A estrada parecia interminável, mas eu sabia que a missão estava apenas começando. O som das ondas quebrando suavemente contra a costa era quase relaxante, mas algo me dizia que esse caminho não seria tão calmo quanto parecia. As árvores ao redor começaram a ficar mais densas, a paisagem que antes era pacífica agora parecia mais sombria, como se algo estivesse à espreita. Mas eu não podia me distrair.

Naruto estava falando sem parar, como sempre, dizendo que queria uma missão mais interessante, mais emocionante. Ele parecia impaciente com a tranquilidade do momento, quase ignorando as palavras de Tazuna sobre a importância da ponte. Eu olhei para ele e, embora suas palavras me irritassem às vezes, eu entendi. Ele queria algo para testar suas habilidades, algo que fosse mais do que apenas proteger um construtor de pontes. Eu também queria mais, mas sabia que a missão não era sobre o que nós queríamos, e sim sobre o que precisávamos fazer.

"Eu só queria capturar uns bandidos, sabe? Algo com mais ação!" Naruto disse com entusiasmo, fazendo um gesto exagerado com as mãos.

Sasuke, que até então estava em silêncio, olhou para Naruto com um semblante impassível. "A missão é a mesma para todos nós, Naruto. Vai ser o que for necessário."

Eu apenas mantive a concentração, tentando não me deixar levar pelas palavras de Naruto. A missão estava em andamento, e eu não podia subestimar nem um segundo.

Tazuna continuava falando, sem perceber que nenhum de nós estava realmente prestando atenção. "Essa ponte vai ser fundamental para o País das Ondas, vai trazer grandes mudanças. Sem ela, a região vai continuar a sofrer. Não é só uma questão de comércio, é uma questão de sobrevivência."

Eu sabia que a construção da ponte era importante, mas havia algo que não se encaixava. Ele estava nos dizendo que seria crucial para a defesa da aldeia, mas... algo não estava certo. A maneira como ele falou sobre as "ameaças externas" fez meu coração acelerar um pouco. Quem, ou o que, seriam essas ameaças?

"É verdade, Tazuna-sama," falei, tentando entender melhor a situação. "Mas o senhor parece saber mais do que está nos dizendo. O que está acontecendo no País das Ondas? O que exatamente está ameaçando a construção da ponte?"

Tazuna, aparentemente um pouco desconfortável, olhou para o horizonte. Sua expressão se tornou mais sombria por um momento antes de ele voltar a olhar para nós. "São coisas de fora da aldeia, coisas que vocês não precisam se preocupar. O importante é que a missão de vocês é me proteger enquanto viajamos."

Naruto, como esperado, não ficou em silêncio por muito tempo. "Então, a gente vai proteger um construtor de pontes de... ninguém? Não tem inimigos? Nada?"

A trilha era estreita, serpenteando entre árvores grossas e raízes retorcidas. A vegetação abafava o som ao redor, tornando o silêncio ainda mais opressivo. O nevoeiro se arrastava baixo sobre o chão, como uma segunda pele da floresta, e cada passo que Sakura dava parecia mais alto do que deveria. Havia algo errado. Ela sentia — não sabia como, mas sentia.

Seu estômago se contraía com um nervosismo que não passava. Tentou se concentrar nos sons da floresta, nos movimentos do grupo. Kakashi-sensei caminhava à frente, uma figura serena mesmo na neblina espessa. Sasuke ia um pouco atrás, os olhos escuros e atentos vasculhando cada canto. Naruto bufava baixinho, provavelmente frustrado com a lentidão do grupo — ou com o próprio medo.

Sakura também estava com medo. Muito medo.

Mas não era só por estar numa missão de verdade. Era pela responsabilidade. Eles estavam protegendo um homem que poderia ser alvo de assassinos a qualquer momento. E ela era uma kunoichi agora. Tinha que agir como tal.

Mesmo assim, seu coração batia tão alto que mal conseguia ouvir seus próprios pensamentos.

Foi quando tudo aconteceu.

Um som — metálico, agudo, como o roçar de lâminas no vento. Antes que ela pudesse reagir, algo se moveu veloz pelo canto da visão. Um clarão prateado. Correntes. Lâminas.

E então sangue. Tinta vermelha explodindo na neblina.

— KAKASHI-SENSEI! — O grito escapou antes que ela pudesse conter.

Ela viu, com os olhos arregalados, as lâminas cortando o corpo de seu sensei. Viu o sangue jorrar. Viu o corpo dele despencar como um boneco, largado, sem vida.

O chão sumiu sob seus pés.

Ela não se moveu.

O cérebro gritava:Proteja Tazuna!Reaja!Agora!

Mas o corpo não obedecia. Era como se tivesse sido transformada em pedra.

Dois homens mascarados surgiram do nevoeiro, como fantasmas saídos de um pesadelo. Usavam roupas escuras, e cada um empunhava uma garra curva e reluzente. Seus movimentos eram sincronizados, fluidos, letais. Olhavam como predadores. E estavam vindo direto em direção a Tazuna.

A garganta de Sakura secou. As pernas tremiam. O cliente estava atrás dela. Ela tinha que fazer alguma coisa.

Mas quem se moveu foi Sasuke.

Num salto preciso, ele se jogou na frente de Tazuna, arremessando uma shuriken com firmeza. A lâmina passou rente ao ombro de um dos inimigos e se fincou numa árvore, distraindo-os o suficiente para que ele se colocasse entre eles e o alvo.

Aquela frieza nos olhos do Sasuke. Aquela clareza nos movimentos. Ela nunca tinha visto aquilo antes — e nem sabia que ele era capaz daquilo.

Naruto estava imóvel, como ela. Mas diferente dela, ele tremia. Com força. Os olhos arregalados, o rosto pálido. A boca entreaberta como se tentasse dizer algo — mas não havia som.

O mundo parecia em câmera lenta. Sakura ouvia o som do seu próprio sangue pulsando nos ouvidos. Queria gritar de novo. Queria correr. Mas só conseguia olhar.

Eu não tô pronta pra isso.

Foi então que, como um vulto saído da própria névoa, Kakashi apareceu.

Vivo.

Inteiro.

Ele se moveu tão rápido que Sakura mal conseguiu acompanhar. Com um golpe preciso, prendeu o braço de um dos Irmãos Demônios, girando-o com força até a garra cair no chão com um baque metálico. O outro tentou fugir, mas Kakashi era rápido demais. Em poucos segundos, ambos estavam desarmados, imobilizados e inconscientes no chão.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Quase doloroso.

— Nunca baixem a guarda — disse Kakashi, com aquele tom calmo e impassível, como se não tivesse acabado de fingir a própria morte.

Sakura ainda não se mexia. O corpo parecia ter voltado ao normal, mas o coração continuava correndo. Ela olhou para o chão. Para as mãos. Estavam fechadas em punhos, tão apertadas que as unhas quase cortavam a pele.

"Eu não fiz nada."

Ao lado, Naruto finalmente se moveu. Puxou uma kunai, tremendo, e cravou-a no próprio pulso, de leve. Sangue escorreu, e ele arfava como se quisesse se punir por não ter reagido.

— Eu... eu não quero mais congelar... — disse ele, os olhos marejados, a voz baixa, mas firme. — Eu vou ficar mais forte.

Sasuke o olhava de lado, com desprezo. Mas não disse nada.

Sakura fechou os olhos por um momento. Respirou fundo. Tentou, ao menos. O ar parecia preso dentro do peito. A sensação de culpa era um peso quente na nuca.

"Eu fiquei parada. Se o Tazuna tivesse morrido..."

Queria ter reagido. Queria ter feito algo como o Sasuke. Qualquer coisa. Mas a verdade era que não soubera o que fazer. E, pior ainda, não tivera coragem.

Era esse o mundo ninja?

Ela achava que sabia no que estava se metendo. Anos na Academia. Notas boas. Teoria. Técnicas básicas. Tudo isso parecia tão distante agora. Porque ali, naquele instante, não foi o mais inteligente ou o mais treinado que se destacou. Foi o que conseguiu reagir.

E ela não foi essa pessoa.

— Sakura — chamou Kakashi, com a voz mais branda. Ela ergueu os olhos. Ele a observava com calma, mas também com atenção. Como se soubesse o que se passava dentro dela. — Está tudo bem. Isso também faz parte do aprendizado.

Ela quis responder. Dizer que não estava tudo bem. Que ela estava decepcionada consigo mesma. Que sentia vergonha. Mas só conseguiu assentir.

Caminhavam em silêncio.

O som dos passos era abafado pela terra úmida e pelos pensamentos pesados que rodavam na cabeça dela. Naruto tinha se acalmado um pouco, mas ainda lançava olhares tímidos pra frente, pra trás, como se estivesse revendo a luta várias vezes na cabeça. Sasuke seguia com a mesma expressão de sempre — olhos semicerrados, ombros retos, como se nada tivesse abalado ele. Kakashi estava logo à frente, com as mãos nos bolsos, sereno demais pro que tinha acabado de acontecer.

Sakura, no entanto, ainda ouvia o som das correntes cortando o ar.

Ainda via o sangue.

Ainda sentia aquele instante — o mais terrível de todos — em que ficou parada.

Eu não quero ser um fardo.

Aquela frase batia repetidamente como um sino. Sempre que respirava, sempre que dava um passo. E por mais que tentasse afastá-la, ela voltava. Com o rosto de Tazuna atrás dela, confiante. Com os olhos de Kakashi olhando os dela depois da luta, calmos demais.

Quase uma hora depois, pararam perto de um riacho estreito para descansar. O céu começava a se abrir em fendas pálidas, mas ainda não havia sol — só luz suficiente pra tornar o mundo cinza.

Sakura se sentou sobre uma pedra, afastada do grupo, e encheu as mãos com a água fria do riacho. Jogou sobre o rosto com força, tentando apagar o suor, o calor das bochechas, a vergonha.

Ela olhou o reflexo.

Por um segundo, não se reconheceu.

— Você tá bem?

A voz era baixa, quase hesitante. Naruto.

Sakura piscou e ergueu os olhos. Ele estava parado a poucos passos, ainda com a bandana torta na testa e o braço com um pequeno curativo improvisado onde tinha se cortado antes.

— Tô — ela disse, mas a palavra saiu mais fraca do que gostaria. Limpou a garganta. — Quer dizer... mais ou menos.

Naruto se aproximou devagar e se sentou ao lado dela. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. Só ouviam o som da água correndo entre as pedras.

— Eu congelei também — disse ele, de repente. — Eu fiquei paralisado. Pensei que... que se eu me mexesse, eles iam me matar.

Sakura mordeu o lábio inferior. A coragem dele de admitir aquilo fez doer mais. Porque ela não tinha nem conseguido falar sobre isso com ela mesma ainda.

— Eu não fiz nada — sussurrou. — O Sasuke salvou o Tazuna. Kakashi-sensei derrotou os dois. E eu... só fiquei parada. Como uma idiota.

Naruto olhou pra ela, sério — de um jeito raro, diferente do jeito espalhafatoso de sempre.

— Não foi idiotice. Foi medo. E a gente vai sentir isso de novo. Mas da próxima vez... a gente vai saber o que fazer, né?

Ela quis sorrir, mas a vontade não veio. Ainda assim, assentiu com a cabeça.

— É — murmurou. — Da próxima vez.

— Se você quiser, a gente pode treinar junto. Eu quero melhorar. E você também, né?

Ela olhou pra ele. Os olhos azuis estavam firmes agora, com aquela teimosia típica que ele sempre mostrava quando tinha um objetivo. Havia algo ali que confortava — talvez o fato de ele estar tão perdido quanto ela, mas ainda assim querendo seguir em frente.

— Tá — ela respondeu, finalmente. — A gente treina.

Naruto sorriu largo, e por um instante, o peso no peito de Sakura diminuiu.

Mais tarde, quando o grupo retomou a caminhada, Sakura andou com os olhos mais atentos. Tentava perceber os sons da floresta. O menor movimento nas folhas. O ritmo da respiração dela. Era difícil. O medo ainda rondava as bordas da mente. Mas havia algo novo ali também: uma promessa. Silenciosa, pequena. Mas forte.

Ela não sabia quanto tempo duraria aquilo. Talvez congelasse de novo. Talvez não fosse suficiente.

Mas queria tentar.

Queria, da próxima vez, ser a primeira a se mover.