O corredor era preenchido pelo murmúrio abafado da arena e o cheiro forte de suor e poeira. Sakura organizava alguns pergaminhos médicos quando ouviu passos apressados atrás de si. Sem pressa, virou a cabeça e viu Naruto surgir, animado como sempre, quase tropeçando nos próprios pés de tanta pressa.
— Sakuraaa! — ele chamou, acenando com a mão.
Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— O que foi agora, Naruto? — perguntou, meio divertida, meio cansada.
Naruto parou à sua frente, respirando rápido, um brilho agitado nos olhos.
— Já saiu o sorteio dos combates pra fase final! — anunciou. — E adivinha só? Você vai lutar contra o Dosu!
Por um segundo, o mundo pareceu congelar em torno de Sakura.
Ela piscou uma vez, e depois apenas soltou um leve suspiro, um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
Dosu Kinuta...
O mesmo da Floresta da Morte.
Ela sentiu o peso da memória — as noites silenciosas na floresta, a tensão, o som ameaçador da luva sonora dele — mas junto dessa lembrança vinha também o sentimento de vitória. Ela tinha enfrentado Dosu em condições muito piores, cercada, exausta, sem ajuda, e ainda assim tinha resistido. Não apenas resistido — tinha vencido.
Agora, com treinamento médico, com domínio de seu chakra mais refinado, com técnica e conhecimento em seus punhos... ela sabia que estava ainda mais forte.
— Entendi. — disse apenas, com uma calma tão firme que até Naruto pareceu surpreso.
— Você não tá nervosa? — ele perguntou, se inclinando curioso.
Sakura sorriu de lado, ajeitando a faixa da testa.
— Eu já venci ele uma vez, Naruto. — respondeu, com voz segura. — Agora vou vencer de novo. E melhor.
Naruto abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Essa é a Sakura-chan! — disse, cheio de orgulho.
Ela respirou fundo, sentindo uma corrente quente de determinação percorrer seu corpo. O mês de intervalo que teriam até o Exame Chūnin final seria precioso — uma chance de afiar ainda mais suas habilidades, de se fortalecer não apenas para Dosu, mas para qualquer outro adversário que cruzasse seu caminho.
Sakura sabia que Dosu era perigoso. Ele era astuto, suas técnicas de som poderiam desequilibrar um inimigo em um piscar de olhos. Mas agora ela tinha conhecimento médico para prever danos internos, chakra suficiente para se proteger e a confiança de quem tinha sobrevivido ao pior.
— Eu não vou só vencer, Naruto. — disse baixinho, para si mesma enquanto via o amigo se afastar. — Eu vou provar que mereço estar aqui.
— Vamos pedir pro Kakashi-sensei treinar a gente! — disse Naruto, inflando o peito com confiança. — Se a gente tiver o mesmo treino que o Sasuke teve, vamos ficar superfortes!
Sakura sorriu levemente, acompanhando o passo animado do amigo. Era uma boa ideia. Se tivessem orientação de um jōnin tão experiente quanto Kakashi, poderiam evoluir muito em um mês.
Chegaram rápido até o pátio onde Kakashi, como sempre, parecia relaxado, recostado contra uma árvore, lendo calmamente um de seus livrinhos.
— Kakashi-sensei! — gritou Naruto, acenando. — Treina a gente também! Por favor!
Kakashi levantou os olhos lentamente, como se aquela fosse a coisa menos urgente do mundo.
— Hummm... — murmurou, fechando o livro com um estalo suave. — Treiná-los, hein?
Naruto e Sakura assentiram ao mesmo tempo, firmes.
Kakashi colocou uma mão no queixo, pensativo, o olho semicerrado como se considerasse a proposta com muita seriedade... antes de suspirar, colocando as mãos nos bolsos.
— Não posso. — disse simplesmente.
— O quê?! — Naruto gritou, pulando para frente, os braços agitados. — Por quê?!
— Tenho outro aluno que preciso preparar. — Kakashi respondeu, de modo tranquilo. — É prioridade.
Sakura franziu o cenho. Era claro que ele falava do Sasuke. Mesmo entendendo a urgência, ainda assim sentiu um leve amargor.
— Mas... — Naruto tentou argumentar, mas Kakashi já o interrompia, levantando um dedo de maneira despreocupada.
— Pra você, Naruto, já providenciei alguém. — disse ele, apontando para trás deles.
Naruto virou-se — e deu de cara com Ebisu, o instrutor particular de elite, conhecido por treinar os genins mais problemáticos.
Ebisu ajeitou os óculos com um gesto arrogante, sorrindo de forma presunçosa.
— Heh. Não se preocupem. Comigo, Naruto Uzumaki será transformado em um verdadeiro exemplo de conduta ninja. — afirmou, convencido.
Naruto fez uma careta de puro desespero.
— Aaaaaah! Por que eu?! — gritou, se contorcendo.
Kakashi ignorou o drama de Naruto, voltando-se agora para Sakura.
— Quanto a você, Sakura... — disse, seu tom mais sério. — Quero que foque em melhorar sua mobilidade. Treine o Shunshin no Jutsu.
Antes que ela pudesse responder, Kakashi juntou as mãos em um selo, e em um borrão de fumaça e vento, desapareceu com seu Shunshin no Jutsu, deixando apenas algumas folhas remexendo no chão.
Sakura permaneceu parada por um momento, absorvendo a instrução.
Shunshin no Jutsu, hein?
Era uma técnica de movimentação instantânea — perfeita para se esquivar de ataques mortais ou mudar de posição rapidamente em batalha.
Ela apertou os punhos, a determinação brilhando em seus olhos. Se Kakashi acreditava que essa técnica era o que ela precisava, ela não desperdiçaria a oportunidade.
Naruto ainda se debatia no chão, gritando sobre o inferno que seria treinar com Ebisu. Sakura apenas cruzou os braços e olhou para frente.
Havia trabalho a fazer.
O sol mal começava a nascer, tingindo o céu de tons de laranja e violeta, quando Sakura já estava de pé na clareira ao lado do hospital de Konoha, pronta para iniciar o seu novo regime de treinamento. As faixas de pesos de 10kg em cada tornozelo pareciam absurdamente pesadas, como se fossem grilhões tentando puxá-la para o chão.
Ela ajustou a amarração dos pesos com firmeza, sentindo a textura áspera da faixa contra a pele. Respirou fundo, enchendo os pulmões de ar fresco da manhã. Não era apenas um treino físico — era uma prova de determinação. Se queria se tornar mais forte, se queria proteger seus amigos... precisava começar por aqui.
Sakura olhou para o percurso que havia traçado: um circuito de 5km que passava pela periferia da aldeia, serpenteando pelas trilhas de terra, entre árvores e pequenos declives. Ela sentiu seu coração martelar de antecipação.
Então, sem mais hesitação, disparou.
Logo nos primeiros metros, os pesos nas pernas deixaram claro o desafio. Cada passo parecia muito mais difícil do que o anterior, os músculos das coxas e panturrilhas reclamando em protesto. O chão irregular da trilha forçava-a a manter o equilíbrio constante, seus tornozelos trabalhando duas vezes mais.
Concentre-se. Ritmo constante. Respiração controlada.
As palavras se repetiam em sua mente como um mantra.
À medida que avançava, Sakura sentia o suor brotar na testa, escorrendo pelas têmporas e molhando os fios de cabelo que escapavam de seu rabo de cavalo. A primeira subida íngreme surgiu diante dela como um inimigo imponente. Seu peito queimava, mas ela manteve o olhar fixo no topo, seus braços se movendo em sincronia com as pernas, impulsionando-a adiante.
Quando atingiu o primeiro quilômetro, as pernas tremiam de esforço, mas ela não diminuiu o ritmo. Sakura apertou o passo, ouvindo apenas o som da própria respiração entrecortada e o impacto pesado de seus pés contra a terra batida. Não havia plateia, nem aplausos. Era apenas ela e sua luta silenciosa.
Se fosse fácil, qualquer um faria.
Se fosse fácil... eu não seria diferente.
Por volta do terceiro quilômetro, uma pontada aguda começou a crescer na lateral de seu abdômen — a famosa dor de corrida. Sakura cerrou os dentes, ignorando o desconforto. Cada passo doía, mas a determinação era maior. Pensou em Naruto, em Lee, em Hinata, todos lutando com tudo o que tinham para provar seu valor.
Ela não seria a exceção.
O quarto quilômetro foi uma travessia no limite da exaustão. Suas roupas grudavam no corpo de tanto suor, os braços pendendo pesadamente a cada balanço. Mas, quando a linha imaginária do quinto quilômetro surgiu, demarcada por uma pequena pedra pintada de branco que ela mesma havia colocado no dia anterior, Sakura quase caiu de joelhos — de exaustão e alívio.
Ela terminou a corrida e desabou sentada no chão, puxando o ar em golfadas irregulares, o peito arfando como se quisesse explodir. As pernas tremiam sem controle, mas, em seu rosto corado e suado, havia um sorriso.
Ela tinha conseguido.
Após alguns minutos de descanso e hidratação, Sakura arrastou-se até o hospital, onde seu verdadeiro desafio mental começaria.
O laboratório médico era um contraste brutal com o calor da manhã — suas paredes frias e silenciosas pareciam envolver Sakura num casulo de disciplina. Os livros grossos de anatomia empilhados sobre a mesa esperavam por ela como velhos mestres prontos para impor novos desafios.
Sem hesitar, ela mergulhou nos diagramas complexos. Cada folha que virava parecia pesar mais que a anterior, mas Sakura se obrigava a continuar. Hoje, seu foco eram articulações e ligamentos — estruturas frágeis que, se compreendidas com precisão, podiam significar a diferença entre incapacitar um inimigo ou salvar um aliado.
Suas anotações se acumulavam rapidamente, folhas rabiscadas com desenhos de joelhos, ombros, cotovelos e colunas vertebrais. Entre cada página estudada, ela se levantava e praticava em modelos de madeira, simulando movimentos com a delicadeza exigida de um verdadeiro ninja médico.
As horas passaram como se o tempo tivesse se dissolvido em tinta e suor. À medida que o sol declinava além das janelas do laboratório, a exaustão começou a se infiltrar nos músculos de Sakura, lenta e implacável. Seus olhos ardiam, a mão que segurava o lápis tremia de tanto escrever, mas ela continuava, puxando mais um livro, desenhando mais uma articulação, lendo mais uma descrição.
Seus limites físicos, já pressionados pela corrida matinal, agora se estendiam perigosamente finos — como um fio de chakra prestes a se romper. Mesmo assim, a cada batida acelerada do coração, a cada gota de suor que escorria de sua testa, Sakura sentia também algo florescer dentro dela: uma determinação silenciosa, profunda, impossível de quebrar.
Quando finalmente ergueu a cabeça para olhar pela janela, a noite já dominava o céu. As luzes de Konoha piscavam como vaga-lumes distantes, e o mundo parecia estranhamente calmo.
Sakura fechou o último pergaminho com cuidado, respirando fundo. Os músculos de suas pernas protestaram quando ela se levantou, e seu corpo inteiro pesava como se estivesse revestido de chumbo. Mas ela não sentia arrependimento.
Só satisfação.
Amanhã, sabia, o treinamento recomeçaria — talvez ainda mais duro. Mas era exatamente isso que ela queria.
Não havia mais espaço para hesitações ou desculpas.
Com passos lentos, mas firmes, Sakura deixou o laboratório para trás, o som de seus próprios batimentos ecoando nos ouvidos, como um lembrete vivo de que, dia após dia, estava mais perto de se tornar a kunoichi que havia prometido ser.
E amanhã...
Amanhã ela iria ainda mais longe.
O sol ainda mal tocava a linha das árvores quando Sakura posicionou-se no centro da clareira. À sua volta, escondidas em mecanismos camuflados, pequenas armadilhas estavam preparadas para disparar senbons traiçoeiros. Era um treinamento de resistência e agilidade pura, onde o menor atraso significaria ser atingida.
Respirando fundo, Sakura ativou o mecanismo. Num chiado quase imperceptível, as primeiras senbons cortaram o ar. Ela pulou para o lado, sentindo o fio gelado de uma agulha roçar a manga de sua blusa. Sem tempo para pensar, se abaixou, girou e saltou para evitar a próxima sequência, seu coração acelerando a cada disparo.
Era difícil manter a concentração. O vento, o som das folhas, o movimento da névoa — tudo parecia conspirar para distraí-la. Ainda assim, a determinação que havia solidificado dentro dela no hospital com Lee a mantinha firme.
Por mais de uma hora, ela esquivou, rolou, desviou, levando pequenos arranhões, mas recusando-se a parar até que conseguisse completar uma sequência limpa.
Quando enfim desligou as armadilhas, ofegante e com os joelhos cobertos de terra, sentiu uma pontada de orgulho: tinha melhorado.
Depois de se lavar rapidamente e comer algo simples, Sakura caminhou até uma parte mais fechada da floresta, onde pedras, raízes e troncos caídos criavam dezenas de esconderijos naturais.
O objetivo era claro: localizar as fontes de chakra disfarçadas, pequenos pergaminhos selados espalhados pela floresta, emitindo assinaturas fracas.
Sentou-se no centro da clareira, juntando as mãos em um selo de concentração. Fechou os olhos.
O mundo exterior foi sumindo aos poucos: o som distante de um córrego, o bater ocasional de asas de um pássaro. Em seu lugar, ela buscava a pulsação sutil do chakra.
De início, nada.
Então, quase como uma corrente de ar morna contra sua pele, sentiu algo. Fraco, tremeluzente, como uma vela quase apagando.
Se levantou e seguiu a sensação, os passos firmes, o chakra focalizado nos sentidos.
O primeiro pergaminho estava escondido sob um tapete de folhas.
O segundo, atrás de uma raiz grossa.
Satisfeita, mas ainda exigente consigo mesma, Sakura repetiu o exercício por horas, até seus sentidos começarem a falhar de puro cansaço.
Foi apenas no fim da tarde, quando o céu já começava a escurecer em tons de roxo, que a presença rígida do Doutor Yakushi se fez notar.
Ele apareceu como uma sombra entre as árvores, o olhar severo.
— Terminou sua brincadeira? — perguntou friamente.
Sem esperar resposta, ele se virou e começou a andar. Sakura apertou o passo para alcançá-lo. Sabia que agora era hora do verdadeiro teste.
Treinamento Médico com o Doutor Yakushi
A "sala de aula" era improvisada: um espaço vazio, coberto apenas por um pano estendido sobre a terra. Sobre ele, dois esquemas anatômicos estavam desenhados com giz.
— Você já conhece os pontos de chakra, mas conhecimento sem aplicação prática é inútil — disse ele, enquanto tirava de uma bolsa várias bandagens ensanguentadas e modelos de borracha de órgãos internos.
— Vamos, — ordenou. — Diagnóstico, reparo e estabilidade, em sequência. Sem ferramentas além do seu próprio chakra.
O treino era brutal.
O Doutor a obrigava a identificar "ferimentos" escondidos nos modelos — rasgos em tendões, cortes em artérias, hemorragias internas simuladas. Sakura gastava chakra com o Shōsen Jutsu tentando reparar cada um, mas qualquer erro, qualquer deslize, era pontuado imediatamente:
— Muito lento.
— Desperdiçou energia demais.
— Seu controle é medíocre.
Sakura mordia o lábio para não retrucar. Sabia que aquele tratamento frio era, de algum modo retorcido, uma forma de preparo. E mais do que isso: era necessário.
Quando as mãos dela começaram a tremer de exaustão, o Doutor apenas aumentou o nível dos exercícios, forçando-a a manter o fluxo de chakra perfeito mesmo sob estresse físico.
Foi só quando seus joelhos cederam e ela caiu de bruços sobre o chão que Yakushi finalmente cruzou os braços e falou, impassível:
— A medicina ninja não perdoa fraqueza. Se quer salvar alguém um dia, terá que suportar dez vezes isso.
Sakura mal conseguia respirar. Seu chakra estava no limite, seus músculos gritavam por descanso. Mas, mesmo assim, forçou-se a levantar-se ajoelhada, jurando silenciosamente que, amanhã, seria melhor.
Yakushi apenas observou, olhos como lâminas afiadas, antes de desaparecer silenciosamente na floresta.
PA manhã começou fria e úmida. O solo da clareira estava molhado do sereno noturno, e a névoa pairava densa entre as árvores. Sakura chegou cedo, os olhos ainda pesados de cansaço, mas a mente firmemente ancorada no compromisso que havia feito.
Doutor Yakushi já a esperava. Em silêncio, ele apontou para uma fileira de modelos de articulações — joelhos, ombros e cotovelos feitos de material sintético — cada um marcado por danos invisíveis.
A missão era simples em teoria, mas extenuante na prática: localizar, diagnosticar e curar microlesões usando o Shōsen Jutsu, com a precisão de um bisturi.
Sakura sentou-se diante do primeiro modelo, respirando fundo. Conjurou o chakra em suas palmas, ajustando a frequência de cura de maneira a não desperdiçar energia. Tocou o "joelho" lesionado com suavidade, seus sentidos guiando-se pelas minúsculas vibrações de energia contida nos tecidos falsos.
Por quase meia hora, ela lutou para encontrar o exato ponto da ruptura. Quando enfim detectou a falha, ajustou o fluxo, canalizando o chakra reparador.
— Muito lento — comentou Yakushi, a voz cortante. — Em uma verdadeira missão, seu paciente já teria perdido o movimento.
Sakura cerrou os dentes, mas não respondeu.
Partiu para o segundo modelo, desta vez buscando agir mais rápido. Sentia o chakra escapando pelas bordas das mãos a cada tentativa, e teve que se concentrar com ferocidade para manter o fluxo estável.
Uma, duas, três articulações reconstruídas. Cada uma exigindo mais dela. Cada erro, uma lição marcada na exaustão de seus músculos e na ardência latejante de seu núcleo de chakra.
Ao terminar, o Doutor apenas assentiu com a cabeça, de forma mínima, antes de desaparecer como sempre fazia, deixando Sakura sozinha na clareira com suas mãos trêmulas e a respiração irregular.
O sol estava mais forte à tarde, dissipando a névoa e trazendo o calor sufocante que fazia a roupa de treino de Sakura grudar à pele. Mas não havia espaço para conforto.
Ela amarrou firmemente os pesos de 10kg em cada perna — os mesmos da corrida do primeiro dia — e posicionou-se de frente para uma pedra marcada como "início".
O treinamento era claro: séries de cem agachamentos profundos, seguidos de cinquenta saltos verticais, repetidos até a falha física.
Sakura inspirou fundo, sentindo os músculos das pernas já protestarem antes mesmo do primeiro movimento.
Agachou.
O peso forçou seus joelhos a tremerem enquanto descia. Subiu devagar, os quadríceps queimando.
Agachou de novo. E de novo. Ritmado, firme, como se cada repetição fosse uma promessa feita ao seu eu do futuro.
Quando a centésima repetição veio, ela mal conseguiu manter o equilíbrio para os primeiros saltos. Saltar com aqueles pesos parecia desafiar a própria gravidade.
O chão parecia puxá-la de volta a cada salto, e seus tornozelos pareciam querer dobrar. Mesmo assim, continuou, o suor escorrendo pelo rosto, a camiseta encharcada.
Seus pensamentos começaram a oscilar — fragmentos de lembranças surgindo involuntariamente: Lee no hospital, ainda tentando levantar-se. Gaara esmagando sua perna sem piedade.
Naruto prometendo lutar para mudar seu destino.
"Eu também vou mudar o meu," pensou ela, rangendo os dentes enquanto completava o último salto, caindo de joelhos assim que tocou o chão.
Durante alguns minutos, ficou apenas ali, sentindo o corpo pulsar, o coração batendo como um tambor contra as costelas.
Mas no fundo, uma centelha crescia.
Força.
Capacidade.
Progresso real.
O céu estava começando a tingir-se em tons alaranjados quando Sakura, ainda com as pernas pesadas do treino da tarde, atravessou os portões do hospital. Carregava uma pequena cesta nas mãos — não que Lee precisasse de presentes, mas ela queria levar algo que, de alguma forma, dissesse: "Estou torcendo por você."
Os corredores do hospital eram frios e cheiravam a antisséptico. Um silêncio respeitoso pairava no ar, quebrado apenas pelo som suave dos passos da garota enquanto ela seguia o caminho até o quarto de Lee.
Quando chegou à porta, hesitou por um momento. Lembrava-se vividamente da luta. Da forma como Lee tinha resistido, do modo como, mesmo inconsciente, o corpo dele tentou ficar de pé. Pensar nisso apertava seu peito de um jeito difícil de descrever.
Tomando coragem, ela bateu duas vezes.
— Lee? — chamou baixinho.
Não houve resposta, mas a porta estava entreaberta. Sakura a empurrou devagar e espiou para dentro.
Lee estava deitado na cama, imobilizado por bandagens que cobriam quase todo o seu corpo. O rosto, porém, ainda mantinha aquela expressão serena — determinada até no repouso. Ao lado da cama, sentado numa cadeira, Gai-sensei dormia inclinado para frente, os braços cruzados sobre os joelhos, uma expressão tensa mesmo em seu sono.
Sakura entrou sem fazer barulho. Aproximou-se da cama e deixou a cesta sobre a mesinha de cabeceira. Dentro, havia algumas frutas frescas e um pequeno bilhete, cuidadosamente escrito:
"Se há alguém que pode se recuperar, é você. Não desista. - Sakura"
Ela se sentou devagar na beirada da cama, observando o rosto de Lee.
— Você foi incrível — sussurrou, sua voz falhando levemente. — Eu queria... eu queria ser forte assim também.
Seu olhar caiu para as mãos dela, ainda vermelhas e tremendo levemente da prática intensa de chakra médico. Por mais que treinasse, ainda se sentia tão pequena diante de exemplos como o de Lee.
De repente, Lee murmurou algo, sem abrir os olhos:
— Eu... ainda vou... conseguir...
Sakura apertou os lábios, contendo o nó que subia por sua garganta.
Ela se inclinou um pouco mais para perto, como se pudesse emprestar sua própria força para aquele corpo quebrado.
— Vai sim — prometeu, a voz decidida agora. — E quando você se levantar, eu quero ser forte o bastante para te encontrar de igual para igual.
Ficou ali por mais alguns minutos, até que Gai se mexeu no sono e ela soube que deveria ir antes de incomodar. Levantou-se, ajeitou a cesta com cuidado e lançou um último olhar a Lee.
Sem dizer mais nada, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
O corredor do hospital parecia menos frio agora. E dentro dela, algo também começava a mudar — não era só sobre treinamento, nem sobre se tornar chūnin. Era sobre ser alguém que pudesse proteger o que era importante, não importa o preço.
E para isso... ela continuaria treinando até seus ossos gritarem.
Enquanto caminhava pelo corredor silencioso do hospital, com a cabeça cheia de pensamentos sobre Lee e tudo que ainda precisava treinar, Sakura avistou uma enfermeira organizando prontuários numa pequena mesa.
— Com licença — chamou, num tom gentil. — Você pode me informar qual é o estado de Saúde que o Rock Lee está ?
A enfermeira, uma mulher de aparência cansada, sorriu com simpatia.
— Ah, você já deve ter acabado de visitá-lo, certo? — disse, ajeitando os papéis. — infelizmente apenas o médico dele poderá falar sobre isso. Mas... se você é amiga dele, talvez queira saber que outro conhecido seu também está internado.
Sakura piscou, surpresa.
— Outro conhecido?
— Uzumaki Naruto. — A enfermeira riu um pouco. — Parece que ele exagerou no treinamento e caiu de cabeça em uma pilha de escadas. Nada grave, mas o doutor achou melhor deixá-lo em observação até amanhã.
Sakura soltou um suspiro cansado e, ao mesmo tempo, um sorriso involuntário.
Típico do Naruto... pensou. Ele nunca fazia nada pela metade.
— Em qual quarto ele está? — perguntou, ajeitando a faixa que prendia seu cabelo.
— Quarto 312.
Sakura agradeceu a enfermeira e seguiu pelo corredor, passos rápidos ecoando no chão de azulejo. Quando chegou à porta do quarto 312, empurrou-a com cuidado — e encontrou Naruto.
Ele estava largado na cama de hospital, metade do corpo enfaixado, a testa arranhada, mas com aquele mesmo sorriso bobo no rosto.
— Naruto... — murmurou, aliviada e exasperada ao mesmo tempo.
O loiro piscou para ela, como se tivesse acabado de acordar.
— Sakura-chan...? Hehe... que bom te ver.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si.
— O que aconteceu com você dessa vez? — perguntou, cruzando os braços.
Naruto coçou a cabeça com a mão livre, fazendo uma careta.
— Ah... eu meio que caí num abismo gigante. Mas não foi tão ruim assim! O chefe Gamabunta me salvou!
Sakura arregalou os olhos.
— Gamabunta?! — repetiu, incrédula.
— É! — Naruto riu, com um brilho de orgulho nos olhos. — Ele é tipo... o chefe de todos os sapos! Eu consegui invocar ele depois de muito treino!
Sakura ficou entre impressionada e preocupada.
Por fora, Naruto parecia se meter nas situações mais absurdas; mas por dentro, ela começava a enxergar o esforço que ele escondia por trás dos sorrisos.
— Você é mesmo inacreditável... — murmurou, um leve sorriso escapando antes que pudesse se conter.
Naruto esticou a mão enfaixada, fazendo um sinal de "vitória".
— Não se preocupa, Sakura-chan! Daqui a pouco eu tô novo em folha! E a gente ainda vai dar um show na próxima fase do exame!
Ela se aproximou da cama, ajeitou melhor o travesseiro dele e olhou nos olhos do amigo.
— Descansa direito. Ainda vamos precisar de toda a nossa força.
— Pode deixar! — respondeu Naruto, já piscando de sono.
O cheiro adstringente do hospital ainda incomodava Sakura, mas ela já nem reparava mais. Sentada ao lado da cama de Naruto, ela o observava com uma expressão mista de alívio e preocupação. Ele tinha se recuperado das feridas mais graves, mas ainda parecia exausto — com as bandagens enroladas no braço e alguns arranhões no rosto.
— Você é mesmo incrível, Naruto... — ela disse baixinho, quase como um desabafo. — Mesmo depois de tudo, você ainda tá aí, sorrindo como se nada tivesse acontecido.
Naruto sorriu com aquele jeito tonto, mas havia um brilho sincero em seus olhos.
— Heh... Não é nada, Sakura-chan. A gente ainda tem que ficar forte, né? Eu prometi... vou ficar mais forte do que qualquer um!
O coração dela apertou. Era diferente ver o Naruto assim de perto. Antes, ela só via o lado barulhento e atrapalhado. Agora, via também a força que ele escondia por trás dos gritos e sorrisos.
— Eu também — Sakura disse, com a voz firme — vou ficar muito mais forte.
Foi nesse instante que a porta do quarto rangeu, abrindo-se devagar.
Shikamaru entrou, mãos nos bolsos, o olhar preguiçoso de sempre. Ele arqueou uma sobrancelha ao ver Sakura ali.
— Tch... Que problemático — murmurou, antes de lançar um meio sorriso. — Não sabia que ia ter reunião aqui.
Naruto levantou um braço animado.
— Yo, Shikamaru!
Sakura se virou, surpresa. Não era comum o preguiçoso do time dez aparecer assim de repente.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou.
Shikamaru deu de ombros.
— Trouxe umas informações... — Ele jogou um rolo de papel para Naruto, que o pegou no ar, meio desajeitado. — Ebisu pediu pra entregar isso. É sobre as preliminares. E sobre os próximos treinamentos. — Ele olhou de relance para Sakura, como se adivinhasse algo. — E também... pra quem quiser ficar forte de verdade.
Sakura apertou os punhos involuntariamente. "Quem quiser ficar forte..." Aquelas palavras pareciam ter sido dirigidas direto pra ela.
Naruto abriu o pergaminho com curiosidade, enquanto Shikamaru se escorava contra a parede, bocejando.
— Mas, sinceramente... — Shikamaru continuou, olhando para o teto — vocês dois vão ter trabalho. Tem muito monstro nessa rodada final. Se não treinarem a sério, não vai dar nem pro cheiro.
Naruto inflou o peito.
— Pode deixar! Eu já decidi que vou dar tudo de mim!
Sakura sentiu uma chama acender dentro do peito também. Ela já tinha tomado essa decisão. Agora não era hora de hesitar.
— Eu também, Shikamaru. — Ela disse, se levantando da cadeira. — Dessa vez... eu vou lutar direito.
Shikamaru lançou a ela um olhar breve, quase curioso, antes de suspirar.
— Hm. Que saco... Mas boa sorte pra vocês dois.
Ele fez menção de sair, mas parou na porta,
Sakura sentiu primeiro. Um arrepio percorreu sua espinha, como se o ar à sua volta tivesse ficado mais pesado de repente. Ela virou o rosto instintivamente para o corredor.
Naruto também parou de falar, os olhos se estreitando. Até ele, tão disperso, conseguiu perceber.
— Vocês sentiram isso...? — Naruto perguntou em voz baixa.
Shikamaru se enrijeceu, franzindo o cenho. Seu corpo relaxado ficou tenso como uma corda prestes a estourar.
— Que droga... — murmurou ele.
O chakra que se aproximava era sufocante, como areia arranhando a garganta, como peso esmagando o peito. Era frio. E violento.
Sakura, com seu treino sensorial, teve certeza antes mesmo de ver — Gaara.
A sombra dele apareceu no fim do corredor: sua silhueta pequena e encurvada, como um predador que não precisava correr para pegar a presa. Seus olhos sem brilho estavam fixos adiante, carregando uma intenção de matar tão clara que até os visitantes mais distraídos do hospital conseguiam sentir.
Naruto se levantou tão rápido da cama que puxou algumas bandagens.
— O que ele tá fazendo aqui?! — exclamou, com a voz tomada por raiva e incredulidade.
Sakura, ainda parada, viu para onde o olhar de Gaara se dirigia — não para eles, mas para outra porta no corredor. A porta do quarto onde Rock Lee estava internado.
Seu estômago se revirou. Ela entendeu imediatamente.
— Ele veio... matar o Lee — sussurrou, horrorizada.
Shikamaru deu um passo à frente, bloqueando a passagem como pôde, embora sua expressão deixasse claro que ele preferia estar em qualquer outro lugar naquele momento.
— Isso é muito, muito problemático... — disse entre os dentes.
Gaara continuou andando, cada passo ecoando no corredor silencioso, o chakra assassino crescendo como uma tempestade prestes a desabar.
Sakura sabia: se não fizessem alguma coisa, Lee, que já estava gravemente ferido, não teria a menor chance.
Naruto cerrou os punhos.
— Não podemos deixar ele fazer isso!
Sakura, apesar do medo que se agarrava ao seu peito, respirou fundo. Não havia tempo para hesitar. Não depois de tudo o que Lee já havia lutado para provar o próprio valor.
Ela avançou junto de Naruto e Shikamaru, formando uma linha improvisada entre Gaara e o quarto de Lee.
O corredor inteiro parecia respirar junto com eles — carregado de tensão, como se o menor movimento pudesse fazer tudo explodir.
Gaara parou a poucos metros de distância. Seus olhos frios analisaram cada um deles, como se pesassem se valia a pena gastar tempo eliminando-os antes de terminar o que veio fazer.
Por um instante que pareceu uma eternidade, ninguém se mexeu.
Então, de repente, uma voz conhecida ecoou pelo corredor.
— GAARA!
Era Guy Sensei.
Ele apareceu correndo pelo corredor, seu manto esvoaçando atrás dele como uma capa de batalha. Seus olhos estavam fixos e intensos, um brilho sério neles, como sempre quando ele se preparava para algo importante.
— Saia da frente! — gritou Guy com autoridade, dirigindo-se diretamente a Sakura, Naruto e Shikamaru. Ele avançou em direção a Gaara com uma velocidade surpreendente, bloqueando o caminho e impedindo o ninja de Sunagakure de dar um passo mais.
Gaara, ao ver Guy, não demonstrou surpresa, mas seus olhos pareciam medir a força do novo adversário. O chakra assassino ao redor de Gaara se agitou, mas Guy não hesitou.
— Eu não deixarei você fazer isso! — Guy bradou, sua presença imponente no corredor ofuscando o chakra de Gaara, mesmo que momentaneamente.
Gaara observou Guy, seu rosto sem emoções, mas sua postura era mais relaxada, como se já esperasse que alguém o impedisse. Ele olhou para o grupo de Sakura e Naruto uma última vez, antes de finalmente dar as costas e começar a recuar, como se tivesse decidido que não valia a pena se envolver em uma luta ali.
A areia de sua cabaça recuou suavemente, como se ele tivesse desacelerado seu ritmo e se retirado do território dos inimigos, sem uma palavra, mas deixando claro que o que ele desejava ainda não havia sido concretizado.
Sakura respirou fundo, aliviada, mas ao mesmo tempo nervosa com o que havia acontecido. Não estava em dúvida de que Gaara era mais perigoso do que ela poderia ter imaginado.
Shikamaru, aliviado mas visivelmente cansado, colocou a mão na testa.
— Isso foi por pouco... — resmungou.
Naruto, que também estava tenso, se relaxou ligeiramente.
— Acho que Gaara vai voltar... E isso não vai ser bom para o Lee — murmurou, olhando para a porta do quarto do amigo.
Sakura, no entanto, sabia que a luta deles estava apenas começando. Gaara não ia parar por ali. Mas, naquele momento, ao olhar para Guy Sensei, ela sentiu uma chama de determinação crescer dentro dela. Eles iriam proteger Lee, não importava o que acontecesse.
E ela estaria lá para ajudar, com todo o poder que fosse necessário.
