O corredor do prédio do Exame Chuunin ainda ecoava os últimos passos apressados dos genin quando Sakura se separou dos demais. Seus pés começaram a se mover antes mesmo que a cabeça decidisse. Ela sequer trocou palavras com Naruto e Sasuke — não por indiferença, mas por urgência.
Ela desceu as escadas do prédio quase tropeçando nos próprios passos, atravessou a rua em disparada e só parou quando sentiu o ar frio do final da tarde bater no rosto. O céu estava tingido de laranja, e o cansaço da prova ainda pesava em seus ombros — mas nada a impediria agora.
Ela tinha um compromisso. Um que quase deixara passar.
— Merda... o Dr. Yakushi — sussurrou, apertando o pergaminho contra o peito enquanto corria pelas vielas de Konoha.
As ruas começavam a se esvaziar. Os vendedores desmontavam barracas, e jounin em patrulha faziam sinal para os civis voltarem para casa. Sakura mal os via. O hospital surgia no horizonte, silencioso e imponente como sempre.
Subiu os degraus da entrada de dois em dois e empurrou as portas com força, ofegante, o suor escorrendo pela testa.
O ambiente interno a envolveu com aquele cheiro de ervas, álcool e silêncio concentrado. Já passava da hora — ela sabia. E Yakushi não era do tipo que aceitava atrasos, muito menos desculpas.
Ainda assim, ela avançou.
O corredor estava vazio. O tique-taque do relógio de parede parecia zombar dela a cada segundo que passava. Quando chegou à porta do consultório, nem se deu ao trabalho de bater.
— Dr. Yakushi! — disse, abrindo de uma vez.
Yakushi levantou os olhos lentamente. Estava com os óculos na ponta do nariz, revisando uma série de anotações em uma prancheta.
— Está atrasada — disse ele, sem emoção.
Sakura respirou fundo, tentando recuperar o fôlego.
— Eu sei. A prova acabou há pouco. Eu vim o mais rápido que pude. Eu... eu sei que disse que não aceitaria atrasos. Mas se ainda houver qualquer chance... eu quero continuar. Mesmo que seja agora. Mesmo que eu tenha que treinar até o sol nascer de novo.
Yakushi ficou em silêncio. Por um momento, apenas o farfalhar das páginas e o som distante de passos em outro corredor preenchiam o ar.
— Hm — murmurou ele, fechando a prancheta. — Naruto Uzumaki veio aqui ontem. Arrastado por você, aliás. Insistiu que queria aprender algo... e depois fugiu pela janela do laboratório. Lembra disso?
Sakura ficou vermelha.
— Lembro, senhor. Mas dessa vez estou sozinha.
— Isso é evidente.
Ele se levantou, ajeitando o jaleco com precisão. Seus olhos frios pousaram sobre ela como bisturis.
— Vamos ver se a pressa compensa a falta de disciplina. Pegue as luvas. E tente não derrubar nada. Hoje vamos começar com manipulação de chakra em tecidos vivos.
Sakura mal conteve a surpresa.
— Agora?
— Já perdeu tempo demais. Vamos. Antes que eu mude de ideia.
Ela correu até o armário, pegando as luvas com mãos trêmulas — de empolgação, não de medo. Era isso. Mesmo cansada, mesmo depois da tensão da prova, ali estava ela: em frente ao caminho que escolhera trilhar com tudo o que tinha.
E o que quer que viesse... ela enfrentaria de cabeça erguida.
Sakura calçou as luvas com a precisão de quem não queria cometer nenhum deslize. O material frio aderiu à pele como uma segunda camada, e ela pôde ouvir seu próprio coração acelerado ecoando nos ouvidos.
Yakushi a conduziu para uma sala adjacente ao consultório — menor, com iluminação direta e uma bancada de aço cirúrgico ao centro. Em cima dela, havia um coelho anestesiado, repousando com respiração lenta e uniforme. Ao lado, frascos de antisséptico, agulhas seladas e uma pequena bandeja com pinças e bisturis perfeitamente alinhados.
— Hoje, você vai aprender como o chakra interfere em tecidos vivos — disse Yakushi, vestindo as próprias luvas. — A manipulação médica exige mais do que precisão: exige controle absoluto.
Ele fez um gesto, apontando para o animal.
— O coelho está com um pequeno corte que fizemos na região do flanco. Sua tarefa é impedir que a hemorragia se intensifique e começar o processo de regeneração. Nada além disso.
Sakura se aproximou devagar, os olhos já ativando o modo de observação que vinha praticando com afinco. A ferida era limpa, superficial, mas sangrava em fluxo constante. Ela engoliu em seco. Não era como em um pergaminho ou diagrama. Era real.
— Você consegue enxergar o fluxo de chakra dentro dele? — perguntou Yakushi, de braços cruzados, observando com olhos clínicos.
Ela assentiu levemente.
— Está... irregular, mas presente. O corte afetou um canal menor.
— Muito bem. Primeiro passo: estabilizar. Depois, controlar a hemorragia. Use seu chakra como uma agulha. Não como um martelo.
Sakura respirou fundo. Estendeu as mãos sobre o ferimento, concentrando-se. O brilho azulado de seu chakra começou a pulsar nas pontas dos dedos, tremendo levemente enquanto tocava a pele ao redor.
Ela sentiu a resistência natural do corpo do coelho. Era como trabalhar sob água corrente — o chakra escorregava, dispersava. Mas ela não recuou.
"Agulha, não martelo."
Com delicadeza, ela estreitou o fluxo, imaginando uma linha fina, firme, como uma costura de luz atravessando o ferimento. O sangramento diminuiu. A pele pareceu se acalmar sob sua influência.
Por um breve momento, o chakra brilhou de forma uniforme — e então, vacilou. Sakura perdeu o equilíbrio da emissão e o chakra se dispersou como fumaça.
— Concentre-se — disse Yakushi, sem elevar o tom. — Erros aqui, mesmo pequenos, podem significar uma morte. Ou duas.
Ela mordeu o lábio inferior, recomeçando. Era exaustivo. Mesmo o uso básico de chakra medicinal drenava sua energia com rapidez brutal. Mas, a cada tentativa, o fluxo durava um pouco mais. Um pouco mais firme. Mais controlado.
Quando finalmente conseguiu manter a estabilização por quase vinte segundos, Yakushi moveu a cabeça minimamente, em aprovação.
— Por hoje, chega. O animal está bem, e você ainda tem os Exames para sobreviver.
Sakura afastou as mãos, o corpo inteiro latejando. Ela mal percebeu que estava suando.
— Amanhã — disse Yakushi, já tirando as luvas — vamos trabalhar com tecidos mortos. Você vai começar a cortar carne com bisturi, e quero que me diga o nome de cada músculo que tocar. Decore o pergaminho. Sem exceções.
Sakura permaneceu em silêncio, encarando o pequeno corpo do coelho à sua frente. O ferimento ainda não estava totalmente estabilizado — havia oscilação no fluxo de chakra, imperceptível talvez a olhos comuns, mas para ela, era evidente como uma falha em vidro.
Yakushi já havia removido as luvas e caminhava em direção à porta.
— Você ouviu minhas instruções, Haruno — disse, sem olhar para trás. — Por hoje, basta.
— Ainda não. — A voz de Sakura saiu baixa, mas firme.
Yakushi parou.
— O chakra oscilou. A técnica não está estável. Se fosse um companheiro ferido, essa margem de erro poderia...
Ela não terminou a frase. Não precisava. Ambos sabiam o que aquilo significava.
Yakushi se virou lentamente, cruzando os braços enquanto a observava.
— Você está exausta. Vai comprometer o controle.
— Então vou errar até acertar — rebateu Sakura, os olhos fixos na ferida, as mãos já voltando à posição. — Eu não vou embora até conseguir manter a estabilização perfeita. Nem um segundo a menos.
Houve uma pausa longa, preenchida apenas pelo som do monitor cardíaco emitindo seus bips espaçados. Yakushi não disse nada — mas também não a impediu.
Sakura respirou fundo. Mais uma vez, concentrou o chakra nos dedos. O brilho azul reapareceu, mas agora, mais controlado. Ela diminuiu a pressão, ajustou a profundidade da emissão, lembrou-se das aulas, dos diagramas, do que sentira nas tentativas anteriores.
"Agulha, não martelo."
A energia se infiltrou no ponto da lesão com suavidade precisa, pressionando as bordas do ferimento, forçando a circulação ao redor a estabilizar-se. E, então... ficou. Constante. Uniforme. Como se o chakra pulsasse em compasso com o batimento do coelho.
— Vinte e três segundos... — murmurou Yakushi, olhando para o relógio de pulso.
Sakura não respondeu. Estava focada demais.
— Trinta.
Seu chakra não vacilava. Não dispersava.
— Quarenta e cinco.
O suor escorria pelas têmporas de Sakura, mas sua concentração era absoluta. Não havia nada ao redor. Apenas ela, o chakra e o ferimento.
— Sessenta.
A emissão se manteve firme até o momento em que ela finalmente retirou as mãos. Os dedos tremiam, mas a energia cessou como uma vela apagada com cuidado — sem rompantes, sem colapsos.
Yakushi permaneceu calado por um instante. Então, cruzou lentamente a sala e estendeu um pano limpo para ela.
— Lave as mãos e descanse. Amanhã, será duas vezes mais difícil.
Sakura olhou para o pano na mão, mas não o pegou. Sua respiração ainda estava ofegante, o chakra esgotado, os dedos trêmulos — e mesmo assim, ela balançou a cabeça devagar.
— Ainda não é o suficiente.
Yakushi arqueou uma sobrancelha, franzindo os lábios com visível irritação.
— Você manteve a estabilização por mais de um minuto. A técnica foi executada com sucesso. O protocolo está encerrado, Haruno.
— Foi só uma vez — ela retrucou, a voz rouca, mas decidida. — Uma única vez certa, entre várias falhas. Se isso acontecesse no campo, eu não teria outra chance.
Ela se ajoelhou de novo ao lado do coelho, ignorando a dor no joelho que já começava a latejar, e passou os dedos pela lateral do corpo do animal. Seu toque era leve, quase reverente. Quando voltou a falar, sua voz saiu mais baixa.
— Eu não vou sair daqui até conseguir fazer isso duas, três vezes seguidas. Até que meu chakra não oscile mais, até que não exista mais incerteza. Não posso falhar quando for de verdade.
O silêncio que seguiu foi cortante.
Yakushi permaneceu imóvel por longos segundos. Seus olhos avaliavam a jovem à sua frente como se a estivesse pesando numa balança invisível. E, por um breve momento, algo quase imperceptível passou por seu rosto — um leve estreitar dos olhos, um tensionar no maxilar. Reconhecimento, talvez. Ou lembrança.
Ele suspirou fundo.
— Então que seja — disse, por fim, a voz mais baixa, como se estivesse falando consigo mesmo. — Vamos ver quanto tempo sua convicção aguenta antes do seu corpo ceder.
Virou-se, pegando um segundo coelho anestesiado da caixa de transporte ao lado da bancada. Colocou-o sobre a mesa de treino, sem qualquer cerimônia.
— Segunda tentativa. E nada de tremer as mãos.
Sakura já havia fechado os olhos, canalizando o chakra mais uma vez.
Ela não iria embora. Nem se ele mandasse. Nem se desmaiasse ali mesmo.
Ela ficaria até a perfeição não ser exceção — mas rotina.
Os minutos viraram horas.
Sakura já havia perdido a conta de quantas vezes tentara. Os coelhos — sempre anestesiados, sempre frágeis — eram substituídos um após o outro, e cada tentativa a levava mais fundo no esgotamento. O chakra que antes fluía com resistência agora mal respondia. Suor escorria de sua testa, grudando fios rosados no rosto; os dedos tremiam mais do que ela gostaria de admitir, mas ainda assim continuavam — controlando, ajustando, canalizando.
O jutsu médico, tão delicado quanto implacável, exigia mais do que força de vontade. Exigia precisão absoluta, sensibilidade extrema, e uma conexão íntima com o próprio chakra. E cada falha a drenava não só fisicamente, mas emocionalmente. Ainda assim, ela se recusava a parar.
— Você está além do limite — disse Yakushi em voz baixa, cruzando os braços. — Não é mais eficiente. Está se machucando.
Sakura manteve os olhos fixos na pequena ferida aberta sobre a lateral do coelho. A coloração do chakra que pulsava em sua mão estava pálida, instável, como uma vela prestes a apagar. Mas ela não desviou o olhar nem por um segundo.
— Eu consigo — murmurou. — Só... mais uma vez.
Yakushi se aproximou lentamente, até estar ao lado dela. O olhar clínico avaliou não o coelho, mas o estado da aluna. Os joelhos ralados, os ombros curvados, a respiração superficial. Mesmo assim, ela mantinha a mão sobre o animal, tentando restaurar o tecido danificado com chakra oscilante. Mais uma tentativa. Mais um fracasso parcial. A ferida fechou-se... quase. Mas não completamente.
Sakura mordeu o lábio, frustrada, os olhos ardendo de cansaço. Seu chakra piscava como uma luz prestes a se extinguir.
Yakushi observou em silêncio, impassível. Mas não a impediu.
— Por que está fazendo isso com tanta obstinação? — perguntou, depois de um tempo. Não havia desafio em sua voz, apenas curiosidade fria. — Você não é uma Uchiha tentando provar algo, nem um idiota como o Uzumaki. Ninguém exige isso de você. Nem mesmo eu.
Sakura, sem levantar os olhos, respondeu entre respirações:
— Porque eu preciso. Porque na próxima vez pode ser o Naruto. Ou o Sasuke. E... — sua voz falhou por um segundo, mas ela apertou os olhos, buscando força — ...e porque ninguém vai me subestimar de novo.
Yakushi não respondeu. Mas por um instante, seus dedos ajustaram os óculos com uma lentidão incomum.
Sakura tentou mais uma vez.
O chakra quase não vinha. Mas ela o reuniu. Forçou-se a centralizar, respirar, alinhar. O jutsu iluminou sua mão com uma luz fraca — tênue, mas estável.
E então, lentamente, o corte no coelho desapareceu. Por completo.
Ela caiu de lado no chão em seguida, sem forças sequer para manter-se sentada.
Yakushi deu dois passos até ela, ajoelhando-se ao lado do corpo exausto. Seus olhos percorreram o rosto pálido da garota, o suor escorrendo pelo queixo, os lábios partidos. Mas havia um sorriso lá. Fraco, quase imperceptível, mas real.
— Finalmente — ela sussurrou, antes de desmaiar.
Yakushi não se moveu por um instante. Depois, suspirou baixinho, ergueu-se e chamou uma das enfermeiras.
— Prepare um leito de repouso. E deixem-na dormir até que acorde sozinha. Nada de acordá-la por protocolo.
Virou-se para os arquivos, mas murmurou, quase imperceptível:
— ...Determinada demais pra idade que tem. Que desperdício seria deixá-la quebrar sozinha.
E voltou ao trabalho, como se nada tivesse acontecido.
