Draco me deixou ali, perdida em meus próprios pensamentos. Minha mente girava, tentando processar o que acabara de acontecer. Tudo parecia irreal, como se eu ainda estivesse presa em um pesadelo do qual não conseguia acordar. O peso do desconhecido me envolvia, sufocante.O que foi aquilo?

A última vez que senti um medo tão visceral assim foi durante a guerra bruxa. Aquele pavor cru, paralisante, que faz o sangue gelar e o corpo se recusar a reagir. O que quer que fosse aquela coisa, aquilo… seria umComensal da Morte?

A ideia de ficar ali, parada no meio da cidade, não parecia mais seguro. Eu precisava sair dali. Inspirando fundo, reuni o pouco de foco que ainda tinha e mentalizei, com um esforço desajeitado, aparatei para casa. O deslocamento foi brusco, descoordenado. Me senti sendo puxada por mil direções ao mesmo tempo, até que, de repente:

Plof.

Fui arremessada contra o sofá da sala. Meu corpo caiu pesadamente sobre as almofadas, mas minha mente não acompanhou a chegada. Um segundo de silêncio absoluto, e então... desmoronei. As lágrimas vieram sem aviso prévio. Primeiro contidas, como um nó apertado na garganta, mas logo transbordaram, quentes e desesperadas. Soluços rasgaram minha respiração enquanto eu me encolhia ali, abraçando meu próprio corpo.

O que está acontecendo?E pela primeira vez em muito tempo... me senti sozinha.

Esperei a noite cair.

Eu não podia mandar uma coruja para Gina. Então, uma ideia se acendeu.

Minhas mãos tremiam enquanto percorriam os móveis, tateando até encontrar o cabo familiar da minha varinha, esquecida sobre a estante, coberta por uma fina camada de poeira.Há quanto tempo eu não usava?

Hesitei. Segurá-la agora parecia estranho, como segurar um pedaço de um passado que eu havia tentado deixar para trás. Mas eu não tinha escolha. Com um suspiro pesado, envolvi os dedos em torno da madeira e, com um balançar sutil, conjurei o feitiço. Um puxão invisível me atravessou, e de repente, parte do meu rosto se projetou para fora da realidade, emergindo em meio às roupas de Gina. O cheiro dela, uma mistura de lavanda e pergaminho envelhecido, encheu meus sentidos como se eu estivesse ali. Meu rosto parecia se fundir com o pano, que logo já se tinha uma forma perfeita. Por um segundo, fiquei ali, observando o mundo dela como uma intrusa, meio presente, meio ausente.

Esperei pacientemente, sentindo a tensão corroer cada segundo de espera. O tempo parecia se arrastar, até que finalmente a porta rangeu, e Gina entrou. Assim que a vi, uma onda de alívio e ansiedade se chocou dentro de mim. Meu coração acelerou.

— Gina… — sussurrei seu nome, minha voz mal passando de um fio.

Ela congelou no mesmo instante. Seus olhos se arregalaram, e por um momento, pensei que fosse gritar.

— Hermione?! — Sua voz saiu hesitante, um misto de choque e descrença. Ela se sentou imediatamente.

Eu vi a confusão estampada em seu rosto. Na cabeça dela, eu jamais voltaria a usar magia. Eu também pensava assim. Mas ali estava eu, rompendo todas as certezas que ela tinha sobre mim.

— Eu não tenho muito tempo — falei, minha voz baixa, saindo às pressas. — Preciso te contar o que está acontecendo. Vou retornar para Hogwarts, e você tem que ser a única a saber. Se algo der errado… avise o Ron ou a senhora Weasley.

Gina franziu o cenho, os olhos flamejando com incredulidade.

— O quê? — Sua voz subiu uma oitava. — Você ficou louca? Hermione, você não pode ir sozinha!— Ela deu um passo à frente, como se quisesse me segurar, mas era impossível.

— Você nem sabe o que está acontecendo lá — continuou, agora em um tom mais contido, mas alarmado. — Pode ser muito perigoso!

— Confia em mim. — Minha voz saiu firme, mesmo com o caos dentro de mim. — Eu não vou sozinha. Vou me encontrar com os outros sobreviventes e pensar em um jeito de libertar Hogwarts.

Os olhos de Gina se encheram de lágrimas antes mesmo que ela falasse.

— Hermione… — sua voz falhou, quebrada pela dor. — Você sabe que eu perdi o Harry. Eu não posso te perder também!

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, e algo dentro de mim se partiu. Por um instante, apenas um instante, pensei em desistir. Ficar. Fingir que tudo estava bem. Mas não era isso que eu queria. E, no fundo, Gina sabia disso.

— Eu tenho que ir, Gina. — Engoli em seco, segurando firme minha decisão. — Mas eu vou voltar, eu prometo!

O silêncio entre nós foi quebrado por sua resposta, que veio rápida, voando, como um projétil sem alvo:

— Eu vou com você!

Nem pensar.— Minha voz saiu alta, inegociável. — Preciso que você fique aqui. Não deixe ninguém ir até a cabana. Principalmente o Ron. Ele não pode saber.

Gina apertou os lábios, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— E se eu precisar… peça ajuda. Ok? Faça isso por mim!

Ela suspirou, desapontada, o olhar brilhando com uma mistura de frustração e preocupação. Mas, no fim, concordou.

— Eu juro… — murmurou, seu tom sustentando uma ameaça velada. — Mas se você demorar muito, Hermione, eu vou te procurar.

Seus olhos queimavam em mim como brasas, carregando uma promessa silenciosa.

Fui desintegrando gradualmente, até por fim, meu rosto sumir por completo das dobras de roupa. Gina é forte, leal e corajosa. Sou incapaz de duvidar de sua determinação. Não é à toa que Grifinória seja sua casa.

Às pressas, comecei a arrumar algumas coisas. Peguei a mala e, quase mecanicamente, fui enchendo com algumas roupas, como se cada peça carregasse um pouco da vida que eu estava deixando para trás. Também guardei alguns livros, especialmente os de magia, com suas capas gastas e cheias de marcas do tempo. Por último, a caixinha com o vira-tempo que ganhei de Minerva. É um item importante que não posso me esquecer.

Antes de sair, dei uma última olhada pela casa. Coloquei meu casaco longo, respirei fundo... e parti. Talvez essa seja a última vez que vou viver como uma trouxa. Então, decidi que pegaria o ônibus. Queria aproveitar até o último segundo o que o mundo comum ainda podia me oferecer.

Atravessei a rua rumo ao ponto de ônibus. Os carros, as pessoas, as luzes... tudo parecia um pouco mais lento, um pouco mais distante. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Como se eu estivesse abandonando não só um lugar, mas uma versão inteira de mim mesma.

E, talvez, fosse exatamente isso.

Enquanto esperava pelo ônibus, meus olhos vagaram pelas ruas da cidade. Na calçada oposta, dois moradores de rua remexiam uma lixeira, em busca de algo que pudesse servir como comida. Um deles segurava um pedaço de pão velho com as mãos trêmulas.

Por um momento, senti um aperto no peito.

Quase me esqueci que a vida trouxa não era tão fácil. Aqui, ninguém fazia um prato de comida aparecer com um simples gesto de varinha. A fome era real. A miséria, crua. Foi então que as palavras de Draco ecoaram em minha mente. Suas ideias, que antes soavam como devaneios arrogantes, agora se mostravam… inquietantes. Bruxos são superiores, de fato. Mas, e se a magia pudesse mudar o mundo dos trouxas? E se pudesse acabar com cenas como essa?

A reflexão me pegou de surpresa, como um soco silencioso. Afundei as mãos nos bolsos do casaco, o tecido quente contrastando com o frio que me invadia por dentro. As luzes do ônibus surgiram à distância, banhando a rua com um brilho amarelado. Quando ele parou diante de mim com um rangido suave, respirei fundo. E subi.

Pela janela do ônibus, a cidade passava como um borrão de luzes, sombras e lembranças. As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas, alheias ao peso que eu carregava no peito. A ficha começou a cair ali, entre o ranger dos pneus e o balanço suave do veículo. Eu realmente estava indo em direção à boca do dragão. O que me esperava era perigo, incerteza... talvez até morte.

Mas eu sabia que tinha que fazer isso. Hogwarts precisava voltar a ser segura. Não só por mim, mas por todos que já chamaram aquele lugar de lar. E, às vezes, a coragem vem de onde menos esperamos. Assim como a ajuda. Talvez até... ao lado de quem um dia chamamos de inimigo.

Algum tempo depois, desci do ônibus com uma estranha sensação de leveza no peito. Como se, por um instante, o peso das decisões tivesse se diluído na estrada. Ao longe, avistei o bar. As luzes extravagantes piscavam como uma promessa de normalidade. Pessoas iam e vinham, rindo, conversando, tropeçando nas próprias histórias.

Mas nada de Draco.

Meu olhar vasculhou os rostos na entrada, as sombras nos cantos. Será que algo tinha acontecido? Um aperto desconfortável se formou no fundo do estômago. Ainda assim, decidi entrar. Talvez fosse a minha despedida. Um último gole do meu drink favorito, um brinde silencioso à vida que eu estava prestes a deixar para trás.

Caminhei suavemente até o bar, os saltos do meu sapato ecoando alto no piso de madeira. De cabeça erguida, me sentei ao balcão como se fosse dona daquele momento.

— O de sempre — pedi, com um meio sorriso nostálgico.

E ali fiquei, entre o som da música abafada e as conversas paralelas, esperando por alguém que talvez não viesse...

O garçom me entregou a bebida e, antes que qualquer pensamento confuso pudesse se formar, levei o copo à boca. Desci o líquido de uma vez, sentindo-o queimar garganta abaixo, como lâminas em brasa. Uma energia pesada e amarga escorreu junto com o álcool, se espalhando pelo meu peito feito veneno lento. Foi então que uma mão pálida — branca quase ao ponto da transparência — pousou suavemente no balcão, bem ao meu lado.

Meu olhar a seguiu, desconfiada, e subiu devagar, como em câmera lenta, até encontrar os olhos de quem a comandava.

Draco.

Ele se sentou ao meu lado com a mesma elegância sombria de sempre, pedindo seu drink sem desviar o olhar. Com um meio sorriso torto, carregado de desdém, ele quebrou o silêncio:

— Granger? — sua voz era baixa, quase provocativa.

Me ajeitei no banco, desconfortável. Meus gestos involuntários tentavam, em vão, explicar minha presença ali.

— Não esperava te encontrar... enchendo a cara. — ele continua —Mas vou te acompanhar dessa vez.

— Eu? Hermione Granger, dividindo minha última noitada com nada mais, nada menos que Draco Malfoy. — soltei, encarando meu copo com um meio sorriso amargo. — Faz sentido?

Desviei o olhar para ele, estudando cada traço de seu rosto, como se ainda tentasse entender que diabos estávamos fazendo ali.

— Se alguém me dissesse isso anos atrás, eu teria achado um absurdo. E provavelmente mandado pro quinto dos...

— Já entendi. — interrompi Draco, antes que escutasse um palavrão.

Draco riu com um canto dos lábios, aquele típico riso entre o deboche e a aceitação.

— Os tempos mudaram, Granger. — ele respondeu, pegando seu copo com elegância e dando um gole. — E nós… também.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando o líquido girar no fundo do copo.

É, estávamos ficando velhos mesmo.

Não era só o tempo que havia passado — era o peso dele. As cicatrizes invisíveis, os silêncios carregados, as promessas quebradas e as batalhas que nos moldaram. Draco estava ali, ao meu lado, e por algum motivo, aquilo já não parecia tão absurdo. Só… real. Talvez tudo o que nos restasse agora fosse isso: aceitar o futuro. Mesmo que ele venha envolto em sombras. Mesmo que o caminho de volta a Hogwarts seja um mergulho no desconhecido.

Respirei fundo.

— Então... — murmurei, virando o resto do drink — por onde começamos?