o alto da cela, onde uma pequena rachadura deixava passar um fio de luar.
Um sorriso se formou, como se ele soubesse que alguém já estivesse vindo.
Mais tarde, naquela noite...
A passagem subterrânea era escura, fria e úmida. O som de água pingando ecoava pelas paredes cobertas de limo. Naruto e Sanji avançavam com cautela, pisando em silêncio.
No final do túnel, uma escotilha de ferro selava a entrada da prisão. Naruto puxou um gancho preso à lateral, liberando com esforço o mecanismo de trava. A tampa rangeu, revelando uma escada de metal que levava para dentro.
Naruto subiu primeiro, com Sanji logo atrás.
Eles emergiram numa sala mal iluminada, cheia de caixas e suprimentos. Pela fresta da porta, podiam ver o corredor principal da prisão, onde dois guardas patrulhavam calmamente, conversando em voz baixa.
— "Certo, temos que passar por eles sem levantar alarme." — murmurou Naruto.
Sanji se esticou, já ajeitando o paletó escuro.
— "Vamos fazer isso rápido."
A porta da sala se abriu de leve, sem ranger.
Os dois guardas viraram na direção do som — tarde demais.
Naruto surgiu como um vulto laranja e acertou um golpe direto no estômago de um dos homens, derrubando-o de imediato com um baque seco. O segundo virou-se assustado, mas Sanji já estava no ar com um chute giratório certeiro no queixo.
THUMP!
Ambos os corpos caíram no chão com um leve "uf".
Naruto se ajoelhou e verificou se os dois estavam desacordados.
— "Tudo certo. Vamos rápido, antes que percebam a falta deles."
Sanji já corria pelo corredor com o jornal dobrado em mãos.
— "A matéria dizia que Jack foi colocado na cela de segurança máxima no subnível D. Temos que achar as escadas."
A prisão era um labirinto de concreto, grades e portas reforçadas. As luzes tremeluziam no teto, e o som de outros prisioneiros — tosses, murmúrios, e até risadas nervosas — preenchia o ar.
Naruto e Sanji passaram por alas cheias de detentos, muitos deles deitados, outros apenas observando os dois com olhos curiosos. Alguns prisioneiros começaram a bater nas grades, murmurando "temos visita?", "será fuga?", "eles são da Marinha?".
— "Ignore eles." — sussurrou Sanji.
— "Vamos achar o pirata maluco logo."
Naruto parou de repente em uma bifurcação, olhando para dois caminhos marcados com placas:
Ala C
Ala D – Segurança máxima
— "É por aqui."
Eles correram pelo corredor até uma grande porta de ferro. Havia um painel com um sistema de alavanca ao lado, além de mais dois guardas postados em frente à entrada.
— "Hora do silêncio outra vez?" — Sanji perguntou.
Naruto sorriu.
— "Hora do silêncio."
Os dois se lançaram contra os guardas.
Sanji avançou primeiro, deslizando no chão e aplicando uma rasteira giratória que tirou o equilíbrio do primeiro. Naruto veio por cima com um golpe na nuca do segundo, deixando ambos desacordados antes que pudessem reagir.
CLANG!
Naruto puxou a alavanca do painel. A porta de ferro rangeu lentamente, revelando o corredor escuro da Ala D.
Agora, eles estavam no coração da prisão. E Jack Sparrow estava em algum lugar à frente, à espera de um convite para a liberdade.
A Ala D era abafada e silenciosa, diferente das outras áreas da prisão. Cada cela era reforçada com barras grossas de aço, protegidas por camadas de concreto. As luzes ali eram ainda mais fracas, criando sombras densas e uma sensação de abandono.
Naruto caminhava à frente, atento a cada número nas portas.
— "D-13... D-14... Ele deve estar por aqui."
Então ouviram.
— "Ah... finalmente!"
Uma voz rouca, debochada e com um leve sotaque arrastado ressoou do fim do corredor. Vinha de uma cela onde um homem de cabelos desgrenhados, roupas puídas mas com certo charme desgracioso, estava sentado sobre um barril virado ao contrário, com os braços abertos como se já estivesse esperando por uma plateia.
— "Sejam muito bem-vindos, senhores intrusos! À minha humilde e temporária residência."
Ele se levantou com um giro desajeitado, quase tropeçando nos próprios pés.
— "Capitão Jack Sparrow... ao seu dispor."
Naruto e Sanji trocaram um olhar breve.
— "Então é você mesmo..." — disse Naruto, se aproximando das barras.
— "Jack Sparrow. Capitão de um navio pirata desaparecido, famoso por fugir da Marinha por mais de um ano no East Blue."
Jack fez uma reverência exagerada.
— "Ora, ora, então minha fama chegou até vocês. Fico lisonjeado. Mas... quem são vocês dois, exatamente? Agentes da Marinha? Caçadores de recompensa? Ou... vocês são vendedores ambulantes de rum? Porque se forem, aceito uma amostra."
Naruto sorriu de canto.
— "Sou Naruto D. Uzumaki. E ele ali é Sanji. Viemos libertar você."
Jack ergueu as sobrancelhas, interessado.
— "Libertar? Hmmm… libertar é uma palavra bonita e muito forte. Mas me diga, por que alguém se daria ao trabalho de libertar um pirata desonrado como eu?"
Sanji cruzou os braços.
— "Porque precisamos de um navegador. E você é o único maluco que sobreviveu fugindo por tanto tempo da Marinha no East Blue. Isso deve contar pra alguma coisa."
Jack se aproximou lentamente das barras, o rosto ficando sério por um momento, o olhar focado em Naruto.
— "E por que você precisa de um navegador, Em Capitão Naruto?"
Naruto respirou fundo, firme.
— "Porque eu vou encontrar o One Piece. Eu vou ser o Rei dos Piratas."
Silêncio.
Depois de um instante, Jack começou a rir. Uma risada que cresceu aos poucos, ecoando pela ala escura da prisão.
— "Hahahaha! Mas é claro que você vai! Rei dos Piratas... gosto disso. Audacioso. Um pouco insano, talvez. Mas gosto. E eu... bem... estou precisando de uma nova aventura."
Ele estendeu o braço por entre as grades.
Jack ainda segurava o pulso de Naruto quando seus olhos escureceram um pouco. Seu sorriso desapareceu, e um silêncio denso caiu por um instante entre os três. Era como se, de repente, toda a teatralidade desaparecesse, dando lugar a um homem acostumado a viver entre traições, riscos e escolhas mortais.
Ele soltou a mão de Naruto devagar, e se afastou dois passos para dentro da cela, mantendo os olhos fixos nele.
— "Agora que toda essa parte de 'boas-vindas calorosas' acabou... preciso saber."
Jack cruzou os braços, o tom agora mais sério, quase ameaçador.
— "Por que, exatamente, eu deveria sair daqui com vocês? E mais importante ainda… o que vocês têm a oferecer ao Capitão Jack Sparrow?"
Sanji respirou fundo, já impaciente com o drama todo, mas Naruto deu um passo à frente, tranquilo, olhando Jack nos olhos.
— "Você tá preso. Isolado. E Vão te levar pra Loguetown. E você sabe o que isso significa."
Jack ergueu uma sobrancelha.
— "Ah, sim. A bela prisão marítima... cheia de ratos, umidade, e a cabeça de Gol D. Roger pendurada como um troféu. Um lugar adorável para piratas terem... finais."
Naruto continuou, firme.
— "Se você continuar aqui, vai acabar executado ou apodrecendo em uma cela. Mas se vier conosco... você ganha um navio. Liberdade. Uma nova tripulação. E Um novo rumo."
Jack deu um giro lento em seu barril, pensativo.
— "Navio, liberdade... e rumo? Já ouvi essa história antes. E sempre tem um preço."
Sanji finalmente falou:
— "E o preço é simples: navegar. Só isso. Você entra pro nosso bando. Não tem que nos obedecer como cãozinho, mas tem que remar na mesma direção. A direção da Grand Line. Do One Piece."
Jack estalou os dedos, vagarosamente, como se estivesse considerando cada palavra.
— "Hm... tentador. Mas e se eu dissesse que... não quero ser comandado? Que prefiro ser o capitão do meu próprio navio?"
Naruto respondeu, calmo:
— "Você pode continuar sendo Capitão Jack Sparrow. Só que no meu navio, você é o navegador. Não o capitão. Eu não vou mentir, Jack. Eu sou teimoso, e quando decido algo... eu vou até o fim. E eu decidi que vou ser o Rei dos Piratas. Mas isso não significa que você é menor. Significa que, com você, nosso bando pode ir ainda mais longe."
Jack ficou calado por alguns segundos. Seus dedos tamborilavam no metal das barras. Seus olhos analisavam Naruto de cima a baixo, como se tentasse encontrar alguma fraqueza, alguma hesitação.
Não encontrou.
— "E o que me garante que vocês não vão me abandonar no meio do mar se algo der errado?"
Naruto só olhou atentamente para Jack antes retirar um colar que estava escondido por baixo de sua camisa laranja que ele usava como um lembraça de sua mãe e origem– um pedaço de corda trançada, com um pingente de um cristal azul celeste translucido que brilhava mesmo com pouca luz . Ele estendeu para Jack.
— "Isso era do meus pais. Um símbolo de confiança e promessa. Se você quiser garantia, pode ficar com ele. Até o fim da jornada. Se a gente te abandonar, pode jogar isso fora. Mas se ficar comigo até o fim… vai ver que valeu a pena."
Jack pegou o colar com o cristal com delicadeza, analisando o objeto, e depois voltou a olhar Naruto nos olhos. Pela primeira vez, havia um toque de respeito real ali.
— "Você é estranho, moleque... Mas gosto disso."
Ele guardou o pingente no bolso, depois abriu um sorriso torto.
— "Muito bem, Capitão. Você tem um acordo. Navegador Jack Sparrow… à disposição da sua maldita e imprevisível tripulação."
Naruto sorriu, e Sanji apenas suspirou, murmurando:
— "Ótimo… mais um maluco no barco."
Jack se inclinou, teatral novamente, como se tivesse voltado ao personagem:
Jack já havia aceitado o colar, e seu sorriso torto ainda pairava em seus lábios quando ele ergueu um dedo no ar, como se tivesse acabado de se lembrar de algo muito importante.
— "Ah, sim, Capitão Naruto… antes que eu confirme completamente este pacto de cavalheiros, há um último detalhe a ser resolvido."
Naruto e Sanji se entreolharam.
— "Mais um?" — Sanji resmungou.
Jack se aproximou das barras da cela, abaixando o tom de voz como se estivesse contando um segredo proibido:
— "Quando fui capturado — de forma injusta e absolutamente desproporcional, é claro — o famoso Capitão Smoker da Marinha confiscou alguns dos meus… pertences."
Naruto cruzou os braços.
— "Que tipo de pertences?"
Jack começou a contar nos dedos:
— "Minha bússola que não aponta para o norte nem pro sul, um anel de prata amaldiçoado — ou talvez só feio, ainda não sei —, e, o mais importante: meu chapéu verdadeiro."
— "Você não tem um chapéu reserva?" — Naruto arqueou uma sobrancelha.
— "Obviamente não, ele é único. Um capitão com seu chapeu é um capitão com estilo eterno."
Sanji rolou os olhos, mas Jack ficou sério de novo, como se aquilo fosse, de fato, o mais importante da conversa:
— "Essas coisas estão em Loguetown. Guardadas pelos cães da Marinha, provavelmente no quartel principal da cidade, onde Smoker mantém seus troféus. Quero elas de volta. Todas. E só então, a parceria estará completa."
Naruto pensou por um momento, depois assentiu.
— "Fechado. Quando chegarmos em Loguetown, vamos dar um jeito de recuperar suas coisas. Mas só depois que estivermos seguros, entendeu?"
Jack deu um passo para trás e estendeu a mão pela fresta da cela.
— "Então temos um acordo, Capitão?"
Naruto apertou sua mão com firmeza.
— "Temos um acordo."
Jack sorriu como uma criança travessa.
— "Excelente. Agora… libertem-me, meus intrépidos libertadores! Que temos um mundo de aventuras — e tralhas pessoais — para recuperar!"
Sanji bufou, se aproximando da tranca da cela.
— "Essa vai ser uma viagem longa…"
Jack observava curioso enquanto Naruto e Sanji examinavam a tranca da cela.
— "Tem alguma chave, ou algum plano mirabolante?" — perguntou Jack, ainda relaxado, encostado na parede da cela.
— "Nada ainda," — respondeu Sanji, chutando leve a tranca — "essa fechadura parece mais resistente que o ego de um cozinheiro ofendido."
Naruto franziu o cenho.
— "Talvez tenha alguma chave nos guardas lá atrás."
Antes que Sanji pudesse responder, a cena corta para o corredor escuro da prisão, onde dois guardas se aproximam de uma esquina…
Eles congelam ao ver os corpos desacordados dos colegas, largados no chão frio da prisão.
— "ALGUÉM INVADIU A PRISÃO!" — um dos guardas grita, já correndo até a parede e soando o alarme, que ecoa por toda a instalação.
Sinos soam, luzes vermelhas piscam, e gritos e passos se espalham pelos corredores.
Corte de volta para Naruto, Sanji e Jack.
— "Droga..." — rosnou Sanji.
— "Lá se foi a abordagem silenciosa."
Jack sorriu como se aquilo fosse a melhor coisa que poderia acontecer.
— "Ah, agora sim parece uma missão de resgate de verdade!"
Naruto, sem perder tempo, se virou para a cela e estalou os punhos.
— "Não temos tempo pra procurar chave. Vou tirar você daí na força."
Jack ergueu uma sobrancelha.
— "Na força? Ora, ora, Capitão, você é mais direto do que aparenta…"
Naruto deu dois passos para trás, flexionou os joelhos… e então avançou com um poderoso soco direto na fechadura da cela, que fez o metal tremer como se fosse feito de madeira podre.
Sanji recuou, protegendo os olhos quando pedaços da tranca voaram.
Com o segundo golpe, a estrutura cedeu com um estalo estrondoso e a porta da cela se abriu com violência, batendo contra a parede de pedra com um estrondo metálico.
Jack saiu devagar, limpando a poeira imaginária do ombro.
— "Eu gostei dele," — comentou, olhando para Sanji — "tem estilo."
— "Ele não tem estilo, ele só é bruto mesmo." — Sanji rebateu, já ouvindo os passos dos guardas ecoando pelos corredores.
Naruto sorriu.
— "Vamos sair daqui antes que o lugar inteiro desabe em cima da gente."
Jack tirou um chapéu imaginario, e fez uma reverência dramática e disse:
— "Depois de vocês, meus queridos criminosos."
E assim os três partiram pelos corredores da prisão, enquanto o caos tomava conta do lugar, com alarmes, guardas correndo e ordens sendo gritadas por toda parte...
Os corredores estreitos da prisão de Sundown estavam em completo caos. Alarmes soando, ordens sendo gritadas em todas as direções, guardas armados correndo por cada canto com espadas e bastões prontos para conter os intrusos. Mas nada disso intimidava o trio que avançava em disparada.
Naruto na frente, abrindo caminho com sua força bruta, derrubando portas e obstáculos com golpes secos e certeiros.
Sanji logo atrás, ágil e preciso, nocauteando guardas com chutes que mais pareciam trovões.
Jack Sparrow fechava o trio, desviando com elegância dos ataques, pegando um chapéu caído no chão e colocando de volta na cabeça com o mesmo charme de sempre, mesmo que seja temporario.
— "Alvo visual!" — gritou um dos guardas.
— "Eles estão indo pelo bloco oeste!"
Cinco guardas apareceram à frente com escudos erguidos, prontos para barrar o caminho.
— "Eu cuido disso," — disse Sanji, parando por um segundo.
Com uma sequência de chutes giratórios, ele desarmou os primeiros dois, saltou no ar e acertou um chute descendente no terceiro, quebrando o escudo dele em duas partes. Os dois últimos recuaram, mas já era tarde demais. Naruto veio com um soco direto que arremessou os dois contra a parede.
— "Não temos tempo pra ficar brincando!" — Naruto gritou, correndo por uma escadaria.
Jack subiu atrás dele, sorrindo.
— "Vocês dois são bem eficazes. Se eu soubesse que viria um resgate assim, teria me deixado capturar antes."
— "Cala a boca e corre!" — rosnou Sanji, chutando um portão aberto.
Mais corredores. Mais guardas. Mais pancadaria.
Cada curva parecia igual à anterior, mas Naruto mantinha o foco.
— "A saída deve estar perto. A luz da lua tá vindo daquele lado!"
Eles dobraram a última esquina e encontraram quatro guardas armados até os dentes.
— "Eles não vão passar!" — gritou um dos soldados, levantando o fuzil de balas de kairoseki.
Jack se inclinou para o lado e sussurrou:
— "Esse é todo seu, capitão."
Naruto avançou antes que os guardas pudessem reagir, desviando das balas e acertando um soco tão forte que o chão rachou. Sanji pulou por cima dele e girou no ar, chutando um guarda que voou pelo ar.
Enquanto Naruto, Sanji e Jack Sparrow corriam pelos pátios externos da prisão de Sundown, tentando encontrar uma saída segura para o mar, o som de um sino pesado ecoou por todo o complexo.
TOOM! TOOM! TOOM!
— "O que foi isso?" — Sanji parou por um segundo, atento.
— "Problemas chegando…" — murmurou Jack, que começou a recuar lentamente com um ar cauteloso. — "E dos grandes."
Do alto da torre central da prisão, uma figura robusta e imponente surgiu. Vestia um casaco da Marinha com três medalhas reluzentes no peito, uma faixa vermelha atravessando o torso e um olhar feroz embaixo do boné. Seus passos pesavam como marteladas no concreto.
— "Vocês invadiram território do Governo Mundial…" — rosnou ele com uma voz grave, descendo as escadas com firmeza. — "E ainda tentam fugir com um prisioneiro de 22 milhões em recompensa?!"
— "E você é quem exatamente?" — perguntou Naruto, cerrando os punhos.
— "Sou Comodoro Reigal, responsável por essa prisão. E VOCÊ…" — apontou diretamente para Naruto — "…vai ser o primeiro a cair!"
Sem perder tempo, Reigal avançou. Seu punho envolto em manoplas de ferro reluzentes, lançou um soco direto. Naruto bloqueou com os braços, deslizando alguns metros para trás.
Sanji deu um passo à frente, mas Naruto ergueu a mão.
— "Esse aqui é meu."
A batalha começou. Golpes trocados com força brutal. O chão rachava, poeira voava, e as ondas do mar batiam nas muralhas da prisão com fúria.
Reigal tentava acertar Naruto com tudo, mas aos poucos… seus olhos começaram a se fixar nos detalhes do rosto do garoto.
— "Espera… esses riscos no rosto… são bigodes?"
Naruto arqueou a sobrancelha.
— "Hã?"
Reigal deu um passo para trás, olhos arregalados.
— "Isso… isso é sinal de uma Zoan?! Não me diga que você é um usuário de Akuma no Mi do tipo felino?!"
Naruto deu um leve sorriso.
— "Algo assim."
— "Impossível… você é rápido demais… e forte demais para ser só um garoto…!"
— "Você fala demais!" — gritou Naruto, avançando com um gancho poderoso, acertando o queixo do Comodoro.
Reigal voou por vários metros, batendo contra uma parede de concreto com um estrondo ensurdecedor.
— "E-ele ainda está de pé?!" — exclamou Jack, arregalando os olhos.
— "Tsc. Não por muito tempo." — murmurou Sanji.
Reigal caiu de joelhos, cuspindo sangue, olhos ainda trêmulos.
— "Eu… eu achei que fosse apenas um delinquente. Mas… isso não é normal… você é um monstro…!"
— "Não sou um monstro." — disse Naruto, sério. — "Sou um futuro Rei dos Piratas."
Ele então olhou para Sanji e Jack.
— "Vamos sair daqui. Já atrasamos demais."
Os três retomaram a corrida, deixando para trás um comandante da marinha desacordado e uma prisão em frangalhos.
A lua alta lançava sua luz prateada sobre as águas escuras que cercavam a Ilha Sundown, enquanto três figuras corriam em disparada pelas docas abandonadas ao sul da prisão. O alarme ainda ecoava ao fundo, misturado aos gritos dos guardas em pânico e ao som de botas correndo.
— "Ali está o barco!" — gritou Sanji, apontando para a pequena embarcação atracada, cuidadosamente escondida atrás de algumas rochas — o barco feito por Kushina, a mãe de Naruto.
— "Esse pedaço de madeira vai mesmo nos levar pra longe daqui?" — perguntou Jack com um tom meio sarcástico, mas saltando a bordo sem hesitar.
Naruto agarrou as cordas, soltando as velas ao mesmo tempo que empurrava a embarcação com um salto poderoso. Sanji cortou a amarra com um chute preciso.
O barco deslizou pelo mar, balançando com a força da maré, mas ganhando distância rápida. Alguns disparos foram ouvidos ao longe, mas nenhum os alcançou. A noite cobriu sua fuga com perfeição.
Jack respirou fundo e depois soltou uma gargalhada.
— "Parabéns, Capitão! Sua estreia como criminoso internacional foi um sucesso retumbante!"
— "Criminoso só pra eles." — disse Naruto, sorrindo — "Pra mim, a gente só fez o certo por um sonho ."diz Naruto rindo
Sanji se recostou ao leme, tirando o cigarro da boca.
— "Foi por pouco… mas agora estamos oficialmente sendo caçados."
— "Bem-vindo ao clube." — respondeu Jack, piscando um olho.
Na manhã seguinte…
O mar estava calmo. O céu, de um azul límpido, refletia no convés de madeira clara do pequeno barco de Naruto. A brisa soprava suave, e o som das ondas era o único ruído além das gaivotas ao longe.
Naruto esticava os braços no convés, bocejando alto.
— "Ahhh… acho que dormi como uma pedra…"
Sanji estava cozinhando improvisando já que o pequeno barco não tinha cozinha, já preparando café e ovos.
Jack estava no mastro, pendurado como um papagaio, observando o horizonte com uma luneta, assobiava uma melodia antiga, enquanto Naruto observava o horizonte com um olhar determinado.
Depois de um tempo de silêncio, Jack quebrou a calmaria:
— "Muito bem, Capitão... Você quer chegar até a Grand Line e se tornar o Rei dos Piratas, não é?" — disse ele com um sorriso de canto. — "Pois vai precisar de muito mais do que tem agora."
Naruto se virou para ele, curioso.
— "E o que seria isso?" — perguntou com o olhar fixo no velho pirata.
Jack desceu do mastro com leveza e bateu no convés com o pé.
— "Pra começar... este barco. Ele pode ser charmoso e resistente, mas nunca vai aguentar os mares traiçoeiros da Grand Line. Eu estudei esses mares por anos, tentando encontrar uma rota segura quando eu mesmo sonhava em ir pra lá."
Naruto cruzou os braços, intrigado.
— "E por que nunca foi, se já sabia o caminho?"
Jack respirou fundo e olhou para o céu antes de responder:
— "Porque só chegar na Grand Line não é o suficiente. Você precisa sobreviver lá. E pra isso, precisa de uma tripulação sólida, preparada. Sem isso... você não dura nem um mês."
— "E é por isso que estou montando minha própria tripulação," — respondeu Naruto com um sorriso largo. — "Uma que vai resistir ao impossível."
Jack deu uma risada baixa.
— "De fato está. E não é qualquer um que se atreve a começar algo assim... Capitão."
Naruto estreitou os olhos, curioso.
— "Agora me diz uma coisa... Você ficou mais de um ano fugindo da Marinha aqui no East Blue. Sem falar do tempo antes de se tornar um criminoso procurado. Por que não foi pra Grand Line, mesmo depois de tanto tempo?"
Jack suspirou e se sentou no convés, jogando uma pedra no mar.
— "Esse foi um dos meus fracassos como o fabuloso Capitão Jack Sparrow. Nunca consegui montar uma tripulação forte o suficiente. E as poucas que formei... se desintegraram antes mesmo de zarpar."
Naruto se aproximou mais.
— "Certo... então me responde uma coisa. Além da sua reputação como pirata, o que exatamente aconteceu para que o próprio capitão, a mais alta patente da Marinha aqui no East Blue, tenha feito de você um alvo pessoal?"
Jack soltou uma gargalhada longa e debochada:
— "HAHAHAHA! Ah, meu caro amigo pirata... não há nada que enfureça mais um homem do que ver sua mulher nos braços de outro — especialmente quando isso acontece na cama dele, e esse homem é um nobre arrogante do East Blue."
Naruto arregalou os olhos e começou a rir.
— "Hahaha! Isso me lembra alguém... Sanji, talvez?"
Sanji, que estava ouvindo tudo enquanto preparava o almoço, se virou com uma veia pulsando na testa.
— "O QUÊ?! NÃO TEM NADA A VER COMIGO, ENTENDEU, CABEÇA OCA?! NADA, NADA, NADA, NADA, NADA, NADA!" — a cada "nada", Sanji acertava um chute na cabeça de Naruto.
Naruto ria entre os golpes.
— "Tá bom, tá bom! Eu entendi! Hahaha!"
Jack apenas observava a cena com um sorriso de canto, balançando a cabeça.
— "Sim... definitivamente, isso vai ser divertido."
O mar ainda seguia calmo, com o sol lançando seu brilho dourado sobre as águas. O trio havia terminado o café da manhã improvisado por Sanji, e agora estavam reunidos no convés, observando o mapa estendido diante deles, preso por pedras e conchas para não ser levado pelo vento.
Jack, com um olhar mais sério do que o habitual, apontava para um ponto específico no mapa.
— "De uma forma ou de outra, teremos que passar por Loguetown," — disse ele, cruzando os braços. — "Seja para reabastecer os suprimentos... ou para recuperar o que é meu — as minhas coisas que foram confiscadas pelo maldito Capitão Smoker quando fui capturado."
Naruto assentiu com a cabeça, os olhos fixos no mapa.
— "Esse era parte do nosso acordo," — disse com firmeza. — "Você se junta à minha tripulação como navegador... e eu ajudo a recuperar o que é seu. Eu mantenho minha palavra, Jack."
Jack sorriu de lado, satisfeito com a resposta do jovem capitão. Mas então Naruto adicionou, olhando para o horizonte com um brilho diferente nos olhos:
— "Além disso... eu também quero passar em Loguetown. Tem algo especial que quero fazer lá. Algo que venho esperando há anos."
Jack arqueou uma sobrancelha.
— "Algo especial, hein?"
— "É," — respondeu Naruto, com um sorriso sincero no rosto. — "É onde começou a era dos piratas. E é onde o antigo Rei dos Piratas foi executado. Eu quero pisar lá, quero sentir esse lugar... antes de seguir para o novo mundo."
Sanji escutava em silêncio, fumando um cigarro com o olhar distante. Ele sabia que Loguetown não era apenas um ponto de passagem — era um símbolo. Para todos os piratas, era um lugar onde os sonhos começavam... ou terminavam.
Jack então se agachou, voltando ao mapa, e passou o dedo em uma linha espiralada traçada entre o final da rota do East Blue e a entrada da Grand Line.
— "Mas antes disso... vamos precisar de um novo navio. E não qualquer um. Precisamos de um barco grande, resistente... forte o bastante para suportar a correnteza reversa que protege a entrada da Grand Line."
— "Correnteza reversa?" — perguntou Naruto, confuso.
Jack respirou fundo, pronto para a explicação.
— "A entrada para a Grand Line passa pela Reverse Mountain. Um lugar onde todos os oceanos se encontram — North Blue, South Blue, West Blue, East Blue... e a própria Grand Line. O problema é que, em vez da água cair da montanha... ela sobe. Uma força absurda de água jorra em sentido contrário — uma correnteza reversa. Você precisa de um navio que não vá se despedaçar no impacto, e que não vá ser jogado de volta ou virar antes de alcançar o topo."
— "Não dá pra passar pelo Calm Belt?" — perguntou Sanji, soprando a fumaça.
Jack riu.
— "O Calm Belt? Ahh, só se vocês quiserem virar comida de Rei dos Mares. Sem ventos, sem correntes... e cheio de monstros gigantescos. Não dá. A única entrada possível para a Grand Line de forma natural é pela Reverse Mountain."
Naruto coçou a cabeça, pensativo.
— "Então precisamos de um navio novo... um de verdade, certo?"
Com Sanji e Naruto se perguntando se Jack conhecia algum lugar onde pudessem encontrar um estaleiro capaz de vender barcos grandes e fortes o suficiente para sobreviver à entrada da Grand Line, ele respondeu com um sorriso confiante:
— "Na verdade, conheço sim. Existe um lugar chamado Ilha da Lua Pálida… mas a maioria conhece como Crescentia. Se tem um lugar no East Blue onde você pode encontrar os melhores navios no mar de East Blue, é lá."
Sanji arqueou uma sobrancelha, interessado:
— "E qual é o problema? Sempre tem um 'mas' quando o lugar parece bom demais."
Jack deu uma risada baixa antes de completar:
— "O problema é que Crescentia abriga uma das maiores bases da Marinha em todo o East Blue. Perde apenas para Loguetown em tamanho e número de marinheiros. Se vocês acham que a prisão foi difícil... isso vai ser outra história."
Naruto e Sanji trocaram olhares sérios por um instante. Sabiam que era uma missão arriscada, mas também sabiam que não tinham muitas opções. Um barco forte era essencial — sem ele, sequer conseguiriam chegar à Grand Line vivos.
— "Não temos escolha então," — disse Naruto, determinado. — "Vamos para Crescentia."
— "É," — concordou Sanji, acendendo um cigarro. — "Se for pra entrar na Grand Line, tem que ser do jeito certo. Vamos dar um jeito de passar por aquela base."
Jack sorriu satisfeito com a decisão dos dois, virou-se para encarar o sol e inspirou profundamente a brisa salgada do oceano. Seu olhar se fixou no horizonte por alguns segundos antes de falar:
— "Estão com sorte. Estamos relativamente perto. A ilha não está a muitos dias de onde estamos agora. E com esse clima, os ventos devem nos levar direto até lá."
Sem perder tempo, Jack assumiu a direção do pequeno barco, ajustando as velas e o leme com a experiência de um verdadeiro navegador. O barco rangeu levemente ao mudar de curso, e as velas se inflaram com o vento. Com o rumo traçado e a determinação renovada, os três piratas seguiram viagem rumo à Ilha da Lua Pálida — onde o próximo grande desafio os aguardava.
Base da Marinha em Loguetown — Escritório do Capitão Smoker
O Den Den Mushi sobre a mesa começou a tocar, com sua carapaça branca e olhos tensos, imitando a expressão séria do emissor do outro lado da linha. O Capitão Smoker, de braços cruzados e com seu charuto aceso entre os dentes, atendeu com calma.
— "Smoker falando."
Do outro lado, a imagem do Den Den Mushi mudou, assumindo feições severas e cansadas — era o Comodoro Reigal, o responsável pela prisão na Ilha Sundown.
— "Capitão Smoker, temos um problema. Jack Sparrow escapou."
Smoker não respondeu de imediato. Seu olhar se estreitou e uma leve coluna de fumaça subiu entre seus cabelos prateados. Depois de alguns segundos, ele respondeu com voz grave:
— "Continue."
— "Dois indivíduos invadiram a prisão durante a madrugada. A infiltração foi limpa... até que começaram a derrubar guardas pelo caminho. Um deles era ágil, loiro, parecia lutar com as pernas — suspeito de ser um artista marcial. Mas o outro…"
Reigal hesitou por um instante antes de prosseguir.
— "O outro parecia mais jovem. Forte, desafiador. Mas o que chamou atenção... foram suas feições. Possuía bigodes finos, quase como vibrissas, e algo em seus olhos e postura me fez pensar... ele pode ser um usuário de Akuma no Mi de tipo zoan."
Smoker tragou lentamente, o som do vapor ecoando em seu peito. Seus olhos se fixaram na janela, observando o porto ao longe.
— "Hmm… feições animais. Bigodes como de felino… Isso não é comum. E ele estava com Jack Sparrow?"
— "Sim. Trabalharam juntos para libertá-lo. Após soarmos o alarme, o grupo enfrentou vários dos nossos homens e conseguiram escapar com Sparrow. Tudo indica que o jovem de feições animalescas usou força bruta para arrancar as barras da cela."
— "Hmph. Então temos um novo jogador no tabuleiro," — disse Smoker, retirando o charuto da boca e batendo as cinzas. — "Se for mesmo uma Akuma no Mi, ele não é qualquer um. E Sparrow... aquele bastardo ainda sabe como causar confusão."
— "O senhor deseja que reforcemos a segurança em Loguetown, caso eles tentem chegar até aqui?" — perguntou Reigal.
— "Não. Quero que você envie todas as informações que tiver sobre esses dois invasores: descrições, estilo de combate, qualquer coisa."
Reigal assentiu com firmeza, enquanto o Den Den Mushi mimetizava sua expressão tensa.
— "Entendido, Capitão. Enviarei um relatório completo imediatamente."
— "Boa. E Reigal… mantenha-se atento. A próxima vez que eles aparecerem, não será uma fuga. Será guerra."
A transmissão encerrou com um clique seco. Smoker voltou a olhar para o mar, soprando uma nuvem de fumaça densa.
— "Jack Sparrow... um lutador marcial e esse garoto com feições de animal. Vamos ver quem vocês realmente são."
Assim que o Den Den Mushi emudeceu, a porta do escritório se abriu rapidamente com um estalo seco. Tashigi, a tenente de olhos decididos e óculos levemente embaçados pela corrida, entrou apressada, com alguns papéis na mão e a espada presa ao quadril balançando levemente.
— "Capitão Smoker! Acabei de receber o relatório preliminar vindo da Ilha Sundown. Algo me diz que o senhor já está ciente."
Smoker apenas assentiu, seu olhar ainda preso ao horizonte através da janela.
— "Jack Sparrow escapou," disse com voz grave. "E não estava sozinho."
Tashigi se aproximou e pousou os papéis na mesa. Seus olhos brilharam com uma mistura de raiva e frustração.
— "Segundo os guardas, os invasores eram jovens. Um loiro que lutava com os pés — técnicas precisas, devastadoras. E outro… bem, aqui diz que o segundo parecia... estranho."
— "Feições animalescas, força bruta fora do comum," completou Smoker. "O Comodoro Reigal acredita que ele seja um usuário de Akuma no Mi do tipo Zoan. Mas o que mais me chamou atenção foram os tais 'bigodes' descritos. Vibrissas. Isso não bate com nenhuma fruta catalogada até agora."
Tashigi puxou os óculos, ajustando-os no rosto com seriedade.
— "Será que ele pode estar falando de um lobo ou raposa , e será que estamos lidando com uma nova geração de piratas? Ou talvez... um grupo vindo de outro mar?"
Smoker bufou, liberando uma nuvem espessa de fumaça no ar.
— "Pouco me importa de onde vieram. Se ousam desafiar a Marinha, vão aprender do pior jeito possível."
Ele se virou, pegando seu longo bastão de jitte com ponta de kairouseki (pedra do mar), apoiando-o sobre os ombros.
— "Tashigi, quero que você organize todas as embarcações disponíveis. Vamos intensificar a patrulha ao redor de Loguetown.
Tashigi assentiu imediatamente.
— "Sim, senhor! Também devo alertar as bases vizinhas?"
— "Sim. E peça à Inteligência para verificar qualquer movimentação anormal nos portos. Especialmente nas rotas que levam até a Ilha Crescentia."
— "Crescentia...? A ilha dos estaleiros?"
— "Exato," respondeu Smoker, apertando o cabo do jitte com mais força. "Se eles forem espertos — e parece que são — vão querer um navio capaz de sobreviver à Reverse Mountain. E não existe lugar melhor no East Blue do que Crescentia pra conseguir isso."
Tashigi abriu um leve sorriso, como quem já antecipava o próximo passo.
— "Então quer dizer que vamos dar as boas-vindas a esses piratas antes mesmo de chegarem na Grand Line?"
— "Capitão..." — ela hesitou, mas então perguntou com firmeza — "O senhor pretende ir atrás desses piratas pessoalmente?"
Houve um silêncio breve, pesado. Smoker não se virou, mas sua resposta veio firme, inabalável:
— "Não."
Tashigi franziu o cenho, surpresa.
— "Mas... eles libertaram um dos piratas mais perigosos do East Blue. Desafiaram a Marinha. E o senhor é o mais capaz de enfrentá-los!"
Smoker virou-se então, caminhando com passos lentos até sua mesa, onde pousou o jitte sobre a madeira com um baque surdo. Seus olhos, sérios e calculistas, se encontraram com os de Tashigi.
— "Se eu sair daqui, deixo a principal entrada para a Grand Line desprotegida. Piratas de todo o East Blue passam por Loguetown. Se eu abrir essa brecha, dezenas, talvez centenas, conseguirão escapar. E alguns podem ser piores do que esses três."
Ele acendeu mais um de seus charutos, soltando uma nuvem de fumaça espessa.
— "Meu dever é aqui. Esse porto é o último limite da ordem antes do caos que é a Grand Line. Se eu vacilar, os que virão depois serão ainda mais ousados."
Tashigi assentiu lentamente, compreendendo a lógica por trás da decisão. Ainda assim, sua expressão mostrava que o fogo da justiça queimava nela tanto quanto nele.
— "Então devemos confiar que os outros postos consigam interceptá-los... ou que eles cometam um erro."
Smoker assentiu uma única vez.
— "Eles vão. Esses garotos ainda não sabem o que é a Grand Line. A ambição os cega. E quando isso acontecer... nós estaremos prontos."
Tashigi se endireitou, batendo os calcanhares, antes de sair determinada para organizar as tropas conforme ordenado.
Smoker ficou sozinho novamente, a fumaça preenchendo o ambiente como uma neblina espessa. Ele olhou para o céu lá fora, onde as gaivotas da marinha sobrevoavam calmamente.
— "Vamos ver até onde essa nova geração consegue ir... antes que se afoguem no próprio sonho."
Ilha de Crescentia – Porto Principal
O sol brilhava intensamente sobre a movimentada ilha de Crescentia, onde o som de martelos, serrotes e vozes altas preenchia o ar com o vigor de quem moldava o próprio destino sobre madeira e metal naval. Entre os inúmeros estaleiros que se estendiam pela costa, um destacava-se pelo tamanho imponente: um navio da Marinha em construção, quase pronto para ser lançado ao mar.
No alto do mastro principal, equilibrando-se com naturalidade sobre a longa estrutura de madeira, estava um jovem rapaz de dezessete anos. Seu corpo esguio e atlético denunciava anos de trabalho físico árduo, mas era sua postura ereta e confiante que mais chamava atenção. Ele usava uma camisa de linho branca, já manchada de graxa e sal, com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Seu colete de couro escuro estava aberto, balançando suavemente ao vento, e as botas gastas pendiam sobre os joelhos enquanto ele se curvava para ajustar os nós de uma espessa corda de ancoragem.
Seus cabelos castanho-escuros eram longos e bagunçados, amarrados em um rabo de cavalo improvisado, enquanto algumas mechas caíam sobre seu rosto bronzeado pelo sol. Um lenço vermelho estava amarrado ao redor de sua testa, segurando o suor que escorria por suas têmporas. Seus olhos, de um azul profundo e sonhador, pareciam refletir o próprio mar que o cercava.
Apesar de estar no topo do mundo — ou ao menos no topo daquele navio colossal — o rapaz parou por um momento. Largou a corda, firmou-se com os pés e ergueu os olhos para o horizonte. O vento do mar soprou com força, agitando seus cabelos e enchendo seu peito de algo que nem ele mesmo sabia descrever.
Ali, naquele instante suspenso entre o céu e o mar, ele não via apenas o oceano... via possibilidades.
Seus olhos se estreitaram, cheios de desejo e determinação.
Um dia, ele também teria seu navio.
Um dia, ele também zarparia.
Fim de Capítulo.
