O silêncio era tão denso quanto o ar abafado ao redor. O chão da floresta estava coberto por folhas úmidas e raízes retorcidas, cada sombra parecendo esconder mais do que só arbustos. Sakura mantinha os joelhos cravados no chão enquanto arrastava Naruto para perto de uma árvore mais espessa. Ela já havia limpado o suor da testa três vezes, e ainda assim sentia a mão úmida, mas não de calor — de tensão.

Eles estavam escondidos. Pela primeira vez, realmente escondidos. Não se tratava de esperar uma brecha no inimigo, ou de evitar contato visual durante um genjutsu. Era como se estivessem esperando um predador passar — e ela sabia, com cada célula do seu corpo, que era exatamente isso.

Naruto ainda não acordara. Desde que aquele ninja da Grama — não, desde que aquela coisa, que depois se revelou como Orochimaru, o selou — ele estava apagado. Ela verificou seu pulso diversas vezes, e o chakra... bem, ela não era uma especialista em sensoriamento, mas algo parecia estranho. Como se a energia natural do Naruto estivesse lá, mas... abafada. Suprimida. Como se alguém tivesse trancado uma fera dentro de uma jaula e jogado a chave no fundo de um poço.

Sakura fechou os olhos por um segundo, lutando contra o tremor que ameaçava subir por sua espinha.

"Foco," disse a si mesma, apertando o cabo da kunai com mais força do que o necessário. "Você é a única que pode manter os três juntos agora."

Virou-se para Sasuke.

Ele estava encostado contra o tronco, de olhos fechados, mas seu corpo tremia. Pequenos espasmos percorriam os braços e as pernas. O pescoço estava coberto por uma marca escura que se espalhava como raízes corrompidas, latejando lentamente, como se pulsasse junto com sua respiração.

Sakura não sabia o que era aquilo, mas sabia que não era natural. Aquilo estava fazendo algo com ele.

Ela se aproximou, mantendo a kunai em mãos, por reflexo mais do que necessidade. Sabia que Sasuke não era inimigo — não ainda —, mas a sensação que vinha daquela marca... fazia seu estômago se revirar.

— Sasuke... — chamou, baixo, com cuidado. Ele não respondeu.

Sakura hesitou. Sua mente estava a mil. Lembrou das aulas sobre selos amaldiçoados, das histórias que ouvia sussurradas pelos jonin sobre jutsus que corrompiam o corpo e o espírito, e de como apenas ninjas extremamente perigosos — como Orochimaru — se atreveriam a usá-los.

Ela engoliu em seco. Sabia o que aquilo significava.

Ele havia sido marcado. Não apenas fisicamente — havia algo em Sasuke que parecia... quebrado.

"Não," ela pensou. "Ele não está quebrado. Ele ainda está lutando."

Sakura se ajoelhou diante dele e, com as mãos trêmulas, tocou de leve o braço do companheiro de equipe.

— Sasuke, me escuta... você precisa lutar contra isso. Seja lá o que ele fez com você... você ainda é você, entende?

Ele abriu os olhos lentamente. Estavam vermelhos — o Sharingan ativado. Mas não estavam como antes. Agora, eles pareciam... fundos. Como se tivessem mergulhado em algo escuro demais para sair ileso.

— Sakura...? — murmurou ele, rouco. Ela assentiu, aliviada por vê-lo consciente.

— Você está seguro, por agora. Eu trouxe você e o Naruto pra cá. Estamos escondidos, por enquanto.

Ele tentou se erguer, mas cambaleou. Ela foi rápida em segurar seus ombros.

— Fica quieto! Você mal consegue manter os olhos abertos! — disse ela, a voz carregada de autoridade, mas os olhos brilhando de preocupação.

Ele riu, fraco.

— Acha que um selinho desses vai me derrubar?

Sakura não respondeu. Não podia. Ela sabia que aquilo era só bravata, o orgulho do Sasuke falando por ele. Mas a verdade era que ele estava pálido, os músculos enrijecidos, e o chakra ao redor da marca parecia instável, como se algo dentro dele estivesse prestes a despertar — ou pior, a tomar controle.

Ela se virou um pouco, olhando para Naruto ainda desacordado, e depois de volta para Sasuke. Pela primeira vez, sentiu um tipo diferente de medo. Não era o medo do inimigo ou da morte. Era o medo de perder os dois. De não ser forte o suficiente para protegê-los.

Mas ela não deixaria isso acontecer.

Sakura respirou fundo, firme, e então falou, desta vez olhando direto nos olhos de Sasuke:

— Escuta... talvez eu não seja a mais forte do time. Talvez nem tenha as habilidades que vocês dois têm... Mas eu não vou deixar nada acontecer com vocês. Nem com você, nem com o Naruto. Eu prometo.

Houve um momento de silêncio entre eles. Sasuke pareceu hesitar, como se quisesse dizer algo, mas ao invés disso apenas fechou os olhos novamente, tentando conter a dor.

Sakura se virou de volta, de costas para os dois. Estava em guarda. Os olhos atentos, os ouvidos atentos ao mínimo farfalhar nas folhas.

Sozinha, mantendo vigília.

Durona, porque precisava ser. Porque não havia mais ninguém.

Mas por dentro...

Por dentro, seu peito doía.

Doía de medo.

De impotência.

E de amor.

Porque ela sabia: esse exame era só o começo de algo muito maior. E se quisesse continuar ao lado deles... ela teria que crescer. Muito.

Sakura estava imóvel.

O tempo parecia desacelerar enquanto ela mantinha os olhos fixos no matagal à frente. As folhas farfalhavam com o vento, mas havia algo errado naquele som. Não era só a brisa balançando as copas das árvores — havia um peso, uma cadência nas pisadas que ecoavam por entre as raízes e os galhos partidos.

Alguém — não, alguns — se aproximavam.

Ela apertou a kunai na mão. Sua respiração era contida, medida. O coração disparava, mas seu rosto não demonstrava hesitação. Era uma kunoichi em guarda. Era a linha de frente.

E atrás dela, os dois garotos que mais importavam naquele mundo: um desacordado, o outro em conflito com um selo sombrio que pulsava devagar como o tique-taque de um relógio prestes a explodir.

"Eu preciso manter a calma. Pensar. Observar. Reagir."

Então, vieram as vozes.

— É aqui. — uma voz grave, levemente anasalada.

— Hmph... os rastros acabam nesse ponto. Devem estar escondidos.

— Vamos encontrá-los. Eles têm um dos pergaminhos.

Sakura arregalou os olhos por um breve instante. Eles estavam atrás do pergaminho... e sabiam exatamente onde procurar.

Ela se abaixou, os joelhos afundando na terra. O manto do mato cobria bem a entrada da caverna improvisada, uma formação de raízes e pedras que mal dava para os três se abrigarem. Mas eles sabiam. Aqueles ninjas sabiam.

"Três vozes. Provavelmente uma equipe."

Os passos estavam perto.

Ela deslizou para mais perto de Sasuke e sussurrou, sem olhar para ele:

— Sasuke... se você estiver ouvindo... por favor, se prepara. Mas não se move ainda. Eu cuido disso.

Não houve resposta.

Mas ela queria acreditar que ele havia escutado.

O primeiro deles apareceu entre as folhagens, empurrando galhos com o antebraço. Cabelos grisalhos espetados, olhos fundos e uma bandana com o símbolo de uma nota musical atravessado por um corte — Otogakure.

Sakura prendeu a respiração.

O segundo surgiu logo atrás, mais alto, corpo coberto por faixas que escondiam até o rosto, exceto os olhos afiados. Já o terceiro tinha uma aparência mais desleixada, cabelos escorridos e uma boca coberta por um aparato estranho de som acoplado na mandíbula.

Eles pararam a poucos metros do esconderijo.

— Estão aqui. — disse o primeiro. — Eu senti um fluxo estranho de chakra. Um muito poderoso... e outro instável.

O que tinha o aparelho na boca riu de leve. Um som agudo escapou de seu dispositivo, como um zumbido metálico.

— Você acha que é o Uchiha? — disse ele, virando a cabeça. — Dizem que ele é especial. Orochimaru-sama está de olho nele.

Sakura sentiu um calafrio.

"Eles estão com aquele cara. Orochimaru."

A garganta secou. Por dentro, o terror se contorcia como cobras. Mas ela manteve o olhar firme. As mãos apertaram o chão para ganhar impulso. A kunai estava pronta.

O primeiro passo esmagando galhos a poucos metros do esconderijo.

Eles iam achar.

Ela teria que sair. Teria que enfrentar.

O corpo inteiro gritava para fugir, mas ela se manteve de pé.

Se ergueu em um só movimento.

Ficou diante deles, com o tronco firme, a kunai à frente, as pernas firmes na terra batida.

— Não deem mais um passo. — disse ela, a voz clara, determinada. — Eu não vou deixar vocês chegarem perto deles.

Os três pararam, surpresos por um momento.

Depois riram.

— Uma menininha tentando proteger seus amiguinhos? — debochou o de cabelo escorrido. — Que doce.

O de faixas foi mais direto: avançou.

Sakura reagiu.

Ela saltou para trás, desviando por pouco do braço estendido dele. Rolou no chão e cravou a kunai em sua perna no contra-ataque. Mas a lâmina foi parada por um som estrondoso — o som de vibração, vindo do outro.

Seu corpo foi arremessado com a força da onda sonora. Colidiu contra uma árvore, o tronco duro arrancando o ar de seus pulmões.

Mas ela se levantou. Rápido. Mais rápido do que eles esperavam.

Cuspiu sangue. Encarou.

— Eu disse que não vou deixar vocês tocarem neles!

Os inimigos hesitaram por um segundo. Ela estava machucada, claramente inferior em força... mas havia algo no olhar dela. Algo quase... selvagem.

Era determinação.

Era amor.

Era raiva.

Ela estava pronta para morrer ali. Por eles.

Sakura segurava a dor como uma velha conhecida. O impacto contra a árvore tinha deixado um zumbido em seus ouvidos, o corpo todo gritava por descanso. Mas ela se manteve de pé. Com as mãos firmes, controlando o tremor sutil nos dedos, ela puxou outra kunai do bolso lateral.

Seu olhar saltava de um inimigo para outro. Três. Três contra uma.

E nenhum deles parecia estar brincando.

O que usava o dispositivo de som deu um passo à frente.

— Você devia ter ficado escondida. Ia ser menos doloroso.

Ele apertou algo na lateral do colar, e um som cortante — quase como o guincho de metal arranhando vidro — se espalhou no ar.

Sakura recuou instintivamente e pressionou a palma contra o solo.

"A frequência... está mexendo com o solo."

Ela lembrou do que Kakashi havia ensinado. "O som é uma onda. Em um solo instável, pode alterar o equilíbrio de um ninja com facilidade."

Ela fechou os olhos por um instante e ativou seu instinto analítico. Sentia a vibração sutil nos pés. A técnica de som não era só para atordoar... ela se espalhava em ondas, buscando desestabilizá-la antes de atacar diretamente.

Mas ela não ia cair nesse truque.

Sakura concentrou chakra nas solas dos pés, o suficiente para ancorar seu corpo ao chão, como Kakashi havia ensinado em exercícios de escalada. O zumbido aumentou... mas ela permaneceu firme.

Surpreso, o inimigo vacilou.

— Que droga...?

"Agora!"

Ela lançou uma kunai na direção dele. Ele desviou com facilidade — mas a kunai não era o objetivo.

No ar, a lâmina colidiu contra um fio de aço que Sakura havia estendido antes, disfarçado entre galhos caídos e folhas. O disparo fez o fio vibrar e puxar um selo explosivo que ela havia preparado e preso em silêncio, segundos antes do confronto.

A explosão foi pequena, mas direcionada.

O som foi abafado pela cortina de fumaça. E então, por um segundo, ela sumiu da visão dos três.

A mesma Sakura que antes parecia lutar apenas por desespero, agora se movia com precisão.

Ela apareceu por trás do inimigo envolto em faixas e acertou um golpe certeiro no ponto de pressão do ombro. Ele recuou, rosnando, mas ela já tinha se afastado.

Foi atingida no braço logo depois — um corte feito por uma shuriken vinda do terceiro oponente.

Ela caiu de lado, mas rolou com o corpo para minimizar o impacto. O sangue escorria, mas não impedia sua movimentação.

Ela pensava rápido

Sakura se manteve firme, ainda à frente dos corpos dos companheiros. O suor escorria pelas têmporas, os músculos tensos, cada respiração medida com precisão. Ela sentia o fluxo de chakra em seu corpo, conduzido com foco para os braços e pernas, preparando-se para qualquer movimento explosivo.

Dos três inimigos, o mais alto — Zaku, se lembrava vagamente de ouvir o nome — avançou primeiro, confiante, um sorriso arrogante nos lábios.

— Acha mesmo que vai conseguir segurar a gente? — zombou. — Que piada.

Ela não respondeu. O foco estava em seus passos, no ritmo da aproximação, no deslocamento de ar que ele provocava. Sentia o chakra pulsando de forma irregular nos braços do inimigo. Havia algo estranho ali — um acúmulo denso, quase pressurizado.

"Provavelmente canaliza chakra pelos braços. Talvez alguma técnica de impulso…"

Zaku ergueu os braços e lançou uma rajada de ar comprimido. A explosão atingiu o chão, levantando poeira e estilhaços, forçando Sakura a saltar para o lado.

Ela aterrissou com os dois pés cravados no solo, amortecendo o impacto com as pernas fortalecidas. No instante seguinte, impulsionou-se direto na direção dele. Zaku tentou um novo disparo, mas ela já estava em seu ponto cego.

"Agora."

Com um movimento rápido e preciso, atingiu o lado da costela com o punho carregado de chakra, em um dos pontos vitais que havia memorizado em seus estudos médicos. O ar escapou dos pulmões dele em um jorro, e o corpo de Zaku cambaleou. Sem dar tempo para reação, ela girou o corpo e desferiu uma cotovelada no maxilar, lançando-o de costas no chão.

Dos galhos acima, Kin arregalou os olhos.

— Zaku?!

O terceiro ninja, Dosu, desceu silenciosamente, como uma sombra. Seu braço estava envolto por um aparato estranho, em espiral, como um amplificador. Sakura percebeu tarde demais o movimento sutil — um leve zunido cortando o ar.

"Som…"

A explosão sonora atingiu-a antes que pudesse se defender. O mundo girou violentamente. Um apito agudo e incessante tomou seus ouvidos, e o chão pareceu desaparecer sob seus pés.

Ela caiu de joelhos, os sentidos embaralhados. Seus olhos tentavam focar, mas tudo parecia tremeluzir.

— Tsc. — Dosu caminhava lentamente em sua direção. — Você foi rápida. Mais do que esperávamos. Mas não tem como escapar do som.

A cada passo dele, o chakra de Sakura captava a vibração que oscilava ao redor. Era como uma segunda pele que ele usava, que ressoava junto aos movimentos, canalizando ondas até o alvo.

"Som ressonante… microvibrações… ele está amplificando o som diretamente nos nervos…"

Ela apertou os punhos com força.

"Não posso falhar aqui. Não posso deixá-los pegar o Sasuke… nem o Naruto."

O sangue escorria de um ouvido, mas ela respirou fundo, tentando lembrar cada detalhe da técnica que havia estudado com tanto afinco. Sua mente — ainda que sob o efeito do golpe — traçava uma estratégia.

Ela desviou o chakra para a sola dos pés, equilibrando-se no solo instável. Seu controle de chakra, minuciosamente treinado, era sua maior arma agora. Sabia que os ninjas do som confiavam demais em suas vantagens, e que uma única brecha bastava.

Dosu avançou para o golpe final.

Mas Sakura se lançou ao encontro dele.

— Vai morrer! — ele gritou, preparando o impacto sonoro.

Ela rodopiou no ar, impulsionada pelo chakra acumulado nos quadris e nas panturrilhas. No instante exato em que a onda de som foi disparada, ela saltou acima do alcance do braço dele e aterrissou atrás, deslizando de joelhos pelo chão.

Com um movimento certeiro, cravou a palma reforçada com chakra na base do pescoço do inimigo, atingindo um ponto nervoso que causava paralisia momentânea. Ele tentou reagir, mas caiu como uma marionete cortada.

Kin recuou dois passos no galho onde estava.

Sakura estava arfando, os olhos semicerrados, mas firme.

Ela olhou de relance para Naruto e Sasuke ainda caídos atrás de si. A respiração estava descompassada, os membros latejavam. Mas não cederia.

— Pode descer… — ela disse, encarando Kin. — Ou eu vou subir aí.

A voz saiu rouca. Mas inabalável.

Kin hesitou.

Mas o embate ainda não havia acabado.

E Sakura, mesmo sozinha, mesmo ferida, não deixaria que nada os tocasse.

O silêncio era espesso na clareira onde tudo acontecia. Dosu jazia inconsciente, ao lado de Zaku, e Kin os observava com uma expressão que oscilava entre o choque e a incredulidade.

Sakura mal conseguia manter a postura ereta, mas os olhos seguiam atentos, focados. O chakra ainda circulava por seus membros, sustentando a força em seus músculos, controlado com precisão cirúrgica. As palmas das mãos ainda vibravam com o resquício dos golpes anteriores.

Kin desceu finalmente, os pés tocando o solo com leveza. O sino em seu cabelo tilintou — suave, quase sutil.

— Você… realmente derrotou os dois? — murmurou ela, desconcertada. — Achei que fosse só mais uma genin qualquer. A "protegida" do Uchiha.

Sakura não respondeu. Seus olhos permaneceram fixos, lendo cada movimento da oponente, sentindo o chakra dela vibrando com intensidade. Estava nervosa, mas não imprudente. O chakra de Kin tinha um ritmo delicado, pulsando levemente ao redor da cabeça. "Habilidade sonora. Os sinos… são armas."

Kin levou a mão ao cabelo e retirou um dos sinos presos a um fio metálico. Ela girou o braço com agilidade, lançando o pequeno objeto em direção ao chão à frente de Sakura. O sino tocou o solo, e o som que reverberou logo depois não era natural. Não era apenas audição — era sensação. Um zumbido agudo, reverberando direto na mente.

O corpo de Sakura congelou por um segundo.

Genjutsu sonoro.

Mas ela já estava preparada.

Concentrando-se, ela estancou o chakra nos pés, liberando uma onda curta e controlada pelo tenketsu da base da nuca. A quebra do fluxo bastava para interromper o padrão do genjutsu. O mundo estremeceu por um segundo… e então voltou ao normal.

— Tsc… esperta — Kin rangeu os dentes. — Mas quanto mais resistir, mais vai sofrer.

Ela lançou outro sino, dessa vez mirando uma árvore ao lado de Sakura. O tilintar foi diferente — mais grave, mais profundo. Um novo padrão de genjutsu, provavelmente com efeito ilusório visual.

Sakura cerrou os punhos. Não podia deixar que o som se acumulasse.

"Preciso neutralizá-la de uma vez."

Avançou. O chão cedeu sob os pés enquanto ela liberava chakra nos calcanhares para propulsionar-se, como um míssil humano. Kin tentou recuar, mas a distância já havia sido encurtada.

Sakura deslizou por baixo da tentativa de fio cortante e girou o corpo em uma volta baixa, aplicando um chute no tendão da perna direita da inimiga, atingindo com precisão o ponto que enfraqueceria o apoio. Kin gritou e caiu de lado.

Antes que ela pudesse se erguer, Sakura já estava sobre ela, e com a palma aberta, aplicou um golpe direto na lateral do pescoço — um ponto nervoso estudado para desmaio imediato.

O corpo de Kin caiu, inerte.

Sakura permaneceu ajoelhada por alguns segundos. A respiração era irregular. As mãos tremiam. As pernas estavam trêmulas do excesso de esforço, e o chakra… ela já havia usado muito.

Mas tinha vencido.

— Acabou — murmurou, finalmente. — Acabou por agora.

Ela se virou com dificuldade, caminhando até Naruto, que ainda permanecia desacordado. Seus olhos pousaram depois sobre Sasuke. Ele também ainda não despertara, mas seu corpo parecia febril. As veias próximas ao pescoço pulsavam com uma energia estranha — escura, quente, viva.

Sakura franziu a testa, aproximando-se.

— O que está acontecendo com você…?

Encostou os dedos suavemente no braço dele. O chakra que sentiu era como algo corroído, instável. Pulsava como um segundo coração batendo dentro do selo. Ela não sabia o que era aquilo — apenas que era perigoso.

Com esforço, arrastou os dois para um local mais seguro, atrás de algumas raízes largas de uma árvore imensa. Arrumou Naruto de um lado e Sasuke do outro, tentando estabilizá-los com os recursos que tinha.

"Se mais alguém aparecer agora… eu não consigo lutar mais. Mas… pelo menos, eles estão vivos. E eu também."

Ela se sentou entre eles, as costas apoiadas na raiz, os olhos semicerrados.

"Eu protegi eles. Sozinha."

Houve um instante de silêncio. Nenhum som além do vento entre as folhas e o tilintar distante de algum animal da floresta.

E então, lágrimas escorreram sem aviso. Não de fraqueza. Não de medo.

Mas de alívio. E da dor de ter resistido até o fim.

Ela as enxugou com raiva.

— Eu não sou fraca — sussurrou.

O ar ao redor ficou denso.

Sakura, mesmo com os olhos semicerrados pela exaustão, sentiu primeiro o chakra. Um fluxo estranho, distorcido, como se fosse engolido e expelido pelo mesmo ponto. Ela ergueu o rosto devagar, o coração apertando no peito.

Sasuke tremia.

Seus dedos se contraíam devagar, e gotas de suor escorriam pela têmpora. A expressão dele estava crispada — dor, confusão, agonia. E então, como se um estalo partisse o mundo em dois, ele abriu os olhos.

Eram olhos normais.

Mas só por um segundo.

As íris escureceram, e um padrão negro começou a se espalhar por seu pescoço, como marcas vivas, flamejantes. Começaram da base do ombro e se estenderam lentamente pelo pescoço, subindo até parte do rosto, como se serpentes de tinta deslizassem sob a pele.

Sakura congelou.

— Sasuke…?

Ele arqueou o corpo, arfando. A respiração saía em espasmos, como se lutasse contra algo que queimava por dentro.

Sakura se ajoelhou perto dele, as mãos hesitantes.

— Sasuke, sou eu! Sakura!

Mas ele não respondia. Os olhos estavam arregalados, e a aura ao redor dele vibrava como uma chama invisível. Ela estendeu a mão, mas o toque a fez recuar — o chakra era abrasador. Era como tocar algo corrompido.

"Isso… isso é chakra? Mas não é normal. Está vivo. Selvagem."

Sasuke deu um grito seco. As marcas da maldição se alastraram de vez, cobrindo metade do rosto e boa parte do braço esquerdo. Ele caiu de lado, ofegante, mas os olhos… agora brilhavam com algo mais.

Não era só o Sharingan.

Era algo mais sombrio.

— O que… é isso? — Sakura sussurrou, assustada, mas tentando não mostrar.

Ela respirou fundo. Precisava manter o controle. Precisava pensar como uma ninja. Como alguém capaz de proteger os outros, mesmo que estivesse morrendo de medo.

Olhou de novo para Sasuke.

Ele começava a se levantar.

Lento. Pesado. Mas com um olhar que ela nunca tinha visto nele antes.

— Sasuke…?

Ele se virou para ela — e seus olhos pareciam não reconhecê-la por um breve instante. Mas então… ele piscou. A respiração ficou mais regular. As marcas da maldição pulsaram, e pareciam começar a retroceder.

— …Sakura?

— Sim, sou eu! — disse ela rapidamente, aliviada. — Você tá bem? Você… essas marcas no seu corpo… o que é isso?

Sasuke levou a mão ao ombro, tateando onde o selo fora colocado. Ele fechou os olhos por um segundo, como se tentasse lembrar.

— A ninja da Grama… ela me mordeu.

Sakura prendeu a respiração.

— Mordeu?

— Deixou algo. Um selo. Depois… tudo ficou escuro.

Ele se encostou à raiz da árvore e olhou ao redor.

— Onde estão eles? — murmurou.

— Eu… eu derrotei eles — disse Sakura, baixinho, quase como se não acreditasse ainda.

Sasuke virou o rosto devagar, os olhos estreitos.

— Você… derrotou os três?

Ela assentiu com a cabeça.

— Não deixei ninguém tocar em você. Nem no Naruto. Eles vieram atrás dos nossos pergaminhos… mas eu não deixei.

Ele olhou pra ela mais um tempo. Silêncio.

Então, disse apenas:

— Obrigado.

Foi seco. Quase frio.

Mas verdadeiro.

Sakura engoliu em seco. Seus olhos ainda estavam um pouco molhados. A tensão ainda não tinha sumido completamente do corpo.

— Você tava se contorcendo no chão, como se estivesse queimando vivo — disse ela, tentando manter a voz firme. — Eu achei que você ia morrer. Eu achei que…

Parou.

Sasuke olhou pra ela de novo. Um olhar mais humano agora. Cansado. Confuso.

— Eu também achei.

O silêncio caiu entre os dois por um instante. O som da floresta parecia mais calmo agora. Naruto ainda dormia pesadamente ao lado deles.

Sakura se aproximou mais de Sasuke, sem dizer nada, apenas ficando ali. Ela ainda não conseguia entender o que estava acontecendo, mas sabia que algo tinha mudado. Dentro dele. Dentro dela.

Eles não eram mais os mesmos.

E, no fundo… esse exame também não era.

Era algo muito maior.

Muito mais perigoso.

Muito mais real.

A clareira onde o Time 7 se refugiava era silenciosa, envolta pelo som constante das folhas se mexendo com o vento e o ocasional canto abafado de algum pássaro distante. Naruto ainda estava deitado, respirando com alguma dificuldade, mas vivo. Sasuke permanecia sentado, os olhos semicerrados, como se lutasse contra o peso do próprio corpo.

Sakura estava de pé.

Ela não conseguia parar.

Mesmo com os braços arranhados, a roupa rasgada em alguns pontos e os músculos pesando como chumbo, ela se mantinha em guarda. O sol mal ultrapassava as copas espessas das árvores, e a luz filtrada fazia o local parecer um santuário escondido — um pequeno momento de paz em meio ao caos da Floresta da Morte.

Mas ela sabia que não duraria.

Aquele era apenas o primeiro dia.

Sakura se aproximou de Sasuke, ajoelhando-se ao lado dele.

— Sua respiração tá mais estável. Mas ainda não força nada, entendeu?

Sasuke apenas assentiu com um movimento lento da cabeça.

— E o Naruto? — perguntou ele.

— Está bem. O chakra dele foi selado… mas ele é mais resistente do que parece.

Ela parou por um instante. Depois, encarou os dois deitado lado a lado.

Dois dos ninjas mais fortes da geração dela.

E agora… era ela quem precisava segurá-los.

Sakura se levantou de novo, com um ar resoluto. Checou rapidamente o estado das bolsas de equipamentos, contando kunais, selos explosivos e os dois pergaminhos. O do céu ainda estava com eles — o que faltava era o da terra.

Ela suspirou fundo.

Não podiam esperar por ajuda. Não havia tempo.

Se quisessem sair da floresta, alguém teria que agir.

— Sasuke… Naruto… fiquem aqui. Se alguém se aproximar, eu deixei armadilhas. Eu vou conseguir o outro pergaminho.

Sasuke franziu o cenho.

— Sozinha?

Ela o olhou com determinação nos olhos.

— Eu sou a única que pode agora. E a gente não vai falhar nesse exame. Você me ouviu, Sasuke?

Sasuke permaneceu em silêncio por um tempo, observando-a com atenção. Então, finalmente, assentiu.

— Se for, volta viva.

Sakura apenas deu um pequeno sorriso.

— Pretendo voltar com muito mais do que só vida.

Ela se virou, ativando de imediato sua percepção sensorial. Fechou os olhos e se concentrou, canalizando chakra aos poucos pelos canais que cruzavam seu sistema nervoso. Cada batimento, cada vibração ao redor da área… ela sentia os ecos do chakra na floresta. Alguns eram distantes e fracos. Outros, próximos e erráticos.

Três presenças ao norte. Movimento leve. Provavelmente uma equipe cansada. Uma oportunidade.

Ela saltou entre os galhos com precisão. Os músculos das pernas e braços estavam reforçados com chakra, minimizando o impacto dos saltos e permitindo que ela se movimentasse quase sem fazer barulho. Era uma dança entre o treinamento e o instinto.

Foco, Sakura. Você não pode errar agora.

Chegando a um ponto estratégico, ela se escondeu sob o manto das folhas, observando.

Era um time da Vila da Névoa.

Dois deles claramente estavam cansados, e o terceiro mantinha guarda com uma kunai em punho. Estavam comendo, relaxando a guarda. Um dos pergaminhos estava ao lado de uma das mochilas, parcialmente à mostra.

Ela franziu o cenho. Arriscado demais atacar os três juntos.

Sakura respirou fundo. Estudou cada um. Lembrou-se dos pontos vitais, das áreas mais vulneráveis e de como movimentar-se com o mínimo de ruído. Canalizou chakra sutilmente para os membros, reforçando os tendões, as articulações. Cada movimento seria calculado, preciso, sem desperdício.

Desceu como uma sombra.

O primeiro a cair foi o sentinela. Um golpe seco na lateral do pescoço o deixou inconsciente. Antes que os outros dois pudessem entender o que estava acontecendo, ela já estava em movimento. Um salto, um giro preciso, e a palma aberta foi ao encontro da parte de trás do joelho do segundo — um ponto vital que, ao ser atingido com força controlada, derrubou o genin sem chance de reagir.

O terceiro tentou reagir, mas Sakura já estava sobre ele.

Um soco com chakra concentrado no ombro o jogou de lado, cortando o fluxo de chakra temporariamente. Não era superforça. Era ciência, precisão e controle absoluto.

Em segundos, ela tinha o pergaminho da terra nas mãos.

Respirou fundo.

Dois golpes limpos. Um sem sequer perceber o que houve. Não matei nenhum… mas deixei claro que não deveriam ter deixado a guarda baixa.

Ela desapareceu entre os galhos, voltando com agilidade para o acampamento.

De volta à clareira, ela se aproximou dos dois.

Naruto começava a abrir os olhos, resmungando algo sobre "ramen". Sasuke estava mais alerta agora, erguendo o olhar quando ela se aproximou.

Sakura caiu de joelhos, ofegante, mas com um sorriso pequeno e determinado.

— Peguei.

Ela levantou o pergaminho diante dos dois.

— Agora a gente tem o céu... e a terra.

Sasuke piscou devagar, surpreso.

Naruto ergueu o tronco, ainda meio grogue.

— Hein...? Pegou o quê?

Sakura soltou uma risadinha curta.

— A chance de continuarmos vivos.