O silêncio que se seguiu ao anúncio dos nomes foi espesso como neblina.
— "Sabaku no Gaara vs Rock Lee."
Assim que seus nomes foram chamados, Rock Lee e Gaara caminharam para o centro da arena.
Sakura observava atentamente, sentindo uma estranha tensão no ar.
Lee caminhava com uma seriedade incomum, sem seu sorriso costumeiro; Gaara, por outro lado, parecia indiferente, seus olhos frios como vidro rachado, a pesada cabaça balançando em suas costas.
Quando Hayate Gekkō deu o sinal de início, Lee disparou.
Sakura mal conseguia acompanhar os movimentos dele — rápidos, fluídos, uma sequência precisa de chutes e socos que visavam pontos vitais.
Mas, a cada tentativa, a areia da cabaça de Gaara se agitava como se tivesse vontade própria, erguendo barreiras instintivamente para bloquear os ataques de Lee.
"É como se a areia lutasse sozinha", pensou Sakura, o coração acelerado.
Mesmo com toda a velocidade e habilidade de Lee, ele não conseguia tocar em Gaara.
A frustração começou a crescer dentro dela conforme via Lee tentando de todas as formas romper aquela defesa intransponível.
Ele girava, deslizava pelo chão, lançava chutes que cortavam o ar com força — mas nada parecia funcionar.
A areia se movia em perfeita sincronia, como uma segunda pele, repelindo tudo.
Foi então que uma voz forte e inconfundível ecoou pela arena, vinda das arquibancadas:
— Lee! Tire-as!
Sakura se virou para o lado, vendo o excêntrico sensei Maito Gai gritar com uma seriedade que jamais havia mostrado antes.
Lee assentiu, sem hesitar.
Ele se agachou rapidamente, desfazendo os nós que prendiam o tecido em volta dos tornozelos.
Por um momento, Sakura achou que ele só estivesse ajeitando alguma proteção, mas então viu:
Pesos. Pesos de metal, espessos e desgastados, escondidos sob as calças largas.
Com um movimento firme, Lee retirou ambos e deixou-os cair.
O som que veio a seguir fez a arena inteira silenciar.
Os pesos atingiram o chão com um estrondo seco, pesado, que fez o solo tremer levemente.
Uma nuvem de poeira subiu, e duas crateras profundas se formaram onde os pesos haviam caído.
Sakura arregalou os olhos, engolindo em seco.
Ela não era a única: os outros genin, até mesmo alguns jounin, encaravam em choque a dimensão do impacto.
"Ele estava carregando tudo isso... o tempo todo?", pensou, sem conseguir tirar os olhos de Lee.
Um frio percorreu sua espinha.
Aquele garoto estranho de sobrancelhas grossas, o que não sabia fazer ninjutsu nem genjutsu... estava longe de ser apenas "estranho".
Com os pesos agora fora de seu corpo, a atmosfera mudou.
Era como se a própria presença de Lee tivesse ficado mais afiada, mais intensa.
Sakura sentiu seu coração acelerar, um pressentimento claro se formando:
Lee ainda não tinha mostrado do que era realmente capaz.
O chão ainda vibrava quando Lee, agora sem seus pesos, deu o primeiro passo.
Sakura quase não conseguiu acompanhar.
Em um piscar de olhos, Lee já estava na frente de Gaara. A areia da cabaça tentou se erguer para bloquear o ataque, mas pela primeira vez, ela foi lenta demais.
Um punho de Lee atravessou a defesa, acertando Gaara no rosto com força.
O público ficou em choque.
Sakura sentiu seu corpo se inclinar para frente, como se quisesse se aproximar mais da luta, ver melhor — ver aquilo que parecia impossível acontecer diante dos seus olhos.
Aquele garoto, que muitos riam e chamavam de "esquisito", havia quebrado a defesa de Gaara.
Nos assentos reservados para Sunagakure, Kankurou se inclinou para frente, o rosto tenso, enquanto Temari apertava a borda do banco com força. Eles, que sempre confiaram cegamente na força de Gaara, estavam surpresos.
Lee não parou.
Como uma sequência de relâmpagos, ele lançou uma série de chutes giratórios, socos retos e movimentos de alta velocidade, aproveitando cada mínima brecha antes que a areia pudesse reagir.
Gaara recuava um passo a cada golpe, algo que Sakura jamais imaginaria ver.
"Ele está... forçando Gaara a lutar de verdade", pensou, sentindo seu peito apertar.
Outro golpe certeiro no abdômen de Gaara.
Outro chute que atravessou a muralha arenosa para acertar o ombro do garoto da areia.
Lee girava, saltava, se movia como o próprio vento, e a cada impacto, a areia se desfazia em pequenas explosões douradas ao redor deles.
O corpo de Gaara, mesmo protegido, começava a mostrar sinais de tensão.
Por um momento, Sakura pôde jurar que viu um sorriso se formando nos lábios de Lee — não de arrogância, mas de pura determinação.
Mas então, algo mudou.
A areia de Gaara se tornou mais densa, mais compacta.
Mesmo que Lee acertasse os golpes, Gaara parecia não sentir.
E, após uma sequência particularmente poderosa de chutes giratórios, Gaara apenas inclinou a cabeça para o lado, olhando Lee com olhos que pareciam famintos.
Gaara ergueu uma mão.
A cabaça em suas costas se partiu, liberando uma enxurrada de areia que serpenteou pelo chão como cobras douradas.
Lee saltou para trás, os olhos arregalados, e Sakura apertou os punhos inconscientemente.
Foi então que Gaara falou, sua voz um sussurro cortante:
— Não adianta.
Com um leve gesto, ele afastou a manga de sua roupa, revelando a pele do braço — ou melhor, a armadura de areia que o cobria como uma segunda pele, dura e inflexível.
Sakura prendeu a respiração.
Todo esse tempo... Gaara não estava apenas usando a areia da cabaça.
Seu próprio corpo era protegido por uma armadura invisível, um escudo constante que absorvia o impacto dos golpes.
Gai, da arquibancada, cerrou o punho, seu rosto sério.
Lee parou, respirando com força.
Ele entendeu também.
Se não bastasse a areia viva, agora sabia que a defesa de Gaara era dupla.
Mas Lee não recuou.
Sakura viu a decisão em seus olhos — ele não ia parar.
Ele ajeitou sua postura, firmando os pés no chão, e então, como uma tempestade silenciosa, começou a correr ao redor de Gaara em círculos cada vez mais apertados, o ar silvando com sua velocidade.
A areia tentava segui-lo, mas Lee era muito mais rápido agora.
Num movimento repentino, Lee surgiu bem acima de Gaara, chutando o ar para ganhar impulso e descendo como uma flecha.
Ele agarrou Gaara pelo tronco, enrolando seus braços e pernas ao redor dele num aperto brutal.
Sakura reconheceu a posição — era a técnica secreta que Rock Lee havia treinado incansavelmente:Lótus Frontal.
— Omote Renge! — o grito ecoou pela arena.
Lee girou violentamente em queda livre, levando Gaara com ele.
A areia tentou reagir, mas era tarde demais.
Os dois despencaram como um cometa, e o impacto no chão explodiu poeira para todos os lados.
O coração de Sakura parecia ter parado por um instante.
Quando a poeira baixou, ela viu: Gaara jazia no solo, aparentemente imóvel, com Lee ajoelhado sobre ele, ofegante.
Mas antes que pudesse se comemorar a vitória, uma rachadura apareceu na casca arenosa de Gaara.
Com um estalo sinistro, a armadura de areia que Lee havia quebrado se desfez, revelando o verdadeiro corpo de Gaara — ileso, exceto por pequenos arranhões.
E, mais assustador ainda, os olhos de Gaara cintilavam com um prazer doentio.
Ele levantou-se sem esforço, como se nada tivesse acontecido.
Sakura sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Lee, exausto pelo esforço do Omote Renge, sabia que estava em apuros.
A técnica o deixava vulnerável após o uso, e agora, frente a frente com um Gaara animado pela dor, ele mal conseguiria se defender.
Gaara sorriu.
E com um gesto, uma torrente de areia avançou em direção a Lee, prometendo esmagá-lo sem piedade.
Sakura se levantou de seu assento, os olhos arregalados, o coração gritando para que Lee se levantasse, que não desistisse.
Mas ela sabia.
Lee, exausto, mas com um brilho de determinação nos olhos, recuou por um momento, sentindo o peso da luta em seus músculos e a pressão em seu corpo. Ele sabia que não havia mais tempo. Ele já havia usado sua técnica mais forte, a Lótus Frontal, e, embora tivesse causado danos significativos, Gaara ainda estava de pé, com seus olhos selvagens e um sorriso que parecia impassível à dor.
A areia de Gaara serpenteou rapidamente, se posicionando para defendê-lo de qualquer ataque subsequente, mas Lee não estava mais focado em defender-se ou em parar. Ele sabia que a única maneira de vencer agora era se arriscar ainda mais, quebrar seus próprios limites.
"Os Oito Portões..."pensou consigo mesmo, sentindo o calor de seu próprio espírito inflamando-se.
Ele sabia que essa era a última carta que restava.
Com uma velocidade quase impossível de acompanhar, Lee se moveu. Ele esticou os braços e as pernas, apertou os dentes, e uma onda de chakra verde envolveu seu corpo, em um impulso repentino que fez todos na arena prenderem a respiração.
Ele havia aberto oPrimeiro Portão, o Portão da Abertura, liberando seu chakra. Isso foi apenas o começo. Seus músculos começaram a inchar, sua velocidade aumentou, e seu corpo parecia começar a se mover em uma velocidade além da percepção humana.
Sakura não conseguia acreditar no que olhos se arregalaram enquanto Lee saltava para frente, com a graça e a força de um tigre. Ele não estava mais se contendo. Cada movimento dele parecia um borrão. A arena estremeceu a cada passo.
Gaara ainda estava tentando reagir, mas a areia ao redor dele mal conseguiu se mover rápido o suficiente para acompanhar Lee. O portão da frente havia sido aberto, mas agora, Lee estava disposto a dar tudo de si.
Ele abriu o segundo Portão.
Agora, sua velocidade e poder estavam em outro nível. Os músculos de Lee estavam completamente tensos, os braços e pernas estavam mais fortes, os pulsos e tornozelos pareciam pulsar com energia pura. O ar ao redor dele parecia se distorcer, como se a própria realidade estivesse sendo dobrada pela força de sua aceleração.
"Essa... essa é a verdadeira velocidade de Lee!"Sakura exclamou mentalmente, o choque em seu rosto refletindo a incredulidade. Ela nunca imaginou que seu amigo fosse capaz de atingir um nível tão assustador de poder.
Lee, com seus pés aparentemente flutuando sobre o chão, foi direto para Gaara.
A areia tentou mais uma vez envolvê-lo, mas Lee estava além disso agora. Com um movimento ágil, ele pulou para o lado, e, sem hesitar, usou seu punho esquerdo em um soco massivo que se dirigiu diretamente à face de Gaara.
Gaara tentou erguer sua areia para bloquear, mas a velocidade e a força de Lee eram incomparáveis."Esse golpe... ele não vai conseguir se defender..."pensou Sakura, seu peito apertado pela tensão.
Com um grito de força, Lee foi mais fundo no abriu o terceiro Portão.
Sua energia aumentou ainda mais, e o som de seus golpes preenchia a arena como uma tempestade. Cada soco e cada chute que Lee desferia agora fazia o chão tremer, e a areia de Gaara não estava mais conseguindo se defender.
Lee não apenas atacava com velocidade, mas com uma força que fazia até a armadura de areia de Gaara tremer. Seu corpo estava um com a velocidade, e ele estava ultrapassando qualquer limite que ele já tivera.
"Agora!"Lee gritou, indo para o ataque final."Lótus Oculta!"
Gaara não teve tempo de reagir. O golpe foi tão rápido, tão devastador que ele mal teve a chance de ativar sua defesa. A areia se ergueu ao seu redor, mas era tarde demais.
Lee se lançou como um foguete, com sua energia amplificada ao máximo, e desferiu um golpe brutal contra Gaara.O impacto foi ensurdecedor.
A areia de Gaara se desprendeu rapidamente de sua cabaça, formando uma parede espessa, uma última tentativa desesperada de defesa. Mas o poder de Lee era avassalador.A Lótus Oculta que ele havia desferido não foi apenas um golpe de força. Foi o desfecho de todo o seu treinamento, de toda a dor que ele havia suportado para alcançar esse nível.
A areia foi esmagada, e Lee finalmente atingiu Gaara com toda a sua força. Mas, para surpresa de todos, Gaara, com um movimento instintivo, usou a areia de sua cabaça para se proteger, criando uma barreira instantânea que absorveu a maior parte do impacto
Gaara, no entanto, estava de pé — mas estava claramente enfraquecido. A areia em sua cabaça estava se desfazendo lentamente, e o que restava de sua defesa se mostrava muito mais frágil.
O público estava em silêncio, hipnotizado, enquanto os dois ninjas se encaravam na arena, a tensão no ar visível.
Com o impacto brutal daLótus Ocultase dissipando e a poeira baixando, todos na arena puderam ver: Rock Lee estava ajoelhado, completamente imóvel. Seu corpo tremia levemente, mas ele já havia ultrapassado todos os limites humanos — músculos rasgados, chakra praticamente esgotado, visão turva. Ele estava, naquele instante, apenas com a força de sua vontade.
Gaara, por outro lado, permanecia de pé. Sua areia rodopiava em torno dele, lenta, mas ameaçadora. Havia um brilho sombrio em seus olhos verde-acinzentados.
Ele ergueu uma das mãos com calma e, como se não fosse mais uma luta justa, mas uma execução, a areia respondeu ao seu comando silencioso.
Sakura, observando da arquibancada, estremeceu.
—Lee... afaste-se!— ela gritou, mas seu coração sabia que ele não conseguiria. Seu corpo simplesmente não respondia mais.
A areia envolveu o braço de Lee num piscar de olhos. Sem pressa, Gaara apertou.
—CRACK.
O som foi claro, seco e terrível. O braço de Lee cedeu sob a pressão da areia, dobrando-se de forma antinatural.
Sakura tapou a boca com as mãos, lágrimas brotando em seus olhos. Ao seu lado, até os outros genin, que antes viam a luta apenas como uma competição, ficaram petrificados.
Mas Gaara não parou.
A areia deslizou pelas pernas de Lee, envolvendo seu tornozelo. Com outro movimento impiedoso, ele torceu o membro.
—CRACK.
Lee não gritou. Ele apenas cerrava os dentes com tamanha força que seus lábios sangraram. Ele estava inconsciente, mas seu corpo, por pura memória muscular e desejo, ainda tentava se manter firme, ainda tentava resistir.
Guy, que até então observava com as mãos tensas ao lado do corpo, não pôde mais suportar. Em um piscar de olhos, ele surgiu dentro da arena, empurrando a areia para longe de Lee com uma onda de chakra visível. Seus olhos estavam inflamados de fúria e desespero.
—Já basta!— vociferou Guy, a voz ecoando por todo o Coliseu subterrâneo.
Gaara piscou, confuso. Sua mão baixou lentamente.
—Ele perdeu... Por que você o salvou?— perguntou com frieza, como se não conseguisse compreender a humanidade daquele gesto.
O juiz, Hayate, ainda tossindo fraco, ergueu o braço.
—Gaara de Sunagakure é o vencedor.
A oficialização da vitória de Gaara parecia algo vazio diante do que havia acontecido. A maioria dos presentes não conseguia sequer comemorar.
Guy se ajoelhou ao lado de Lee, seus olhos marejados.
Ele sabia.
Sabia que Lee havia arriscado tudo — sua carreira, seu corpo, seus sonhos — para provar seu valor. Não por reconhecimento externo, mas porque ele acreditava que o trabalho duro podia superar o talento nato.
—Lee... você... já venceu.— sussurrou Guy, com a voz embargada.
Mas então algo inacreditável aconteceu.
Apesar de inconsciente, o corpo de Lee, por pura força de vontade,se levantou.
De olhos fechados, com a perna quebrada arrastando inutilmente e o braço pendendo sem forças, ele ficou de pé, adotando uma débil posição de combate.
Sakura sufocou um soluço.
O estádio inteiro ficou em silêncio, maravilhado e horrorizado ao mesmo tempo.
Lee não estava ali por orgulho. Ele estava ali por seu sonho. Mesmo que seu corpo estivesse destruído, seu espírito não cedia.
Era como se seu coração dissesse:"Enquanto eu respirar... eu lutarei."
As lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Guy agora.
Ele segurou Lee suavemente pelos ombros, guiando-o para baixo com cuidado, para que não se machucasse ainda mais.
—Você já provou tudo, meu querido aluno... você já é um grande ninja.
O silêncio da arena se manteve por longos segundos. Nenhuma palavra poderia descrever a cena que acabaram de testemunhar.
Sakura levou as mãos ao peito, o coração doendo de ver tamanha determinação e sofrimento.
E mesmo Gaara, por um momento fugaz, pareceu hesitar, olhando para Lee com algo que poderia ser confundido com respeito... ou talvez apenas surpresa por uma força que ele não compreendia.
Enquanto os médicos corriam em direção a Lee, Sakura, movida por impulso e desespero, saltou da arquibancada para dentro da arena, aterrissando com leveza ao lado do corpo ferido de Rock Lee.
O impacto da cena — Lee caído, Guy segurando-o como se ele fosse feito de porcelana quebradiça — apertava seu coração.
—Sensei Guy! Me deixe ajudar!— ela exclamou, ofegante, ajoelhando-se ao lado dos dois.
Guy ergueu o olhar, ainda com lágrimas escorrendo pelo rosto forte. Por um instante, hesitou. Mas ao ver a determinação nos olhos verdes de Sakura, e sabendo de sua formação médica básica, ele se afastou levemente para dar espaço.
Sakura puxou rapidamente um pequeno estojo que sempre carregava preso à cintura, seus dedos tremendo levemente, mas sua mente focada.
"Controle seu chakra... foque na precisão."
As lições do Yakushi vinham à tona em flashes duros em sua memória.
Com um gesto rápido, ela concentrou chakra nas pontas dos dedos —Shōsen Jutsu (Técnica da Palma Mística)—, emitindo uma luz verde suave. Era uma aplicação rudimentar ainda, ela sabia, mas poderia pelo menos impedir que as lesões internas de Lee se agravassem naquele momento crítico.
Ela passou as mãos com cuidado pelo braço quebrado de Lee, sentindo o dano sob seus dedos através da leitura do chakra. O osso estava partido de forma limpa, mas o que mais a preocupava eram os danos musculares e vasculares invisíveis a olho nu.
Sakura cerrou os dentes, focando toda a sua energia para estabilizar Lee.
Pequenos feixes de chakra entravam no corpo do garoto, tentando minimizar o sangramento interno e aliviar a pressão nos tecidos rompidos.
Os médicos se aproximaram logo depois, trazendo macas e equipamentos mais avançados. Um deles, um jounin da equipe de suporte, colocou a mão gentilmente no ombro dela.
—Obrigada. Agora é com a gente.
Sakura assentiu, a testa suada e o chakra levemente drenado, mas aliviada por ter feito algo, qualquer coisa, para ajudar Lee naquele momento tão desesperador.
Enquanto ela recuava, Guy, ainda ajoelhado, olhou para ela com respeito sincero.
—Você tem o coração de uma verdadeira kunoichi, Sakura.— disse ele, com a voz embargada.
Sakura apenas balançou a cabeça, mordendo o lábio para conter as lágrimas.
Enquanto Lee era levado em uma maca, ainda inconsciente, mas agora com seus sinais vitais mais estáveis graças à sua intervenção rápida, Sakura se levantou devagar, o olhar firme.
Olhou para a arquibancada, onde Naruto, Neji, Tenten e todos os outros observavam em silêncio.
E então, seus olhos voltaram para Lee, desaparecendo pelo corredor junto com a equipe médica.
"Eu prometo..."pensou, cerrando os punhos."Eu prometo que um dia, serei forte o suficiente para salvar todos que lutarem com tanto coração como você, Lee."
O céu acima da arena parecia mais pesado naquele instante.
E a próxima luta, que deveria começar logo depois, parecia pequena comparada à grandeza de espírito que todos acabavam de testemunhar.
Assim que Rock Lee foi levado pelos médicos para fora da arena, e o burburinho do público recomeçou lentamente, Sakura não voltou para as arquibancadas. Seu coração ainda pulsava forte, o peso daquela cena gravado em sua mente como uma ferida aberta. Ela nem olhou para Naruto, nem para Ino, nem para ninguém.
Sem hesitar, com as mãos ainda sujas de chakra medicinal, Sakura saiu correndo pelo corredor lateral do prédio, onde os ninjas médicos tinham desaparecido com Lee.
Mas ela não os seguiu para a ala médica — não era isso que queria.
O que ela precisava era diferente. Urgente. Inadiável.
Seus passos ecoaram nos corredores frios de pedra da arena até que ela se viu diante de uma porta fechada, pesada, marcada com o símbolo da unidade médica de Konoha.
Ela bateu com força.
—Eu preciso falar com o doutor Yakushi. Agora!
Por alguns segundos, só o silêncio respondeu. Mas então a porta rangeu e, para seu alívio — ou talvez desespero —, Yakushi Yakushi apareceu, sério como sempre, seus olhos estreitos estudando-a como se fosse uma equação.
Ele vestia ainda o jaleco branco, manchas discretas de sangue de outros pacientes nos punhos, o cheiro de antisséptico impregnado em torno dele.
—Haruno Sakura.— sua voz era fria, impessoal —Você deveria estar assistindo o restante dos combates.
—Eu não posso!— ela explodiu, sem se importar em conter a emoção —Eu vi o que aconteceu com o Rock Lee... Eu tentei ajudar, mas eu sou... fraca.— ela apertou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos —Eu quero treinamento. Agora. Eu preciso ser capaz de fazer mais.
Yakushi a encarou longamente, como se estivesse medindo sua determinação, ou procurando alguma hesitação escondida em suas palavras.
—Você acha que um pedido impulsivo vai mudar algo?— ele perguntou, cruzando os braços —Eu avisei no começo: disciplina, obediência e sacrifício. Você está disposta a suportar?
Sakura ergueu o queixo, os olhos verdes brilhando com uma mistura de raiva e súplica.
—Estou.— disse, sem vacilar.
O homem soltou um suspiro impaciente e deu um passo para o lado, abrindo mais a porta.
—Entre. Se vai insistir, comece agora.— disse ele —Mas saiba que eu não terei piedade. Se desmaiar, se quebrar, se perder o controle, ninguém vai parar para te consolar.
Sakura não hesitou.
Ela entrou.
A porta se fechou atrás dela com um som surdo, abafando a arena, os gritos, o mundo lá fora.
A partir daquele momento, Sakura sabia: o caminho que escolheu seria solitário, brutal — e, ainda assim, o único que aceitava seguir.
Ela respirou fundo, endireitou os ombros e encarou Yakushi.
—O que devo fazer primeiro?
O doutor Yakushi caminhou até uma bancada repleta de instrumentos cirúrgicos e rolos de pergaminhos de técnicas medicinais, sem sequer olhar para Sakura.
—Primeira lição:— disse, com a voz cortante —Controle absoluto de chakra. Sem isso, você nunca salvará ninguém.
Ele tirou um pequeno fio metálico, tão fino quanto cabelo, e o esticou no ar.
—Seu trabalho é canalizar chakra constante através deste fio. Não pode flutuar. Não pode vacilar. Nem por um segundo.
Ele jogou o fio na direção dela. Sakura o pegou com as duas mãos, sentindo como o metal era estranho e escorregadio, vibrando levemente.
—Comece. Agora.
Sakura concentrou o chakra nas pontas dos dedos, tentando envolver o fio. De início, parecia fácil. Mas bastou um leve desequilíbrio emocional — a lembrança de Lee, imóvel, o sangue que ela viu escorrer — para o chakra tremer. O fio quase caiu.
Yakushi bufou.
—Patético.— disse friamente —Se isso fosse uma artéria numa cirurgia de emergência, seu paciente estaria morto. De novo. De novo. De novo.
Sakura cerrou os dentes. Ajustou o fluxo de chakra. Respirou. Tentou se ancorar no presente.
O treinamento se arrastou por horas.
Se o fio vacilasse, Yakushi atirava kunais no chão perto dos pés dela, para forçá-la a não perder a concentração mesmo sob pressão.
Se ela errasse, o fio recebia descargas de chakra que reverberavam dolorosamente pelas suas mãos.
Não era apenas prática. Era sobrevivência.
Quando o controle de chakra começou a estabilizar, Yakushi passou para o próximo exercício.
—Diagnóstico.— disse simplesmente.
Ele empurrou para ela três cobaias: pequenos animais anestesiados, cada um sofrendo de uma condição diferente — fratura interna, hemorragia oculta, falha respiratória.
—Sem abrir. Sem bisturi. Só com detecção de chakra.— ordenou —Você tem quinze minutos. Cada erro custaria a vida deles em uma missão real. Entendeu?
Sakura assentiu, já sentindo a testa coberta de suor.
Ela ajoelhou-se junto dos corpos imóveis, ativando oKanchi no Jutsu, suas mãos brilhando com uma luz azul pálida.
Sentiu o fluxo de chakra de cada pequeno corpo, tentando localizar irregularidades.
O primeiro animal: um bloqueio nos pulmões.
O segundo: uma fissura na clavícula.
O terceiro... ela quase perdeu. Um coágulo perto do coração, tão sutil que poderia passar despercebido por um ninja comum.
Mas não por ela.
Não por ela.
Sakura informou cada diagnóstico em voz firme, sem olhar para Yakushi.
Ele não sorriu. Ele nunca sorria.
Apenas caminhou até uma prateleira, pegou novos pergaminhos — mais grossos, mais complexos — e jogou diante dela.
—Agora, tratamento. Sem ferramentas externas. Só chakra.
Era uma ordem, não um pedido.
Sakura, mesmo exausta, ergueu as mãos novamente.
De olhos semicerrados, invocou oShōsen Jutsu, o chakra médico fluindo de suas palmas em pequenos círculos controlados.
O suor pingava de sua testa.
Seus músculos tremiam.
Seus joelhos doíam.
Mas ela não parou.
Consertou a fratura com paciência cirúrgica.
Diluiu o bloqueio nos pulmões com precisão.
Removeu o coágulo perto do coração com tanta delicadeza que até Yakushi, num raro momento, estreitou os olhos como se visse algo... promissor.
Quando terminou, Sakura caiu sentada, sem forças para se manter de pé.
—De pé.— ele ordenou, frio como aço.
Com dificuldade, ela se ergueu, ofegante.
Yakushi apenas a observou por um instante, como se ponderasse algo.
Então, ele disse:
—Se continuar assim, talvez — só talvez — você não seja completamente inútil.
Não era elogio.
Mas, para Sakura, naquele momento, foi como ouvir as portas do impossível se abrirem um milímetro.
Ela se curvou respeitosamente.
—Obrigada, Yakushi-sensei.— murmurou, a voz rouca, mas carregada de convicção.
O treinamento daquela noite ainda estava longe de acabar.
E Sakura Haruno prometeu a si mesma:
Ela se tornaria uma ninja médica capaz de proteger seus amigos — e a si mesma — custe o que custasse.
