Uma semana seguinte

Dia após dia, o tempo passa inexoravelmente, como se cada minuto carregasse um peso que eu não conseguia explicar. Não sei exatamente sobre o quê ou para quê, mas durante toda a semana sinto que algo permanece pendente, como uma nota desafinada em uma melodia que não termina. Desde que comecei a ignorar Ron, ele passou a me evitar, e esse afastamento se transformou em uma avalanche de gelo – um silêncio frio que se infiltra em cada conversa. Ao mesmo tempo, um sentimento de que algo está errado me corrói, especialmente desde que me distanciei de Draco. Tenho evitado ao máximo passar perto do bar "Glamore", onde o murmúrio das lembranças e o brilho de velhas luzes parecem ressuscitar fantasmas do passado. Às vezes, um pensamento intrusivo me toma de assalto, relembrando aquela tensão sufocante no museu, e me faz questionar se realmente devo me afastar ou, me aproximar para encontrar respostas. Meu crescente ódio mistura-se a dúvidas, tornando difícil distinguir o certo do errado.

Em um sábado que parecia ter sido roubado de um tempo esquecido, a cabana onde vivemos se transformou aos meus olhos num cenário desolador, semelhante a um cemitério abandonado. A madeira envelhecida das paredes exalava um odor de mofo e nostalgia, e o silêncio, pesado e absoluto, fazia com que cada som se tornasse amplificado. Ao lançar um olhar pela janela empoeirada, mesmo na desolação, avistei, em um recanto da paisagem, uma pequena casa solitária, encolhida e quase perdida diante da vastidão árida do mundo lá fora. Suas paredes, marcadas pelo tempo, pareciam sussurrar segredos de épocas passadas, enquanto as janelas embaçadas ofereciam apenas vislumbres tênues de um mundo que já não pertencia a este lugar. Lá fora, no jardim quase morto, a grama alta e desordenada ondulava suavemente ao vento, como se fosse a última testemunha de uma história esquecida.

Quando o sol finalmente rompeu a penumbra e bateu em meu rosto, seu calor invadiu minhas bochechas numa onda abrasadora. Relutante, decidi me afastar da janela para escapar daquele incômodo calor. Foi nesse instante que Ron surgiu de forma repentina, como uma tempestade inesperada, ao lado do braço do sofá. Seu semblante, fechado e emburrado, denunciava uma raiva contida durante toda a semana. Suas sobrancelhas, próximas demais aos olhos, franziam com intensidade, enquanto a luz do sol criava um efeito quase surreal sobre ele: um raio alaranjado iluminava metade de seu corpo, destacando os tons vibrantes de seu cabelo ruivo, que pareciam chamas dançantes em meio à sombra do ambiente.

— Precisamos conversar, Hermione! — exclamou ele, a voz carregada de toda a raiva acumulada.

Eu suspirei, sentindo a tensão aumentar no ar carregado de palavras não ditas.

— Eu já esperava por isso... Bem, acho que não temos outra alternativa, não é? — disse, enquanto a ansiedade apertava meu peito. Sentei-me na velha cadeira ao lado da janela, cuja madeira rangia sob meu peso, como se também lamentasse os dias que se foram.

— Não dá mais para continuarmos assim. É uma tortura viver na mesma casa que sua namorada e não poder tocá-la. — Ron declarou, aproximando-se com passos firmes e agachando-se diante de mim, num gesto que misturava preocupação e impaciência.

— Ron, você tem toda a razão, sinceramente... Mas eu preciso ser honesta com você, com nós dois. — Minha voz tremia, revelando a dor de uma verdade que eu relutava em admitir.

Nesse momento, Ron segurou minha mão com uma delicadeza surpreendente, como se manuseasse uma peça de porcelana rara. Seus dedos percorriam os meus com cuidado, e pude sentir o calor reconfortante de sua pele enquanto ele traçava, quase como um ritual, um anel imaginário em meu anelar.

— Sempre imaginei o dia em que pediria sua mão em casamento, para construirmos uma família de pequenos ruivos bagunceiros. Mas uma montanha de sonhos despencou por conta das tragédias que vivemos naquele ano – aquele bendito ano... — sua voz vacilou por um instante, e pude notar o esforço em conter as emoções; seu maxilar se contraiu em uma expressão profunda e dolorosa. — Não posso culpar a morte de Harry por tudo o que está acontecendo, mas posso culpar Voldemort. Hoje, não tenho mais medo de pronunciar seu nome.

Apertei a mão de Ron e a acariciei suavemente, enquanto as lembranças de um tempo em que nossa amizade era pura e descomplicada inundavam minha mente. Meus olhos vagavam pelo cômodo, buscando algo que pudesse conter a torrente de emoções que ameaçava transbordar.

— Na minha percepção, como seu companheiro, tenho notado que você vem me evitando nos últimos meses, e hoje a situação atingiu um ponto crítico. Sinto que sou o Rony do passado, aquele que escondia seus sentimentos sem a chance de agir. Mas já sou adulto e preciso de respostas. Só... seja honesta comigo, tá bom? — minhas palavras se perdiam entre o medo e a esperança de um desabafo necessário.

Seus olhos castanhos penetraram nos meus com uma intensidade que parecia ler minha alma. Nesse instante, Ron já compreendia a gravidade do que estava por vir. Contudo, o pânico e o receio de admitir que tudo havia acabado – que eu precisava de solidão para me recuperar – me paralisavam. Não é culpa dele se deixei de amá-lo como namorado, nem se perdi o interesse em construir uma família. Eu sabia, com uma clareza dolorosa, que após essa confissão, meu sentimento de culpa ecoaria tão alto que seria capaz de romper a barreira de vidro em que vivemos juntos, onde meus planos, há muito tempo estagnados, se fundem com sonhos que almejava antes da guerra bruxa. É irônico como o caos pode levar tudo, incluindo sonhos profundos. Mas preciso encontrar um novo caminho – um que me traga cura, paz e revigore a energia perdida ao longo desses dois anos perdidos.

Por um breve instante, retornei à consciência da situação, mas a coragem de dizer a verdade ainda me escapava, mesmo sabendo que essa confissão me levaria ao caminho que tanto quero. Levantei-me abruptamente da cadeira, retirando minha mão da dele, e virei-me, quase instintivamente, para o lado oposto, tentando esconder o rosto que se tornava vermelho de vergonha e dor. Tentei proferir algo com minha voz emaranhada, mas as palavras se recusaram a sair.

— N... não...

— Fala, Hermione! — Ron insistiu, levantando-se com urgência e ansiedade. — Sou todo ouvidos.

— Não dá mais, Ron. Precisamos acabar com tudo, com nosso relacionamento... — virei-me para encará-lo, sentindo um aperto insuportável no coração. As lágrimas começaram a escorrer, e eu desabei ao ver o brilho em seus olhos se esvaindo lentamente. — Eu tentei, tentei evitar essa situação constrangedora... Mas o coração não se comanda. Prefiro que acabe agora do que continuar te magoando.

Ron suspirou profundamente, como se um punhal invisível perfurasse seu peito, e a dor parecia quase tangível. Aproximou-se novamente, desta vez com uma cautela que denunciava seu desespero.

— Eu senti... algo dentro de mim me alertando que nosso relacionamento estava esquisito demais, e simplesmente ignorei. Agora, me sinto um tolo.

— Ron, você não é... — tentei interrompê-lo para confortá-lo, mas fui cortada por sua própria voz.

— Não precisa dizer nada. Só espero que isso não interfira na sua amizade com a Gina. Mesmo que você não queira minha companhia, pelo menos apareça para vê-la.

— Nunca a deixaria, você sabe! — respondi num tom estridente, tentando disfarçar o absurdo da situação. — Gina precisa de mim mais do que eu preciso dela, principalmente agora.

— Não faça com ela o que fez comigo. Eu vou arrumar minhas coisas e voltar pra casa da mamãe.

Olhei para Ron, ainda incrédula, tentando compreender o que havia acabado de acontecer entre nós. Talvez ele estivesse se referindo ao que ocorrera há poucos instantes – uma reviravolta inesperada na nossa história. Enquanto o observava, Ron começava a percorrer a casa, recolhendo suas coisas dispersas: meias jogadas, seu velho paletó marrom, um pequeno chapéu redondo, sapatos espalhados pelo chão e outros objetos que pareciam abandonados às pressas. Ele adentrou rapidamente o quarto, e, incapaz de me afastar, eu o segui com passos hesitantes.

— Quer ajuda, Ron? — perguntei, encostando-me discretamente à parede, na esperança de que ele aceitasse minha oferta, mesmo que apenas por um instante.

— Não precisa. Quero fazer isso sozinho; acho que serei mais rápido assim! — respondeu, saindo e entrando do quarto e vasculhando cada canto da casa, coçando a cabeça como se tentasse recuperar alguma memória perdida. Eu o observava, ansiosa, com o coração apertado.

De repente, sua voz rompeu o silêncio: — Achei!

Eu mal podia acreditar. Depois de anos, lá estava ela novamente: a varinha, retirada de uma caixa perdida no fundo do guarda-roupa. No mesmo instante, meu sangue ferveu como óleo, e tudo o que eu desejava agora era ver aquele pedaço de madeira se partir ao meio. Ron apontou a varinha com determinação e lançou seu feitiço, como se fosse a primeira vez, os objetos e a bagunça de Ron começaram a se arrumar sozinhos. Por mais que meus sentimentos gritassem em desespero, implorando para eu surtar, eu sabia que não era mais meu direito interferir em suas escolhas; se ele quisesse voltar a usá-la, bastaria fazê-lo.Não demorei muito para virar as costas e me refugiar em outro cômodo, ainda em prantos. Nunca imaginei que terminar com alguém pudesse ser tão difícil, mesmo quando o amor se extinguiu, e o que restava era o afeto incontestável da amizade. Romper os laços afetivos com um melhor amigo é como ver alguém partir sem sequer se despedir – uma dor que ecoa em cada silêncio. Não me arrependo de ter amado Rony, mas lamento profundamente o que me tornei após aquele ano. Agora, realmente, não me resta nada: estou só, sem Harry, sem Rony. Sou apenas eu, pronta para me redescobrir.

Quando, enfim, ele havia terminado, vi-o partir da cabana, enquanto eu permanecia, abandonada, como uma mala esquecida em uma estação de trem. Assim, começaram meus dias de luto.

Os dias passavam de maneira contínua e monótona: eu trabalhava, voltava para casa, passava horas em frente à TV e permanecia deitada até a noite cair, para que o ciclo se repetisse no dia seguinte. Mesmo sentindo uma vontade intensa de ir ao bar, prometi a mim mesma que não o faria – não quero que Draco interprete meu comportamento como um sinal de concordância com a decisão de voltar para Hogwarts. Levanto-me um pouco melhor, tomo meu café da manhã e me preparo para ir ao museu, tudo de forma automática. O trajeto se repetia: ônibus, alguns minutos de caminhada e, enfim, a chegada ao museu. Dessa vez, a rotina se quebra: uma multidão cercava o museu, e eu me infiltrava, curiosa, entre as pessoas. Conforme me aproximava da entrada, uma sensação estranha me invadia, como se algo inexplicável tivesse acontecido.

— Com licença — pedi gentilmente, mas as pessoas estavam tão absortas em espiar o interior que nem sequer retribuíram a gentileza, o murmúrio da multidão, um zumbido constante, abafava meus pedidos.. Quando, enfim, cheguei a imensa porta de entrada, fui recebida por um dos funcionários: Eliot, com sua expressão preocupada.

— O que está acontecendo aqui? — pergunto, desesperada.

— Hermione, não sei bem como te dizer... Serei direto: ontem à noite, invadiram o museu e destruíram tudo. Só restou um quadro intacto. — Eliot responde, ainda fora de si, incrédulo com a cena.

— Eu preciso ver isso. — Replico, entrando o mais rápido possível.

Ao adentrar, sou imediatamente atingida pelo caos. O museu está completamente destruído: quadros partidos ao meio, estátuas rachadas e quebradas, e algumas esculturas completamente despedaçadas. A desordem é total, como se o tempo tivesse parado em meio à devastação. Caminho lentamente pelo espaço, meus olhos vasculhando cada detalhe do estrago, enquanto um vazio imenso se instala em meu peito. E, como se não bastasse a ruína do lugar, sinto também a perda iminente do meu emprego, como se tudo ao meu redor estivesse desmoronando. Vasculhando mais o local, encontro a obra perdida intacta que Eliot havia mencionado. Conforme me aproximo, começo a reconhecer o quadro, e uma sensação de estranheza faz com que meu corpo se amoleça. Não é nada mais, nada menos do que "O Beijo" — o mesmo quadro que Draco havia admirado dias atrás.

— Não sei como, mas, em meio a tanta destruição, os criminosos conseguiram deixar apenas este quadro intacto. Parece até que um deles nutria um certo apreço pela obra. — Eliot surge, tagarelando enquanto me tira da profunda concentração em que estava imersa.

— Só posso dizer que isso é totalmente estranho. — Não eram apenas essas palavras que ecoavam em minha mente; uma série de pensamentos se agitou dentro de mim, dentre eles, um sinal mágico sutil, quase imperceptível, indicando que eu precisava ir ver Draco Malfoy.

Como parte da equipe, estava ajudando o pessoal da limpeza a ajeitar o estrago quando fui interrompida pelo Sr. Albert, que surgiu completamente irritado, praguejando com toda aquela confusão. Ele me tirou do esforço braçal para conversar:

— Hermione, o que faz aqui? Este trabalho é para os funcionários responsáveis pela limpeza. — Ele esbravejou, com suas rugas e traços faciais proeminentes ressaltando sua irritação.

— Senhor, eu estava apenas ajudando. Não queria ir embora cedo e deixar a catástrofe para trás, como se nada tivesse acontecido.

— Não quero ser rude, mas estou uma pilha de nervos. Garanto que meus funcionários descansem até que o museu volte a funcionar. Se é que isso realmente acontecerá... — Suas expressões mudaram repentinamente; onde antes reinava a raiva, agora se notava uma profunda preocupação.

Eu concordei e deixei algumas palavras de conforto para o Sr. Albert antes de ir embora. No fundo, eu sabia que não havia opção de permanecer ali, e talvez meu verdadeiro anseio não fosse apenas ajudar a arrumar o lugar, mas sim o medo de que aquela fosse a última vez que eu pisaria naquele museu.

O bar não estava aberto, mas, ainda assim, fui imediatamente para lá à procura de Draco Malfoy. Chamei seu nome diversas vezes, minha voz ecoando pelo espaço silencioso enquanto meus olhos percorriam cada canto. Vários homens mal-encarados estavam espalhados por ali, observando-me com curiosidade. No entanto, nenhum deles ousou se aproximar ou dizer algo—talvez porque meu comportamento agitado deixasse claro que eu não estava para brincadeiras. Eu realmente parecia uma maluca. Cansada e com os pés latejando de dor, sentei-me em um tronco de árvore velho e ressecado, que aparentemente era usado como banco. Meus sapatos estavam me matando, apertando meus dedos a cada movimento. Suspirei pesadamente, sentindo uma onda de frustração percorrer meu corpo.

O vento frio da manhã bagunçava meus cabelos, enquanto minha mente fervilhava com pensamentos inquietos. Cruzei os braços sobre o peito, tentando conter a irritação crescente.

"Por Merlin, você disse que estaria aqui me esperando... Que merda, Draco."

Minha mandíbula se contraiu involuntariamente.

Sim, me submeti a passar uma hora inteira ali, imóvel, sem fazer nada além de observar o movimento ao redor e lutar contra a impaciência. A cada minuto que passava, o arrependimento crescia dentro de mim. Eu devia ter ido direto para casa, devia ter ignorado aquele impulso estúpido de procurá-lo.

Quando finalmente aceitei que era inútil esperar, soltei um suspiro pesado e me levantei do tronco ressecado, limpando distraidamente a poeira da calça. Meus pés ainda doíam, minha cabeça latejava, e tudo que eu queria era esquecer essa manhã ridícula.

Foi então que, no momento exato em que me virei para ir embora, me choquei contra algo sólido.

Não, não algo...alguém.

Um corpo firme, quente e estagnado bem na minha frente. Meu coração disparou.