O suor já escorria pelo meu rosto quando dei mais um soco contra o tronco de madeira à minha frente. Os nós dos meus dedos estavam vermelhos, um pouco inchados, mas não havia tempo para parar. Eu havia decidido sozinha que, se queria acompanhar Naruto e Sasuke — e ser digna do título de ninja de Konoha —, precisava me fortalecer. E, dessa vez, não com livros ou estratégias, mas com algo que sempre negligenciei: meu corpo.
Taijutsu. Combate corpo a corpo. Algo que eu sempre deixei em segundo plano por confiar demais na minha cabeça. Mas ali, naquela clareira escondida atrás do campo de treinamento número três, não havia ninguém para me ajudar. Só eu, minha determinação... e a madeira que eu estava quase destruindo a socos e chutes.
Estava no meio de uma sequência de golpes: chute giratório, soco direto, cotovelada. A respiração pesada queimava no meu peito, os músculos dos braços e das pernas já davam sinais de cansaço. Eu sabia que minha resistência ainda estava muito abaixo da de Sasuke ou Naruto, mas era por isso que eu estava ali.
"Mais uma vez", murmurei para mim mesma, cerrando os punhos.
A dor servia como lembrete de que eu estava superando meus próprios limites. A cada golpe, a cada movimento, eu sentia meu corpo se adaptar, mesmo que lentamente. Se eu quisesse proteger quem era importante para mim, se eu quisesse me provar como kunoichi, então não podia continuar sendo a mais fraca do time.
De vez em quando, lembranças das palavras de Tazuna ecoavam na minha mente: "Essas crianças vão me proteger? Vocês parecem frágeis." E, mesmo que ele estivesse falando de todos nós, eu sabia que olhava para mim com mais desprezo. Talvez por ser a única garota. Talvez por parecer delicada. Mas era exatamente por isso que eu precisava continuar.
Me afastei um pouco do tronco e me preparei para um novo tipo de exercício. Taijutsu não era só sobre força bruta — era sobre velocidade, precisão, postura. Kakashi sempre dizia isso. Ainda que ele não estivesse me treinando agora, suas palavras estavam gravadas na minha mente.
Corri até uma pedra maior, posicionada como obstáculo, e comecei a praticar esquivas, saltos curtos, mudanças de direção. Minhas pernas doíam a cada impulso, mas eu continuava. O som da minha respiração irregular preenchia o silêncio ao redor.
Num momento de distração, tropecei numa raiz e caí de lado, o impacto me arrancando o ar dos pulmões.
Fiquei alguns segundos deitada na terra, olhando o céu entre as folhas. Era fácil desistir. Seria tão mais simples me levantar, tomar um banho e fingir que tudo estava bem. Mas não era isso que ninjas faziam. E não era isso que eu queria ser.
Levantei devagar, limpando o rosto com o antebraço e prendi o cabelo de novo. Estava suado, grudado na minha testa, mas não importava. Me posicionei diante do tronco mais uma vez, com os pés bem firmes no chão.
"Mais dez sequências", falei em voz alta. "E depois começo os agachamentos."
Eu não sabia se alguém me observava, se Kakashi havia percebido minha ausência ou se Naruto e Sasuke estavam treinando por conta própria em algum canto da vila. Mas, naquele momento, nada disso importava. Eu não estava fazendo aquilo para impressionar ninguém. Estava fazendo por mim.
As pernas ardiam. Cada músculo do meu corpo parecia gritar, implorando para parar, mas eu não estava nem perto de terminar. Já tinha perdido a conta de quantos socos e chutes havia dado, mas isso não importava. Não era mais sobre números, era sobre resistência. Sobre superação.
"Vamos, Sakura..." murmurei para mim mesma, com os punhos cerrados, os braços trêmulos. "Você já passou por coisa pior. Não agora. Não desiste agora."
Voltei a me movimentar. Dei três passos rápidos para frente e saltei, girando o corpo no ar. Meu pé acertou o tronco lateralmente, com um baque seco. O impacto reverberou pelo meu quadril até a espinha. Assim que aterrissei, rolei no chão e me levantei em um pulo, pronta para atacar de novo. Estava tentando aplicar combinações de movimentos mais fluídas, mais próximas do que via nos treinos de Sasuke ou Naruto. Mas com meu próprio ritmo.
Meu coração batia forte. Cada batida fazia eco na minha cabeça. A boca estava seca, e eu sentia o gosto metálico da fadiga. Mesmo assim, dei um passo para trás, me concentrei e corri em direção a uma fileira de troncos empilhados, simulando inimigos múltiplos.
Primeiro chute frontal. Depois, uma esquiva para a esquerda e uma cotovelada no ar — como se estivesse atingindo um oponente no flanco. Girei sobre o calcanhar e levei o braço direito para cima, simulando um bloqueio, seguido de um soco de baixo para cima com a esquerda.
O suor escorria do meu queixo e pingava no chão. Os pés descalços deslizavam um pouco na terra úmida, mas eu já tinha aprendido a ajustar a postura para não perder o equilíbrio.
Parei por um segundo, os ombros subindo e descendo com minha respiração descontrolada. Minhas mãos tremiam.
Fechei os olhos. Me concentrei. Vi a imagem de mim mesma, parada ao lado de Naruto e Sasuke. A garota que só gritava o nome do Sasuke-kun, que se escondia quando algo saía do controle. Aquela imagem me envergonhava. Eu não queria mais ser só a garota com boas notas e um crush.
Eu queria ser forte.
Abri os olhos e corri de novo. Dessa vez, mais rápido. Comecei uma nova série de movimentos: chute, chute giratório, soco reto, joelhada, esquiva baixa, soco no tronco. Quando o punho acertou a madeira, senti a pele rachar um pouco, uma ardência viva. Mas em vez de parar, gritei — mais de raiva do que de dor — e continuei socando com a outra mão.
O céu já começava a escurecer. O tempo tinha passado voando, mas eu não tinha percebido. Os sons da vila distante chegavam abafados, e eu só conseguia ouvir meus próprios passos, minha respiração e o som do impacto dos golpes.
Até que, sem avisar, minhas pernas falharam. Cai de joelhos, ofegando. Minhas mãos estavam machucadas. Senti uma pontada no tornozelo direito. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sorri.
Aquela dor… era boa.
Era real.
Sentei-me na grama, com as costas contra um dos troncos. Deixei a cabeça tombar para trás, os olhos olhando o céu entre as folhas. Estava exausta, suja e doendo dos pés à cabeça.
Mas me sentia viva.
Me sentia mais próxima da ninja que queria ser.
Talvez ainda demorasse para alcançar Naruto e Sasuke. Talvez eu ainda fosse tropeçar muitas vezes. Mas naquele dia, naquela clareira, eu tinha dado o primeiro passo com as minhas próprias pernas.
Levantei lentamente, sentindo cada músculo protestar. Olhei mais uma vez para a clareira, o campo de batalha onde cada treino me aproximava mais de quem eu queria ser. Ainda estava longe, mas eu sabia que daria tudo de mim para chegar lá.
Com um último suspiro, finalmente comecei o caminho de volta para casa. Cada passo parecia mais pesado do que o anterior, mas eu não me arrependia. Eu tinha feito o que precisava fazer, e cada gota de suor, cada respiração ofegante, cada movimento exato que eu fiz, contribuía para o que eu estava me tornando.
Naquela noite, quando cheguei em casa, sabia que teria que descansar, mas também sabia que o amanhã exigiria mais de mim. Isso era só o começo. E eu estava pronta para o que viesse.
