Meu coração disparado e inquieto trouxe consigo um frio no estômago que se espalhou por todo o meu corpo, como uma corrente gélida de antecipação. Respirei fundo, tentando conter a onda de expectativa que me dominava, mas foi inútil. Meus olhos buscaram, ansiosos, o dono da presença que havia me detido de forma tão abrupta. E lá estava ele. Draco Malfoy, em carne e osso.
A iluminação do ambiente realçava sua figura imponente, vestida inteiramente de preto, como se carregasse a própria noite sobre os ombros. Seus cabelos platinados reluziam sob a luz do sol, tão intensos que pareciam feitos de prata líquida, cegando-me novamente por um breve instante. Mas o que mais me prendeu foi seu olhar: esperançoso, atento, como se já soubesse que este momento chegaria.
Um arrepio me percorreu. Eu deveria ter ficado longe. Eu sabia que me arrependeria de ter vindo. Mas, no fundo, não me importava. Não restava mais nada pra mim.
Draco inclinou levemente a cabeça, me estudando com aquela expressão de quem já conhecia todas as respostas. Sua voz cortou o silêncio como uma lâmina afiada, baixa e calculada.
— Por algum motivo, eu sabia que viria me encontrar, mais cedo ou mais tarde.
Minha garganta secou. O peso de sua presença fazia parecer que o ar ao meu redor havia se tornado denso. Ainda assim, encontrei forças para responder, minha voz carregada de ironia e um cansaço que parecia se enraizar em meus ossos.
— Você me esperou todo esse tempo, ou usou magia para me monitorar? —Draco sorriu de canto, um brilho quase perverso dançando em seus olhos.
— Um pouco dos dois.
Ele começou a caminhar com a naturalidade de quem já sabia que eu o seguiria. E ele estava certo. Como se fosse puxada por uma força invisível, meus pés se moveram sozinhos, acompanhando-o. Caminhávamos lado a lado, nossos passos ecoando pela calçada, criando um ritmo inquietante.
A cada segundo, a tensão aumentava, algo não dito pairando no ar como um feitiço prestes a ser lançado. Até que, finalmente, Draco quebrou o silêncio, sua voz soando mais baixa, como um sussurro carregado de segundas intenções.
— Eu vou direto ao ponto. Você pensou sobre aquilo?
A forma como ele pronunciou a última palavra fez um arrepio subir pela minha espinha. Seu tom era sedutor, quase hipnótico, como se ele estivesse me arrastando para um precipício do qual eu já sabia que não conseguiria escapar.
Minha respiração vacilou. Não deveria estar tendo essa conversa com ele. Não deveria nem ter vindo. Mas a verdade era inevitável.
— Eu confesso que pensei sim. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, carregada de incerteza. — Eu não deveria desabafar com você, mas minha vida não tá das melhores.
Draco manteve-se em silêncio, apenas me observando.
Engoli em seco antes de continuar, sentindo como se cada palavra fosse um fragmento do que restava de mim.
— Ron e eu rompemos. Não tem mais nada que me prenda aqui... além de Gina.
Minha confissão pairou entre nós como uma maldição recém-proferida. Draco não reagiu de imediato, apenas observou-me com aqueles olhos cinzentos e impenetráveis, como se pudesse ver dentro da minha alma. E, de algum jeito assustador, eu sabia que ele entendia exatamente o que eu sentia.
Eu estava à beira do abismo. E Draco Malfoy era a única mão estendida na escuridão.
— Terminou com o Weasley? Que sorte a sua! — exclamou Draco com ironia, um sorriso torto se formando em seus lábios. O tom de desprezo em sua voz era quase palpável. Pelo visto, a velha rivalidade com os Weasley ainda queimava dentro dele.
Meus olhos se estreitaram.
— Não fala assim, ele não mereceria. — Minha voz saiu firme, imponente, como uma lâmina tentando cortar a tensão.
Mas, assim que as palavras deixaram minha boca, percebi o quão inútil era esse assunto. Não valia a pena discutir sobre Ron, não aqui, não agora. Afastei a lembrança do que já foi e voltei minha atenção ao que realmente importava.
Dei um passo à frente, reduzindo ainda mais a distância entre mim e Draco, meus olhos fixos nos dele.
— Digamos que eu aceite ajudar Hogwarts... por onde começamos?
O sorriso zombeteiro desapareceu instantaneamente de seu rosto. Sua expressão mudou, tornando-se mais séria, quase sombria. Draco me observou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse escolhendo as palavras com cautela.
Então, finalmente, respondeu:
— Eu não planejei nada além de levar você comigo. Minha missão era apenas essa.
Meu estômago revirou.
Então era isso? Ele me trouxe até aqui sem um plano?
Suspirei, descrente, sentindo um peso maior se instalar sobre meus ombros.
— Fala sério! — murmurei, exasperada, cruzando os braços.
— Na verdade, minha ideia era que você me desse um plano! — Draco diz, desviando o olhar, claramente sem graça.
Encaro-o por um longo momento, sem acreditar no que acabei de ouvir. A irritação começa a subir pelo meu peito como fogo queimando oxigênio.
— Por Merlin, Draco! — solto, passando a mão pelo rosto. — Você realmente não pensou em nada?
Ele abre a boca, mas a fecha de novo, sem resposta. Tentando controlar a onda de frustração que ameaça tomar conta. Olho ao redor, sentindo a urgência da situação se agarrar à minha pele como um frio cortante.
— Certo… — murmuro, estreitando os olhos. — Então vamos pensar em algo antes que seja tarde demais.
O silêncio entre nós ficou ainda mais denso, quase sufocante. Eu não sabia dizer se era a presença de Draco ou algo mais... Algo invisível que se movia nas sombras ao nosso redor, nos observando.
Algo estava errado.
Foi um segundo de atraso, o bastante para que eu percebesse, mas não o suficiente para reagir.
O feitiço veio como um rugido. Uma rajada de energia rasgou o ar, zunindo perto demais do meu rosto antes de explodir contra o solo. Pedaços de pedra voaram em todas as direções, e fui forçada a me jogar para o lado. Meu coração disparou.
Draco já estava com a varinha em punho, seu olhar frio como gelo enquanto avaliava a escuridão em movimento à nossa frente.
— Eu sabia que não estávamos sozinhos — ele murmurou, os ombros tensos, preparados para o combate.
Uma figura encapuzada emergiu das sombras. O capuz obscurecia seu rosto, mas a voz era clara, carregada de escárnio.
— Sempre tão arrogante, Malfoy. Você realmente acha que pode simplesmente voltar e agir como se nada tivesse acontecido?
Meus músculos enrijeceram. Não reconheci a voz, mas o tom deixava claro que Draco e essa pessoa tinham história.
Ele soltou um riso baixo e debochado.
— Ah, então mandaram um cão de guarda para me impedir? Que previsível.
O inimigo não respondeu. Em vez disso, levantou a varinha num movimento rápido.
— Expulso!
A explosão de magia brilhou junto ao sol, vindo direto em nossa direção.
Não pensei. Meu corpo se moveu sozinho. Draco e eu nos jogamos para lados opostos no instante exato em que o feitiço iria nos atingir. Uma luz intensa e prateada brilhou, e então... tudo desapareceu.
O mundo ao nosso redor se desfez.
Por um instante, não havia nada, nenhum som, nenhuma sensação, apenas um vazio absoluto.
E então, a queda começou. Me agarrei firmemente em Draco.
Era como ser puxada por dentro de um turbilhão invisível. O vento gelado rasgava minha pele, e meu estômago revirou quando nossos pés finalmente tocaram algo sólido.
Mas não era o mesmo chão de antes.
Lentamente, ergui o olhar, minha respiração entrecortada. O lugar onde estávamos agora era escuro, sufocante. O ar cheirava a enxofre e magia antiga, carregado de um zumbido baixo que parecia vibrar dentro dos ossos.
Draco e eu estávamos abraçados, rígidos, os olhos varrendo o ambiente com cautela.
— Isso... não era parte do plano — ele murmurou e me lançou um olhar de estranheza, assim que reparou o quanto estávamos próximos.
Eu engoli em seco e me soltei de Draco.
Ao nosso redor, velhas tochas presas às paredes de pedra se acendiam sozinhas, revelando um longo corredor estreito, esculpido em uma rocha escura como obsidiana. Havia marcas antigas gravadas nas paredes. Runas que pareciam se contorcer sob a luz fraca.
E então, o som veio.
Passos.
Lentos, arrastados, ecoando pelo corredor como se algo estivesse se aproximando.
Não sabíamos onde estávamos.
Não sabíamos quem estava vindo.
Mas uma coisa era certa: não estávamos sozinhos.
Aquilo grunhia e respirava pesadamente, cada expiração um ronco úmido que repercutiu pelo corredor estreito. O som de suas passadas era arrastado, irregulares, como se algo grotesco e disforme se aproximasse sem pressa, saboreando o medo no ar.
Draco me puxou com um movimento brusco, seu aperto quente e firme envolvendo meu pulso. Fomos de encontro à frieza áspera de um pilar quadrado, as costas coladas na superfície rugosa enquanto prendíamos a respiração. Meu coração pulsava tão alto que temi que aquilo pudesse ouvir.
Draco me encarava no escuro, os olhos semicerrados, e ergueu um dedo diante dos lábios, um gesto silencioso, mas carregado de urgência. O ar ao nosso redor parecia denso, pesado, como se estivéssemos afundando em um mar de sombras. O grunhido se intensificou, mais próximo. Um cheiro metálico e rançoso se misturou à poeira do corredor.
E então… silêncio.
Mas sabíamos que aquilo ainda estava ali. Apenas esperando. Uma voz assombrosa cortou o silêncio, ecoando pelo corredor como um trovão soterrado em sombras:
—Saiam!
O som não veio apenas de um ponto específico, parecia emanar das paredes, do chão, do próprio ar ao nosso redor. Um frio cortante me abraçou por dentro, um arrepio gelado escorrendo pela minha espinha. Meu corpo enrijeceu, e minha boca se abriu num grito mudo, sufocado pelo terror que queimava minha garganta.
Draco me puxou contra si com força, seu coração batendo tão frenético quanto o meu. O calor de seus braços foi a única âncora contra o pavor crescente.
— Aparatar — ele sussurrou, e a palavra veio como uma prece.
O mundo ao nosso redor se dissolveu. Por um instante, apenas um vazio, um turbilhão de sombras e vento, e então: Estávamos ali, de volta à cidade.
Eu estava em choque. O barulho dos carros, das vozes. Pessoas passavam apressadas, algumas lançando olhares curiosos para nós. Ainda estávamos abraçados no meio da calçada, como se tivéssemos sido cuspidos do próprio inferno para o meio da vida mundana.
Mas o frio ainda grudava na minha pele. O eco daquela voz ainda zumbia em minha mente.
— O que foi tudo isso? — Minha voz sai entrecortada, o ar pesado nos pulmões, como se cada respiração fosse uma luta. Minhas mãos ainda tremem quando me afasto de Draco, os olhos fixos nele, esperando respostas. — Eu perguntei, o que foi tudo isso?!
Ele hesita por um instante, a expressão carregada de urgência e algo mais como...medo? Draco Malfoy, com medo? Isso me assusta mais do que tudo.
— Temos que voltar para Hogwarts imediatamente. Lá estaremos seguros. Aqui, não. — Ele diz, a voz embargada pelo desespero.
Seguro minha testa, tentando organizar os pensamentos. Meu corpo ainda vibra da adrenalina de minutos atrás. Mas uma certeza me atinge:
— Eu tenho que avisar a Gina. Não posso simplesmente partir assim.
Draco me encara, sua mandíbula se tencionando, como se segurasse algo que não queria dizer. No fim, ele apenas suspira, ajeitando a camisa amarrotada.
— Faça o que tem que fazer. — Seus olhos prendem os meus por um segundo a mais. — A noite nos encontramos, Granger.
E então ele puxa um cigarro.
Eu fico parada, perplexa. Draco Malfoy em um vício trouxa? Como, quando, por quê?
— Você fuma agora? — Minha voz sai mais incrédula do que pretendia.
Ele não responde. Apenas acende o cigarro com um estalar dos dedos, tragando como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Ok. Vou estar aqui a noite. — digo, ainda tentando ignorar o que estava presenciando.
Draco assente, soltando uma lufada de fumaça antes de me lançar um último olhar.
— Se cuida.
E então ele se vai, sumindo na multidão.
Fico ali por um instante, os sons da cidade voltando a invadir minha mente, mas sem realmente me atingirem. Algo está errado. Algo está muito, muito errado.
E eu sinto que essa noite mudará tudo.
