Draco fez uma careta desconfortável, como se estivesse forçando os neurônios até o ponto de combustão. A mão que segurava o copo tremia sutilmente, e seus olhos não desgrudavam do vidro meio quadrado à sua frente.

Devo admitir... eu também não estava no clima para grandes planos.

Tudo o que eu queria era beber, esquecer por uns minutos e, principalmente, reencontrar os sobreviventes da guerra bruxa. Saber quem ainda estava por lá. Quem tinha conseguido resistir. E, mais do que tudo, como. Mas Draco parecia relutante, como se estivesse segurando algo dentro de si. Até que, por fim, soltou com a voz baixa, quase como um aviso:

— Estamos planejando um ataque ao castelo... mas não é pra agora.

Sua pausa foi longa.

— Me enviaram pra encontrar Hermione Granger. A cabeça mais inteligente. — seus olhos, finalmente, encontraram os meus. — E foi só isso que vim fazer.

As palavras dele bateram em mim como uma rajada fria. Senti um peso diferente ali. Uma importância que me fez sentar mais reta no banco. Quem, em sã consciência, estaria me procurando? A ponto de mandar justamente Draco Malfoy atrás de mim?

Meu "ex-inimigo".

O mesmo que um dia quis me ver caída... agora me buscava como peça-chave. E, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar... isso mexeu comigo.

— Por que você? — perguntei, sem conseguir disfarçar a curiosidade... e a desconfiança. — Você é um comensal da morte, Draco. Quase lutou ao lado de Você-Sabe-Quem.

O ar entre nós pareceu pesar.

Draco mudou completamente de expressão. O humor ácido deu lugar a algo mais sombrio... raiva contida, talvez vergonha. Ele apertou o copo com tanta força que o gelo tilintou como sinos de alerta. Por um segundo, achei que ele fosse quebrá-lo.

— Não sou mais um comensal da morte. — disse, com os dentes cerrados. — Posso não ter sido renunciado publicamente, posso não ter dado discurso heróico em praça pública...Mas eu não sou mais um deles.

— Não queria... — tentei me desculpar, mas fui cortada antes que as palavras tomassem forma.

— A marca ainda está em mim. — ele ergueu o braço, como se quisesse mostrar, mas hesitou. Seus olhos agora brilhavam de algo que parecia uma mistura de dor e orgulho ferido. — Um dia, eu vou tirá-la. Pode escrever isso.

Fiquei atenta. Ele fez uma pausa, apoiando os cotovelos no balcão, os olhos fixos em algum ponto invisível à frente.

— Só não pense que isso é fácil pra mim. Eu não queria estar aqui... mas estou. Porque mesmo com toda a merda que já fiz... ainda consigo reconhecer quando algo maior tá acontecendo. E Hogwarts é maior.

Fiquei quieta. Ele não precisava ouvir desculpas — só precisava ser ouvido. Ele virou o restante do drink de uma vez, como se quisesse apagar algo dentro de si.

— Mas e você? — ele soltou, arqueando uma sobrancelha com aquele desdém natural. — O que faz nessa cidadezinha sem graça, vivendo como uma camponesa?

A forma como falou quase me arrancou uma fungada. Rude. Ácido. Tipicamente Draco. Mas eu mantive minha postura, é claro. Não ia dar a ele o gostinho de me ver irritada. Cruzei as pernas, ajeitei o casaco e sorri de canto, com a paciência de quem já ouviu coisa pior.

— Eu abri mão da magia depois da guerra bruxa. — confessei, com a voz um pouco mais baixa. — Prometi a mim mesma que manteria distância. Os Weasley abraçaram minha causa, é claro. Desde então, vivemos como uma família comum.

Draco arqueou uma sobrancelha, debochado:

— Isso não tem nada a ver com você.

Revirei os olhos.

— Não tente me irritar, Draco.

Ele deu um meio sorriso, aquele típico dele, que sempre parece esconder uma provocação.

— Só estou dizendo que você é bem mais do que isso.

— Isso o quê? — perguntei, encarando-o, um pouco irritada.

Ele hesitou. O olhar fugiu por um breve instante antes de voltar ao meu.

— Uma… sangue-ruim. — murmurou, quase engolindo a palavra. — Sei que fui um idiota no passado, peguei pesado com isso, mas… você se mostrou uma bruxa melhor do que muito sangue-puro por aí. Melhor do que eu, inclusive.

— Uau. Isso quase soou sincero. — falei, com um sorriso surpreso nos lábios.

Ele bufou e desviou o olhar.

— Se eu fosse você, não me acostumaria.

Fiquei olhando pra ele por alguns segundos.

Draco Malfoy.

Me elogiando.

A mesma boca que, anos atrás, cuspia veneno e preconceito com naturalidade, agora...

dizia aquilo.

— Você acabou de me chamar de uma bruxa melhor que um sangue puro? — perguntei, tentando esconder o tom sarcástico, mas sem conseguir evitar o sorriso de canto.

Ele virou o rosto, como se não quisesse sustentar o olhar. Sacou um cigarro do bolso.

— Não me faz repetir. — resmungou. — Já foi difícil o suficiente da primeira vez.

Cruzei os braços, inclinando a cabeça.

— Quem diria... Draco Malfoy amadurecendo. Estou genuinamente surpresa.

Ele riu, um riso curto e sem graça enquanto acendia seu cigarro.

— A guerra amadureceu todo mundo, Granger. Uns mais devagar, outros mais forçados... mas ninguém saiu igual.

Por um momento, o bar sumiu. Só existia aquele instante suspenso entre nós dois. E pela primeira vez, em muito tempo, eu não sabia o que dizer. Mas algo estava errado comigo. O som do ambiente começou a ficar abafado, como se o bar estivesse submerso em água. As vozes, os risos, até a música ao fundo… tudo virou um zumbido distante. Eu continuava encarando Draco, mas ele parecia cada vez mais longe, como se houvesse uma névoa entre nós.

Era como se eu estivesse mergulhando em mim mesma — numa memória, ou num pensamento que não era totalmente meu.

"

— Você mudou mesmo. — continuei, minha voz agora mais suave. — Não sei se é a bebida, ou essa luz quente, mas… tem alguma coisa diferente em você.

Ele me encarou, dessa vez sem desviar. Seus olhos, que sempre pareceram frios e calculistas, tinham um brilho estranho agora. Um cansaço bonito. Uma saudade de alguma coisa que talvez ele nunca tenha tido.

— Às vezes eu olho no espelho e também não me reconheço mais. — confessou, com um meio sorriso cansado. — Mas talvez... isso seja bom.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio bom.

Então ele se aproximou levemente, apoiando o braço no encosto da minha cadeira, não de forma invasiva — era quase um reflexo natural. Seu perfume era sutil, mas familiar, como um resquício de algo que eu não sabia que sentiria falta.

"

— Granger? GRANGER? — ouvi a voz dele ao fundo, como um eco distante que aos poucos se aproximava.

Pisquei várias vezes, tentando retomar o foco. O bar voltou aos poucos: luzes, sons, vozes misturadas. A realidade me puxava de volta como uma onda.

Eu havia… imaginado aquilo?

Olhei para Draco, ainda próximo, a expressão preocupada estampada no rosto. Ele estava bem na minha frente, quase tocando meu rosto, tentando me trazer de volta.

— Ei, você tá aí? — perguntou de novo, dando leves tapinhas em minha bochecha.

Senti o calor das mãos dele contra minha pele. Estava perto demais.

Perto demais.

Por Merlin… o que foi aquilo? Uma alucinação? Um lapso? Por que diabos eu imaginei aquele tipo de coisa com o Draco Malfoy?! Meu rosto começou a esquentar e o desconforto tomou conta.

— Sai! O que é isso?! — levantei-me bruscamente do banco, afastando as mãos dele num movimento rápido.

Draco ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha reação.

— Eu só… você ficou pálida de repente. Estava parecendo que ia desmaiar.

— Eu estou bem! — falei rápido demais. E talvez alto demais.

Ele me olhou por um momento, avaliando, como se pudesse ler através de mim.

— Você não parece bem.

Desviei o olhar, ajeitando o cabelo com um gesto nervoso.

— Deve ter sido o drink. Ou o cansaço. Ou... sei lá. Não importa. Estou bem agora.

Mas por dentro? Eu estava longe de estar bem. O que quer que fosse aquilo… não foi só imaginação.

Algo estava causando isso em mim.

— Vamos embora. Você já tá começando a ficar bêbada. — Draco se levantou do banco com um suspiro entediado e seguiu em direção à saída sem olhar para trás... e sem deixar um único centavo pelo drink.

Fiquei olhando, incrédula, o copo totalmente vazio.

Uma senhora apareceu no meio do caminho, empurrando a bolsa como se carregasse um tijolo dentro, me impedindo de segui-lo de imediato.

— Você não tem modos?! — gritei para Draco, me inclinando para o corredor entre as mesas. — Não vai pagar?

Ele parou, virou o rosto por cima do ombro com aquele típico desdém.

— Em que mundo você viveu nos últimos anos pra achar que eu carrego dinheiro trouxa? — respondeu, voltando a andar como se tivesse vencido uma discussão.

Antes que eu pudesse retrucar ou acertá-lo com a bolsa da senhora, ela resmungou, fazendo questão de falar alto o suficiente:

— Uma jovem bonita dessa, aceitando que um rapaz a chame de trouxa? Que barbaridade!

E saiu revirando os olhos, ainda reclamando sozinha. Não sabia se ria de sua ignorância ou berrava mais uma vez para Draco.

Não tive escolha.

Revirei os olhos e voltei até o balcão para pagar a conta. Se isso fosse um encontro — e que Merlin me livre de chamar assim — definitivamente não haveria uma segunda vez.

Com o recibo amassado em mãos e minha mala de rodinhas, cruzei a porta do bar e o encontrei ali, parado como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse me largado deixando a conta para mim. A mão direita enfiada no bolso do casaco, a outra segurando aquele maldito cigarro, tragando como se estivesse no auge de algum momento de glória silenciosa. Caminhei até ele com passos firmes, o som dos meus sapatos contra a calçada quebrando o silêncio da noite.

Parecia que ele havia me notado.

— Podemos ir agora? — falei, interrompendo sua pose teatral.

Ele me lançou um olhar de canto, soltou a fumaça devagar e assentiu, jogando o cigarro no chão e pisando em cima como se estivesse finalizando um capítulo.

— Já estava na hora. — murmurou.

E eu o segui.

Juntos, seguimos até um lugar afastado do bar, uma viela silenciosa e escura, onde as luzes da cidade já não alcançavam com clareza. Não havia ninguém ali. Nenhum movimento, nenhum som além do vento leve balançando folhas secas no chão.

Era o lugar perfeito para aparatar.

Draco parou ao meu lado, observando a escuridão como se buscasse alguma última certeza no silêncio. Virou-se para mim, os olhos sérios, quase sombrios. E, como sempre, foi o primeiro a quebrar o silêncio:

— É isso, Granger. Chegou a hora. Últimas palavras?

Comecei a pensar em tudo de bom que vivi aqui, entre as ruas movimentadas, os rostos desconhecidos e os pequenos instantes de paz que experimentei como uma simples trouxa. Mas nada, absolutamente nada, parecia forte o suficiente para me fazer desistir agora.

Não depois de tudo.

Eu iria reencontrar os amigos que sobreviveram. Iria encarar a dor de frente. E se tudo desse certo... Hogwarts voltaria a ser um lar.

Um verdadeiro lar.

Respirei fundo, o vento frio tocando meu rosto como um aviso do que estava por vir. Olhei para Draco, mas minhas palavras eram para mim mesma, mais do que para ele.

— Vou vingar o Harry... e todos que se sentiram desamparados pelas perdas. — fechei os olhos por um segundo. — Tô disposta a matar a covarde da Hermione Granger que criei... aquela que tentou esquecer quem realmente era.

Quando abri os olhos, Draco já se aproximava. Sem dizer nada, me envolveu com firmeza nos braços e, em um movimento ágil, sacou a varinha. Apertei com força minha mala e fechei os olhos novamente.

Aparatar.

Aquela sensação inconfundível de ser comprimida por todos os lados, como se o ar me engolisse por inteiro, voltou com força. Prendi a respiração, apertei os olhos... e quando os abri novamente, tudo havia mudado. Estávamos diante de uma casa antiga, escondida entre árvores retorcidas e um silêncio sepulcral. A neblina era densa, cortava a escuridão como um véu opaco, e a luz da lua mal conseguia tocar o chão.

A construção parecia abandonada, com tábuas rangendo ao menor toque do vento. Janelas quebradas, uma porta parcialmente aberta balançando levemente, como se algo — ou alguém — já os esperasse lá dentro.

— Onde estamos? — perguntei baixo, sem conseguir esconder o arrepio que percorreu minha espinha.

Draco soltou meus braços devagar, os olhos atentos ao redor.

— Estamos no esconderijo. — respondeu. — Um dos poucos lugares que ninguém ousaria procurar... justamente por parecer amaldiçoado.

Eu engoli seco, encarando a casa.

É claro. Afinal, que lugar seria mais seguro do que um que todos evitam?

Subi o braço da mala com esforço, sentindo o peso não apenas das roupas e livros, mas de tudo o que aquela decisão representava. Draco me acompanhou em silêncio, o olhar atento a cada sombra, como se alguém tivesse nos seguido.

A madeira podre da varanda rangeu sob nossos pés. Cada passo ecoava como um aviso. Com um leve empurrão, Draco abriu a porta que já estava entreaberta. Um rangido longo cortou o silêncio, e o ar frio e mofado da casa nos atingiu de imediato.

O ambiente era escuro, com móveis antigos cobertos por panos empoeirados, como se o tempo tivesse sido interrompido ali dentro. Uma lareira apagada ainda exalava cheiro de cinzas velhas, e quadros tortos e vivos adornavam as paredes, com olhos silenciosos nos observando.

— Fique perto de mim. — Draco sussurrou, os dedos já em sua varinha novamente.

Assenti, engolindo em seco, e puxei a mala comigo pelo chão de tábuas instáveis. Sentia que cada segundo ali dentro nos aproximava mais do que quer que fosse aquele momento — perigoso, incerto e inevitável.

Antes que eu pudesse dar mais dois passos dentro da casa, um estalo seco soou acima de nós.

Passos.

Madeira velha se curvando sob o peso de alguém. Olhei para cima instintivamente, e uma chuva fina de partículas de poeira caiu do teto, invadindo nossos cabelos, nossos olhos. Levei o braço ao rosto para me proteger, sentindo o coração acelerar. Draco se colocou à minha frente num reflexo, a varinha empunhada, pronto para qualquer coisa.

Os passos continuavam, lentos e pesados, ecoando pela escada antiga. A escuridão do andar de cima escondia quase tudo mas, aos poucos, uma silhueta se revelou.

Me esforcei para identificar quem poderia ser...