Com os olhos semicerrados e um frio intermitente subindo pela espinha, encarei aquela silhueta como um animal selvagem prestes a atacar. A cada segundo, as sombras cederam espaço à realidade, e a figura foi ganhando nitidez. Os cabelos longos e loiros caíam como fios de luz sob a penumbra. E um intenso raio de luz a iluminava.

— Hermione? Você veio? — a voz suave, inconfundível, me atravessou como uma rajada de vento quente em pleno inverno.

Luna Lovegood desceu como uma brisa leve, e antes que eu pudesse reagir, já me envolvia num abraço apertado. O som da madeira antiga estalando sob nossos pés pareceu vibrar junto com a emoção daquele reencontro.

— Eu sabia que podia confiar no Draco! — disse ela, com um sorriso largo que contrastava com o ambiente sombrio.

Me afastei um pouco, ainda encantada por vê-la tão viva, tão... Luna.

— Então foi você quem enviou o Draco? — perguntei, meus olhos brilhando com o alívio e a surpresa.

Ela assentiu com a cabeça, seus olhos claros ainda mais iluminados pela chama trêmula da vela que segurava.

— Fui eu sim... sabia que, se alguém ainda conseguiria fazer alguma coisa por nós, seria você, Hermione. — disse com um sorriso leve, quase onírico, mas os traços cansados de seu rosto denunciavam que aquele brilho era apenas uma sombra do que Luna fora um dia.

Draco se aproximou devagar, guardando a varinha, mas ainda atento. Luna o encarou com gratidão sincera.

— Você fez bem, Draco. — ela disse, colocando a mão suavemente em seu ombro. — Mesmo que sua alma ainda esteja cheia de sombras, você decidiu seguir a luz.

Draco desviou o olhar, desconfortável.

— Não fiz por você. Fiz porque me mandaram.

— E mesmo assim, você fez. — Luna retrucou, enigmática como sempre, e então voltou o olhar para mim. — Precisamos conversar. Não aqui. Lá embaixo.

— Lá embaixo? — repeti, olhando ao redor da sala escura.

Luna apontou para uma parede com um simples relógio antigo pendurado. Com um suave aceno de varinha, a madeira rangeu e se moveu, revelando uma passagem secreta. Um túnel escondido.

— É seguro? — perguntei, sentindo um aperto no peito.

Ela apenas sorriu.

— Tão seguro quanto o mundo pode ser agora.

Draco resmungou algo baixo, mas nos seguiu quando Luna começou a descer a escada estreita atrás da passagem. Eu inspirei fundo, puxando minha mala com força, e a segui.

Ali, naquele corredor de pedra úmida, algo em mim despertou. Eu não era mais apenas a bruxa que abandonou a magia um dia. Eu era a nova Hermione Granger. E havia mais uma guerra vindo. Uma guerra se aproximava mas, desta vez, não deixaria rastros de destruição. Ela traria paz. Uma vingança adormecida por dois longos anos, prestes a se concretizar. E agora, não havia espaço para falhas.

Draco, Luna e eu descemos o túnel oculto, envoltos pela penumbra e pelo som abafado de nossos passos. As paredes úmidas estavam tomadas por musgos mágicos, que pulsavam levemente sob a luz tênue das varinhas. Eu os reconhecia: criaturas traiçoeiras, impregnadas de toxinas letais. Qualquer intruso que ousasse passar por ali assistiria, impotente, ao crescimento dos musgos, que inchariam até explodir, liberando um veneno silencioso. A morte, lenta e inevitável.

Eram defesas precisas. Apenas aqueles ligados à casa: moradores, convidados de confiança ou velhos aliados, podiam atravessar em segurança. E nós três, agora unidos por algo maior, fazíamos parte dessa resistência silenciosa.

— De quem foi a ideia dos musgos? — perguntei, ainda impressionada. — São letais, claro, mas a maioria dos bruxos não confiaria tanto assim nesse tipo de proteção.

— Foi minha! — respondeu Luna, com um sorriso sonhador estampado no rosto, tão característico dela. — Esses musgos dão suas vidas para nos proteger. Achei que mereciam mais reconhecimento.

Seu olhar flutuava entre as paredes vivas do túnel, como se enxergasse algo que ninguém mais poderia ver. Draco revirou os olhos sutilmente, mas não disse nada. Talvez até ele estivesse aprendendo a respeitar as excentricidades de Luna.

Continuamos avançando pelo túnel silencioso, mas Luna parecia alheia à tensão ao nosso redor. Era como se ela tivesse o dom de preencher até os cantos mais sombrios com uma pitada de magia e leveza, algo que só ela sabia fazer.

— Draco, quase me esqueci de comentar… Astoria não parava de falar de você. — disse casualmente, como quem conta que viu uma borboleta rara. — Acho que ela está interessada.

Draco tropeçou no próprio passo, engasgando levemente com a saliva, como se tivesse levado uma azaração pelas costas.

— Mas o quê?! — ele tossiu, visivelmente chocado. — Astoria… Greengrass?

Luna apenas assentiu com a cabeça, sorrindo como se estivesse comentando sobre o tempo.

Draco balançou a cabeça, resmungando algo inaudível. Eu observei a cena em silêncio, tentando fingir que aquela informação era irrelevante. Mas não era. Não sei dizer o porquê, só sei que uma pontada incômoda nasceu no fundo do estômago, como se aquela ideia… incomodasse mais do que deveria. A mesma sensação de quando Rony estava namorando com Lilá Brown, a louca da poção do amor.

— Bom… ela sempre teve um gosto questionável — comentei, sem encarar nenhum dos dois. Na realidade, mal a conhecia.

Draco me lançou um olhar de canto, como se tentasse buscar em suas memórias alguma ligação entre Astoria e eu, mas não disse nada.

— Eu acho que vocês fariam um par adorável, na verdade. — Luna continuou, se divertindo com o constrangimento do loiro.

— Luna, pelo amor de Merlin… — Draco murmurou, colocando as mãos nos bolsos e apressando o passo à frente. — Podemos focar na missão antes de arranjar encontros?

Luna deu uma risadinha suave, e eu aproveitei o momento para recuperar a postura. Não era hora para sentimentos confusos. Durante o restante do caminho, permanecemos calados. O silêncio entre nós não era desconfortável, era denso, carregado de pensamentos que ninguém ousava dizer em voz alta. Saímos do túnel e adentramos uma sala iluminada por candelabros flutuantes. As decorações eram antigas, com tapeçarias desbotadas e armaduras mágicas nos cantos, mas tudo estava surpreendentemente bem cuidado, apesar do cheiro leve de poeira e do tempo marcado nas paredes.

No centro do cômodo, uma grande mesa de jantar. E ali, como se estivesse em sua própria casa, estava Neville, devorando um prato enorme de comida, como sempre. O som dos talheres batendo no prato era quase reconfortante.

— Neville? — perguntei, sem esconder minha surpresa.

Ele levantou os olhos com a boca cheia, piscando como se estivesse nos vendo pela primeira vez.

— Hermione! — murmurou com a comida ainda nos dentes. — Achei que não ia vir nunca!

Draco bufou baixo, e Luna soltou uma risada leve. Por um segundo, tudo pareceu simples de novo. Um momento que cabe vivênciar como os velhos tempos.

— Por Merlin, Longbottom. Já disse que vai acabar com toda a comida desse jeito — reclamou Draco, visivelmente irritado ao ver Neville atacando o prato como se não houvesse amanhã.

— Não enche, Malfoy. Já fazemos até demais alimentando você depois de tudo o que fez — retrucou Neville, sem nem levantar os olhos do prato.

Draco cerrou o maxilar, mas não respondeu de imediato.

— Não seja assim, Neville — interveio Luna com a voz doce, sempre tentando apaziguar. — Draco está tentando. Está arrependido, e... nós precisamos uns dos outros agora.

Um silêncio breve se instalou. Até o barulho dos talheres pareceu hesitar. E ali, naquele instante, ficou claro que, apesar das feridas do passado, todos estavam dispostos a seguir em frente. Ou pelo menos, tentando. Neville limpou a boca com o guardanapo, respirou fundo e, finalmente, olhou para mim.

— Então... é verdade? Você vai voltar com a gente pra Hogwarts?

Assenti, ainda absorvendo tudo ao meu redor. A sala, apesar de antiga, exalava uma energia de resistência. Era como se o tempo tivesse parado ali para abrigar aqueles que ainda tinham coragem de lutar.

— Não só vou voltar — respondi com firmeza — como pretendo acabar com isso de uma vez por todas.

Neville assentiu lentamente, respeitoso.

— Estamos reunindo os poucos que restaram. Há alguns no norte, escondidos em aldeias trouxas. Outros se refugiaram em Hogsmeade. Mas muitos ainda têm medo. O que precisamos é de uma faísca... uma liderança.

— E você acha que essa liderança sou eu? — perguntei, surpresa.

— Sempre foi você, Hermione — respondeu Luna, com aquela serenidade que desarmava qualquer dúvida. — Sempre será.

Draco desviou o olhar, como se não quisesse concordar. Mas não disse nada. O silêncio dele era quase uma confirmação.

— Temos um mapa — continuou Neville, se levantando e indo até um armário ao canto. — Um mapa de todos os túneis ainda ativos que ligam ao castelo. Foi deixado por Harry... antes de partir.

Ao ouvir o nome dele, senti meu peito apertar. Harry ainda era a força por trás de tudo, mesmo na ausência. Neville abriu o mapa sobre a mesa. Várias rotas traçadas, algumas riscadas em vermelho, outras circuladas em azul. Uma delas pulsava levemente com um encantamento antigo.

— Esse é o nosso caminho. Amanhã à noite, começamos a investigação.

Todos nos entreolhamos. Era real. Estava acontecendo. A guerra silenciosa ia recomeçar. Mas dessa vez, seríamos nós os caçadores. Neville olhou para o mapa com uma expressão sombria, seus dedos pairando sobre a linha azul que levava diretamente ao coração de Hogwarts.

— E o que querem exatamente lá? — perguntei, ainda com dúvidas. A coragem me impulsionava, mas a cautela permanecia em mim.

— Conhecer — respondeu ele, sem hesitar. — Queremos ver onde o caminho vai dar, se vamos ter acesso à sala do diretor… onde se encontra Você-Sabe-Quem.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Até Luna, sempre tão etérea, pareceu perder um pouco do brilho.

— Ele está lá? — perguntei, quase num sussurro.

— Sim — respondeu Draco, agora com o olhar fixo em mim. — E não está sozinho. Ouvi dizer que a sala foi corrompida, que ele a transformou em algo... vivo. Há rumores de que ela se alimenta de magia.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

— E é por isso que precisamos entrar com cuidado — completou Luna, firme. — Matar essa sala viva, pode ser nossa solução.

— E se conseguirmos — disse Neville, a voz carregada de esperança — Você-Sabe-Quem vai ficar mais fraco do que já está. É aí que agimos.

Pausei aquele momento, permitindo que o silêncio me envolvesse por completo. Precisava processar cada palavra, cada pedaço de informação que tinham acabado de me entregar. Então era isso... Voldemort, mesmo após a guerra, mesmo depois de tudo, ainda encontrara uma forma de permanecer. Uma nova horcrux. Não em um objeto. Mas em um lugar.

— Ele criou uma nova horcrux? — minha voz saiu rouca, quase abafada. — A sala do diretor está viva?

— É o que acreditamos — respondeu Luna, em um tom mais sério do que o habitual. — A energia mágica está tão densa ao redor dela que a própria sala parece respirar. E enquanto essa única horcrux existir, Voldemort também vai existir.

Fechei os olhos por um breve instante. O plano deles parecia simples: infiltrar-se, chegar à sala, destruí-la. Mas era óbvio que não seria assim. Se Voldemort estava fraco demais para se manter em um corpo físico, ele certamente usaria os comensais que ainda restavam para protegê-lo. A sala provavelmente estaria repleta deles. E se era verdade que ela se alimentava de magia, talvez até usasse a nossa contra nós.

— Vai ser uma armadilha — murmurei. — Se ela se alimenta de magia, nenhuma magia entrará, e não vai funcionar. Precisamos de um objeto que mate aquela coisa.

Draco se aproximou, cruzando os braços com uma expressão dura.

— É por isso que você está aqui. Você entende sobre magia melhor do que qualquer um. Se existe uma forma de desfazer isso... você vai encontrar nos seus livros.

Engoli em seco, sentindo o peso da responsabilidade me envolver como uma capa invisível.

— Então é isso. A última batalha não foi há dois anos. Ela começa agora. — falei, e Neville assentiu.

— Podemos não ter todas as respostas, Hermione — ela disse com a doçura de sempre —, mas temos uns aos outros. E isso... pode ser suficiente.

Um rangido forte ecoou pelo teto, interrompendo a conversa e fazendo todos se virarem ao mesmo tempo. O som de passos firmes descia pelas escadas, e o ar pareceu pesar ainda mais. Meu coração disparou, ansioso e curioso. Os musgos não reagiram, quem quer que fosse, tinha permissão para estar ali.

— Alguém está chegando... — murmurou Luna, como se estivesse sentindo a presença antes mesmo de vê-la.

A figura alta e robusta apareceu no topo da escada. O casaco longo balançava com o vento que soprava por alguma fresta da casa. Quando a luz tocou seu rosto, meu mundo parou por alguns segundos.

— Viktor? — soltei num sussurro quase sem voz.

— Hermione. — ele disse, sua expressão se suavizando num sorriso genuíno e nostálgico.

Sem pensar, dei dois passos à frente, surpresa demais para conter o impulso. Ele desceu os últimos degraus e se aproximou, seus olhos intensos varrendo meu rosto como se quisesse decorar cada traço.

— Você está... viva. — ele tocou meu braço de leve, como se precisasse ter certeza de que era real.

Antes que eu pudesse responder, senti o olhar cortante de Draco cravar nas nossas costas. Estava encostado em uma parede, braços cruzados. Ele parecia saber de alguma coisa sobre nós, no passado.

— Como você veio parar aqui? — perguntei, ainda sorrindo, com um brilho de alegria e surpresa nos olhos.

— Eu fiquei sabendo de tudo… e não pude deixar que o mundo perdesse você. — ele disse com firmeza, os olhos fixos nos meus. — Me alistei para ajudar. Mas… — soltou um suspiro leve, seguido de um meio sorriso — acho que não me esperaram.

Draco sacou um cigarro do bolso, quase como um reflexo automático de quem precisa ocupar as mãos quando a cabeça está cheia. Luna, ao notar o gesto, lançou-lhe um olhar severo, daqueles que dizem tudo sem precisar de palavras. Ela não disse nada, talvez por respeito ao momento que eu vivia ali com Viktor, mas sua expressão era clara: "Você prometeu parar com isso."

— Ainda é você quem pode nos salvar, Hermione. Mas não precisa carregar tudo sozinha — disse Viktor, com aquele sotaque inconfundível, os olhos fixos nos meus como se o tempo não tivesse passado.

Draco franziu o cenho. Ele percebeu o olhar, hesitou por um segundo, mas ainda assim levou o cigarro aos lábios, sem acendê-lo de imediato.

— Me perdi em que parte da história onde vocês viraram melhores amigos? — ele comentou num tom ácido, cruzando os braços, encostado na parede mais próxima com um sorriso sarcástico.

Viktor olhou brevemente para ele, mas voltou o olhar para mim, como se Draco não fosse relevante naquele momento.

— Nós nos conhecemos durante o Torneio Tribruxo — respondi, tentando não deixá-lo ignorado. — Foi… uma época complicada, mas ele sempre foi gentil comigo e me mandava cartas nas férias.

Draco arqueou uma sobrancelha. Dessa vez, provocando Luna e acendendo seu cigarro. Neville intacto, apenas observava a tensão do cômodo inteiro.

— Ah, claro. O campeão búlgaro e a garota mais inteligente de Hogwarts. Deve ter sido... inspirador — disse, com ironia.

Luna decidiu por um fim na tensão. Foi então que ela, com o mesmo tom etéreo e distraído de sempre, decidiu soltar a bomba:

— Viktor nos contou que gostava de você naquela época. Parece que o clima romântico anda aparecendo com certa frequência ultimamente...

Draco engasgou, literalmente, com a fumaça do cigarro. O cigarro escorregou de seus dedos e caiu no chão, ainda intacto. Ele se abaixou devagar, apanhou o objeto com um movimento tenso e se encostou na parede, como se tentasse escapar da conversa.

— Sério? Vamos transformar uma missão de vida ou morte num reencontro de amores antigos? — resmungou em voz baixa, mas suficiente para todos ouvirem.

— Eu não vim aqui por amores antigos. Vim porque Hogwarts precisa de ajuda, e meus amigos também.

Draco riu seco, forçando o desdém. Como se debochasse de Viktor.

— Então me agradeça, fui eu quem tirou sua amiga da vida pacata que levava. — disse com a voz firme, lançando um olhar perfurante a Viktor.

O clima ficou denso no instante seguinte. Viktor, antes sereno, deixou transparecer uma mudança sutil. Seus ombros enrijeceram, e ele começou a se aproximar de Draco com passos silenciosos e calculados. Eu instintivamente levei a mão à varinha, em alerta. Um movimento em falso e aquilo poderia virar uma cena que ninguém ali queria assistir.

— Draco Malfoy, não é? — disse Viktor, parando a poucos passos dele, com o rosto sereno, mas a tensão nítida no ar. — Não ouvi coisas muito boas sobre você lá fora. Talvez devesse aprender a ser mais... gentil.

Seu sorriso era cortês, mas seus olhos diziam outra coisa. Antes que Draco pudesse responder, Viktor virou-se com um gesto elegante e foi até a porta dos fundos. Parou ali, com uma mão na maçaneta, e olhou por cima do ombro.

— Preciso descansar. Nos vemos, Hermione.

E então desapareceu no corredor.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer discussão. Neville estava mais disperso que grãos de areia jogadas ao vento.

Virei-me para Draco, desapontada com sua atitude, mas antes que eu dissesse qualquer coisa, Luna surgiu ao meu lado com seu jeitinho doce e sonhador. Sem dizer uma palavra, me puxou gentilmente pela mão e me levou para outro cômodo, como se soubesse exatamente o que eu precisava: um momento longe daquele caos emocional.