Esse nome... Draco... Não faço a menor ideia do porquê me veio este bendito nome em minha mente, foi tão rápido, como uma flecha atravessando uma folha de papel. É óbvio que a última pessoa que eu buscaria saber é Draco Malfoy. Eu me questionaria mais sobre isso se não fosse por Ron interromper com um movimento brusco. Ele se virou para mim e me abraçou por trás. Não o rejeitei, apenas fiquei imóvel, simulando dormir até realmente adormecer.

Na manhã seguinte, abro os meus olhos, uma fresta de luz atravessa as cortinas diretamente em minha cara. Trago a palma de minha mão em frente, protegendo minha visão, e percebo a presença de Rony, que ainda não havia acordado. Me viro de frente para ele, observando serenamente seu rosto sardento, dormindo como um bebê. Sorrio ao me deparar com uma mecha ruiva pousada em sua testa, fazendo parecer que possuía apenas uma sobrancelha. Um turbilhão de pensamentos invade minha mente nesse momento, o quanto eu desejei ter filhos com Ron, hoje não mais. O tanto que me culpo por não amá-lo como sou amada, por não conseguir fazer as mesmas coisas que ele me faz, por não ser o que ele realmente precisa. Quem ama cuida, e eu não estava cuidando.

Vagarosamente, me levanto, calçando minhas pantufas da Grifinória que ganhei de Molly no último inverno. Ela é um amor de pessoa, me acolheu todos esses anos, e após a guerra não foi diferente, é como minha segunda mãe. Troco minhas vestes para algo mais casual e apanho as flores que ainda estavam no chão, depositando-as na cabeceira da cama. Antes mesmo de ir ao banheiro fazer as necessidades, me viro para Ron e digo em voz suave: "Me desculpa por ontem!"

Escrevo um bilhete para Rony, nele havia a seguinte frase: "Fui me encontrar com Gina." E o deixo sob a mesa de centro da sala. Pego minha bolsa e parto para casa dos Weasley, que não fica muito longe daqui. Apenas teria que pegar um ônibus comum para chegar até lá, para mim não é estranho, já que peguei muitos ônibus de trouxas na vida. Seria praticamente a mesma coisa, muita paciência e muito odor forte corporal. Definitivamente, trouxas não tomam banho direito.

Minutos mais tarde, finalmente chego até a casa abandonada dos Weasley. Por fora, ela parecia pequena e caída aos pedaços, mas por dentro era tão aconchegante que sua aparência externa não importava tanto. Havia uma cerca torta de arame ao redor da casa, e tínhamos que tomar cuidado com ela; mesmo não habitando mais o mundo bruxo, aquela cerca parecia ter vida, assim como o Salgueiro Lutador - cada encontro resultava em um machucado diferente.

Ultrapasso a cerca com muito cuidado e, antes mesmo de chegar à porta, sou recebida pela Sra. Weasley carregando roupas encharcadas em seu ombro direito. Presumo que esteja lavando as roupas no estilo tradicional.

— Querida Hermione!! —diz em tom tão alto que se pôde escutar do outro lado da encruzilhada. Gina se manifesta sorridente como uma assombração atrás da senhora Weasley, eu retribuo o sorriso. — Estávamos esperando por sua visita!

— Mione!! —Gina corre em minha direção com sua camisola aos trapos se movimentando conforme o vento. Ela me abraça apertado buscando afeto, eu retribuo. — Não sabe o quanto eu senti sua falta.

Senhora Weasley se aproxima com um semblante doce e genuíno, esperando nosso abraço terminar para concluir suas ideias.

— Eu também senti saudades gente! —digo, toda meiga e sorridente.

— Vamos, vamos, entre querida. Não quero que passe fome, certo? —sinto minha mão ser agarrada, sou puxada pela senhora Weasley para dentro da casa abandonada. Por alguns segundos me sinto mal, me recordando de quando aparatamos para longe da guerra bruxa.

Deixo os sentimentos para depois.

Dentro da casa, uma sensação de ambiente peculiar me preenche, repleto de memórias e afeto, mesmo que rodeado por uma aura de melancolia. Parece que cada móvel carrega consigo uma história, um pedaço do passado dos Weasley. E é reconfortante ver o quanto eles ainda mantêm a tradição de receber os amigos com carinho, mesmo em meio às dificuldades.

Nos sentamos em diferentes assentos, nenhum semelhante ao outro: um banco manchado e redondo ali, uma cadeira quadrada e desengonçada aqui, e um banco tortuoso e envelhecido no canto da parede. Eu acabei com o redondinho, o menor e mais desconfortável deles, sabendo que ninguém o escolheria. Vi a senhora Weasley colocando alguns biscoitos na mesa enquanto Gina corria para dentro de seu quarto para trocar de roupa.

— Então, senhora Weasley, como tem passado a Gina? Ouvi dizer que ela ainda está na mesma. —retirei um biscoito da bandeja enquanto encarava os olhos da senhora Weasley, que pareciam tristes e sem esperança após a pergunta.

Molly suspirou, antes mesmo de responder.

— Meu bem, a situação com Gina não tem sido fácil. Cada dia que passa deveria ser melhor, mas não tem sido assim para ela. Às vezes, sonhos repetitivos com Harry invadem sua mente, sei disso porque a escuto murmurando o nome"Harry".—Molly suspira, apoiando-se em seus próprios joelhos e deixando seus ombros caírem, claramente triste.

Refleti um pouco sobre minha situação com Rony, mas decidi não dizer nada. Observo os detalhes da sala enquanto saboreio um biscoito, deixando que o calor do ambiente acalme meu coração. A presença da Sra. Weasley e de Gina traz um pouco de paz e normalidade à minha vida tumultuada.

— Em casa também não estamos passando por uma fase fácil, mas nada se compara aos sentimentos da Gina, é muito mais intenso! — Reflito sobre os tempos em que Harry, Rony e eu éramos inseparáveis na escola, e uma sensação de vazio me atinge. — Sinto falta do Harry como se um pedaço de mim tivesse ido com ele.

— Lembro bem... Vocês três eram inseparáveis. E o Harry... — Antes mesmo da senhora Weasley terminar a frase, Gina aparece com uma expressão fechada.

— Harry... o que, mamãe? — Gina interrompe, sua expressão agora séria e atenta.

— Nada querida, só estava dizendo como ele faz falta para todos nós. — responde a Sra. Weasley, tentando amenizar o clima tenso.

Gina permanece em silêncio por alguns momentos, seus olhos vagando pela sala, como se estivesse perdida em pensamentos. Então, ela se senta ao meu lado, escolhendo o banco envelhecido no canto da parede.

— Desculpe, Hermione. Acho que ainda não estou pronta para ouvir falar sobre Harry. —ela diz com voz embargada, desviando o olhar para o chão. Eu coloco minha mão sobre a dela, oferecendo um apoio silencioso.

— Ron me disse que você está desanimada, então vim te convidar para passar um tempo juntas, talvez em algum barzinho na cidade.

— Eu não quero! — Gina respondeu de forma direta e sem rodeios, deixando claro que sua resposta não foi muito ponderada.

— Ah, Gina! — Eu retruco desconfortável, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto saboreio o biscoitinho. — Acho que seria bom para você conhecer pessoas novas, que não tenham relação com a magia. Quem sabe você não se surpreende com algumas delas? — Tento animá-la.

— Pessoas legais? Não quero conhecer ninguém, muito menos pessoas legais. A vida não é justa e sempre acaba do mesmo jeito, ou ela tira as pessoas de nossas vidas, ou as pessoas se afastam por conta própria. É uma questão de sorte. — Gina responde, claramente alterada. — E avisa o Rony que me trazer sapos de chocolate não vai melhorar meu humor, eles não pulam!

Percebo que convencê-la não seria tão simples, então decido deixar a proposta de lado e focar em aproveitar o restante do dia com ela. Fazemos diversas atividades para distraí-la dos problemas que enfrenta. Colhemos flores, plantamos legumes, preparamos um delicioso macarrão e alimentamos os pássaros com migalhas. Foi uma tarde incrível, e ao final, ela me agradeceu antes de eu me despedir e seguir para o barzinho sozinha.

No bar, o ambiente tranquilo e o som de jazz ao fundo me permitem esquecer momentaneamente os problemas. Dou um longo gole no whisky, sentindo o líquido queimar minha garganta e deixar um sabor amadeirado na boca. Mesmo fazendo caretas involuntárias pela intensidade do álcool, aprecio a sensação. No entanto, não posso ignorar o motivo de estar ali sem Gina. Voltar para casa e fingir que tudo está perfeito, como se estivesse em um palco, está se tornando cada vez mais difícil. Se Gina me visse agora, apenas confirmaria sua convicção de que a vida sem magia é monótona. E, talvez, eu esteja começando a concordar com ela.

Quase não percebo a presença de um homem maduro e bem trajado se aproximando, mas meu sexto sentido de bruxa me alerta sobre suas intenções.

— Com licença, posso me juntar a você para apreciar esse belo fim de tarde? — o homem se inclina levemente, esperando minha resposta.

— Eu estou bem sozinha, obrigada! —respondi sem interesse.

— Podemos nos conhecer melhor, talvez!?!

Sinto um incômodo fervoroso crescendo em mim. Não consigo me segurar. Bato a palma da mão no balcão e me levanto com hostilidade, encarando-o profundamente. Percebo os olhares curiosos das pessoas sobre mim, mas não me importo.

— Qual é a dificuldade dos homens em aceitar um não, hein? Por que uma mulher como eu não pode simplesmente querer beber sozinha? Já pensaram que ela pode ser comprometida?

— Eu não queria incomodá-la, desculpe! —ele se afasta envergonhado e me deixa em paz.

— Podem parar de olhar, acabou o espetáculo! —grito para todo o bar escutar, agarrando a alça de minha bolsa e saindo daquele lugar, deixando o dinheiro no balcão como pagamento.

Marcho em disparada, sentindo todo o meu corpo se chocar em alguém, meu rosto amassando em sua camisa social branca.

— Ora, ora...dentre os diversos lugares prováveis em te encontrar, você me aparece aqui?

Demorei alguns segundos para tentar identificar essa voz, que não era estranha; pelo contrário, já a tinha escutado muitas vezes. Me afastei alguns centímetros para olhá-lo melhor; por ser um pouco alto, fui obrigada a movimentar os olhos para cima. Me espantei com o que vi; meu corpo gelou por completo ao perceber de quem se tratava.

— Draco Malfoy?!

— O próprio! — ele articulou, ajeitando sua camisa amarrotada. — Feliz em me ver, Granger? — ele me encarou com aquele olhar distante e frio de sempre.

Dentre tantas desgraças acontecendo comigo, o universo me trás mais uma. Não consigo respondê-lo de imediato, precisava digerir o que acabei de ver. Nos encaramos permanecendo assim.