O céu da Floresta estava coberta por uma manta de nuvens escuras, rompida apenas por uma lua pálida, fina como uma lâmina. O vento cortava entre os galhos altos com um assobio constante, gelando a pele mesmo sob a roupa de combate. Sakura permanecia de pé sobre um galho grosso a quase cinco metros do chão, ofegante, as mãos tremendo. Sangue escorria de pequenos cortes em seus dedos, resultado de horas segurando senbons com força e falhando nos lançamentos.
Ela tentou mais uma vez.
O corpo inclinou-se levemente para frente, pés descalços sobre a madeira úmida. A respiração era lenta, cadenciada. Sakura lançou três senbons com o movimento do pulso. Um atingiu o tronco à frente com um som seco. Os outros dois caíram, girando no ar até sumirem no mato lá embaixo.
Ela cerrou os dentes.
— Maldição...
— De novo. — a voz veio como um sussurro vindo da escuridão.
Kakashi estava ali, encostado contra um galho, quase invisível. Nem a folha sob seus pés havia se movido. A máscara, o Sharingan oculto, o olhar firme. Ele não dizia mais do que o necessário.
— Você viu — ela murmurou, a raiva misturada ao cansaço. — Estou errando tudo.
— Está tentando com força demais. Precisão. Não força.
Sakura abaixou os olhos para as palmas machucadas. Cada linha de sua pele parecia queimar. As pernas tremiam, denunciando o tempo que já permanecia em pé naquela posição. Mesmo assim, não desceu. Não ainda.
"Equilíbrio... precisão... controle..." repetia mentalmente.
O vento aumentou, balançando os galhos. Kakashi sumiu por um segundo, depois reapareceu à esquerda dela, equilibrado com uma só perna, o braço estendido. Três senbons entre os dedos. Ele lançou.
Três estalos. Todos cravados no mesmo ponto da árvore.
— Como você fez isso? — a frustração escapou junto da pergunta.
— Imagine que você é a agulha — respondeu ele, como se dissesse algo óbvio.
Sakura tentou conter a raiva. Fechou os olhos. Respirou fundo. Seu chakra pulsava devagar, misturado à dor. Era isso que ele queria. Que ela fizesse sob pressão. Que ela não fosse só uma kunoichi da teoria, da disciplina, mas do campo — da luta real.
Ela ajustou a postura. Ouviu seu próprio coração. O tronco da árvore, as folhas, a distância entre ela e o alvo. O mundo pareceu parar. Dessa vez, ela não lançou os senbons. Ela os soltou.
Duas agulhas caíram de novo. Uma cravou.
Ela quase sorriu, mas o olhar de Kakashi permaneceu igual. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Apenas o silêncio.
E era isso que mais doía.
— Continue. — disse ele, desaparecendo de novo, como se nunca tivesse estado ali.
O silêncio voltou a dominar a Floresta, quebrado apenas pelo sussurro do vento e pela respiração ofegante de Sakura. Cada vez que ela pisava com mais força para manter o equilíbrio, sentia as solas dos pés escorregarem um pouco. Estava ficando difícil manter-se ereta por tanto tempo, mas ela se recusava a descer.
Uma parte dela queria gritar. Queria se virar e perguntar por que Kakashi a colocava nessa situação — por que ele não dizia nada, por que ele parecia tão alheio ao esforço que ela fazia. Mas, no fundo, ela sabia a resposta.
Kakashi não era do tipo que elogiava para confortar. Ele não estava ali para fazer carinho no ego dela. Ele queria que ela quebrasse. Queria ver até onde ela podia ir antes de cair. E, se caísse, queria ver como ela se levantaria. Essa era a verdadeira lição.
Sakura olhou para as senbons em sua mão. Seus dedos estavam duros, inchados, mas ela os fechou com firmeza.
Fechou os olhos.
Inspirou fundo.
Expandiu sua percepção.
O mundo ficou silencioso por um instante — e então ela sentiu. Não com os olhos, nem com os ouvidos, mas com o chakra. A técnica sensorial. OKanchi. A vida da floresta pulsava sob seus pés: insetos rastejando sob as folhas, um esquilo correndo no tronco abaixo, um pássaro dormindo na copa da árvore ao lado. E, ali, como uma presença oculta, o chakra estável e frio de Kakashi.
Ela sentiu até mesmo o padrão do chakra dele. Firme, controlado, denso. E por contraste, o dela — agitado, com picos desordenados, flutuando entre insegurança e vontade.
"Equilíbrio vem da mente", ela se lembrou.
Inspirou de novo. Deixou que sua respiração se alinhasse ao ritmo da floresta. Sentiu o vento passando, sentiu os pés se ajustando no galho. A vibração da árvore era sutil, mas perceptível — era ali que a detecção por contato com o solo entrava. Sakura não precisava ver para saber onde estava. Elasentia.
Abriu os olhos.
E lançou.
Três senbons riscaram o ar.
Três sons de impacto.
Um cravou onde deveria. Um caiu. O terceiro... entrou um pouco torto, mas havia acertado a árvore.
Ela deixou o ar sair pelos lábios, um pouco mais devagar dessa vez. Não era perfeição, mas era progresso.
Um ruído.
Ela virou a cabeça rapidamente.
Nada.
Mas sabia. Kakashi ainda estava ali. Observando de longe. Um fantasma entre sombras.
— Eu sei que você está aí — ela disse, não esperando resposta.
O vento soprou com mais força. Folhas dançaram ao redor. Sakura não recuou.
Ela pegou mais senbons, mas antes de lançá-los, parou. Sentiu algo. Um calor estranho... não em torno dela, mas vindo de dentro. Uma oscilação sutil no fluxo de chakra. Alguém se aproximava?
Ela baixou o centro de gravidade, ativando novamente a técnica sensorial com foco. Estendeu o chakra pelos pés, espalhando como uma teia delicada no solo.
Então sentiu.
Uma assinatura estranha, leve, ágil. Diferente de Kakashi. Se movendo pela lateral.
Seu coração acelerou.
Era uma presença hostil?
Ela puxou um senbon de prontidão, girando levemente o corpo.
Mas antes que pudesse reagir por completo, um galho se partiu à distância, e uma forma caiu no mato. Pequena demais para um ninja.
"Só um animal...?" pensou.
Mas Kakashi apareceu atrás dela, como se tivesse surgido da própria noite.
— Está aprendendo a sentir. Isso é bom. — disse ele, o tom calmo, quase... satisfeito?
Sakura virou-se para ele, surpresa.
Era a primeira vez que ele comentava algo próximo de um elogio.
— Ainda estou errando. — ela respondeu, sem disfarçar o cansaço.
— E continuará errando — ele retrucou, sem qualquer suavidade. — Até deixar de tentar acertar com os músculos, e começar a acertar com o instinto.
Ele se aproximou, lentamente, até ficar ao lado dela no galho. Pegou um senbon de sua própria bolsa.
— Quer ver como é? Observe.
Ele fechou os olhos.
A brisa soprou.
Com um único movimento, o braço se ergueu. A senbon voou.
Sakura nem viu para onde tinha ido.
Então Kakashi apontou para uma folha, balançando no galho acima. A senbon a havia atravessado pelo centro — e se cravado em outra árvore, a metros de distância.
— Você usou o som... — ela murmurou.
— Eu usei tudo. O som. O cheiro da árvore. O ritmo da floresta. O movimento do vento. O chakra do ambiente. — Kakashi se virou para ela. — Use tudo. Até seus medos.
Ela o encarou por um momento, o cansaço se convertendo em algo mais sólido. Raiva, talvez. Orgulho ferido. Mas também... motivação.
Ela pegou mais três senbons. Sentiu o vento contra o rosto. Fechou os olhos.
E lançou.
Três sons de impacto.
Quando abriu os olhos, dois estavam cravados exatamente onde queria. Um, ligeiramente fora do alvo.
Ela olhou para Kakashi.
Ele apenas acenou com a cabeça.
Nada mais.
Mas para ela, naquele momento, foi o suficiente.
Talvez fosse assim que o reconhecimento funcionava para ele. Como o sol por trás das nuvens — você não vê, mas sente o calor.
Sakura inspirou fundo mais uma vez.
Ela não tinha vencido. Mas havia começado a lutar de verdade.
Suas mãos estavam sangrando, as palmas abertas contra a madeira da árvore, seus dedos dormentes de tanto esforço. A exaustão começava a tomar conta de seu corpo, mas ela não podia parar. O suor se misturava à terra em suas roupas, e o peso de cada movimento parecia mais insuportável a cada segundo.
— Precisão, não força — a voz de Kakashi cortou o silêncio, a ordem simples e direta, como uma lâmina afiada.
Ela apertou os dentes, sentindo o gosto de frustração, mas também a chama de sua determinação. Não era a primeira vez que falhava, e provavelmente não seria a última. Assenbonainda caíam, uma após a outra, espalhando-se ao redor dela, inúteis, sem precisão. Cada erro se acumulava, como se a floresta ao redor a zombasse de sua incapacidade.
Mas o olhar de Kakashi, sempre atento e impassível, estava ali, como uma sombra. Ele não se movia. Ele observava, como sempre fazia. Não havia palavras de encorajamento. Não havia elogios. Um simples aceno de cabeça para indicar que ela não havia alcançado o nível esperado era tudo o que ele dava.
— Imagina que você é a agulha — a frase dele cortou o ar, mais uma vez.
Sakura fechou os olhos por um instante, concentrando-se. "A agulha", pensou. Ela se lembrava de sua conversa com ele, sobre como cada movimento deveria ser preciso, não um golpe bruto. A agulha não é uma ferramenta de força, mas de precisão mortal. Como a agulha que ela deveria ser — sem hesitação, sem força desnecessária. Somente precisão.
Ela inspirou profundamente, tentando limpar sua mente da frustração. Cada vez que falhava, ela sentia como se estivesse mais distante de seus objetivos. A frustração era um monstro que crescia em seu peito. Mas ela não podia deixar que isso a dominasse. Não agora. Não quando cada movimento de seu corpo estava em jogo, não quando sua mente e sua alma precisavam se alinhar para se tornar mais forte.
Kakashi observava, e a maneira como ele olhava a fazia sentir que, para ele, o simples ato de não desistir já era uma pequena vitória. Mas essa vitória não era o suficiente. Não seria suficiente até que ela dominasse aquilo que ele lhe ensinava. Ela sabia disso.
Ela olhou para assenbonem suas mãos, percebendo o quanto elas representavam mais do que simples armas. Elas eram símbolos de controle, de precisão, de uma força sutil que a tornaria uma ninja de verdade. Diferente de Naruto, que sempre lutava com um ímpeto furioso, ou de Sasuke, que se entregava ao seu próprio orgulho e dor, Sakura sabia que seu caminho seria diferente. Ela não precisava ser a mais forte. Precisava ser a mais precisa. Ela precisava aprender a ser uma agulha que não errava o alvo.
Com um movimento lento, ela preparou asenbonnovamente. Seus dedos estavam firmes, apesar da dor, apesar do cansaço. "Respire", ela pensou, como Kakashi sempre dizia. "O equilíbrio vem da mente."
Ela fechou os olhos mais uma vez, sentindo o vento cortante contra sua pele, ouvindo a natureza ao seu redor. A noite estava viva, mas a floresta estava silenciosa, como se estivesse esperando por ela. O mundo parecia estar em pausa, e a única coisa que importava era a precisão de seu próximo movimento. Ela não estava apenas se concentrando no movimento físico, mas na calma interna que precisaria para ser bem-sucedida.
Com um gesto firme, ela lançou asenbon.
Desta vez, ela não olhou para o chão. Ela sentiu a vibração da árvore sob seus pés, o leve movimento da folha ao redor dela. Asenbonvoou no ar com a suavidade de uma flecha, cortando o espaço com precisão e caindo exatamente onde ela havia visualizado, a poucos centímetros de onde ela queria. O som suave de seu impacto foi o suficiente para fazê-la respirar aliviada.
Kakashi apareceu ao seu lado, tão silencioso quanto sempre, sem sequer um movimento que denunciasse sua presença. Ele olhou para ela com os olhos de sempre, impassíveis.
— Bom. Mais uma vez — disse ele, sem emoção, sem elogios. A resposta que ele sempre dava. Mas era suficiente. Ela sabia que, naquele simples "bom", havia um reconhecimento. Um reconhecimento de que ela estava mais próxima de seu objetivo.
Ela não podia se contentar com o que havia feito. Isso era só o começo. Ela ainda sentia a dor em seus músculos, o cansaço pesado em suas pernas, mas algo dentro dela havia mudado. A frustração havia se dissipado, substituída por uma calma profunda, uma sensação de que ela estava mais próxima do que nunca de alcançar o que Kakashi desejava dela.
O vento cortante não mais parecia ameaçador. Ele apenas existia, como tudo ao seu redor, mas com uma nova chama acesa dentro de si.
Ela não estava mais perdida. Ela não era mais uma garota com medo de falhar. Ela estava se tornando aquilo que precisava ser. Não uma ninja imbatível, mas uma ninja precisa, capaz de controlar o que parecia incontrolável.
E, naquele momento, enquanto olhava para o céu sombrio acima dela, Sakura soube que esse caminho de autodescoberta não era fácil. Mas era o único caminho que ela podia seguir, e ela estava disposta a caminhar até o fim.
A noite estava silenciosa, com o vento cortante que sussurrava através das árvores da Floresta. A lua, pálida e distante, iluminava suavemente o terreno, criando longas sombras que dançavam à medida que as folhas se moviam. Sakura estava ali, em meio à escuridão, sua respiração pesada, e suas mãos sangrando devido ao esforço contínuo. As pernas tremiam sob o peso do treino exaustivo, e a sensação de cansaço era quase insuportável, mas ela não parava.
Cada movimento que ela fazia, cadasenbonlançada, parecia seguir um padrão que ela ainda não conseguia dominar completamente. As agulhas de metal cortavam o ar, mas a maioria delas caía no chão, errando o alvo. As falhas se acumulavam, e ela podia sentir o desconforto em seu corpo — os músculos tensos, o suor escorrendo pelo rosto, a sensação de estar à beira do fracasso. Mas, como sempre, ela se forçava a continuar, a ignorar a dor e os pensamentos que ameaçavam invadir sua mente.
Sakura fechou os olhos por um momento, tentando encontrar alguma paz em meio ao caos de seus pensamentos. O vento gelado tocou sua pele, e a voz de Kakashi ressoou em sua mente, como um eco distante. As palavras dele não eram suaves, nem eram uma promessa de consolo. Kakashi não oferecia isso. Ele oferecia algo mais valioso — um caminho para a força.
—Precisão, não força.— O som das palavras de Kakashi parecia estar presente na brisa fria que cortava a floresta.
Ela sabia o que ele queria dizer. Não era sobre a força bruta que ela possuía, mas sobre a precisão. A precisão que ela não conseguia alcançar. O controle. A mente focada, sem espaço para distrações ou hesitação.
Respire...Ela tentou se lembrar de suas palavras anteriores.O equilíbrio vem da fechou os olhos novamente e respirou fundo, sentindo a energia ao seu redor, sentindo a conexão entre o corpo e o ambiente. O equilíbrio não era apenas físico; era mental. O controle da mente era o primeiro passo para o controle dasenbon.
Ela sentiu uma onda de frustração crescendo dentro de si, mas, ao invés de permitir que a raiva tomasse conta, ela a canalizou para a próxima tentativa. O som dasenboncortando o ar preenchia a noite, mas, mais uma vez, a maioria delas caía no chão, inutilizada.
Em sua mente, o flashback de Kakashi surgiu novamente. Ele estava ali, com ela, naquele campo desolado. A luz suave do entardecer fazia sombras ao redor, e Kakashi olhava para ela com aquele olhar que sempre parecia ver mais do que ela mesma via.
— Quando eu era mais jovem, minha vida foi salva por umasenbon— a voz de Kakashi soava suave, mas havia uma intensidade por trás dela que fazia Sakura prestar atenção.
Ele havia começado a contar uma história de uma missão onde estava cercado por inimigos. As probabilidades estavam contra ele, e tudo parecia perdido. Mas Kakashi, com sua calma característica, sabia o que fazer.
— Eu estava prestes a ser derrotado — Kakashi continuou, com um tom de nostalgia. — Mas, ao invés de lutar com força bruta, eu fiz uma escolha. Usei asenbon, a precisão. E isso me deu uma chance.
Sakura sentiu uma calma estranha tomar conta dela ao ouvir essas palavras, mesmo que o vento gelado cortasse sua pele. Kakashi não estava falando sobre a força física que um ninja poderia ter. Ele estava falando sobre a estratégia, sobre a mente. Asenbonnão era apenas uma arma; era uma extensão de quem ela era como ninja. E, mais importante, ela precisaria ser falha não era uma opção.
Sakura sentiu o peso dessas palavras enquanto continuava tentando. A tensão no ar parecia aumentar, o ambiente ao seu redor se tornando mais denso. Ela fechou os olhos, respirando profundamente mais uma vez, e, quando os abriu, o ambiente à sua volta parecia se afastar. A única coisa que existia naquele momento era o alvo à sua frente e asenbonem suas mãos.
Naruto, que estava observando à distância, não pôde deixar de soltar uma risada, quebrando o silêncio da floresta. Sua voz estridente cortou o ar, e ele apontou para Sakura com um sorriso largo e irreverente.
—Hahaha! Não acredito, Sakura!— Ele riu, segurando a barriga como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo. —Você está aí jogando esses palitinhos de agulha, como se fosse uma especialista!
Sakura não respondeu de imediato. Ela olhou para ele com um sorriso tenso, o suor ainda escorrendo pelo rosto. Ela não tinha tempo para perder com as piadas de Naruto. Ela sabia que ele nunca entenderia o que ela estava fazendo ali, mas algo nele a fazia não se importar. Não agora.
— Não é questão de ser uma especialista, Naruto — ela respondeu, a voz mais calma do que imaginava. —É sobre ser precisa, não forte.
Naruto, que estava prestes a dizer algo mais, hesitou. Ele a olhou com mais atenção, o brilho da curiosidade agora substituindo o sarcasmo em seu olhar. Ele queria continuar zombando, mas algo em Sakura o impediu de fazer isso. Havia algo na seriedade dela que ele não conseguia ignorar.
Sasuke, que estava em silêncio ao lado, também observava a cena. Diferente de Naruto, não havia zombarias em seus olhos. Não havia risos. Sasuke estava ali, atento, observando cada movimento de Sakura. Ele não falava muito, mas estava começando a reconhecer algo nela. Algo que ele não esperava.
Sakura sabia disso. Ela sentia o peso do olhar de Sasuke sobre ela, mas não era um peso que a sobrecarregava. Era o tipo de reconhecimento silencioso que a fazia querer melhorar ainda mais. E, quando seus olhares se cruzaram, ele lhe deu um aceno quase imperceptível, mas significativo. Não era um elogio, mas Sakura não precisava disso. A simples aceitação dele, de que ela estava indo na direção certa, era o suficiente.
Naruto, observando a troca silenciosa entre Sakura e Sasuke, deu de ombros, ainda com um sorriso no rosto.
—Pff, se vocês dois acham que isso vai me impressionar...— ele disse, mas sua voz não era tão confiante quanto antes. Ele sabia que algo estava mudando. Sasuke sabia disso. E Sakura sabia mais do que nunca. Ela estava crescendo. Ela estava se tornando alguém mais forte. Mais precisa.
Kakashi, lá de longe, assistia a tudo com um olhar distante, como se estivesse satisfeito com o progresso de Sakura, mas ainda esperando o momento certo para dar sua próxima lição. Não era sobre elogios. Era sobre resultados.
A lua brilhava mais forte agora, iluminando o campo de treinamento. A escuridão ao redor parecia menos ameaçadora, mais uma prova de que, como assenbon, Sakura estava se tornando uma lâmina afiada e letal — calma, precisa e mortal.
E, finalmente, ela soube. Não havia mais espaço para falhas. Ela não seria uma ninja que dependeria da força bruta. Ela seria alguém que dependia da precisão, alguém que conhecia a arte de ser letal sem nunca perder o equilíbrio.
Lá, entre as sombras, Sakura estava equilibrada sobre um galho estreito, os pés firmemente plantados, mas o corpo ainda sentindo o peso do treinamento que se arrastava há horas. Suor escorria pela sua testa, misturado com a terra e o sangue nas mãos. As pernas tremiam, mas ela não poderia parar. Não ainda.
Kakashi permanecia à distância, em silêncio, observando cada movimento seu. Ele era um mentor sombrio, que preferia a solidão do que oferecer conforto. Estava ali, mas não iria intervir. Ele sabia que este era o momento crucial para Sakura, onde não apenas seu corpo seria testado, mas sua mente também.
"Precisão, não força." Essas palavras ressoavam constantemente em sua mente. Não eram apenas instruções, mas uma filosofia que Sakura começava a internalizar. Cada gesto, cada movimento seu precisava ser calculado. Não havia espaço para erros.
Ela fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa que passava entre seus dedos, ativando sua habilidade sensorial. O chakra ao seu redor se tornou claro, como se ela pudesse ver cada vibração, cada movimento do ar. Não era necessário olhar, ela podia sentir. O primeiro inimigo estava à sua esquerda, seu chakra era pesado, arrastado, revelando a natureza de sua presença. O segundo estava à direita, ágil, seus movimentos rápidos, mas previsíveis. O terceiro... um clone, uma distração. Sakura sabia que não poderia se deixar enganar.
Com um movimento preciso, ela retirou três senbon de sua bolsa. O metal gelado refletiu a luz da lua, e sua mente se concentrou no que tinha que fazer. Não havia força bruta em seu movimento, apenas a leveza do controle absoluto. Kakashi havia lhe ensinado que a precisão não vinha da força, mas da mente. Ela inspirou profundamente e, sem hesitar, atirou a primeira senbon.
Ela mirou o alvo à frente: o chakra pesado do inimigo, à distância de vinte metros. Ela focou na veia jugular dele, o ponto mais vulnerável. Com um movimento ágil e controlado, o senbon cortou o ar e atingiu seu alvo com perfeição. O corpo do inimigo caiu em silêncio, absorvido pela escuridão da floresta antes que qualquer som pudesse ser ouvido.
O segundo inimigo, mais rápido, tentou desviar, movendo-se com agilidade. Mas Sakura estava um passo à frente. Ela sentiu a vibração dos seus passos no solo, antecipando o movimento do alvo. Sem hesitar, ela atirou a segunda senbon, mirando no coração. O impacto foi fatal, e o clone desapareceu em uma nuvem de fumaça, deixando para trás apenas o eco de sua tentativa de engano.
O terceiro alvo foi mais difícil. Sua presença era volúvel, difícil de ler. Seu chakra mudava constantemente, como um reflexo em água. Sakura, porém, já sabia o que ele faria. Ela sentiu a tensão no ar e, com a mesma precisão, lançou a terceira senbon. Desta vez, o alvo visava confundir, mas ela já o havia antecipado. A agulha paralisou sua respiração ao atingir o diafragma, e o clone se desfez em uma nuvem de fumaça, como os outros antes dele.
Sakura ficou imóvel por um momento, os olhos fechados, focada na tranquilidade que se seguiu. O coração ainda batia forte, mas ela sabia que tinha cumprido sua tarefa com a precisão necessária. Kakashi, que até então permanecia nas sombras, emergiu silenciosamente, sua expressão difícil de ler. Ele a observava, sem dizer uma palavra por alguns segundos.
Finalmente, ele falou, com a calma que sempre o caracterizava. — Bom trabalho.
A aprovação foi sutil, mas Sakura sentiu o peso das palavras. Não era algo que Kakashi oferecesse facilmente, e aquele comentário, embora frio, era suficiente para ela. Mesmo que as palavras de seu sensei fossem raras, elas tinham um peso imenso.
Ela olhou para os clones de Naruto, que estavam parados ali, observando. A expressão no rosto de Naruto era uma mistura de surpresa e empolgação, algo que ele não conseguia esconder. — Uau, isso foi impressionante, Sakura! Eu nunca pensei que você fosse capaz de fazer isso! — ele exclamou, a energia habitual em sua voz.
Sasuke, que estava ao seu lado, não disse nada, mas seu olhar observador não deixou passar nenhum detalhe. Ele não era o tipo de pessoa que demonstrava muito, mas, quando o fez, suas palavras eram sempre pesadas. Agora, ele apenas acenou levemente, como se tivesse reconhecido algo importante. Era uma aprovação silenciosa, mas clara.
Kakashi, ainda imperturbável, deu um breve aceno de cabeça, como se dissesse que a missão estava cumprida. — Isso foi apenas o começo. Não pare por aqui.
Sakura sentiu um leve aperto no peito. As palavras de Kakashi eram sempre diretas, quase cortantes. Mas ela sabia que ele estava certo. A verdadeira batalha estava apenas começando. Não era apenas sobre acertar os alvos, mas sobre entender o que isso significava. Ela não estava mais ali para ser apenas uma ninja de apoio. Ela estava se tornando algo mais. Não seria a força bruta que a definiria, mas a precisão da lâmina, a letalidade do movimento calculado.
Sem hesitar, ela se posicionou novamente, os olhos fixos no vazio à sua frente. Kakashi estava certo. Ela não poderia parar. Não até provar a si mesma que estava pronta para o próximo nível. Os senbon cortaram o ar mais uma vez, e a noite pareceu se acalmar ao redor dela. A floresta estava em silêncio, como se aguardasse o próximo movimento. Sakura, imersa na escuridão, sabia que sua jornada estava apenas começando.
