A luz estava desaparecendo.
A cada segundo que se passava a escuridão se aproximava da estrela dourada, Natsu tentava alcançá-la, mas suas pernas não se moviam, suas poderosas asas haviam sido arrancadas de suas costas.
O chão sob seus pés se desfez em escuridão, o engolindo como areia movediça, a escuridão se solidificou, seus osso quebraram, sua carne rasgou, Natsu nem percebeu, apenas continuou tentando chegar na estrela, seus dedos foram destruídos contra o chão seu sangue pingava quente e frio ao mesmo tempo, mas nada disso importava, a estrela continuava fora de seu alcance, a escuridão continuava a avançar.
O brilho da estrela se intensificou, a escuridão foi forçada a recuar, Natsu sentiu uma fagulha de esperança se acender em seu peito, apenas para desaparecer em seguida.
A explosão de luz não era nada mais do que o último suspiro de uma estrela prestes a morrer.
A escuridão avançou com uma fúria renovada, devorando completamente a luz.
Era uma sensação terrível, sentir a esperança morrendo em seu peito, sendo lentamente substituída por desespero, e sentir esse desespero se transformar em raiva, por fim em ódio, que corria por suas veias como lava incandescente.
Uma a uma as amarras que o prendiam se desfizeram, transformadas em cinzas, poder explodiu do cerne de sua alma, seu corpo se transformou, chamas se tornaram carne, seus gritos de desespero se transformaram em um rugido ensandecido, as trombetas soaram nos quatro cantos do mundo, anunciado seu fim.
A tempestade continuou a castigar Fiore por mais cinco dias, e durante todo esse tempo, Natsu não havia despertado, não havia ao menos se movido, em alguns momentos aterrorizantes para Lucy, ele nem ao menos parecia respirar.
No fim do sexto dia, quando a preocupação de Lucy estava passando dos limites, e ela estava prestes a pedir para um dos espíritos buscarem a Dona Porlyusica, o anjo despertou.
E não foi da forma tranquila como a primeira vez, em um momento Natsu estava completamente imovel na cama, e no segundo seguinte chamas carmesins haviam consumido todo o quarto, asas feitas inteiramente de fogo se abriram em suas costas, o erguendo a alguns metros do chão.
O tempo pareceu desacelerar, Lucy conseguia ver as chamas avançando lentamente em sua direção, quando a primeira labareda a alcançou, o mundo escureceu.
"Você está bem, Princesa?"Uma voz meio rígida perguntou.
Lucy abriu os olhos, e se deparou com um mar de fogo, mas não sentia o calor, estava em um espaço apertado, separado por uma pequena porta de vidro do resto do quarto, estava dentro do espírito da constelação do relógio. Horologium.
Léo, o espírito da constelação de Leão estava parado em frente ao espírito do relógio, dizer que Leo estava furioso não faria jus ao que o espírito estava sentindo, ele havia atravessado o portão com seu próprio poder, não sendo limitado por sua contratante.
O espírito de Leão era um pesadelo em carne osso e poder, um híbrido entre homem e fera, dois metros de altura, corpo coberto por pêlos dourados, uma imponente juba laranja feita de energia, dentes e garras que reluziam com a luz das estrelas..
"Você ousa atacar minha Mestra, Caído?"Leo rugiu a pergunta, mas a chama viva não pareceu ouvi-lo, e Lucy percebeu que os olhos de Natsu olhavam para o nada, como se estivessem em um lugar completamente diferente, seu rosto congelado em um um grito de pavor silencioso"Aquarius pode ter perdoado sua primeira ofensa, mas não terei a mesma gentileza."
Leo reuniu poder em suas garras, o brilho dourado das estrelas se intensificou, ele avançou, às garras voaram em direção ao pescoço do anjo, Lucy tentou gritar para que o espírito recusasse, mas era tarde demais, as garras do leão se enterraram na garganta exposta do anjo.
O leão rugiu com tanta fúria que o quarto inteiro estremeceu, a porta de vidro de Horologium vibrou a ponto de quebrar, o espírito do relógio gemeu de dor, o leão pulou para longe do anjo, sua mão carbonizada começava a se regenerar.
"Maldito caido, eu vou arancar suas asas e oferece-las ao Rei."
A incarnação do fogo lentamente se virou para o espírito, seus olhos recuperaram o foco, e escureceram de raiva.
"Eu gostaria de ver você tentar."As chamas ao redor do rosto dele desapareceram, revelando um sorriso afiado e destemido.
Leo deu um passo para trás, seus olhos brilharam em dourado, e Lucy tinha certeza que um céu estrelado havia surgido em cima de sua casa.
Uma pequena esfera flamejante apareceu na frente do anjo, girando rapidamente, a esfera começou a sugar as chamas do quarto, e das asas do anjo, crescendo e condensando.
"Adeus, Espírito." Natsu colocou o braço para trás, fechou a mão em um punho, e se preparou para socar a esfera.
Lucy sabia instintivamente que não podia deixar que Natsu atacasse, havia muito poder concentrado naquela esfera, ela não iria simplesmente parar ao acertar o Leo, as chamas iriam atravessar tudo em seu caminho, sem nenhuma distinção.
"CHEGA!"
"PRINCESA!" Horologium gritou,
Lucy pulou para fora do relógio, correu em direção aos dois idiotas, ficando no meio deles, tinha certeza que Leo não a machucaria, e conseguia sentir que Natsu também não lhe faria mal.
O espírito de Leão parecia a ponto de ter um infarto, seu susto foi tão grande que o forçou na forma humanoide, Natsu parou o punho a poucos centímetros da esfera, seus olhos levemente arregalados de surpresa.
Ela se virou para o anjo com a fúria de uma supernova, Natsu sentiu um arrepio percorrer todo seu corpos, suas penas se eriçaram.
"Essa é a terceira vez em que quase me mata."Natsu desviou o olhar envergonhado."Se houver uma quarta, garanta que terminará o serviço, caso contrário eu mesma irei arrancar essas asas que parece ter tanto orgulho."
Por um segundo Natsu ficou tentado a deixar sua indignação o controlar, mas a vergonha que sentia era maior que qualquer fúria infundada, colocará sua benfeitora em perigo três vezes por sua falta de controle, se houvesse uma quarta talvez ele mesmo arrancasse as asas de suas costas e as apresentaria como um pedido de desculpas por que com toda a certeza não as mereceria mais.
"Peço perdão por minhas ações, Lucy Heartfilia, lhe garanto que em nenhum desses momento lhe desejei mal."Natsu se curvou levemente para ela.
"Que isso não se repita."A fúria se dissipou do rosto dela, ela se virou para o leão." Mostre para ele onde é o banheiro Leo, depois me encontre lá embaixo."
A água fervente escorria por suas costas, pelas penas de suas asas, lavando todo o sangue e sujeira acumulada, assim como os últimos vestígios do pesadelo que tinha estilhaçado seu controle.
Natsu tinha enfrentado mais batalhas do que realmente se importava de lembrar, tinha perdido tantos companheiros quanto estrelas no céu, até mesmo quando seus irmãos começaram a desaparecer um a um, nunca sentira tamanho desespero, sua mente havia apagado o sonho em uma tentativa fútil de se proteger, e toda vez que tentava se lembrar, seu peito se apertava, e uma nova onda de pânico e fúria ameaçava desfazer o pouco controle que tinha recuperado.
"Eu vou deixar roupas novas para você."O espírito disse, do outro lado da porta que dividia o chuveiro do restante do banheiro."Não demore muito, a princesa não gosta de esperar, ainda mais com o humor em que você a deixou."
Natsu considerou mandá-lo se ferrar, mas decidiu que não, afinal, tinha desrespeitado demais sua benfeitora, e o Rei que a protegia.
Ele saiu do chuveiro, e deixou uma fina camada de poder envolver seu corpo, secando a água que o cobria, as roupas que o leão havia deixado para ele, eram claramente do Reino dos espíritos, uma túnica preta com detalhes dourados, duas fendas nas costa fechadas por pequenas presilhas, calças e botas da mesma cor.
Natsu se vestiu rapidamente, e saiu do banheiro, dando de cara com o espírito de leão, que sem uma única palavra, seguiu pelo corredor em direção às escadas.
Lucy estava sentada na cabeceira de uma mesa repleta de comida, pelo menos três tipos diferentes de pão, queijos, frutas, carnes, sucos, Natsu sentiu seu estômago roncar, o lembrado que estava a muito tempo sem comer.
O espírito de Leão continuou andando, até estar parado ao lado de sua mestra, a postura relaxada, apesar de Natsu ter certeza de que ele acompanhava cada um de seus movimentos.
"Sente-se Natsu, coma, você deve estar faminto."Lucy indicou a cadeira do lado oposto da mesa, Natsu obedeceu, por um momento ele tentou se controlar, ser ao menos um pouco civilizado, mas o guerreiro dentro de si, que havia aprendido do jeito mais difícil que comida nem sempre estaria disponível em abundância, tomou conta, ele comeu como um animal selvagem, devorando em segundos tudo que estivesse em seu alcance. "Quando terminar, preciso que me acompanhe até minha Guida, como eu o encontrei, e minha obrigação apresentá-lo ao mestre."
Natsu desviou a atenção de sua comida por tempo o suficiente para acenar, mas seus olhos ficaram presos a xícara que Lucy segurava, o cheiro lhe era familiar, apesar de não conseguir se lembrar de onde.
"Você já tomou café antes, Natsu?"Lucy perguntou, e ainda de boca cheia, ele negou."Gostaria de experimentar?"Natsu acenou novamente, e assistiu fascinado enquanto Lucy colocou duas colheres de um pó branco na xícara, e a encheu com um líquido preto fumegante."Cuidado que está quente."
Se não estivesse tão intoxicado por aquele cheiro teria rido, nunca imaginaria ouvir alguém se preocupar que um anjo de fogo fosse se queimar, Natsu levou a xícara à boca e ao sentir o gosto da bebida, se arrependeu profundamente de ter a experimentado, tinha certeza que acabara de encontrar um novo vício.
O caminho até a guilda tinha sido no mínimo interessante, acompanhada de um espírito celestial, e um anjo, Lucy não teve nenhum problema em caminhar pelas ruas, as pessoas abriam caminho para eles, ninguém, querendo chamar a atenção dos dois.
Natsu olhava de uma lado para o outro, e apesar de não demonstrar abertamente, estava fascinado com a cidade, era um lugar completamente diferente do reino dos anjos, as casas eram de formatos e cores diferentes, cafés e restaurantes servindo comidas que nunca nem imaginava existir.
A cidade fervilhava com uma diversidade de pessoas que a enchia de vida, Kelpies e sereias nadavam no canal ao lado da rua, humanos andavam ao lado de elfos, de lobisomens, tinha visto uma casal descansando na sombra de um café, e tinha certeza que o homem era um Grifo em forma humana, enquanto a mulher era uma vampira.
Se um lugar se aproximava do paraíso descrito nas escrituras dos humanos, seria aquela cidade, e no centro dela uma fortaleza de pedra parecia brilhar com o tanto de poder que irradiava de suas paredes.
Lucy parou em frente às portas de madeira da guilda, tentando conter um sorriso ao ver o fascínio do anjo.
"Bem vindo a Fairy Tail, Natsu."Lucy parou de tentar esconder seu sorriso."O lar dos místicos mais poderosos e insanos do continente de Ishigar."
Ele desviou o olhar do castelo, e se virou para ela, Lucy conseguia sentir a pergunta que o anjo queria fazer, tinha feito a mesma no dia em que Erza a trouxera para a guilda, e tinha a ouvido todas as vezes que um novo membro se juntou a família.
"Por que Fairy Tail? Fadas, pelo menos todas que conheci, não tem rabo."
"Quando a guilda foi fundada, as fadas não passavam de um mito, até mesmo entre os deuses, ninguém conseguia confirmar se elas existiam ou não."Lucy recitou palavra por palavra da explicação que Erza lhe dera, um sensação de orgulho tomando seu peito por estar fazendo isso por outra pessoa."A fundadora e primeira Mestra da Guilda, Mavis Vermilion, criou esse nome como uma charada, uma pergunta que nunca teria uma resposta, uma aventura que nunca terminaria."Lucy tocou carinhosamente a marca da fada no dorso de sua mão."Duzentos anos atrás, quando as fadas se revelaram para o restante do mundo, nosso Mestre atual, Makarov Dreyar perguntou para a Rainha titânia se ela tinha um rabo ou não, ele ainda tem a cicatriz até hoje para provar."
Lucy tocou as imensas portas de madeira que se abriram facilmente, e para sua surpresa, uma mesa de madeira voava como um frisbee em direção a sua cabeça, Natsu entrou em sua frente, agarrou a mesa sem nenhuma dificuldade, a arremessando na mesma direção de onde vinheira.
Natsu apenas observou o caos que tomava o salão principal, pessoas brigando por todos os lados, mesas, garrafas, e até mesmo pessoas sendo arremessadas de um lado para o outro, espalhado por entre a confusão, algumas pessoa conversavam tranquilamente, completamente alheia ao que acontecia ao seu redor, o rosto de Natsu se abriu em um sorriso reluzente, revelando canino mais afiados do que o normal.
"Eu acho que vou gostar desse lugar."Natsu disse, seus punhos se fechando, prontos para se juntar ao mar de pessoas.
Lucy apenas suspirou derrotada, tinha imaginado que isso aconteceria, Natsu apesar de muito mais assustador do que a maioria dos membros da guilda tinha a mesma energia caótica que eles, ou se o sorriso maníaco em seu rosto fosse um indicativo, ele seria muito pior.
Em meio a confusão, Lucy viu Gray ser acertado por um soco de Elfman, seu corpo sendo arremessado em direção a porta, ou melhor, para o anjo parado nela.
Lucy nem pensou em avisá-lo, um guerreiro como Natsu com toda certeza tinha percebido o perigo que se aproximava, mas para sua surpresa, o anjo estava tão distraído com a confusão generalizada, que o demônio o acertou em cheio, os dois rolaram pelo chão, mas logo ficaram em pé, se encarando como dois cachorros raivosos.
"Presta atenção aonde você vai cair, cubo de gelo."
"Por que você não saiu do caminho, Urubu da Hello Kitty?"Os dois falaram ao mesmo tempo, o que simplesmente os deixou ainda mais furiosos.
Natsu ainda furioso se virou para Lucy e perguntou:"O que em nome do criador e Hello Kitty?"
"É difícil de explicar, Natsu, a única coisa que você precisa saber é que ele te insultou."
"Ok"O anjo respondeu, e a tregua chegou ao fim, Gray o acertou com um cruzado de direita, que arremssou o anjo no meio da muntidão, acertando Elfman, Macao, e o Nab.
"Ótimo, era o que precisávamos, mais um idota para o grupo."Lucy o procurou no meio da multidão, Natsu segurava Nab em uma mão, o Macao em outra, pronto para acertar uma cabeça na outra."NATSU!"O anjo parou, a testa de Nab encostada na do Macao."Quando terminar, me encontre no bar."Lucy apontou para a direção do balcão, e para a barista demoníaca que tomava conta dele, o anjo acenou, segundos antes de ser atingido por uma voadora de dois pé de Gray, Lucy se virou para o espírito, que assistia a confusão com inveja."Só um pouco Leo, ou o meu Avô vai ficar com raiva."
O leão deu um sorriso, muito parecido com o de Natsu, e se arremessou contra a multidão.
Lucy seguiu em direção ao bar, se desviando naturalmente de tudo que era arremessado em sua direção, nos primeiros meses depois de se juntar a guilda, seu corpo ficará repleto de hematomas, até aprender a desviar como os outros, e descobri o santuário oferecido pelo bar, ninguém se aproximava do domínio de Mirajane Strauss.
Mira, como era conhecido por todos na guilda, era a encarnação da doçura, até alguém quebrar alguma coisa em seu bar, o demônio que se escondia por trás de seu lindo rosto era algo que ninguém gostava de se lembrar.
"Oi, Mira."Lucy a comprimentou, sentado em seu banco de costume."O de sempre, por favor."
"Oi, Lucy, onde esteve na última semana?"Mira separou os ingredientes para um Milk shake de morango. "Estava ficando preocupada, você, a/ Erza, e o Jellal não apareceram, e não importa o quanto pergunta-se, Gray, não falou nada."Essa última parte provavelmente estava a consumindo por dentro, apesar de extremamente gentil, Mira tinha um fascínio pela vida alheia que às vezes passava do limite."E quem é o bonitão que entrou com você?"
"Natsu, eu o encontrei muito machucado, e estive cuidando dele esse tempo todo." Os olhos da Barista brilharam, ela entregou o shake, suas mão praticamente tremendo de curiosidade."Eu não posso dar mais detalhes, tenho que falar com o mestre antes, ele está na guilda hoje?"
"Sim, bem atrás de você."
O clima no salão mudou completamente, Lucy se virou a tempo de ver um homem pequenino ser atingido por uma cadeira perdida, o velhinho caiu no chão, Lucy ouviu alguém gemendo de medo.
Natsu observava a cena sem saber o que fazer, tinha acabado de usar Gray como um porrete, e ainda o segurava por uma das pernas, o demônio de gelo estava completamente indiferente, seus braços cruzados em frente ao peito desnudo.
O velhinho levantou lentamente, e olhou a multidão silenciosa.
"Quem de você jogou essa cadeira?" Suas palavras vibravam de raiva, seu corpo começou a inflar, crescendo até que estivesse tocando o teto do salão." Me respondam, ou eu vou acabar com a raça de todos vocês."
Todos continuaram em silêncio, menos o anjo.
"Nunca imaginei que o veria novamente, Hiperion."
